
Infiel: a histria de uma mulher que desafiou o isl

Ayaan Hirsi Ali


                                        Traduo
                                   Luiz A. de Arajo
                                     2 reimpresso
                                Companhia Das Letras


                         Copyright  2006 by Ayaan Hirsi Ali
                             Ttulo original Infidel - my life
                                          Capa
                                      Raul Loureiro
                                      Foto de capa
                             Turkish School/ Getty Images
                                       Preparao
                                Valria Franco Jacintho
                      Reviso Marise S. Leal Carmen S. da Costa




Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (cip) Cmara Brasileira do Livro,
                                        SP, Brasil
                                 Hirsi Ali, Ayaan, 1969-
Infiel : a histria de uma mulher que desafiou o isl / Ayaan Hirsi Ali; traduo Luiz
              A. de Arajo. -- So Paulo : Companhia das Letras, 2007.
                   Ttulo original: Infidel. ISBN 978-85-359-1109-1
 1. Hirsi Ali, Ayaan, 1969- 2. Memrias autobiogrficas 3. Muulmanos - Holanda -
Biografia 4. Polticos -Holanda - Biografia 5. Refugiados - Holanda - Biografia I. Ttulo.
                            07-7463        CDD-949. 20092
   ndice para catlogo sistemtico: 1. Holanda : Refugiados muulmanos : Relato
                            autobiogrfico        949.20092
                                         [2007]


                      Todos os direitos desta edio reservados 




                             EDITORA SCHWARCZ LTDA.
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             3500 Fax (11) 3707-3501 www.companhiadasletras.com.br
Para Abeh, Ma, Ayeeyo (vov), Mahad e  memria querida de Haweya




       http://groups.google.com/group/digitalsource
                                                Sumrio


Agradecimentos............................... ................9


Introduo .................................................      13



PRIMEIRA PARTE: MINHA INFNCIA



1. Linhagens ..............................................       19


2. Debaixo do talai .......................................      40


3. Brincando de pega-pega no palcio de Al.                     64


4. rfos chorosos e vivas ..........................           89


5. Encontro secreto, sexo e cheiro de sukumawiki ...97


6. Dvida e desafio....................................... ........136


7. Desiluso e engano .................................. ........184


8. Refugiados ............................................... .......215


9. Abeh ........................................................ .......239



SEGUNDA PARTE: MINHA LIBERDADE



10. A fuga..................................................... ......267


11. O julgamento dos ancios....................... .....291
12.Haweya ................................................... 306


13.Leiden .....................................................   338


14.Sem Deus ............................................... 372


15.Ameaas.................................................. 403


16.Poltica ................................................... 431


17. O assassinato de Theo............................. 450




Eplogo:

A letra da lei .............................................. 477
                                 Agradecimentos



       Nasci em um pas dilacerado pela guerra e fui criada em um
continente mais conhecido pelo que d errado do que pelo que d certo.
Nos padres da Somlia e da frica, sou privilegiada por ainda estar
viva e s, privilgio que no posso nem nunca vou poder considerar
lquido e certo, pois sem a ajuda e o sacrifcio dos familiares,
professores e amigos, nada me distinguiria das minhas semelhantes
que apenas lutam para sobreviver.
       Agradeo  minha me, que me amparou e se recusou a
acreditar que eu fosse morrer mesmo tendo nascido prematuramente e
muito abaixo do peso.  minha av, que me ensinou a arte da
sobrevivncia. Ao meu pai, que fez questo de me pr na escola. 
amizade, ao riso e ao senso de aventura da minha irm caula. Ao meu
irmo todo feito de esperana.
       Quero agradecer aos meus professores de Juja Road, que, 
parte o currculo regular, dedicavam-se a nos instilar disciplina, e a
algumas professoras do Colgio de Meninas Muulmanas, como a sra.
Mumtaz, a sra. Kataka, a sra. Owour, a sra. Choudry e a sra. Karim,
que "viram alguma coisa em mim".
       Um obrigado muito especial a Jim'o Musse e ao mdico italiano
do hospital de Nairbi, cujo nome no lembro, mas cuja fisionomia
nunca hei de esquecer -- os dois me salvaram a vida. Sou grata 
minha madrasta, s minhas meias-irms, aos primos e tios que me
receberam, orientaram e me mimaram durante nove longos meses em
Mogadscio.
       Eu nunca chegaria a ser a mulher que sou sem a abertura, a
hospitalidade e a oportunidade que a Holanda me ofereceu. A bondade e
a civilidade com que me receberam foram as mais profundas. Senti-me
em casa desde o comeo. Os funcionrios da imigrao, a polcia, os
assistentes sociais dos centros de refugiados, os meus professores de
lngua, os voluntrios, os senhorios e todos os que me ajudaram
quando cheguei deixaram em mim a impresso indelvel do quanto
uma nao pode ser civilizada. Expresso aqui a mais profunda gratido
 minha "famlia holandesa" -- Johanna, Maarten, Irene e Jan --, que
me deu um verdadeiro lar no pas novo. Tambm me ensinaram a ser
uma cidad holandesa auto-suficiente e me ajudaram a superar os
meus preconceitos culturais.
         Maarten van der Linde, meu primeiro professor na Escola Hoge,
em Driebergen, sempre h de merecer o meu afeto pela dedicao em
encaminhar profissionalmente o maior nmero possvel de holandeses
"estrangeiros". Sem ele, eu no teria feito o exame de admisso, sem ele
eu no teria sido aprovada.
         Os   meus   professores   de   Leiden   me   revelaram   a   minha
capacidade de raciocnio. Eu gostava particularmente das aulas dos
professores Rudy Andeweg, Paul't Hart e Henk Dekker. Era ao mesmo
tempo um desafio e um prazer assistir aos seminrios de histria do dr.
Henk Kern. O professor Paul Cliteur fazia com que as aulas de
introduo ao direito parecessem uma diverso, e s posso agradecer a
ele e a sua esposa Carla por termos nos tornado grandes amigos mais
tarde. Isso me permitiu descobrir que Paul  bem melhor em direito do
que na culinria.
         Apesar   das   nossas   muitas   divergncias   em   questes   de
multiculturalismo, isl, integrao e religio, sempre vou recordar Paul
Kalma pela honestidade e ajuda. Ele me protegeu das ameaas dos
islamitas e da pena daqueles que tentaram me denegrir. Agradeo a
Margo Trappenburg, a Bart Tromp e especialmente a Arie van der Zwan.
         Registro a minha gratido s importantes feministas holandesas
Cisca Dresselhuys, Nahed Selim, Naema Tahir, Adelheid Roosen e Jeltje
van Nieuwenhoven, que me receberam como uma delas e me inspiraram
na batalha pelos direitos das muulmanas.
         Muita gente saiu em minha defesa quando se discutia a
liberdade de expresso. Meu agradecimento especial pelo apoio de Betsy
Udink, Nelleke Noordervliet, Max Pam, Joost Zwagerman e Peter van
Ingen.
       Agradeo a Gijs van de Westelaken, a Theodor Holman e a todos
os que contriburam para a primeira parte do filme Submission.
       Devo muitssimo a Gerrit Zalm, Neelie Kroes, Jozias van Aartsen
e Henk Kamp. Eles foram decisivos no lanamento e na continuidade da
minha carreira poltica. Acreditaram em mim, tomaram a minha defesa,
orientaram-me nos anos que passei no Parlamento holands e
continuam fazendo isso.
       Frits Bolkestein foi o meu mentor intelectual -- ele e a sua
esposa Femke Boersma abriram a casa para mim e me ofereceram
consolo e apoio nos momentos difceis.


       Um obrigado especial a:
       De Herenclub -- o Clube de Cavalheiros -- Chris, Chris, Hans,
Herman, Jaffe, Leon, Paul, Sylvain: pelas suas idias e conversas
inspiradoras. Vocs me ensinaram tanta coisa e sempre tiveram a
coragem de me criticar quando achavam que eu estava errada.
       A Leon, Jssica, Mo e Mo: vocs so ncoras de fora, e nunca
me mostrarei suficientemente grata.


        famlia Van Gogh.
       As duas Is - ris e Ingrid - e a Reter: sem a orientao e a
sensatez de vocs, no sei quantas vezes eu teria perdido a cabea nos
ltimos anos.  maravilhoso T-los por perto.


       Aos meus editores em todo mundo, particularmente a Tilly pelo
compromisso e amizade, e a Leslie e Chris, pelos insights e o apoio para
o trmino deste livro.


       A Ruth, que tanto me ajudou a escrever. Sua pacincia, sua
mente inquisitiva, sua sensibilidade, tudo foi crucial para que este livro
acontecesse. Sei que s vezes seu rosto bonito se contorcia porque eu
me atrasava no trabalho. Sei que s vezes ela sentia vontade de
arrancar seus cabelos maravilhosamente densos. Mas sempre teve uma
palavra amvel. E sempre estendeu a mo para me estimular.


       Susanna, minha agente literria, minha amiga, minha irm -- e
por vezes at minha me judia! Obrigada a voc e  sua equipe pela
calma, a conscincia e a confiana.


       A toda a equipe do Servio Holands de Proteo Real e
Diplomtica (DKDB).


       A Annejet, Anne Louise, Britta, Corin, David, Evelyn e Rose,
Kvelyn, Frederique, Frdrique, Geeske, Giovanni, Hans, Hein, Isabella,
Joachim, Marco, Mirjam, Nina, Olivia, Olivier, Roeland, Ruben,
Sebastian, Tamara... Tive a felicidade, ao longo dos anos, de contar com
muitos amigos que me apoiaram em todas as circunstncias. No posso
citar todos e seria horrvel esquecer um deles, mas vocs sabem quem
so.   Obrigada   por   sempre   me   cercarem   de   carinho,   amor   e
compreenso.
                                Introduo




       Certa manh de novembro de 2004, Theo van Gogh se levantou
para ir trabalhar em sua produtora de cinema em Amsterd. Pedalando
a velha bicicleta preta, seguiu por uma rua central. A uma porta,
esperava-o um marroquino munido de uma arma de fogo e duas facas
de aougueiro.
       Quando Theo ia pela Linnaeusstraat, Muhammad Bouyeri se
aproximou, sacou a arma e o baleou vrias vezes. Theo caiu da bicicleta
e, cambaleando, foi para o outro lado da rua, mas logo tombou. Bouyeri
o seguiu. Theo pediu: "Ser que a gente no pode conversar?", mas o
marroquino disparou outros quatro tiros. Em seguida, degolou-o com
uma das facas de aougueiro. Com a outra, cravou-lhe no peito uma
carta de quatro pginas.
       A carta se endereava a mim.
       Dois meses antes, Theo e eu tnhamos feito um curta-metragem
intitulado Submission, part. 1. Eu tinha a inteno de um dia filmar a
segunda parte. (Theo avisou que s participaria se no segundo filme
houvesse um pouco de humor!) A primeira parte falava em desafio --
nas mulheres muulmanas que passam da submisso total a Deus a
um dilogo com a divindade. Mulheres que rezam, mas, em vez de
baixar os olhos, erguem-nos para Al, com as palavras do Alcoro
tatuadas na pele. Dizem-Lhe sinceramente que, se essa submisso
seguir causando-lhes tanta misria e Ele permanecer calado, elas sero
capazes de deixar de se submeter.
       H a mulher aoitada por ter cometido adultrio; outra entregue
em matrimnio a um homem que ela detesta; outra espancada
regularmente pelo marido; e outra que o pai repudia ao saber que o
irmo dela a estuprou. Os perpetradores justificam cada abuso em
nome de Deus, citando os versculos do Alcoro agora escritos no corpo
dessas    mulheres.   Elas   representam   centenas   de   milhares   de
muulmanas em todo o mundo.
         Theo e eu sabamos do perigo de fazer o filme. Mas ele era um
homem corajoso -- um guerreiro, por improvvel que possa parecer.
Tambm era muito holands, e nenhuma nao do mundo  mais
profundamente apegada  liberdade de expresso do que a Holanda. A
idia de tirar seu nome dos crditos do filme por motivos de segurana o
enfurecia. Certa vez ele me disse: "Se eu no puder assinar meu prprio
filme na Holanda, ento a Holanda j no  a Holanda, e eu j no sou
eu".
         As pessoas me perguntam se estou com vontade de morrer, j
que insisto tanto em dizer o que digo. A resposta  no: prefiro
continuar viva. No entanto, certas coisas precisam ser ditas, e h
ocasies em que o silncio  cmplice da injustia.
         Esta  a histria da minha vida. Um registro subjetivo das
minhas lembranas pessoais, to prximas da exatido quanto me 
possvel; o meu relacionamento com o resto da minha famlia ficou de
tal modo esfrangalhado que j no posso refrescar a memria pedindo-
lhes ajuda. Trata-se da histria do que vivenciei, do que vi e de por que
penso como penso. Cheguei  concluso de que  til e talvez at
importante contar esta histria. Quero deixar claras algumas coisas,
retificar certos relatos e tambm falar em outro tipo de mundo, contar
como ele .
         Nasci na Somlia. Fui criada na Somlia e na Arbia Saudita, na
Etipia e no Qunia. Fixei-me na Europa em 1992, aos vinte e dois anos
de idade, e integrei o Parlamento holands. Fiz um filme com Theo,
agora vivo cercada de guarda-costas e viajo em carro blindado. Em abril
de 2006, um tribunal holands me mandou sair do abrigo de segurana
que eu alugava do Estado. O juiz decidiu que meus vizinhos tinham o
direito de alegar que se sentiam inseguros com a minha presena no
prdio. Eu j havia tomado a deciso de me mudar para os Estados
Unidos antes que irrompesse o debate acerca da minha cidadania
holandesa.
      Este livro  dedicado  minha famlia e tambm aos milhes e
milhes de muulmanas reduzidas  sujeio.
                         PRIMEIRA PARTE :


                          MINHA INFNCIA


       1. Linhagens


       "Quem  voc?"
       "Sou Ayaan, filha de Hirsi, filho de Magan."
       Estou com a minha av, sentada em uma esteira debaixo de um
talai. Atrs de ns, a casa; e a nossa nica proteo contra o sol que
abrasa a areia branca so os ramos do talal "Continue", diz ela,
encarando-me.
       "E Magan era filho de Isse." Que mais?
       "Isse era filho de Guleid, filho de Ali. Filho de Wafays. Filho de
Muhammad. Ali. Umar." Hesito um instante. "Osman. Mahamud."
Respiro fundo, cheia de orgulho.
       "Bah?", pergunta minha av. "De que grupo?"
       "De Bah Ya'qub, Garab-Sare." Digo o nome da esposa mais
poderosa de Osman Mahamud: a filha de Ya'qub, aquela, a do ombro
mais alto.
       Minha av acena com a cabea, relutante. Eu me sa bem, para
uma garotinha de cinco anos. Consegui enumerar os meus ancestrais
at trezentos anos antes -- a parte crucial. Osman mahamud  o nome
do subcl do meu pai e, portanto, o meu. Aquele a que perteno, aquele
que sou.
       Depois,  medida que eu for crescendo, minha me vai me
persuadir -- vai me castigar at -- a aprender a genealogia do meu pai,
recuando oitocentos anos, at o grande cl dos darod. Eu sou uma
darod, uma harti, uma macherten, uma osman mahamud. Sou da
estirpe chamada Ombro Mais Alto. Sou uma magan.
       "Aprenda bem isso", diz minha av, brandindo uma vara na
minha direo. "Os nomes lhe daro fora. So a sua linhagem. Se voc
os honrar, eles a mantero viva. Se os desonrar, voc vai ser prescrita.
No ser ningum. H de levar uma vida desgraada e h de morrer
sozinha. Repita."
       As crianas somalis precisam decorar sua genealogia:  mais
importante   do     que   quase   tudo.   Sempre   que   depara   com   um
desconhecido, um somali pergunta: "Quem  voc?" E os dois comeam
a retroceder em suas linhagens distintas at encontrarem um ancestral
em comum.
       Se voc tiver o mesmo antepassado que um somali, mesmo que
seja na oitava gerao, os dois esto ligados como primos. So membros
da grande famlia que forma o cl. Um oferece comida e hospitalidade
ao outro. Embora o filho pertena ao cl do pai,  sempre til recordar
os detalhes da estirpe da me, caso voc viaje e precise da ajuda de um
estranho.
       Por isso, embora o suor escorresse por nossas costas naquelas
longas tardes, o meu irmo mais velho, Mahad, e eu aprendamos a
recitar em unssono os nomes das duas genealogias. Posteriormente,
minha av comeou a ensinar Haweya, minha irm caula, a fazer o
mesmo, mas no conseguiu. Haweya era viva e inteligente, porm muito
mais irrequieta do que ns.
       A verdade  que esse conhecimento ancestral parecia intil para
ns, crianas modernas, criadas em casas de concreto, com telhados
slidos, por trs de paredes firmes e cercadas. Geralmente fugamos,
esquivando-nos das fortes pancadas que minha av procurava dar nas
nossas pernas com as varas arrancadas da rvore. Tratvamos era de
trepar na rvore e ficar brincando nos galhos.
       Acima de tudo, adorvamos escutar as histrias da minha av
quando mame estava cozinhando no fogareiro a carvo e ns nos
deitvamos em uma esteira debaixo da nossa rvore. Essas histrias
nunca eram narradas quando a gente queria. Chegavam de surpresa.
Vov podia estar entranando uma esteira, resmungando consigo e, de
repente, a gente percebia que o murmrio tinha se transformado em
um conto de fadas.
       "Era uma vez um rapaz nmade casado com uma bela mulher, e
eles tinham um filho", ela comeava. Os trs sabamos que devamos
nos calar instantaneamente e fingir que estvamos ocupados com
alguma coisa; a menor interrupo bastava para irrit-la, e vov ento
ralhava conosco e voltava a entrelaar as finas hastes de palha seca que
passava dia e noite costurando para fazer grandes e caprichados
tapetes.
       "As chuvas no vieram, e o nmade empreendeu a travessia do
deserto em busca de pastagens em que pudesse se fixar com a famlia.
Pouco depois de iniciar a caminhada, chegou a um trecho de relva verde
e fresca. L havia uma cabana feita de galhos fortes, coberta de esteiras
recm-tecidas e toda varrida.
       "A cabana estava vazia. Ele voltou para junto da mulher e
contou que, com apenas uma jornada, tinha encontrado o lugar
perfeito. Mas, dois dias depois, ao voltar  pastagem com a esposa e o
beb, deu com um estranho postado  entrada da cabana. No era alto,
era um homem atarracado, de dentes muito brancos e pele lisa."
       Haweya estremecia de prazer. E de medo.
       "O estranho disse: 'Voc tem mulher e filho. Fique com a casa,
seja bem-vindo', e sorriu. O jovem nmade achou aquele sujeito
admiravelmente simptico e agradeceu; convidou-o a visit-lo quando
quisesse. Mas a esposa sentiu um mal-estar com o desconhecido. E o
beb comeou a chorar assim que o viu.
       "Naquela noite, um animal entrou sorrateiramente na cabana e
arrebatou a criana do bero. O nmade tinha comido bem e dormia um
sono profundo, no ouviu nada. Que desgraa. O desconhecido foi
visitar o casal para dar os psames. Mas, quando ele falou, a mulher
reparou nos pedacinhos de carne vermelha entre seus dentes e viu que
um daqueles dentes fortes e brancos estava quebrado.
       "O estranho passou um ano na casa com o casal. Durante todo
esse ano, a relva continuou verdejando e as chuvas voltaram, de modo
que no havia razo para seguir viagem. A esposa teve outro filho na
cabana, outro lindo beb. Porm, uma vez mais, quando a criana
completou apenas uma estao de idade, um bicho apareceu de
madrugada e a levou entre os dentes. Dessa vez, o pai chegou a
persegui-lo, mas era muito lerdo para alcan-lo.
        "Na terceira vez, o nmade se engalfinhou com o animal, lutou o
quanto pde, mas acabou vencido. E o monstro lhe devorou mais um
filho! Por fim, ao perder o terceiro beb, a mulher disse ao marido que ia
deix-lo. E assim aquele nmade idiota acabou perdendo tudo!
        "Muito bem, o que vocs acabam de aprender?", gritava a minha
av. Sabamos a resposta. Que o nmade era um bom vagabundo. Ficou
na primeira pastagem que encontrou, mesmo sabendo que havia algo
errado com ela. Foi tolo: no soube interpretar os sinais, sinais que o
beb e a mulher perceberam instintivamente. Na verdade, o estranho
era "aquele que se coa com uma vara", o ser monstruoso que se
transformava em hiena e comia a criana. Tnhamos entendido. O
nmade fora ingnuo, vagaroso, fraco e covarde. Merecia mesmo perder
tudo.
        As histrias de vov eram de arrepiar. Havia as de uma bruxa
horrorosa, chamada Matadora ou Carniceira, que tinha a faculdade de
adotar a aparncia de uma pessoa querida, respeitvel e, de sbito,
saltava sobre voc, rindo na sua cara, RARARARAR, e o matava com a
comprida e afiada faca que trazia o tempo todo escondida nas dobras do
vestido. E comia voc inteirinho. Minha av tambm nos contava
histrias da sua juventude, dos bandos de guerreiros que assolavam o
deserto, roubando animais e mulheres, incendiando casarios. Falava
sobre todos os desastres esquecidos da sua vida e da dos seus pais:
sobre a peste endmica, a malria e a seca, que deixavam regies
inteiras despovoadas.
        Contava da sua vida. Dos bons tempos, quando as chuvas
chegavam e tingiam tudo de verde, quando as enxurradas enchiam
repentinamente o leito dos rios, e havia carne e leite em abundncia.
Tentava nos ensinar o que levava  decadncia: quando o capim
verdejava, os pastores se entregavam  preguia e as crianas
engordavam.    Homens      e   mulheres   se   misturavam,   cantando   e
batucando na penumbra, e isso lhes minava a precauo, impedindo-os
de se prevenir contra o perigo. Tal combinao, dizia, levava 
competio, ao conflito,  desgraa.
       s vezes, nas histrias da vov, surgiam mulheres valentes --
mes, como a minha -- que se valiam da astcia e da coragem para
salvar os filhos do perigo. Isso nos incutia segurana, de certo modo. A
minha av e tambm a minha me eram destemidas e inteligentes:
decerto nos salvariam quando chegasse a nossa vez de enfrentar os
monstros.
       Na Somlia, as crianas aprendiam cedo a se precaver contra a
traio. As coisas nem sempre eram o que pareciam; o menor deslize
podia ser fatal. A moral de todas as histrias da minha av mirava a
nossa honra. Devamos ser fortes, espertas, desconfiadas; devamos
acatar as normas do cl.
       A desconfiana era recomendvel, principalmente para as
meninas. Pois elas podiam ser roubadas. Ou podiam ceder. E aquela
que perdesse a virgindade manchava no s a prpria honra como a do
pai, dos tios, dos irmos, dos primos. No havia nada pior do que ser
agente de semelhante catstrofe.
       Por mais que gostssemos de suas histrias, geralmente no
dvamos ateno  vov. Ela nos pastoreava quase como as cabras que
costumava amarrar na nossa rvore, j que ramos mais desobedientes.
O nosso passatempo eram as histrias e as brigas; acho que s vi um
brinquedo aos oito anos, quando nos mudamos para a Arbia Saudita.
Vivamos implicando uns com os outros. Haweya e Mahad se uniam
contra mim, ou ento Haweya e eu nos unamos contra Mahad. Mas
meu irmo e eu nunca fazamos nada juntos. Ns nos detestvamos.
Minha av sempre dizia que era pelo fato de eu ter nascido s um ano
depois dele: roubei-lhe o colo da minha me. No tnhamos pai, porque
papai estava na priso. Eu nem me lembrava dele.
       A maioria dos adultos que eu conhecia tinha sido criada nos
desertos da Somlia. Pas mais oriental e um dos mais pobres da frica,
a Somlia se projetava no oceano ndico, resguardando qual mo
protetora a ponta da pennsula Arbica antes de mergulhar no litoral do
Qunia. Minha famlia era de nmades que percorriam constantemente
os desertos do norte e do nordeste em busca de pastagens para os
rebanhos. s vezes, fixavam-se durante uma ou duas estaes; quando
j no havia gua ou pastagem suficiente, ou quando as chuvas no
chegavam, pegavam a cabana, punham as esteiras nos camelos e
partiam  procura de um lugar melhor para manter os rebanhos vivos.
       Minha av sabia tecer to bem a palha seca que as suas
moringas eram capazes de levar gua por quilmetros e quilmetros.
Podia fazer sua prpria casinha abobadada de galhos dobrados e
esteiras, e depois desmont-la e carreg-la em um mal-humorado
camelo de carga.
       Seu pai, um pastor isaq, morrera quando vov tinha uns dez
anos. Sua me casara com o tio dela. (Era uma prtica comum.
Poupava o dote e evitava problemas.) Quando minha av fez treze anos,
um nmade rico chamado Artan, que j passava dos quarenta, pediu a
sua mo a esse tio. Artan era um dhulbahante, uma boa estirpe dos
darod. Respeitadssimo, hbil com os animais e bom viageiro, conhecia
to bem o ambiente que sempre sabia quando partir e aonde ir para
encontrar a chuva. Os membros dos outros cls pediam-lhe que
arbitrasse as suas disputas.
       Artan j era casado, mas s tinha uma filha com a mulher, uma
menina um pouco menor do que a minha av. Ao decidir tomar outra
esposa, escolheu primeiro o pai da noiva: que fosse um homem de bom
cl e de reputao ilibada. A moa tinha que ser trabalhadora, forte,
jovem e pura. Vov Ibaado era tudo isso. Artan pagou um lobolo por ela.
       Dias depois de Artan casar com ela e a levar embora, a minha
av   fugiu.   Tinha   percorrido   quase   todo   caminho   de   volta   ao
acampamento da me quando o marido a alcanou. Ele consentiu em
deix-la descansar um pouco com a famlia para se recuperar. Uma
semana depois, seu padrasto a levou ao acampamento de Artan e lhe
disse: "Este  o seu destino".
       Durante o resto da vida, minha av foi impecvel em tudo. Criou
oito meninas e um menino, e nunca houve quem dissesse uma palavra
capaz de lhe de trair a virtude ou o trabalho. Ela inculcou nos filhos
fora de vontade, obedincia e senso de honra. Pastoreava os animais,
ia buscar lenha, construa cercados de varas rendadas com galhos
arrancados. Tinha mos e cabea duras, e, quando o marido presidia as
reunies de cl na qualidade de rbitro, vov procurava manter as
filhas bem longe e a salvo dos homens, das cantorias e dos tambores.
S  distncia  que elas podiam ouvir os desafios poticos e observar
os homens trocarem bens e histrias. Minha av no tinha cime da co-
esposa mais velha, embora a mantivesse  distncia; quando esta
morreu, tolerou a presena da arrogante enteada Khadija, a garota
quase da sua idade.
       Artan tinha nove filhas e uma esposa jovem. Era sumamente
importante preservar a honra de todas essas mulheres. Ele as
conservava bem longe dos outros nmades, passando semanas a errar
em   busca    de   um   lugar    com   pasto   e   sem   homens.   Viajava
incessantemente pelos mais remotos desertos. Debaixo da rvore da
nossa casa de Mogadscio, vov sempre falava na bela vaziez de se
sentar diante da cabana que ela construra com as prprias mos e
ficar contemplando a vastido do espao sem fim.
       De certo modo, ela vivia na Idade do Ferro. No havia sistema de
escrita entre os nmades. Os artefatos de metal eram raros e valiosos.
Os ingleses e os italianos proclamavam-se senhores da Somlia, mas
isso no significava nada para ela. Para vov, no havia seno os cls:
os grandes cls nmades dos isaq e dos darod, os inferiores agricultores
hawiye e os sab, mais reles ainda. Aos trinta e poucos anos, quando viu
um branco pela primeira vez, ela pensou que o sol tivesse crestado a
pele do pobre homem.
       Minha me, Asha, nasceu no incio da dcada de 1940, com sua
gmea idntica, Halimo. Vov as pariu sozinha, debaixo de uma rvore.
Eram a sua terceira e quarta filhas; ela tinha uns dezoito anos e estava
pastoreando cabras e ovelhas quando sentiu as dores. Deitou-se e deu 
luz; ento cortou os cordes umbilicais com sua faca. Algumas horas
depois, arrebanhou as cabras e ovelhas e conseguiu lev-las para casa
em segurana, antes do anoitecer, carregando as gmeas recm-
nascidas. Ningum deu importncia  faanha: ela apenas tinha levado
mais duas meninas para casa.
       Para minha av, os sentimentos no passavam de uma
perverso imbecil. Mas o orgulho, sim, era importante -- orgulho pelo
trabalho, orgulho pela prpria fora -- e a autoconfiana. Se voc fosse
fraca, as pessoas falariam mal. Se suas cercas de espinhos no fossem
fortes o bastante, seus animais seriam atacados por lees, hienas e
raposas, seu marido casaria com outra, suas filhas perderiam a
virgindade e seus filhos seriam objeto de desprezo.
       Aos olhos dela, ramos crianas inteis. Criadas em uma casa
de blocos de cimento, com telhado slido, no sabamos fazer nada que
prestasse. Andvamos pelo leito da rua; a rua da nossa casa no tinha
calamento, porm, mesmo assim, era uma via aberta na terra.
Bebamos gua da torneira. Jamais conseguiramos achar o caminho de
volta se fssemos pastorear rebanhos no deserto; no sabamos nem
mesmo ordenhar uma cabra sem levar um coice.
       Vov dedicava a mim um desprezo todo especial. Eu tinha pavor
de   insetos,   por   isso,   em   sua   opinio,   eu   era   uma   criana
verdadeiramente burra. Quando suas filhas completavam cinco ou seis
anos, ela j lhes havia ensinado as coisas mais importantes que
precisavam saber para sobreviver. Eu no sabia nada.
       Minha me tambm nos contava histrias. Tinha aprendido a
cuidar dos animais da famlia e a conduzi-los pelos desertos aos lugares
mais seguros. As cabras eram presa fcil para o predador; as meninas
tambm. Se os homens atacassem minha me ou suas irms no
deserto, a culpa era exclusivamente delas: sabiam que deviam fugir
assim que avistassem um camelo desconhecido. Se fossem capturadas,
deviam dizer trs vezes: "Que Al seja minha testemunha, no quero
nenhum conflito com voc. Por favor, deixe-me em paz". Ser estuprada
era muito pior do que morrer, pois sujava a honra de todos os membros
da famlia.
       Se a invocao de Al no surtisse efeito, minha av instrua as
filhas para correrem ao redor do agressor, agacharem-se, enfiarem a
mo por baixo de seu sarongue, entre as pernas, e puxarem-lhe os
testculos com toda fora. E que no os soltassem. O homem podia
desferir pancadas e pontaps, mas elas que baixassem a cabea, para
receber os golpes nas costas, e tratassem de ficar agarradas at que o
bandido desmaiasse. Esse expediente se chamava qworegoys, e as
mulheres da famlia da minha av o ensinavam para as filhas assim
como lhes ensinavam a fazer cercas de espinheiro para proteger a
cabana contra as hienas.
       Lembro de uma tarde em que Haweya e eu, ainda pequenas,
estvamos vendo vov passar banha de carneiro em um comprido rolo
de corda, para depois embeb-la na tintura vegetal que a tornaria dura
e preta.
       "Uma mulher sozinha  como um pedao de banha de carneiro
ao sol", disse ela. "Tudo quanto  bicho vem comer essa banha. Antes
que vocs percebam, as formigas e os insetos caem em cima dela e s
deixam uma manchinha de gordura." Vov apontou para uma gota de
banha que derretia ao sol, pouco alm da sombra do talai. Estava preta
de formigas e moscas. Essa imagem passou anos povoando os meus
pesadelos.
       Quando menina, minha me tinha sido diligente, sempre
obediente. Mas, quando ela estava crescendo, o mundo comeou a
mudar. As antigas tradies dos nmades foram se alterando  medida
que a vida moderna os atraa para os vilarejos e as cidades. E assim,
mais ou menos aos quinze anos, mame saiu do deserto. Deixou os
pais, as irms mais velhas e at a irm gmea, e foi caminhando.
Depois subiu em um caminho e viajou at a cidade porturia de
Berbera, onde embarcou em um navio e atravessou o mar Vermelho
rumo  Arbia.
       Khadija a precedera. Khadija era sua meia-irm mais velha, filha
da primeira esposa de seu pai. Uma outra irm mais velha da minha
me empreendeu a mesma viagem. No sei o que as levou a fazer isso;
mame raramente manifestava suas emoes mais ntimas. Mas eram
os anos 1950, e a vida moderna ia abrindo caminho nos lugares mais
longnquos do mundo. Afinal de contas, minha me era jovem e acho
que simplesmente no queria ficar sozinha no deserto quando todos os
outros tivessem migrado para a cidade.
       Mame foi para den, onde Khadija j fixara residncia: uma
grande cidade, um centro do poder colonial britnico no Oriente
Prximo. Arranjou emprego como faxineira de uma inglesa. Descobriu a
utilidade dos talheres, das cadeiras, das banheiras e das escovas.
Adorava os rituais estritos -- lavar, passar, dobrar -- e a sofisticada
parafernlia   da     vida   sedentria.    Tornou-se     ainda     mais
escrupulosamente atenta a essas coisas do que a mulher para a qual
trabalhava.
       Embora estivesse sozinha em den, longe da vigilncia dos pais,
minha me era extremamente virtuosa. Estava decidida a no dar
motivos para que dissessem que ela, Asha Artan, se havia comportado
mal. Nunca andava de txi nem de nibus por medo de se sentar ao
lado de um estranho. Evitava os homens somalis que mascavam qat e
as moas que faziam ch para eles e gracejavam quando a ruidosa
euforia daquelas folhinhas curtas e gordas os fazia falar e rir. No, em
den, mame aprendeu a rezar de maneira adequadamente islmica.
       Vivendo no deserto, minha av nunca teve tempo para rezar.
Entre os nmades, no se esperava isso das mulheres. Eram os homens
que estendiam na areia o tapete de orao cinco vezes por dia e se
voltavam para Meca, entoando o Alcoro. Mas agora, na pennsula
Arbica, onde o profeta Maom recebeu a revelao de Al, mame
aprendeu as ablues rituais. Aprendeu a se cobrir com um pano liso e
a rezar -- de p, sentada, prostrada, voltando-se para a direita e para a
esquerda: o bal da submisso a Al.
       No deserto, as mulheres nmades no se cobriam. Elas
trabalhavam, e era difcil trabalhar debaixo de um longo vu. Para
pastorear e cozinhar, minha av trajava um vestido comprido de pano, o
goh, deixando nus os braos, o cabelo e o pescoo. Naquele tempo, era
comum as mulheres amamentarem os filhos na presena de homens; se
havia algo excitante em ver alguns centmetros de carne feminina, eles
no demonstravam.
       Minha me no tinha protetor em den -- nem pai, nem irmo.
Os homens a cortejavam e a assediavam na rua. Ela passou a usar vu,
como as mulheres rabes que, para sair de casa, se envolviam em um
comprido pano preto, deixando apenas uma fresta para os olhos. O vu
a protegia dos rapazes namoradores e do mal-estar de ser olhada
daquela maneira. O vu era o emblema da sua f. Para ser amada por
Deus, era preciso ser modesta, e Asha Artan queria ser a mulher mais
correta e mais virtuosa da cidade.
       Um dia, meu av Artan foi a den. Disse  mame que a haviam
pedido em casamento e que ele aceitara. Mame tinha uns dezoito anos;
no podia desafiar o pai. Por isso ficou calada. O silncio de uma virgem
era a resposta mais apropriada a um pedido de casamento; significava
digno consentimento.
       Assim, mame casou com esse homem, chamado Ahmed,
embora no tivesse gostado da sua aparncia. Ele era muito baixo e
escuro, e fumava, o que para ela era to horrvel quanto mascar qat.
Ahmed era um darod, como ela, e tambm dos harti, como ela; mas,
longe de ser um nmade dhulbahante, feito mame, era mercador, um
wersengeli. Por isso ela desprezava aquele homem, por rico que fosse.
       Esse wersengeli a levou para o Kuwait, onde ela passou a ser
dona de uma casa grande, com piso ladrilhado, gua quente corrente e
eletricidade. A primeira coisa que fez foi despedir todas as criadas:
ningum era capaz de manter a casa suficientemente limpa para Asha
Artan. Ela se empenhou em criar um lar exemplar. Teve um filho, ao
qual deu o nome de Muhammad, o do profeta, nome adequado a um
primognito.
       Ento seu pai, que era muito velho, morreu, e mame fez uma
coisa muitssimo surpreendente: disse ao marido que queria o divrcio.
       Obviamente,    no     tinha   direito   de   se   divorciar   pela   lei
muulmana, a menos que o marido fosse impotente ou a deixasse na
mais completa indigncia. Todos os membros do cl, no Kuwait,
disseram que ela estava sendo ridcula. Seu marido era rico e, embora
tivesse com que sustentar vrias esposas, voltava toda noite para casa.
Que mais ela podia querer? Se se divorciasse, seria mercadoria de
segunda mo -- j no era virgem. E, alm disso, alegaram, ficaria com
a reputao de no ser baarri.
       Uma baarri era uma espcie de escrava devotadssima. Honrava
a famlia do marido e a alimentava sem questionar nem se queixar.
Nunca chorava nem fazia nenhum tipo de exigncia. Era forte no
servio, mas sempre de cabea baixa. Se o marido fosse cruel, se a
estuprasse e ainda zombasse dela por isso, se resolvesse tomar outra
esposa ou se a espancasse, ela baixava os olhos e ocultava as lgrimas.
E trabalhava muito, impecavelmente. Era um burro de carga dedicado,
acolhedor, bem treinado. Isso era ser baarri.
       Toda mulher somali precisava aprender a dizer a si mesma que
Deus era justo e onisciente e ia recompens-la no alm. Entretanto,
todos que soubessem da sua pacincia e da sua tenacidade haviam de
aplaudir seu pai e sua me pela educao excelente que lhe deram.
Seus irmos ficariam agradecidos pela honra preservada. Podiam se
vangloriar para as outras famlias da sua herica submisso. E talvez
um dia a famlia do seu marido at apreciasse a sua obedincia, e quem
sabe ele passaria a trat-la como um ser humano.
       Se acaso voc, sendo baarru se sentisse triste, humilhada,
cansada ou infinitamente explorada, o melhor era dissimular. Se
aspirasse a um pouco de amor e conforto, o remdio era pedir a Al, em
silncio, que tornasse o seu marido mais suportvel. A orao era a sua
fora. As mes nmades deviam transmitir s filhas essa capacidade e
esse vigor chamados baarri.
       Durante anos mame foi perfeita. Sua virtude era lendria; seus
hbitos de trabalho, perfeitos. Em parte, era a sua natureza: ela
encontrava fora e consolo nas regras inequvocas e na certeza absoluta
de que, se fosse boa, iria para o cu. Mas acho que tambm temia que
seu pai a amaldioasse se ela o desobedecesse. A maldio de um pai
era a pior coisa que podia acontecer, uma passagem direta para o
inferno.
       Mas, quando seu pai morreu, a minha me desafiou o marido.
Apartou-se dele com toda fora do desprezo que durante tanto tempo
estava armazenando. Recusava-se at mesmo a lhe dirigir a palavra. Por
fim, ele concordou em aceitar o pedido de divrcio. O juiz kuwaitiano
concedeu-lhe a guarda do filho por mais sete anos. Quando chegasse
aos dez, Muhammad voltaria a morar com o pai; at l, ela estava
autorizada a cri-lo sozinha.
       Quando mame era menina, a Somlia no existia. Embora
todos os cls falassem a mesma lngua, ainda que diferentes dialetos,
geralmente   viviam   em   territrios   separados   e   se   consideravam
diferentes. O territrio que hoje constitui a Somlia estava repartido
entre ingleses e italianos que ocupavam o pas como colonizadores,
dividindo-o em dois. Em 1960, os colonialistas se foram, deixando um
Estado independente novo em folha. Surgiu uma nao unificada.
       Esse novo pas, a Somlia, tinha democracia, presidente,
bandeira, exrcito e at moeda prpria: notas spia com dignssimos
retratos de animais domsticos e pessoas trabalhando nas plantaes,
cenas que a minha me jamais presenciou. Gente que sempre viveu nas
profundezas das zonas rurais comeou a afluir  nova capital do pas,
que os colonizadores batizaram Mogads-cio. Todos vibravam com a
idia de construir uma nao grande e poderosa. Tais esperanas
seriam destrudas, nos anos vindouros, pelas lutas intestinas dos cls,
pela corrupo e a violncia em que o pas caiu como tantos outros na
frica. Mas mame no podia imaginar que isso fosse acontecer,
portanto, feito muitos outros, arrumou as malas, pegou o filho e o dote
que o marido lhe dera quando eles se casaram e voltou para a Somlia,
para Mogadscio, a capital, onde nunca tinha estado.
       At o fim da vida, a minha av censurou essa deciso.
Mogadscio no era terra darod. Nem mesmo isaq era. Ficava em pleno
territrio hawiye, no qual a minha me no tinha razes. Vov sempre
dizia que o ex-marido devia t-la amaldioado, levando-a a fazer aquela
escolha to temerria. Ou talvez um djim tivesse sido solto quando
mame renegou frontalmente o casamento arranjado pelo pai. Minha
av detestava as casas duras de cimento, as ruas estreitas, a falta de
horizonte de Mogadscio, e detestava saber que sua famlia j no
estava a salvo nas terras darod do norte. Porm, uma vez mais, mame
havia abandonado as tradies dos pais. E, uma vez mais, seguia os
passos da meia-irm Khadija Artan, que acabava de mudar para
Mogadscio com o marido.
       Khadija era uma mulher notvel, alta e magra como a minha
me. Tinha traos firmes, angulosos, olhos de gavio e modos
dominadores. Sua voz era sonora; e seus gestos, dignos e elegantes.
Vov a abominava. Khadija era insolente, usava vestidos ocidentais que,
embora lhe chegassem at os tornozelos, ficavam bem justos no corpo 
fora de zperes e botes. Tambm se envolvia no goh rural e no dirha
urbano. Mas os gohs e dirhas de Khadija eram de tecidos escolhidos a
dedo, sedas e chiffon carssimos em vez do mero algodo, e o modo
como os trajava fazia as outras mulheres parecerem desajeitadas e
inadequadas. Khadija levava o cabelo alto, preso em um turbante de
pano. Era moderna. Tinha paixo pela independncia, pela poltica e
pelas discusses noturnas na rua. Ostentava positivamente a sua
vaidade na nova capital.
       Embora fosse casada (e, alis, muito bem casada), Khadija era
estril: um destino terrvel. Alguns diziam que isso ocorria porque, alm
de ser uma bruxa, era muito obstinada. Minha av resmungava que
devia ser uma praga por desobedincia e extravagncia. Fosse ou no
fosse praga, Khadija no dava a mnima.
       Ela aconselhou mame a comprar um lote em frente 
transportadora do filho mais velho do seu marido, fruto de um
casamento anterior. Tratava-se de um bairro novo, e, agora que
Mogadscio era a capital, os darods estavam comeando a se mudar
para l. Aquela regio hoden era mais limpa e sadia do que o centro da
cidade, onde os graciosos e velhos prdios italianos se cercavam de ruas
imundas, densamente povoadas. No nosso bairro, as ruas no eram
caladas e poucas residncias tinham eletricidade; a nossa nunca teve.
Mas minha me comprou o terreno. Mudou-se para a casa de Khadija e
comeou a planejar a construo da sua.
       Ela concebeu o imvel por etapas,  medida que o material se
tornava disponvel. Tinha apenas dois cmodos grandes, com paredes
de bloco caiadas e piso de cimento. A rea em frente  porta da rua
tambm era de cimento; o resto, areia pura. A construo demorou
muito. Tudo foi pintado de branco, com exceo das portas e
venezianas, que eram verdes, a cor que mame achou adequada para
uma boa porta muulmana. O fogo ficava fora, sob um telheiro, junto
a um alto talai, a cuja sombra um homem podia estender a esteira em
uma tarde quente.
       Khadija era intrometidssima, sempre dirigindo o destino dos
outros e arranjando casamentos. Mame era jovem e no tinha muito
que fazer; no lhe convinha trabalhar. Khadija se ofereceu para ficar
com Muhammad para que ela pudesse sair, talvez fazer um curso de
alfabetizao. Um rapaz chamado Hirsi Magan acabava de voltar de
uma universidade, nos Estados Unidos, e estava ensinando as pessoas
comuns, em Mogadscio, a ler e escrever.
       Esse moo, Hirsi Magan, viria a ser o meu pai. Na infncia, eu o
via como um verdadeiro heri de fbula, s um pouco mais real do que
os lobisomens da minha av. Sua irm mais velha, tia Hawo Magan,
costumava nos visitar e contar histrias dele quando menino no deserto
do nordeste. Seu pai, Magan, tinha sido um clebre guerreiro, cujo
nome significava "Protetor" -- ou, mais especificamente, "Protetor dos
conquistados". Magan era um osman mahamud, do subcl darod, que
sempre se arrogava o direito de conquistar e governar os demais povos.
Magan combatia a favor de Boqor, o governante das terras macherten,
perto do mar; posteriormente, por volta de 1890, passou-se de armas e
bagagens para Kenaidiid, o rival de Boqor, que era mais jovem e mais
vido por empreender a guerra e comandar incurses. (Boqor, Magan e
Kenaidiid eram primos.)
         Kenaidiid e Magan percorreram com seus guerreiros as terras
sulistas de Senag e Mudug, ocupadas por cls menores, inclusive
muitos hawiye. Estes eram gente passiva, na maioria agricultores, e no
tinham exrcito. Magan os desprezava. Contava-se que certa vez ele
mandou os aldees hawiye fazerem um crculo de pedra e a seguir os
obrigou a entrar ali para serem mortos. Depois mandou seus guerreiros
ficarem com as mulheres e l se fixarem, em terra hawiye, ao norte de
Mogadscio. Segundo a minha av, os hawiye da regio de Mudug
nunca esqueceram o nome de Magan.
         Meu pai foi criado no deserto do norte, filho da ltima e mais
jovem esposa de Magan. Sua me tinha doze ou treze anos quando
casou com o velho guerreiro que j beirava os setenta. Papai era o filho
caula e o mais querido de Magan. Quando o pai morreu, ele foi criado
pelos irmos mais velhos, alguns to idosos que j tinham netos.
Levaram-no a cavalgar no deserto antes mesmo que tivesse aprendido a
andar.
         Os filhos de Magan eram comerciantes e guerreiros ricos e
poderosos. O meu pai era bem cuidado -- inteligente, seguro de si,
mimado. Fez amizade com um homem mais velho, Osman Yusuf
Kenaidiid, neto do Kenaidiid de quem seu pai tinha sido vassalo. Magan
sempre zombava desse homem, que era muito calado e cobria a boca
com um pano, porque as palavras no eram coisa para se desperdiar 
toa; deviam resultar de uma reflexo profunda.
         A eloqncia, o uso da bela linguagem, era muito admirada na
Somlia; o povo apreciava e memorizava a obra dos grandes poetas a
quilmetros e quilmetros das aldeias, s vezes durante geraes. No
entanto, poucos poetas chegaram a escrever uma palavra somali. Os
colonizadores deixaram pouqussimas escolas, um nmero insuficiente
para educar uma nao que agora contava milhes de habitantes.
         Osman Yusuf Kenaidiid era letrado. Inventou uma escrita para
registrar pela primeira vez os sons da lngua somali. O povo a chamava
de osmaniya. Era oblqua, floreada e engenhosa, e o meu pai procurou
aprend-la.
         Osman era um bom tutor e tinha bons contatos com os
colonialistas italianos que dominavam o sul da Somlia. Meu pai, seu
apadrinhado, comeou a freqentar uma escola de Mo-gadscio, a
capital colonial dos italianos. Ingressou na Liga da Juventude Somali e
participava de acaloradas discusses sobre o futuro, quando as
potncias coloniais que sujeitavam a grande nao somali fossem
expulsas e se formasse um pas capaz de deslumbrar a frica.
Aprendeu italiano, inclusive passou uma temporada estudando em
Roma:     era    uma   oportunidade    rara     para   um   somali,   mas   os
descendentes de Magan tinham dinheiro. Meu pai casou com Maryan
Farah, uma mulher do subcl mare-han dos darod.
         Pouco    depois,   decidiu   estudar    nos   Estados   Unidos:    na
Universidade de Columbia, em Nova York. Ficou entusiasmado com os
americanos. Costumava dizer: "Se eles conseguiram chegar aonde
chegaram em apenas duzentos anos, ns, somalis, com a nossa
resistncia e a nossa flexibilidade, podemos ser a Amrica da frica". E
fez questo de que Maryan fosse para l, e ela tambm comeou a
estudar. Arro, sua filha menor, nascida em 1965, ficou na Somlia com
a av.
         Tendo se diplomado em antropologia na Columbia, meu pai
voltou para a Somlia, como muitos outros jovens privilegiados, a fim
de ajudar a plasmar o futuro da nao. Maryan no tinha concludo o
curso; ele exigiu que ela ficasse nos Estados Unidos at se formar. Nada
mais natural, para papai, do que se instalar na nova capital do pas,
Mogadscio.
         Ele estava convencido de que, para criar uma nao intrpida, o
povo precisava saber ler e escrever. Iniciou uma campanha de
alfabetizao. Para dar o exemplo, passou a ministrar pessoalmente um
dos cursos.
        Na Somlia, o idioma tem muita importncia.  o que une os
cls rivais em algo parecido com uma nao nica. As pessoas lotavam
o curso de alfabetizao de Hirsi Magan em Mogadscio. Meu pai tinha
pele escura, nariz comprido e testa larga; o seu charme era mais ou
menos o de um cantor popular intelectualizado. Embora no fosse alto,
tinha muita presena. As pessoas adoravam a sua companhia; durante
toda a vida o escutaram com muito respeito.
        Poetisa nata, graciosa e inteligente, minha me foi uma das suas
melhores alunas. Aprendia depressa. Um dia, teve o desplan-te de
corrigir o modo como o professor pronunciava uma palavra somali,
sacudindo o xale com arrogante desdm. Foi atrevida e surpreendente.
Ela tambm era bonita, magra e alta, empertigada como uma rvore
nova.
        Meu pai se sentiu atrado pela verbosidade inteligente e as
opinies inflexveis da minha me. A atrao foi mtua, e evidentemente
Khadija se encarregou de estimul-los.
        Os dois se casaram em 1966. Minha me sabia que o meu pai
continuava casado com a primeira esposa, Maryan. Mas ela estava em
Nova York, e ele no a informou do novo casamento. Maryan ficou
sabendo quando retornou  Somlia,  claro. No sei ao certo quando
foi isso.
        Sempre houve muita eletricidade entre papai e mame. Eles se
provocavam, se desafiavam. Em uma cultura contrria a que as pessoas
escolhessem o seu parceiro, eles se escolheram: seu vnculo era forte.
        Em outubro de 1968, nasceu o meu irmo Mahad. Meus pais
terminaram a construo da casa no terreno comprado pela minha me
em Mogadscio e se mudaram para l, levando consigo o meu meio-
irmo mais velho, Muhammad, que tinha seis anos. Mame no tardou
a engravidar novamente, de mim, e a minha av chegou do deserto para
ajud-la nos ltimos meses de gravidez.
       Meu pai era ousado, culto, popular, nascido para mandar.
Candidatou-se ao Parlamento da cidadezinha nortista de Qardho, mas
no foi eleito. Gastou muito dinheiro do prprio bolso patrocinando
campanhas de alfabetizao, e investiu em uma fbrica de acar.
Tambm se envolveu no projeto de construo de uma barragem, no
norte, para que as pessoas tivessem gua o ano todo em vez de ficar
vendo o rio secar, sugado pelas rachaduras na areia.
       No dia 21 de outubro de 1969, um golpe de Estado derrubou o
governo. Vinte e trs dias depois, eu nasci, em 13 de novembro, seis
semanas antes do tempo e pesando pouco mais de um quilo e meio.
Talvez meus pais tenham ficado contentes. Papai devia me embalar de
vez em quando; no lembro. Mahad dizia recordar nosso pai naquele
tempo, mas no passavam de lembranas fugazes: papai quase nunca
estava em casa.
       Minha irm Haweya nasceu em maio de 1971. Poucos meses
depois, a primeira mulher do meu pai, Maryan Farah, deu  luz minha
meia-irm Ijaabo. Houve um desentendimento, e os dois se divorciaram.
E ento, em abril de 1972, quando eu tinha dois anos, papai foi levado.
Foi encerrado no pior lugar de Mogadscio: a antiga priso italiana
conhecida como Buraco.


       2. Debaixo do talai


       Durante a infncia, eu vivia tentando imaginar meu pai. Quando
eu perguntava, mame se limitava a dizer que no tnhamos nos
conhecido. Afwayne, que era um monstro de verdade, no os das
histrias de vov, encarcerara papai. Afwayne, o Bocudo, esse era o
apelido do presidente Siad Barr. Havia grandes retratos dele em todas
as lojas e em todos os espaos pblicos de Mogadscio; ele e aquela
boca enorme e aqueles dentes de cavalo. s vezes, a polcia especial de
Afwayne invadia uma casa e levava as pessoas. E as torturava at que
confessassem uma coisa terrvel e ento as matava. At eu sabia disso.
L em casa, todos os adultos ficavam subitamente calados quando a
gente ouvia os fuzis dos carrascos na praa Tribunka.
        Siad Barr era vice-comandante do exrcito na poca da
Independncia, em 1960, e, depois de fazer um estgio com os militares
soviticos, passara a defender o marxismo. Era um marehan, um
pequeno subcl do darod, e de origem modestssima. No se conheciam
bem as circunstncias exatas do golpe de Estado; ningum sabia se
Barre   mandara   matar   o   presidente   ou   se   simplesmente   tinha
aproveitado o assassinato para tomar o poder. Seu regime era o de um
clssico Estado satlite da Unio Sovitica, com partido nico, sindicato
nico, uma organizao das mulheres e grupos de jovens pioneiros.
Gastou-se muito dinheiro em armamento, no em desenvolvimento,
porm, mesmo assim, houve um investimento consciente em escolas,
no sei se para ensinar os alunos a adorarem o regime ou simplesmente
para educ-los.
        Toda noite, at eu completar seis anos, enquanto mame
cozinhava no fogareiro a carvo, ns crianas nos ajoelhvamos em
semicrculo e rogvamos a Al que libertasse nosso pai. Naquele tempo,
aquilo no tinha l grande sentido. Minha me nunca achava tempo
para falar em Deus; ele simplesmente existia, e ouvia muito as oraes
das criancinhas. Mas, embora a gente fizesse o possvel para rezar com
fervor, no dava certo. Quando eu perguntava por que Al ainda no
tinha libertado o meu pai, mame simplesmente me mandava continuar
rezando.
        Ela o visitava na priso, mas s meu irmo Mahad podia ir
junto. Haweya e eu ficvamos em casa com vov. ramos muito
pequenas para ir com a minha me e, alm disso, ramos meninas;
Mahad ocupava o primeiro lugar em tudo. E sempre voltava zangado
daquelas visitas, e a minha me o obrigava a prometer no nos contar
nada quando voltasse de l: ramos bem capazes de cometer a tolice de
deixar escapar uma informao, e a polcia secreta podia ouvir.
        Certa vez, ao sair do presdio com ela, Mahad atacou um
gigantesco retrato de papelo de Afwayne que estava pendurado na
entrada. Devia ter uns seis anos. "Comeou a jogar pedras e a gritar",
contou mame ao chegar em casa  noite. "Graas a Al que o
carcereiro era do nosso cl." Ela parecia fascinada com o esprito
guerreiro de Mahad. Mas o carcereiro podia t-la acusado de ensinar o
filho a se opor ao governo, de ser uma "anti". Eu sabia que, se no fosse
por Al e a proteo do nosso cl, Haweya e eu teramos passado aquela
noite sozinhas debaixo da rvore, com vov a suplicar a Al que tirasse
tambm a minha me e o meu irmo da cadeia.
       Al era um mistrio para mim. Uma das minhas lembranas
mais remotas, de quando eu tinha uns trs anos,  a de ver minha av
em uma atitude inexplicvel, agachada em um tapete no quarto, com o
nariz encostado no cho. Pensando que fosse uma brincadeira, comecei
a saltar, a fazer caretas para ela e a cutuc-la. Vov no me deu
ateno e continuou se prostrando e se erguendo, sempre a murmurar
coisas que pareciam loucamente estranhas. Eu no conseguia entender
suas palavras. Por fim, quando terminou, ela se voltou para mim com
um olhar muito amedrontador. "Sua bastarda!", gritou, batendo em
mim e me mordendo os braos. "Que Al Todo-Poderoso a leve daqui!
Que voc nunca chegue a sentir nem o cheiro do paraso!"
       Minha prima Sanyar, a filha de treze anos da gmea de mame,
livrou-me das garras de vov e me levou para fora. Ela a ajudava a
cuidar de ns quando mame saa. Era boa e explicou que eu havia
perturbado vov durante a orao, que era o mesmo que conversar com
Deus, o momento mais importante da vida de um adulto.
       Fiquei assustada: tinha certeza de que no havia ningum mais
naquele quarto, s vov e eu. Porm Sanyar disse que eu era muito
pequena para entender. Quando crescesse, sentiria a presena de Al.
       A viso do universo da minha av era complexa. Existia toda
uma cosmologia de entidades mgicas juntamente com Deus, Al.
Djins, que podiam ser masculinos ou femininos, viviam na esfera
intermediria, vizinha da nossa, e eram capazes de trazer a desgraa e a
doena. As almas dos sbios e dos ancestrais j mortos tambm podiam
interceder por ns junto a Deus.
       Numa outra tarde, quando ramos um pouco maiores, Haweya e
eu estvamos fazendo algazarra debaixo do talai quando ouvimos vov
falar. Ela tinha ido para a cama, s voltas com alguma dor, e sabamos
que no convinha incomod-la. Fomos, p ante p, at a porta do
quarto para escutar.
       "Queridos ancestrais, levai-me daqui", dizia vov com voz
sufocada.
       No houve resposta. Ento se ouviu uma pancada: bum.
       "Abokor, leva-me daqui." Bum.
       "Hassan, leva-me daqui." Bum.
       "Queridos ancestrais, levai-me daqui."
       Haweya e eu ficamos curiosssimas. Queramos ver aquela gente.
Abrimos a porta devagar. Demos com vov deitada de costas, trajando
bonitas roupas brilhantes, como se estivesse pronta para ir ao festival
led. No quarto impregnado de incenso, ela batia no peito com as mos,
acompanhando cada batida da sufocada splica. "Queridos ancestrais,
levai-me daqui." Falava com dificuldade, como se a estivessem
estrangulando.
       Intrigadas, ficamos olhando. No havia mais ningum no quarto,
nada que lembrasse remotamente um antepassado -- embora nunca
tivssemos visto um. Eu puxei Haweya para trs e fechei a porta com o
mximo cuidado, mas aquilo nos deixou estupefatas. Alguns dias
depois, comeamos a representar a cena. Deitadas lado a lado na cama,
pedimos com voz engasgada aos nossos ancestrais imaginrios que nos
levassem. Vov irrompeu no quarto, seguida de mame.
       "Que vocs duas torrem no inferno!", gritou com estridncia.
"Que o diabo as carregue!" Perseguiu-nos pelo quarto e ameaou fazer
as malas e ir embora. Mame teve que nos castigar. Precisava muito da
minha av. Quase no parava em casa -- e isso tambm era por causa
de Afwayne.
       Siad Barr introduziu o Estado policial na Somlia e tentou
organizar uma pseudo-economia. Como ele era aliado da Unio
Sovitica, o pas precisava se tornar comunista. Na prtica, para as
famlias comuns, isso significava passar horas em uma srie de longas
filas,  merc dos raios inclementes do sol de Mogadscio, para receber
quantidades limitadas de gneros de primeira necessidade: farinha,
acar, leo, sorgo, arroz e feijo. No havia carne, ovos ou frutas, no
havia legumes, nem azeite de oliva, nem manteiga. Qualquer artigo
extra precisava ser comprado s escondidas no mercado negro.
       Mame nunca contava quando ia viajar. Estava l e de repente
partia, s vezes para passar semanas inteiras ausente. Descobri que
seus movimentos obedeciam a uma espcie de padro. Minha distante
mas de algum modo confivel me ficava arrasada. "E agora, Al, o que
eu hei da fazer?" lamentava. "Sozinha com trs filhos e uma velha. Ser
que mereo tanto castigo?" Ela chorava, e vov procurava consol-la; eu
pedia colo e a acariciava, o que a fazia chorar mais ainda. Ento ela
desaparecia durante algum tempo, ia a alguma aldeia distante,
geralmente viajando com um dos primos do meu pai, um mercador que,
fazia tempo, tinha vendido todos os seus camelos para comprar um
caminho e que agora transportava alimento para a cidade.
       s vezes eu a via chegar na carroceria de um caminho, pouco
depois do anoitecer. Os homens levavam sacos de comida para dentro:
arroz, farinha, acar e potes de alumnio cheios de pedacinhos de
carne de camelo mergulhada em banha, tmaras e alho. Essas
operaes rpidas e furtivas eram praticamente as nicas ocasies em
que entrvamos em contato com homens. ramos orientadas para no
dizer nenhuma palavra sobre aquela comida, que ficava guardada
debaixo das camas -- do contrrio, mame e seu primo tambm
poderiam acabar na cadeia.
       Certa vez, os soldados da temida brigada Guulwade invadiram a
casa. Mame no estava. Eram da guarda especial de Afwayne -- piores
ainda do que a polcia. Um rapaz fardado e armado de fuzil entrou no
nosso terreno. Vov estava debaixo do talai. Levantou-se sobressaltada
e furiosa. "Seu sujeitinho sem bero!", comeou a discursar. "Essa arma
no vai lhe devolver a honra perdida!" Ela detestava o governo. "Vocs
s servem para agredir velhas e crianas cujo pai o seu patro covarde
jogou na cadeia!"
       Assustada, corri para dentro. Vi pelo menos trs outros homens
fardados junto  cerca. O soldado fez meno de entrar na casa, e vov
tentou impedi-lo. Era muito menor do que ele, mas o encarou com
ferocidade; esticando o pescoo, empunhou com firmeza a agulha
comprida e pontiaguda com que tecia esteiras e cestos.
       O soldado a mandou sair do caminho. "Covarde", ela gritou com
desprezo. Ento ele a empurrou. Vov caiu, mas logo avanou com a
agulha em riste. "Covarde! Covarde!", berrava. O rapaz vacilou um
instante. Olhou para os colegas l fora. Cheguei a pensar que iria
embora. Mas ele tornou a empurrar vov com fora, jogando-a de costas
no cho. Os quatro militares entraram na casa e viraram tudo de ponta-
cabea.
       Depois foram embora. Vov gritou s suas costas: "Filhos-da-
puta! Al h de queim-los no inferno!". Ela parecia exausta, e sua
expresso me assustou tanto que achei melhor deixar as perguntas
para outra ocasio.
       Naquela noite, mame chegou tarde da visita ao meu pai na
priso. Ia v-lo com muita freqncia. Preparava comida especial para
ele, escolhendo as partes mais macias do animal, picando a carne em
pedacinhos      minsculos,   marinando-os   e,   depois,   cozinhando-os
durante dias.
       Minha irmzinha Quman nasceu quando eu tinha trs anos,
mas a nica lembrana que me deixou foi a sua morte. Tenho na mente
a imagem de um homem alto parado  porta, carregando um beb
enrolado em panos. Todos sussurravam Innaa Lillaahi wa innaa Illaahi
raajiuun -- "De Al viemos e a Al voltaremos". Lembro-me de ter
puxado o xale de mame para lhe dizer que aquele homem estava
querendo roubar a minha irm; lembro-me dela repetindo muitas e
muitas vezes as mesmas palavras, com os demais. Ento, na minha
memria, o homem parte com Quman, que est chorando, e mame o
acompanha, lvida de dor.
       Anos depois, quando eu j estava grande o bastante para
entender o que era a morte, perguntei como era possvel que a pequena
Quman chorasse tanto se estava morta. Mame disse que quem estava
chorando era eu. Chorara durante horas sem parar.
       Houve tantos enterros na minha infncia. O marido da tia
Khadija, o tio Ied, morreu quanto eu tinha quatro anos. Nunca mais ia
nos levar no seu carro preto e nos jogar no colo, brincando. Depois a tia
Hawo Magan, a irm do meu pai, adoeceu. Ela era muito boazinha e,
quando recitvamos a nossa linhagem corretamente, dava-nos doces e
ovos cozidos. Haweya e eu fomos ao hospital com mame. Quando ela
morreu, comecei a chorar, inconsolvel. "Ela partiu. No se pode fazer
nada", disse a minha me. "Pare de chorar.  assim mesmo. Quem
nasce tem que morrer um dia. H um paraso, e gente boa como a tia
Hawo l encontra a paz."
       A irm mais velha de mame, que tambm se chamava Hawo, foi
morar conosco quando adoeceu. Tinha uma coisa dentro do peito que a
obrigava a passar o dia todo deitada em uma esteira no cho. Nunca
vou esquecer os gemidos de dor interminveis, abafados, que tia Hawo
deixava escapar, dia e noite, entre os dentes cerrados. Vov, mame e a
irm gmea de mame, a tia Halimo, se revezavam para passar ervas
malmal em seu peito. Quando tia Hawo morreu, diversas mulheres se
reuniram l em casa. Fizeram vrias fogueiras, e muitas ficaram
cozinhando e conversando. Algumas balanavam o corpo, sacudiam os
braos erguidos e gritavam em cadncia:


       Allah bdeyey                  Oh, Deus, estou eliminada
       Allah hoogayeey              Oh, Deus, estou devastada
       Allah Jabayoo dhaayeey        Oh, Deus, estou quebrada e cada
       Nafta, nafta, nafta           A alma, a alma, a alma


       Ao chegar  terceira linha, caam de joelhos em um histerismo
teatral. Depois se levantavam, agarravam a prpria garganta e gritavam
em tons estridentes: "Nafta, nafta, nafta" -- "A alma, a alma, a alma!".
       Aquilo deixou a minha me chocada, era visvel. "Que falta de
respeito com a morta!", ela sussurrou com indignao. "Essas mulheres
isaq! No tm o menor senso de honra nem de bons modos! Como
podem se desesperar assim, sem nenhum pudor!" Velava em silncio
em um canto, como era recomendvel entre os dhulbahante, o seu
subcl dos darod. Estava to absorta no luto por Hawo e na raiva
daquelas mulheres isaq, que mal notou o pavor com que Haweya e eu
assistamos  cena.
       Uns quinze dias depois, mame e vov nos pilharam batendo no
peito e gritando: "Oh, Al, estou eliminada! Oh, Al, estou devastada!".
E nos jogando na areia do quintal gritvamos: "A alma, a alma!" Tudo
isso s gargalhadas.
       Minha    av    ficou   descabidamente   ultrajada.   Achou   que
estvamos provocando o destino, talvez at despertando os djins
invisveis, sempre presentes, sempre aguardando semelhante chamado
para desencadear a devastao. Para piorar as coisas, ela se sentiu
ofendida com o desprezo darod de mame pelas isaq. Aquelas mulheres
eram do cl da minha av.
       Quando mame ficava em casa conosco, seguamos uma
verdadeira agenda. O caf-da-manh e o almoo, ambos inegociveis;
um cochilo durante a tarde; ento, enquanto ela preparava o jantar, as
oraes a Al para persuadir o nosso pssimo governo a soltar papai e
mostrar misericrdia para com os mortos. Depois ramos obrigados a
comer, obrigados a tomar banho e, por fim, obrigados a ir para a cama.
Quando vov e Sanyar cuidavam de ns, s comamos se tivssemos
vontade. No nos davam ateno, e o nosso comportamento era
abominvel.
       Eu tinha fascnio pelo rdio, uma caixa quadrada com uma ala.
Saam vozes de um crculo de buracos pretos. Eu imaginava que havia
pessoas minsculas l dentro e queria pin-las. Por isso enfiei o dedo
em todos os buraquinhos. Como no achei ningum, esfreguei o rdio
na orelha, tentando persuadi-las a sair. Pedi ajuda a Al. No aconteceu
nada, por isso tapei os buracos com areia. A seguir, levantei-me e joguei
o   aparelho   no   cho   para   que   se   abrisse.     Aquele   rdio    era
importantssimo para minha av. Na primeira vez em que vira um, ela
tambm pensou que fosse mgico. Na Somlia, o homem que lia as
notcias no programa somali da BBC ficou conhecido como Aquele que
Assusta os Velhos. Era um pedacinho da vida moderna que vov sabia
controlar. De modo que, quando eu o quebrei, ela me bateu.
       Certa manh, quando eu tinha quatro ou cinco anos, chegou um
caminho  nossa casa e, em vez de descarregar comida, mame nos
mandou embarcar. Um dos primos dela nos ergueu no ar e nos colocou
na carroceria com as ovelhas e as cabras. Ningum tinha nos contado
que amos sair; a ningum ocorria dar explicaes s crianas. Mas,
quando terminaram de carregar malas, panelas e frigideiras, o
caminho arrancou. Imagino que vov tivesse convencido a minha me
de que nos comportaramos melhor se fssemos expostos  atmosfera
benfica do campo. Ou talvez mame estivesse encrencada por causa
dos negcios no mercado negro.
       A viagem foi ruidosa e cheia de solavancos. Os adultos se
queixavam e os animais baliam de pavor. Mas tambm foi uma
experincia    extremamente    empolgante     para      ns,   crianas,   que
adoramos tudo. Depois de algumas horas, pegamos no sono.
       Acordei em um lugar estranho, uma casa com paredes feitas de
uma mistura de mato, barro e estrume espalhada em um gradeamento
de ripas. O cho de terra batida estava coberto de esteiras, e era escuro
l dentro, sem eletricidade. Fui procurar mame e dei com umas
mulheres desconhecidas. Na frente da casa, o cho era de poeira
vermelha, e no havia nada por perto, a no ser a terra erma, algumas
rvores e umas poucas choas parecidas com aquela.
       Estvamos     em    Matabaan,    mame    me      contou    quando    a
encontrei, uma aldeia a cerca de oitenta quilmetros de Mogads-cio,
no longe do rio Shabelle. L viviam os pastores do cl hawiye, e havia
gua suficiente para sustentar pelo menos algumas roas no solo
arenoso. Seu primo comerciante devia ter contatos naquele vilarejo, e
imagino que mame tenha pensado que l estaramos a salvo e bem
alimentados. Em todo caso, disse-nos que estava farta de Mogadscio,
de trancar comida e de guardar segredos. Segundo ela, l j no
precisvamos cochichar nem nos esconder do governo. E acrescentou:
"Vejam como  grande esta terra. A gente tem tudo de que precisa, e
vocs podem correr, soltos, o quanto quiserem. Al vai cuidar de ns".
       Quanto mais ficvamos em Matabaan, mais gostoso era. Haweya
e eu fazamos longas caminhadas com vov, pastoreando cabras e
ovelhas. Mas eu tinha medo de tudo que se movia -- cada inseto, cada
bicho. s vezes ela tentava me convencer com argumentos. "Um cavalo
selvagem que salta cada vez que v uma coisa se mexer acaba
tropeando e quebrando a perna", dizia. "Se voc sair correndo por
causa de um insetinho, pode cair naquela planta e morrer, porque 
venenosa. Pode cair naquele mato e morrer, porque h uma cobra
escondida. Precisa aprender do que ter medo e do que no ter."
       Estar sozinha no deserto  estar completamente sozinha. O
medo  palpvel. Em Matabaan, minha av procurava nos ensinar as
regras da sobrevivncia. No caso de certos animais, dizia, o melhor 
fugir e se esconder -- as hienas, por exemplo, e as serpentes e tambm
alguns macacos que no gostam de andar longe da famlia. No caso de
outros bichos, convm subir depressa em uma rvore, escolhendo bem
os galhos para que eles no nos persigam. Se topssemos com um leo,
o melhor seria agachar e evitar o contato visual. Raramente o leo ataca
uma pessoa: s quando a seca  muito rigorosa  que ele come carne
humana.  bom lembrar: a maioria dos animais s ataca quando sente
que a gente est com medo ou que tem inteno de ataclos.
       Mas o mundo dela no era o nosso. Suas aulas s serviam para
me pr mais medo. Lees? Hienas? Eu nunca tinha visto tais criaturas.
ramos crianas da cidade, o que, para os seus valores nmades, nos
tornava mais ineptas do que os agricultores inferiores ou os ignbeis
cls dos ferreiros.
       Como eu era totalmente intil para o trabalho manual e para o
pastoreio, minha nica funo em Matabaan consistia em ir buscar
gua no enorme lago a cerca de um quilmetro e meio da nossa cabana.
Isso eu fazia diariamente com as filhas dos vizinhos. Colhamos folhas
de hena no caminho e, depois de masclas, manchvamos as mos com
grotescos desenhos alaranjados. No meu balde, a gua do lago era
barrenta, mas, quando eu chegava em casa, mame punha nela uma
pastilha especial que efervescia. Depois disso, a gente chegava a
enxergar o fundo do balde atravs da gua.
       As mulheres lavavam a roupa no lago, e os meninos nadavam l.
Mame tinha muito medo de que os garotos hawiye afogassem Mahad,
que no sabia nadar. Livre para ir aonde quisesse por ser menino, o
nosso irmo no parava em casa. Haweya e eu ramos proibidas de
andar  solta. Alm do mais, Mahad no nos levaria com ele; no queria
que os amigos soubessem que ele brincava com as irms.
       Mahad estava cada vez mais consciente de sua honra de macho.
Vov o estimulava: tinha o hbito de dizer que ele era o homem da casa.
Mahad nunca pedia autorizao para sair; s vezes voltava muito
depois do anoitecer, e mame se zangava tanto que fechava a cerca. Ele
se sentava l perto, chorando, e ela gritava com frieza: "Pense na sua
honra. Homem no chora".
       Meu irmo rapidamente estava se tornando a maldio da
minha vida. Uma vez, na poca do festival de Ied, em comemorao ao
fim do ms de jejum do ramad, haviam matado animais para uma
grande festa, e ns estvamos de roupa nova. A minha era um vestido
brilhante com um enorme arco azul, todo rendado na barra na altura
dos joelhos, alm de meias com babado e de um par de sapatos pretos
de verniz. Comecei a desfilar, orgulhosa, procurando no me sujar na
poeira. Fui a segunda a tomar banho e me vestir; ento era a vez de
Haweya ser esfregada, e Mahad me chamou l fora.
       "Ayaan, venha ver", gritou.
       Fui correndo. "O qu?"
       Ele estava  entrada do banheiro. "Olhe", disse, estendendo a
mo para me ajudar a subir nos degraus.
       Em Matabaan, o banheiro era feito de galhos entranados. No
centro do cho de terra batida, havia um buraco largo com dois degraus
de pedra a cada lado. A pessoa tinha de pr as pernas nesses degraus e
fazer xixi ou esvaziar os intestinos diante de uma platia de moscas
enormes e hostis. Haweya e eu tnhamos muito medo daquele buraco
para conseguir semelhante proeza, alm do mais nossas pernas eram
muito curtas para ficar naquela posio. De modo que, sob a superviso
de mame ou de vov, a gente se aliviava nas moitas das redondezas.
       Aquela vez, porm, subi e olhei para o buraco fundo e escuro da
latrina. O fedor era horrvel, e os mosces zumbiam em toda parte.
Sbito, Mahad correu atrs de mim e me empurrou para dentro. Nunca
gritei tanto como naquele dia. A cloaca era verdadeiramente nojenta,
alm de funda, quase da altura dos meus ombros. Quando mame me
tirou de l, eu estava em um estado indescritvel, assim como a minha
roupa nova. Ela se ps a amaldioar o meu irmo aos berros.
       "Que Al Todo Poderoso o tire de mim! Que voc apodrea em
um buraco. Que morra no fogo! O que posso esperar de voc? Seu
comunista! Seu judeu! Voc  uma vbora, no  meu filho!" Mame
perdeu mesmo a cabea. Em um mpeto de raiva, agarrou Mahad e o
jogou na latrina imunda.
       Ento foi vov que teve de resgat-lo, e boa parte daquela manh
festiva foi dedicada a restaurar a limpeza dos dois. Precisei renunciar ao
vestido e aos sapatos novos. Estava com as mos arranhadas e o p
machucado. Decretou-se que eu no deveria me afastar de mame para
evitar a vingana de Mahad. Assim, no final da manh, enquanto
mame e vov limpavam a carne dos animais abatidos, fiquei sentada
na terra vermelha perto delas.
       "Mahad no tem o menor senso de honra", disse mame com
profundo desgosto.
       " muito pequeno ainda", contraps vov. "Como pode saber o
que  honra se os nicos homens que ele v so esses agricultores
hawiye imbecis?"
       "Um dia desses, ele acaba matando Ayaan."
       "A culpa  dela, Ayaan  doqon, mais burra do que uma
tamareira."
       "Eu no sou burra", protestei.
       "Respeite a sua av", advertiu a minha me.
       "Mame, ele me chamou para ver uma coisa, s isso",
choraminguei.
       Vov arreganhou um sorriso. " mesmo? E voc foi?"
       "Fui, Ayeeyo", respondi, com o educado e respeitoso tratamento
reservado s avs.
       Ela riu com malcia. "Est vendo?  uma burra mesmo, e s Al
pode ajud-la. Qualquer criana que tenha vivido cinco estaes no cai
nessa, Asha. Pode amaldioar o menino quanto quiser, mas Ayaan 
uma idiota e s vai criar problemas para voc."
       Mahad tinha sido mau, porm eu fora imperdoavelmente
ingnua, o que significava que era fatalmente palerma. No tinha sido
capaz de desconfiar. Merecia o desprezo da minha av. Fui proibida de
responder a vov, e mame no disse nada para me defender. S me
restou chorar. E sofrer.
       Voltamos a Mogadscio to inexplicvel e repentinamente quanto
de l samos. Os adultos nunca explicavam nada. Viam as crianas
como bichinhos, criaturas que tinham que ser tangidas e espancadas
at que a maturidade as tornasse dignas de alguma informao ou
discusso. O silncio da minha me era, de certo modo, compreensvel.
Quanto    menos      soubssemos,   menos   possibilidade   teramos   de
denunci-la aos Guulwade.
       Em Mogadscio, nossos dias voltaram a ser longos e vazios,
animados unicamente pelas visitas ocasionais dos parentes de mame.
Chegavam tias e primas e as tias das primas -- mulheres do deserto
que iam a Mogadscio para casar, ou homens  procura de trabalho.
Mas eram completamente ineptos no meio urbano. No entendiam o
trfego e nem mesmo o banheiro; mame precisava lhes ensinar a no
esvaziar os intestinos no cho. Eram toscos, usavam roupas esquisitas
e enfeitavam o cabelo com qualquer coisa que brilhasse. Mame lhes
ensinava constantemente: a se sentarem numa cadeira, a limparem a
mesa com uma esponja, a no comerem feito selvagens e a cobrirem os
ombros em vez andar com o goh rural, um pano largo que as mulheres
       do deserto enrolavam no corpo e jogavam por cima de um
ombro, deixando nus o pescoo e boa parte dos ombros.
       Como toda gente da cidade, mame se sentia superior quelas
caipiras do miy. Sabia que tinham que reconhecer que o seu modo era
melhor que o delas porque ela prpria tomara a iniciativa de ir para a
cidade. Mas, como toda gente do campo, suas parentas miy
detestavam ser tratadas com tanta superioridade. Quando mame era
excessivamente rude, ficavam ofendidas e iam embora.
       Mahad entrou na escola primria, e iniciei a minha guerrinha
com vov. s vezes subia no talai, quando ela estava sentada  sua
sombra, e me punha a cuspir. No em vov, pois sabia que no podia
fazer isso, mas perto dela, na areia. Minha av se queixava  mame;
ento se armava uma grande discusso: se eu havia cuspido em vov
ou perto dela. O resultado era proibio geral de cuspir. Essas
briguinhas eram o nosso passatempo.
       Desdenhadas    pelas   adultas,   Haweya   e   eu   inventvamos
brincadeiras justamente para aborrec-las. Quando nos mandavam
para fora da casa, brincvamos de Guulwade. Uma das duas se fazia
agressiva e tirnica, fingindo empunhar uma arma, dando empurres
no ar e exigindo ver o que havia debaixo das camas. A outra fazia tudo
que Afwayne proibia: esconder comida ou mandar nossos filhos
imaginrios rogarem a Al que as pessoas fossem soltas.
       Tambm pedamos, aos brados, a destruio de Afwayne e do
seu regime. s vezes eu subia no talai e gritava para Haweya l
embaixo: "R r, sou darod, harti, macherten, osman mahamud e filha
de Hirsi Magan!". Afwayne tinha prescrito o sistema de cls, e as
pessoas j no podiam perguntar umas s outras de onde eram. Agora
devamos ser apenas somalis, uma gloriosa nao sem cls, unida na
adorao a Siad Barr. Falar no seu cl tornava a pessoa uma "anti" --
inimiga do regime --, coisa que podia acabar em priso e tortura. As
nossas ruidosas transgresses da ortodoxia deixavam as parentes
nervosssimas, principalmente a tia Khadija, a nica na famlia que
realmente apoiava Afwayne. Depois desses episdios, ela e as outras se
apressavam a nos mandar brincar dentro de casa.
       Nosso quarto era amplo e quase completamente vazio; era alto
tambm, e l havia eco. Inventamos a brincadeira de competir com o
eco, emitindo sons estranhos e altos com ele. Isso resultava em uma
balbrdia to fenomenal que vov tornava a nos expulsar.
       Tia   Khadija   buscou    uma     soluo   para   nossa   energia
aparentemente ilimitada. Ela aprovava plenamente todas as coisas
modernas, inclusive o novssimo colgio local. "Ayaan precisa ir ao
colgio de manh e  escola alcornica depois do almoo", decretou.
Mame no queria as filhas fora de casa, onde estvamos protegidas
contra o perigo e o pecado. No colgio, ficaramos  merc das duas
coisas. Mas Mahad j estava na escola, e provavelmente o meu pai,
quando consultado, aconselhou-a a deixar. Enfim, ainda que muito a
contragosto, ela concordou.
       Assim, aos cinco anos de idade, ganhei um uniforme novo em
folha. Estava prestes a ser adulta e a sair sozinha pelo mundo. Mame
me avisou que, no colgio, iam me mandar cantar hinos de lealdade a
Siad Barr, mas que eu no devia obedecer. "Mova os lbios e diga
apenas o primeiro versculo do Alcoro", instruiu-me. "Voc no pode
cantar em louvor a Afwayne. Limite-se a aprender a ler e escrever, e no
fale com as outras crianas -- elas podem nos delatar. Fique sempre
sozinha." Isso ela repetia toda manh.


       No primeiro dia, a professora bateu na minha cabea porque eu
no abria a boca para cantar. Doeu, por isso repeti suas palavras. E me
senti muito mal: estava traindo o meu pai e a minha me. Toda manh,
com os outros alunos, eu tentava apenas mover os lbios, e a mesma
professora me tirava da fila e me batia. Chegou a dizer  turma,  guisa
de apresentao, que eu era filha de um "anti" e que, por isso, tambm
era "anti", pois no colgio a gente aprendia a entoar elogios a Siad Barr
e ao comunismo, e eu me recusava a participar. Depois disso, ningum
quis travar amizade comigo.
       A escola alcornica era um casebre na nossa rua. Os outros
alunos moravam no bairro. No incio, gostei. Aprendi a fazer tinta com
uma mistura de carvo, gua e um pouco de leite, e a escrever o
alfabeto arbico em compridas pranchas de madeira. Comecei a decorar
o Alcoro, linha por linha. Era empolgante empreender uma tarefa to
adulta. Mas as crianas do madraal eram intratveis. Brigavam.
Chamavam uma garota de cerca de oito anos de kntirleey, "a que tem
clitris". Eu no fazia idia do que era clitris, mas os alunos no
chegavam perto daquela menina. Cuspiam nela e a beliscavam;
esfregavam areia em seus olhos e, certa vez, agarraram-na e tentaram
enterr-la atrs da escola. O professor do madraal no colaborava.
Pelo contrrio, ele a chamava de dammin, tola, e tambm de kntirleey.
       A minha prima adolescente Sanyar ia me buscar depois da aula.
Um dia, chegou bem no momento em que uma menina me deu uma
bofetada. Sanyar me levou para casa e contou a histria: "Ayaan no se
defendeu", disse, horrorizada. "Covarde!", meus familiares xingaram.
       No dia seguinte, Sanyar ficou esperando, fora do madraal, na
companhia de outra adolescente, a irm mais velha da garota que tinha
me batido na vspera. As duas nos agarraram, levaram-nos a um
terreno baldio e nos mandaram lutar. "Arranhe os olhos dela. Morda-a",
gritava Sanyar. "Vamos, sua covarde, pense na sua honra."
       A outra menina recebeu o mesmo estmulo. De punhos cerrados,
ns nos engalfinhamos, batendo, agarrando, puxando o cabelo,
mordendo. "No se atreva a chorar, Ayaan!" ordenou Sanyar. Os outros
alunos nos rodearam, torcendo. Quando enfim nos deixaram parar,
estvamos com a roupa rasgada, e o meu lbio sangrava, mas Sanyar
ficou satisfeitssima. "Nunca mais deixe outra criana bater em voc ou
faz-la chorar", disse. "Lute. Se voc no lutar pela sua honra, vai ser
escrava."
       Mas, quando estvamos indo embora, a outra menina gritou s
minhas costas: "Kintirleey!".
          Sanyar estremeceu. Olhei para ela com pavor. Acaso eu era
como a outra garota? Tambm tinha aquela coisa imunda, um kintiri
          Na Somlia, como em muitos outros pases africanos e do
Oriente Prximo, as meninas so purificadas mediante a ablao da
genitlia. No h outro modo de descrever esse procedimento, que
costuma ocorrer por volta dos cinco anos de idade. Uma vez escavados,
raspados ou, nos lugares mais benevolentes, simplesmente cortados ou
extrados o clitris e os pequenos lbios da garota, geralmente toda
regio  costurada de modo a formar uma grossa faixa de tecido, um
cinto de castidade feito da prpria carne da criana. Um pequeno
orifcio no lugar adequado permite um fino fluxo de urina. S com
muita fora  possvel alargar o tecido cicatrizado para o coito.
          A mutilao dos rgos genitais da mulher  anterior ao isl.
Nem todos os muulmanos adotam essa prtica, e alguns povos que a
adotam      no   professam   o   islamismo.   Mas,   na   Somlia,   onde
virtualmente todas as meninas so submetidas  clitorectomia, o
procedimento sempre se justifica em nome do isl. As garotas
incircuncisas esto fadadas a ser possudas pelo diabo, a se entregar ao
vcio e  perdio, a se prostituir. Os imames no desestimulam essa
prtica: conserva a pureza das mulheres.
          Muitas morrem durante ou depois da operao, de infeco.
Outras complicaes causam dores horrveis que as acompanham
praticamente o resto da vida. Meu pai era um homem moderno e
considerava aquela prtica brbara. Sempre fez questo de deixar as
filhas intactas. Nesse aspecto, ele era extraordinariamente avanado.
Embora eu no creia que fosse pelo mesmo motivo, Mahad, de seis
anos, ainda no tinha sido circuncidado.
          No muito tempo depois dessa minha primeira briga no
madraal, vov decidiu que tinha chegado a hora de nos submetermos 
necessria e adequada dignidade da purificao. Meu pai estava preso e
minha me passava longos perodos ausente, mas vov se encarregou
de garantir que as velhas tradies fossem observadas  maneira
antiga.
       Depois de tomar todas as providncias, ela se mostrou alegre e
simptica durante uma semana inteira. Preparou-se uma mesa especial
em seu quarto, e vrias tias, conhecidas e desconhecidas, se reuniram
l em casa. Quando chegou o dia, no fiquei com medo, apenas curiosa.
No tinha idia do que ia acontecer, sabia apenas da atmosfera festiva
na casa e que ns -- os trs -- amos ser expurgados. Nunca mais me
chamariam de kintirleey.
       Mahad foi o primeiro. Levaram-me para fora do quarto, mas,
pouco depois, voltei furtivamente para espiar pela porta. O meu irmo
estava no cho, a cabea e os braos no colo de vov. Duas mulheres
lhe seguravam as pernas abertas, e um homem desconhecido curvou-se
entre elas.
       O quarto estava quente, e senti cheiro de suor e de incenso.
Minha av cochichou ao ouvido de Mahad: "No chore, no manche a
honra da sua me. Essas mulheres vo contar tudo que virem. Cerre os
dentes". Mahad no deixou escapar um gemido sequer, mas as lgrimas
lhe banharam o rosto e ele mordia o xale da vov. Estava com o rosto
teso e contorcido de dor.
       No consegui ver o que o desconhecido fez, mas vi sangue. Isso
que me assustou.
       Fui a seguinte. Fazendo um gesto amplo, vov disse: "Quando
esse kintir comprido for retirado, voc e a sua irm ficaro puras". Pelas
palavras e gestos dela, conclu que aquele abominvel kintir, o meu
clitris, acabaria crescendo tanto que um dia comearia a balanar
entre as minhas pernas. Ela agarrou o meu tronco do mesmo modo que
tinha prendido Mahad. Duas outras mulheres abriram as minhas
pernas. O homem, que provavelmente era um "circuncidador" itinerante
tradicional do cl dos ferreiros, pegou a tesoura. Com a outra mo,
segurou o lugar entre as minhas pernas e comeou a pux-lo e
esprem-lo, como quando vov ordenhava uma cabra. "A", disse uma
das mulheres, "a est o kintir". Ento o homem aproximou a tesoura e
comeou a cortar os meus pequenos lbios e o meu clitris. Ouvi o
barulho, feito o de um aougueiro ao tirar a gordura de um pedao de
carne. Uma dor aguda se espalhou no meu sexo, uma dor indescritvel,
e soltei um berro. Ento veio a sutura, a agulha comprida, rombuda, a
transpassar canhestramente os meus grandes lbios ensangentados,
os meus gritos desesperados de protesto, as palavras de conforto e
encorajamento de vov: " s uma vez na vida, Ayaan. Seja corajosa,
est quase acabando". Ao terminar a costura, o homem cortou a linha
com os dentes.  s disso que me lembro. Mas me lembro dos gritos
horripilantes de Haweya. Embora fosse a caula -- tinha quatro anos;
eu, cinco; Mahad, seis --, ela deve ter oferecido muito mais resistncia
do que o meu irmo e eu, ou talvez as mulheres estivessem cansadas de
nos segurar e a tenham deixado escapar, pois o homem tambm fez
cortes profundos em suas coxas. E as cicatrizes acompanharam
Haweya at o fim da vida. Devo ter adormecido, pois s muito mais
tarde foi que me dei conta de que estava com as pernas amarradas. Era
para me impedir de andar para facilitar a cicatrizao. J tinha
escurecido e a minha bexiga estava a ponto de estourar, mas doa muito
urinar. A dor aguda continuava, e as minhas pernas estavam cobertas
de sangue. Eu suava e tremia. S no dia seguinte minha av conseguiu
me convencer a fazer xixi, pelo menos um pouco. quela altura, tudo
doa. Quando eu ficava imvel, os cortes latejavam horrivelmente, mas,
quando ia urinar, sentia as pontadas to agudas como se estivessem
me cortando outra vez.
       Levei uns quinze dias para me recuperar. Vov cuidava muito de
ns, subitamente gentil e atenciosa. Reagia a cada grito de dor, a cada
gemido, mesmo durante a noite. Aps cada sofrida urinao, lavava
delicadamente nossas feridas com gua morna e nelas passava um
lquido vermelho. Depois tornava a nos atar as pernas e nos mandava
ficar totalmente imveis, do contrrio as feridas podiam se abrir, e
ento seria preciso chamar o homem outra vez para nos costurar.
       Uma semana depois, o homem foi nos examinar. Achou que
Mahad e eu estvamos bem, mas que Haweya precisava de nova sutura.
Tinha aberto as feridas quando estava urinando e lutando com a minha
av. Ouvimos quando aconteceu, foi uma agonia para ela. O
procedimento inteiro foi uma tortura para todos ns, mas, sem dvida
alguma, quem mais sofreu foi Haweya.
       Mahad j estava de p e andando, totalmente curado, quando o
homem retornou para tirar os pontos. Uma vez mais, foi muito doloroso.
Ele usou uma pina para puxar a linha, coisa que fez sem a menor
delicadeza. Tal como na outra ocasio, vov e duas mulheres me
seguraram. Mas, depois disso, muito embora eu estivesse com uma
cicatriz inchada e cheia de calombos entre as pernas, que doa muito ao
menor movimento, pelo menos j no precisava ficar amarrada nem
passar o dia imobilizada.
       Haweya tardou mais uma semana a chegar ao estgio da
remoo dos pontos, e foram quatro as mulheres que a seguraram. Eu
estava no quarto quando aconteceu. Nunca vou esquecer sua expresso
e seus gritos de pavor quando a tocaram, ela lutou furiosamente para
manter as pernas fechadas.
       Haweya nunca mais voltou a ser a mesma. Passou vrias
semanas doente, com febre, e emagreceu muito. Tinha pesadelos
horrveis e, durante o dia, esperneava para que a deixassem em paz.
Minha irmazinha outrora alegre e brincalhona mudou da gua para o
vinho. s vezes, passava horas olhando para o nada. Os trs
comeamos a fazer xixi na cama depois da circunciso. No caso de
Mahad, isso durou muito tempo.
       Dessa vez, ao voltar de viagem, mame ficou furiosa. "Quem
mandou circuncid-los?" gritava, mais brava com a me do que nunca.
"Voc sabe que o pai deles no quer! Al sabe, nunca na vida eu fui to
trada quanto por voc. Que diabo a possuiu?"
       Vov tambm se encolerizou. Virou-se para ela e gritou que
tinha lhe feito um grande favor. "Imagine as suas filhas daqui a dez
anos -- quem iria casar com elas com os kintirs compridos balanando
entre as pernas? Pensa que elas vo ficar crianas eternamente? Voc 
uma ingrata e no tem um pingo de respeito e, se no me quer na sua
casa,  s dizer que vou embora." Dessa vez estava falando a srio.
       Minha me no queria que vov se fosse, por isso mandou
chamar a sua irm gmea Halimo, a me de Sanyar. A tia Halimo e
mame eram exatamente iguais. Altas, magras e de pele escura, no
tinham o cabelo encarapinhado como o meu, e sim graciosamente
ondulado e preso  nuca em um coque. Todas as mulheres artan
tinham membros longos e esguios e uma postura perfeita, mas, apesar
dos traos idnticos, tia Halimo era muito mais doce do que mame. As
duas passaram horas conversando, esperando que vov se acalmasse.
Depois todos, inclusive Mahad, fomos lhe pedir que ficasse. Nunca mais
se discutiu o episdio da circunciso. Tratava-se de uma coisa que
simplesmente havia acontecido -- que tinha que acontecer. Todo
mundo passava pela faca.
       Seguiu-se um perodo de intensos cochichos na famlia. Alguma
coisa ocorrera com papai. E parecia ser coisa boa. Vrios meses depois,
mame viajou outra vez e, ao retornar, trouxe presentes, no apenas
farinha e legumes. Cessou de uma hora para outra o ritual de rezar 
noite, debaixo do talai, pela libertao do meu pai. E mame parecia
menos desesperada, menos infeliz e cansada. Na poca eu no sabia,
mas papai tinha fugido da cadeia.
       Ao que tudo indica, o prprio diretor do presdio o ajudara na
evaso. Abdi Aynab era osman mahamud, como o meu pai, e teve uma
atitude verdadeiramente nobre. Apesar do perigo de traio, conseguiu
tir-lo da priso e inclusive o acompanhou at a metade do caminho da
fronteira da Etipia, protegidos por outros membros do cl.
       Quando Abdi Aynab voltou ao trabalho e  sua famlia em
Mogadscio, foi trado por um subordinado. Acabou diante de um
peloto de fuzilamento na praa Tribunka. A essa altura, papai j
estava fora do pas, ajudado pelo cl, de aldeia em aldeia, at passar
para a Etipia, muito embora a fronteira estivesse infestada de
soldados. Isso foi em 1975, creio eu; a Etipia e a Somlia estavam em
p de guerra.
       Ele conseguiu chegar a Adis-Abeba, a capital do pas. Com
outros, formou um movimento poltico de exilados somalis contrrios ao
governo de Siad Barr: a Frente de Salvao Democrtica Somali, FSDS.
       A Guerra de Ogaden se preparava. A Somlia e a Etipia,
inimigos histricos -- nmades contra montanheses, muulmanos
contra cristos --, deixaram-se seduzir por mais um abominvel surto
de violncia. O grupo de exilados do meu pai passou a receber ajuda do
governo etope. O presidente Mengistu, um ditador to cruel quanto o
nosso, no hesitou em financiar os inimigos de Siad Barr. Compraram-
se armas e se estabeleceu uma base de combatentes em Dirirdawa,
perto da fronteira.
       Toda essa histria me foi contada pouco a pouco, aos pedaos, 
medida que eu crescia. No era um lugar em que as crianas pudessem
saber dessas coisas. Na poca, eu s sabia que diariamente, s cinco
horas, mame ligava o rdio s escondidas, bem baixinho. Todos os
adultos se instalavam na cama da minha av para escutar o programa
somali da BBC e as notcias dos avanos da FSDS. Muitas tias
participavam daquelas sesses, gente do miy -- todas menos Khadija,
que continuava apoiando o regime de Siad Barr. Enxotadas, as
crianas iam para fora com Sanyar, que tomava conta de ns e ficava 
espreita das brigadas Guulwade.
       S meses depois Mahad e eu comeamos a ter uma idia mais
concreta do que havia acontecido com papai. Mame estava decidida a
preservar a nossa segurana nos mantendo na ignorncia. Alis, no
sei se ela prpria sabia onde papai estava. Quando os soldados de Siad
Barr chegaram em busca de informaes, minha me foi muito
convincente ao gritar, indignada, que a ltima vez em que vira o marido
tinha sido na priso: eles  que lhe deviam tal informao, no ela. Mas,
depois disso, passou a fazer viagens muito mais longas, e sabamos
perfeitamente que no devamos perguntar nada nem falar sobre essas
viagens. Mame ia se encontrar clandestinamente com papai na Arbia
Saudita.
       3. Brincando de pega-pega no palcio de Al


       Nessa poca, a Somlia e a Etipia mergulharam em um conflito
desastroso. A guerra que se seguiria estava fadada a custar a vida de
milhares de cidados de ambos os pases, destruindo as frgeis razes
de dois sistemas econmicos que mal comeavam a funcionar. No se
permitiam viagens entre Mogadscio e Adis-Abeba. Era bvio que, para
se rever, meus pais precisavam se encontrar em outra parte.
       Eram poucas as cidades atendidas pelos vos da Somali
Airways. Entre elas figurava Jeddah, na Arbia Saudita. Trocando
mensagens atravs da rede do cl, os dois combinaram de se encontrar
l. O cl tambm providenciou passaporte falso para minha me. Ela se
declarou uma reles mulher dhulbahante em peregrinao a Meca. Eu
gosto de imagin-los: papai e mame, jovens e felizes, encontrando-se
em Jeddah, sonhando voltar a viver como uma famlia.
       Minha me no queria se mudar para a Etipia porque os
etopes eram cristos: infiis. A Arbia Saudita, sim, era a terra de
Deus, a ptria do profeta Maom. Um pas muulmano de verdade, em
plena harmonia com Al, o melhor lugar para criar os filhos. Ela
aprendera rabe em den; mais importante ainda, estava convencida de
que o islamismo era mais puro, mais profundo e mais prximo de Deus
nos pases da pennsula Arbica. A lei saudita provinha diretamente do
Alcoro: a lei de Al. Inevitavelmente, a vida da nossa famlia, reunida
na Arbia Saudita, seria previsvel, segura e boa.
       No sei como, mame convenceu papai desse plano. Ele
arranjou emprego em um dos ministrios da Arbia Saudita. Lembro
que seu trabalho consistia em decifrar o cdigo Morse para uma
repartio pblica. Instalou-se na casa de um membro do cl, em Riad,
enquanto esperava a concluso dos preparativos da nossa viagem.
       Minha me foi herica. Conseguiu outro passaporte falso, no
qual constavam os nomes e as datas de nascimento dos trs filhos, para
que pudssemos sair da Somlia com ela. Fez as malas em segredo.
Providenciou para que nos levassem furtivamente ao aeroporto. Em
certa manh de abril de 1978 -- eu tinha oito anos --, vov nos acordou
bem cedo, quando o claro acinzentado apenas comeava a penetrar o
quarto. Vestiu-nos com roupas boas, e no com o uniforme do colgio.
O enteado mais velho de Khadija, que tinha garagem em frente  nossa
casa, chegou com seu automvel preto e nos fez embarcar s pressas;
vov ficou. Quilmetros depois, quando samos do carro, mame nos
mostrou um gigantesco tubo de metal, com asas achatadas nas laterais,
que estava parado ali perto. "Isso  um avio", explicou. "Vamos viajar
nele."
         Nunca tnhamos visto um avio de perto, s as longnquas
esquadrilhas que comemoravam o governo de Afwayne soltando fumaa
na cidade uma vez por ano, no Dia Nacional. Ns nos pusemos a gritar
e a correr, agitando os braos; a idia de viajar de avio era to
empolgante que j nos imaginvamos voando como pssaros. Com
passaporte falso e prestes a enfrentar o severo interrogatrio da polcia
do aeroporto, mame no queria saber de problemas adicionais.
Espalmando a mo dura em nossa cabea, obrigou-nos a calar a boca.
         Nosso bom comportamento no durou muito. Nunca amos a
lugar nenhum -- nunca nos levavam a um passeio --, e aquilo, depois
de tanto tempo, era uma aventura sumamente emocionante. J no
avio, demos um jeito de escapar do cinto de segurana para disputar
um lugar  janela, mordendo, arranhando e pisoteando desconhecidos.
Quando o avio decolou, mame olhou para ns. "Que Al faa este
avio cair!", exclamou. "Levai-os embora de uma vez. No quero esta
vida. Tomara que morra todo mundo!" Foi pior do que apanhar, a pior
coisa que ouvi na vida.
         Com o ouvido latejando devido  altitude, gritamos a viagem
inteira. Todos os passageiros nos acharam detestveis. Ento, pouco
antes da aterrissagem, assim como as outras mulheres no avio,
mame se cobriu com um enorme pano preto, deixando somente o rosto
visvel. Isso nos silenciou. Ns a acompanhamos ao terminal do
aeroporto de Jeddah, onde, em meio a um nmero absolutamente
assombroso de pessoas com todo tipo de roupa e de cor de pele, ela
descobriu    que   papai   no   tinha   ido   nos   buscar.   Estvamos
completamente sozinhos, abandonados no aeroporto de Jeddah.
         No tenho plena certeza do que aconteceu, mas esta  a minha
impresso. Meu pai estava esperando a nossa chegada, mas no sabia a
data precisa. E eis que recebeu um telefonema inesperado de Adis-
Abeba.
         No dia em que samos da Somlia, houve uma tentativa de golpe
de Estado contra Afwayne. O espao areo somali foi fechado e houve
combates. (Depois que os lderes do golpe foram executados, instaurou-
se um perodo de vigilncia muito mais intensa. Se no tivssemos
viajado, s Deus sabe quando conseguiramos partir.) Por motivos
certamente relacionados com a tentativa de golpe de Estado, meu pai
voltou precipitadamente  Etipia. Na pressa, no se lembrou de
arranjar quem fosse aguardar o vo seguinte da Somali Airways a
Jeddah, o vo em que havamos embarcado.
         Nos anos subseqentes, mame jogou muitas e muitas vezes
essa cena na cara de papai, acusando-o. Por ora, ficamos ao deus-dar.
Aquela era a Arbia Saudita, o bero do isl, rigorosamente governada
conforme as escrituras e a exemplo do profeta Maom. E, por lei, todas
as mulheres deveriam estar sob a responsabilidade de um homem.
         Minha me discutiu aos berros com o funcionrio da imigrao,
mas ele simplesmente repetiu em voz cada vez mais alta que no
podamos sair do aeroporto sem a companhia de um homem. Em
nenhum momento olhou diretamente para ela, s para um ponto acima
da sua cabea.
         Passamos horas naquele aeroporto estrangeiro. Brincamos de
pega-pega. Mahad se perdeu. Vomitei. Mame disse que estvamos com
o diabo no corpo e desejou que fssemos todos para o inferno. Estava
diferente, exausta; parecia j no ter controle de nada. Gritava e dizia
as piores coisas de papai, coisas que eu nunca a tinha ouvido dizer.
Devia estar se sentindo trada. Tinha sido to competente em
administrar nossa viagem clandestina, os passaportes falsos. E agora se
via abandonada.
         Pouco antes do anoitecer, um somali se aproximou e perguntou
o que estava acontecendo. Era um dhulbahante, feito a minha me, por
isso ofereceu auxlio. Ela lhe pediu apenas que a levasse a Jeddah, 
casa da famlia dhulbahante em que amos ficar. Bastava que a
ajudasse a passar pela imigrao e tomar um txi; sem a companhia de
um homem, nenhum taxista a deixaria entrar no carro.
         Acordamos na casa dessa famlia desconhecida, em Jeddah. O
quarto era pequeno e extremamente quente, mas minha me foi
implacvel: devamos nos comportar muito bem. Isso significava no
sair do quarto, no sair da cama. ramos obrigados a cochichar --
quando falvamos um pouco mais alto, apanhvamos, e, quando nos
aventurvamos a andar, tambm apanhvamos. A nica coisa que ela
nos deixava fazer era olhar pela janela, para um quintal grande em que
meia dzia de mulheres somalis de todas as idades cozinhavam e
conversavam.
         Uma delas, uma mocinha, nos convidou a dar uma volta. L
fora, vimos um mundo completamente diferente. As ruas eram
pavimentadas; o trfego, impressionante. E todas as mulheres daquele
pas andavam cobertas de preto. Eram vultos vagamente humanos.
Pretas de frente, pretas de costas. S descobramos para que lado
estavam olhando pela direo dos seus sapatos. Sabamos que eram
mulheres porque a moa que segurava a nossa mo com firmeza, para
que no nos perdssemos, tambm estava toda coberta de preto.
Podamos ver-lhe o rosto porque ela era somali. As sauditas no tinham
rosto.
         Ns nos afastamos, correndo, e nos aproximamos daquelas
figuras pretas. Olhvamos para elas, tentando achar seus olhos. Uma
mulher ergueu a mo, calando luva preta, e gritamos: "Ela tem mos!".
Fazamos    caretas   para   elas.   Fomos   realmente   intragveis,   mas
estvamos diante de uma coisa to inusitada, to sinistra, que
queramos dom-la, torn-la menos horrvel. O que aquelas sauditas
viam eram trs negrinhos bancando os macacos.
       Dois ou trs dias depois, dois homens do cl osman mahamud
apareceram na casa com notcias do meu pai: ele estava na Etipia e
talvez passasse meses l. Perguntaram onde minha me queria ficar
enquanto esperava seu retorno. Naquela noite, alguma coisa parece ter
se rompido dentro dela. Tomada de uma espcie de frenesi, mame
chorou, praguejou e bateu em ns. Jogava os sapatos no primeiro que
abrisse a boca. Ns todos ficamos com medo, at Mahad, o queridinho
dela. No dia seguinte, quando os homens voltaram, minha me disse:
"Meca". Devia estar sentindo que a vida ia to mal que no lhe restava
nada a no ser se atirar nos braos de Al. Meca, a terra do profeta
Maom, era o lugar mais prximo de Al a que se podia chegar. Uma
semana depois, toda nossa bagagem foi colocada em um carro.
       Chegamos a um edifcio alto. Havia lixo espalhado nas ruas,
montes de sujeira cobertos de moscas gordas e zumbidoras. Na
escadaria, o fedor era insuportvel. As baratas se sentiam to  vontade
que no se davam ao trabalho de fugir. Papai tinha mandado dinheiro
para que aqueles nossos guardies alugassem um apartamento, mas
Meca era carssima: o nico lugar que conseguiram encontrar foi um
apartamentozinho em um prdio ocupado por pedreiros egpcios.
       Nunca tnhamos entrado em um prdio de apartamentos.
Quando estvamos subindo a escada, mame disse a Haweya e a mim:
"Se vocs sarem sozinhas, os homens que moram atrs dessas portas
as pegam, fazem picadinho das duas e depois as comem". Deu certo:
nunca nos atrevemos a sair sozinhas.
       Ela abriu a porta de um apartamento de dois cmodos, amos ter
eletricidade! Nas paredes, havia interruptores que acendiam as
lmpadas e ligavam um ventilador de teto -- coisa que nunca tnhamos
visto. Assim que a minha me virou as costas, comeamos a brincar
com ele, jogando roupas e pequenos objetos s para v-los girar no ar.
O ventilador quebrou.
       Naquela primeira semana, o apartamento se transformou num
verdadeiro forno. Fazia tanto calor que Haweya ficou com as costas
cobertas de bolhas, e, durante uma semana, ela armou uma choradeira
dolorida e sem fim.
       Os tios pagaram cinco meses de aluguel adiantados; nada se
podia fazer para melhorar o apartamento. S lhes restou nos levar ao
mercado e comprar o necessrio. Ficamos fascinados demais para nos
comportar mal. Havia luzes, brilho, brinquedos -- brinquedos em toda
parte --, bancas com forte cheiro de sangue e condimentos, e o
cacarejar das galinhas, a copiosa promessa de doces e bolos. Raramente
amos a um mercado somali, e aquela srie enorme de bancas e lojas
era a coisa mais gloriosa que j tnhamos visto. Os tios seguravam a
nossa mo com firmeza enquanto percorramos aquele lugar mgico,
comprando colches, roupas de cama, travesseiros e um ventilador
pequeno. No dia seguinte, voltamos para comprar comida, tapetes de
orao; talheres, panelas, bacia de metal para lavar roupa, escova,
sabo em pedra e balde.
       Ento mame ficou sozinha conosco -- virtualmente pela
primeira vez na vida. Como nossa av estava na Somlia, ela no tinha
com quem dividir tarefas nem planos. No podia fazer nada sozinha.
No podia sair se no estivesse acompanhada de um daqueles nossos
guardies, os tios, e tampouco ns. Para telefonar para eles, precisava
descer apressadamente  mercearia da esquina, escoltada pelo meu
irmo de dez anos: seu macho protetor.
       Passvamos o dia inteiro esperando no apartamento que os tios
fossem nos fazer um favor, e o dia inteiro mame imprecava contra
papai. "Que Al nunca o traga de volta", lembro-me de ouvi-la gritar.
"Que Al o deixe estril. Que ele pegue uma doena horrvel. Que nunca
veja o paraso." Pior ainda: "Que Afwayne o prenda e torture. Que ele
seja expulso do cl e morra sozinho".
       Na realidade, no podamos fazer nada alm de esperar. Mame
resolveu restabelecer a disciplina na famlia. Tnhamos nos tornado
malcriados durante os meses que passramos sozinhos com vov.
Mame nos tratava quase como camelos: para nos do-mesticar, gritava
conosco e nos surrava muito. Quando comevamos a correr, gritava:
"Sentados, SENTADOS!", e nos encolhamos no cho; ento ela nos
aoitava as pernas e os braos com o fio do rdio. Quando chorvamos,
gritava: "CALADOS!" e tornava a bater em ns.
       Embora no fossem nada agradveis, as pancadas nunca
ultrapassavam certo limite, doam, mas eram controladas. Para a minha
me, a punio fsica era uma parte sensata e indispensvel da
educao dos filhos. E,  medida que fomos aprendendo a nos
comportar, ela passou a nos castigar menos.
       Quando chamavam os crentes  orao, as mesquitas de Meca
criavam      uma   espcie   de   corrente   sincronizada   que   ouvamos
diariamente: primeiro a mesquita do nosso bairro, depois a seguinte, e a
outra, todas convocando a cidade, o pas e o mundo. Inventamos a
brincadeira de correr de uma janela para outra a fim de ver quem se
lembrava de que direo chegaria o chamado seguinte.
       Na Somlia, ramos muulmanos, mas professvamos um
islamismo bem diludo, negligente nas oraes regulares, mesclado com
crenas mais antigas. Agora mame nos obrigava a rezar quando as
mesquitas chamavam: cinco vezes por dia. Antes de cada orao,
ramos obrigados a nos lavar e a nos vestir, ento ficvamos em fila e
seguamos suas instrues. Depois da orao noturna, tnhamos de ir
para a cama.
       Mame tambm nos matriculou na escola alcornica local,
muito embora quase no falssemos rabe. Na Somlia, tanto o colgio
quanto o madraal eram mistos (meninos e meninas); aqui havia
segregao em tudo. Mahad ia a um madraal de meninos; Haweya e
eu, a um de meninas. L todas as garotas eram brancas; eu as via como
brancas e a mim, pela primeira vez, como negra. Elas nos chamavam de
abid, que significa escravas. Ser chamada de escrava -- o preconceito
racial contido na palavra -- era uma das coisas que eu mais detestava
na Arbia Saudita. O professor no nos ensinava a escrever, limitava-se
a recitar o Alcoro para ns. Precisvamos decor-lo, versculo por
versculo.
         J havamos decorado uma parte das escrituras, tnhamos
aprendido    em    Mogadscio,   muito   embora,   evidentemente,    no
compreendssemos mais do que uma ou duas palavras, j que estava
tudo em rabe. Mas, em Meca, o professor dizia que ns o recitvamos
sem respeito, s pressas, para nos exibir. De modo que foi necessrio
aprender tudo novamente, s que, dessa vez, com pausas cheias de
reverncia. Continuvamos sem entender mais do que o essencial.
Aparentemente, a compreenso no tinha a menor importncia.
         Tudo era pecado na Arbia Saudita. A gente no era malvada, e
sim pecadora. No era limpa, e sim pura. A palavra que mais se ouvia
era haram, proibido. Tomar o nibus com homens era haram. Meninos
e meninas brincarem juntos, haram. Quando estvamos brincando com
as outras garotas no ptio do madraal, tambm era haram deixar que
o turbante branco se soltasse, mesmo que no houvesse meninos por
perto.
         Mame decidiu nos levar  Grande Mesquita, o que representou
uma feliz interrupo do nosso encarceramento. O calor vibrava no ar;
era mais uma tarde quente a mais no poder, o calor de Meca no se
comparava com nada que eu conhecia. E entramos no palcio, que era
lindssimo: branco, fresco, escuro, enorme. Soprava uma brisa no
interior do edifcio. Foi como sair da cadeia. Enquanto minha me
executava o ritual solene, dando sete voltas lentas ao redor da pedra
sagrada, ns nos pusemos a correr por toda parte, escorregando no
piso, gritando de alegria.
         L as pessoas eram to heterogneas quanto no aeroporto,
muitas at mais pretas do que ns, e algumas to mais brancas do que
os prprios sauditas, que chegavam a ser lvidas. E, como estvamos na
casa de Deus, toda aquela gente se mostrava gentil. Quando colidimos
com um adulto, ele segurou delicadamente a nossa mo e nos levou de
volta para mame. Ela ficou furiosa, e eu entendi que a tnhamos
envergonhado, por isso me ajoelhei  sua frente e fiz a orao da splica
que aprendera no madraal, estendendo as mos em concha diante dela
e pedindo perdo. Para minha surpresa, deu certo: mame sorriu.
        Ela encontrava consolo na vastido e na beleza da Grande
Mesquita, l recobrava a esperana e certa sensao de paz. Todos ns
gostvamos de visit-la; at ganhvamos sorvete depois. Pouco a pouco,
os rituais e as histrias centradas naquele palcio comearam a ter
significado para mim. As pessoas eram pacientes umas com as outras
na Grande Mesquita, e gentis -- todos lavavam os ps na mesma fonte,
sem empurres nem preconceitos. ramos muulmanos na casa de
Deus,    uma   coisa   bonita.   Aquilo   tinha   um      no-sei-qu   de
intemporalidade. Creio que esse era um dos motivos pelos quais os
muulmanos acreditam que islamismo significa paz: porque em um
lugar amplo e fresco, cheio de amabilidade, a gente se sente mesmo em
paz.
        Mas, assim que saamos da mesquita, a Arbia Saudita
significava calor intenso, sujeira e crueldade. As pessoas eram
decapitadas em praa pblica. Os adultos viviam falando nisso. Nada
mais normal e rotineiro na sexta-feira, aps a orao do meio-dia, do
que ir almoar em casa ou ento assistir s execues. Dece-pavam-se
mos. Homens eram aoitados. Mulheres, apedrejadas. No fim da
dcada de 1970, a Arbia Saudita vivia um boom; no entanto, embora o
preo do petrleo estivesse empurrando a economia para o mundo
moderno, aquela sociedade continuava fincada na Idade Mdia.
        Quando chegou o ms da peregrinao, mame disse que j no
podamos ir  Grande Mesquita. Nem sair de casa ela nos deixava, tinha
medo de que fssemos pisoteados pela imensa multido de peregrinos.
S podamos observar aquele munda-ru de gente vestida de branco
passando na rua e, pela janela, ouvir a reza constante.
        Uma noite, durante o ms da peregrinao, quando acabvamos
de nos deitar, ouvimos baterem na porta. Um dos nossos tios gritou:
"Seu pai chegou!". Saltamos precipitadamente da cama. Mahad se
atirou nos braos de um dos homens que entraram. Um tanto
acanhadas no comeo, Haweya e eu o imitamos, abraando aquele
desconhecido, puxando-o para baixo.
       Eu imaginava um pai que me compreendesse, que soubesse que
eu estava tentando ser boa. Agora l estava aquele homem. Subamos
nele, acotovelvamo-nos para toc-lo. Mame quis nos mandar de volta
para a cama, mas papai disse que podamos ficar acordados. Acabei
dormindo no tapete, os braos estendidos, vendo papai comer.
       O meu abeh era magro. De pmulos altos como eu, tinha testa
redonda, pescoo forte e ombros largos, ligeiramente cados. Seus olhos
eram cercados de rugas, o que eu atribu ao fato de ele ler muitos livros
e se preocupar demais com o futuro do nosso pas. A testa alta lhe dava
uma aparncia distinta. Sua voz grave parecia sempre acompanhada de
um sorriso. E, ao contrrio dos outros adultos da nossa vida, ele nos
achava maravilhosos.
       Na manh seguinte, abeh nos acordou para rezar. Os tapetes j
estavam estendidos, sendo que o de Mahad ficava perto do dele; o de
mame, o de Haweya e o meu, atrs. Comeamos a nos envolver em
longas vestes brancas para a orao, como mame costumava nos
mandar fazer, mas ele nos deteve. "Vocs s precisam fazer isso quando
forem adultos", explicou. E, ante o protesto da minha me, o meu
adorvel abeh disse: "Voc sabe, Asha, no so as regras que importam,
e sim o esprito".
       Depois disso, Haweya e eu nos metemos entre ele e Mahad para
rezar. Papai no nos afastou. Quando mame protestou: "Isso 
proibido", ele imps silncio.
       Ns insistimos nisso: passamos o dia tentando ficar ao lado de
abeh nas oraes.  noite, ele deve ter percebido que aquilo no ia
cessar espontaneamente e, alm disso, mame tinha razo: era
proibido. Os homens no rezavam lado a lado com as mulheres. Estas
ficavam atrs, porque, embora se cobrissem para a orao, o vu podia
escorregar e deixar  mostra um pedao do vestido ou da pele, coisa
capaz de distra-los e lev-los ao pecado. Mas no foi essa a explicao
que o meu abeh nos deu. Ele disse: " melhor vocs ficarem atrs
porque j so duas mocinhas".
       Naturalmente perguntamos: "Por qu?".
       "Porque Al quer assim."
       "Mas por que Al quer assim? Ele tambm me criou, mas
sempre prefere Mahad."
       Abeh nos mandou ficar atrs porque era assim que devia ser.
Mas eu adorava o meu abeh, e aquilo no era justo, de modo que,
engatinhando pelo tapete, fui avanando aos poucos, at que, no fim da
orao, Haweya e eu estvamos bem ao lado dele e de Mahad. Para o
horror de mame, continuamos fazendo isso. Depois de uma semana, o
meu pai acabou se irritando, e ela adorou, pois provava que tinha
razo: em primeiro lugar, ele no devia ter deixado aquilo acontecer
nenhuma s vez. Mesmo porque, disse ela, as mulheres no tinham
nada que rezar com os homens. Desde o primeiro dia, abeh deveria ter
orado em um quarto com Mahad, enquanto mame rezaria em outro
conosco. Mas ele no concordou: "Oramos juntos porque somos uma
famlia.  assim que Deus quer".
       Com o retorno de papai, todas as regras relaxaram um pouco.
Ele dizia que, embora tivssemos que fazer o ritual da ablu-o antes da
orao matinal, no precisvamos nos lavar antes das outras, a menos
que tivssemos soltado um pum ou ido ao banheiro. Lavar-nos antes de
cada orao, apesar de estarmos limpos, era um desperdcio de gua,
dizia, e Al no gostava disso.
       Durante algum tempo, quando mame perguntava antes de cada
orao: "Vocs se lavaram?", ns trs respondamos: "Estou puro". Ela
retrucava: "Puros! Vocs esto imundos!" e ns alegvamos: "Mas,
mame, a poeira no  impura". Antes da orao seguinte e da outra,
repetamos: "Estamos puros!", at que ela explodia: "Vamos acabar com
esse absurdo agora mesmo", e nos arrastava ao banheiro para que nos
lavssemos.
       Quando meu pai retornou  minha vida, desabrochei como uma
flor de cacto depois da chuva. Ele me dava ateno, erguia-me no ar,
dizia que eu era inteligente e bonita. s vezes,  noite, reunia os trs
filhos para nos falar da importncia de Deus e do bom comportamento.
Estimulava-nos a fazer perguntas; papai detestava aquilo que ele
chamava de educao idiota -- decorar. A pergunta "por qu?" deixava
mame  beira da loucura, mas papai a adorava: ela podia desencadear
uma enxurrada de ensinamentos, ainda que nove dcimos deles
estivessem muito acima da nossa compreenso.
       Minha me nos ensinava a dizer a verdade, do contrrio
seramos castigados e iramos para o inferno. Papai nos ensinava a ser
sinceros porque a verdade era boa em si. Eu gostava muito das suas
aulas noturnas, e, embora ns trs absorvssemos a ateno que ele
nos dava, sempre fui a predileta de abeh, desde o comeo.
       Quando nos comportvamos mal, eu era a primeira a admiti-lo.
Dizia: "Voc no nos castiga se eu confessar uma coisa, castiga?
Porque, se eu disser a verdade e voc me castigar, da prxima vez serei
obrigada a mentir". Meu pai caa na gargalhada e dizia: "Ento diga a
verdade", e eu contava: quebramos tal coisa ou aborrecemos os
vizinhos. Ele nunca batia em ns, apenas nos fazia prometer no voltar
a fazer aquilo.
       Minha me era espartana. No oferecia mais do que a ateno e
o afeto estritamente necessrios, a no ser a Mahad. E, mesmo com ele,
sua benevolncia era relativa: simplesmente no o espancava tanto
quanto a Haweya e a mim. Para comear, ela no era uma mulher
meiga ou afetuosa, a vida a tinha endurecido. Passava o tempo todo
preocupada e, quando estabelecia normas, levava-as muito a srio.
Mas, depois de algumas semanas com abeh, aprendemos a argumentar:
"No so as regras que importam, e sim o esprito". E isso a deixava
furiosa.
       Fosse qual fosse o emprego do meu pai, ele era muito bem pago.
Mas, embora sua autorizao para trabalhar na Arbia Saudita o
proibisse de prosseguir com as atividades polticas, ele continuava a
colaborar secretamente com a FSDS. Achava os sauditas toscos e
idiotas e no acreditava que conseguissem descobrir que ele continuava
participando da liderana de um movimento poltico no exlio.
       Quando     venceram   os   cinco   meses   j   pagos    do   nosso
apartamento, o meu pai fez questo de mudar para Riad, onde
trabalhava. Mame no queria sair de Meca, mas ns, crianas,
detestvamos aquele prdio, e acho que at mesmo ela ficou
secretamente aliviada quando abeh encontrou uma casa maior e muito
mais fresca em Riad. Era dividida em duas partes, a das mulheres e a
dos homens (embora no vivssemos desse modo), com um corredor e
uma porta fechada entre elas. Os homens entravam e saam pelo porto
da frente, uma imponente grade de metal com luzes de ambos os lados.
Nunca    nos   deixavam   sair     sozinhas.    Mas   uma   pequena       porta
comunicava o quintal da parte das mulheres com o quintal da parte das
mulheres da casa vizinha, de modo que elas e as crianas podiam
circular entre os dois ptios sem sair  rua.
        Haweya e eu fomos autorizadas a visitar as vizinhas por essa
portinha.   amos   assistir     televiso.    Passavam   reprises   de    um
interminvel seriado sobre a vida do profeta e as batalhas que ele
travara para instituir o isl e levar os politestas a trilharem a senda
reta do Deus nico e verdadeiro; seu rosto no aparecia nunca: como
ele era sagrado, nenhum ator podia represent-lo. Aprendemos o jogo
de bater palmas das meninas do bairro. Quando seus pais saam e suas
mes letrgicas, quase inertes, passavam a tarde dormindo, as garotas
vizinhas se reuniam para tocar msica. Eram cinco ou seis -- creio que
filhas de vrias mulheres diferentes --, com idades entre dez e quinze
anos. Atavam um pano nos quadris e se punham a saracotear, umas
para as outras, rebolando, sacudindo os ombros, girando os punhos,
trocando olhares insinuantes. Eu tinha oito anos, e para mim aquelas
meninas, mesmo as de dez anos, exalavam um erotismo trrido e
totalmente inusitado.
        Nunca tinha visto aquele tipo de dana, s as cerimnias rituais
que os feiticeiros s vezes apresentavam em certos bairros de
Mogadscio para chamar a chuva: mais um tolo ritual mgico do que
propriamente uma dana. Quando Haweya e eu imitamos aquela
espcie de bailado em casa, minha me ficou louca de raiva. Tinha nos
levado  Arbia Saudita para que fssemos puras e trilhssemos o
estreito caminho do isl juntamente com os sauditas, e agora as
prprias mulheres sauditas estavam nos desencaminhando.
         Algumas das que moravam no nosso bairro eram regularmente
espancadas pelos maridos. A gente as ouvia de noite. Seus gritos
ecoavam nos quintais: "No! Por favor! Por Al!". Isso deixava o meu pai
revoltado. Ele via aquela violncia horrvel e fortuita como o exemplo
por excelncia da estupidez dos sauditas e, quando avistava os homens
que faziam tal coisa -- o bairro todo os identificava pela voz --,
resmungava: "Boal idiota, como todos os sauditas". Papai nunca
levantou a mo para mame; achava isso uma baixeza inominvel.
         Mesmo assim, podamos sair de casa s vezes, e a minha me
no podia nos proibir de ir  casa das vizinhas; seria uma grosseria.
Essas famlias eram muito diferentes da nossa. Por exemplo, as mes
no     faziam   nada;    tinham       empregadas.   E    os    meninos   eram
simplesmente terrveis. Todas as crianas iam aonde queriam -- os
rabes eram muito tolerantes com os filhos pequenos --, mas eram os
meninos que mandavam. Mudavam de canal quando a me estava
assistindo televiso ou obrigavam a irm mais velha a lhes ceder a
poltrona.
         Na Arbia Saudita, tudo de ruim era atribudo aos judeus. Se o
ar-condicionado encrencasse ou se faltasse gua subitamente, as
vizinhas diziam que era por culpa dos judeus. As crianas aprendiam a
rezar pela sade dos pais e pela destruio dos judeus. Depois, quando
comeamos a ir  escola, os professores desfiavam, demoradamente, as
malvadezas que os judeus tinham feito e pretendiam fazer com os
maometanos. Ao falar mal de algum, as vizinhas costumavam dizer:
"Ela  feia,  desobediente,  puta -- anda dormindo com um judeu".
Cheguei  concluso de que os judeus eram como os djins. Nunca tinha
visto um judeu. (Aquelas sauditas tambm no.)
         Entretanto,     essas   mesmas      vizinhas    podiam    ser    muito
atenciosas. Iam perguntar se estava tudo bem e nos levavam doces e
bolos    aucarados.     s   vezes,    convidavam      minha   me   para   os
casamentos. Embora ela no aprovasse aquelas mulheres, no podia
recusar e ia -- o que significava que nos levava tambm. As festas de
casamento duravam trs noites, e a todas s compareciam mulheres, as
quais pareciam ganhar vida em tais ocasies, vestindo as melhores
roupas. Na primeira noite, a noiva ficava coberta para se proteger de
olho gordo; s deixava  mostra os tornozelos enfeitados com desenhos
espiralados, feitos com he-na. No dia seguinte, ela reluzia com o vestido
e as jias rabes. Na ltima noite, chamada Noite da Defloraao, punha
um vestido longo branco de seda e cetim e se mostrava assustada.
         Nessa noite, aparecia o homem com quem ela ia casar, o nico
homem tolerado entre mulheres da famlia. Um sujeito suado, de
aparncia comum, s vezes muito mais velho, trajando uma longa veste
rabe. Todas as mulheres se calavam  sua entrada. Para Haweya e
para mim, os homens no eram de outro planeta, mas, nas sauditas l
presentes, a chegada do noivo causava comoo. Todas as bodas eram
assim:    as   mulheres   subitamente   emudecidas,    boquiabertas   de
ansiedade, e o homem que aparecia, inteiramente banal.
         As coisas no iam bem em casa. O vnculo outrora forte entre
meus pais estava se rompendo. Cada qual tinha expectativas diferentes
na vida. Mame sentia que papai no dava ateno  famlia.
Geralmente cabia a ela nos levar  escola e buscar -- escolas diferentes
porque Mahad era menino -- e voltar sozinha. Minha me detestava
sair sem homem, detestava ser insultada na rua, encarada com
insolncia. Todas as somalis contavam casos de mulheres que haviam
sido agredidas na rua, levadas sabe-se l para onde, e ento, horas
depois, apareciam jogadas no acostamento de uma estrada ou
simplesmente nunca mais voltavam. Ser uma mulher sozinha j era
horrvel. Ser estrangeira e, alm disso, negra, significava quase no ser
humana, estar totalmente desamparada: um bode expiatrio.
         Quando mame ia fazer compras sem motorista ou marido que
bancasse o guarda-costas, os comerciantes se recusavam a atend-la.
Mesmo na companhia de Mahad, alguns balconistas no lhe dirigiam a
palavra. Restava-lhe pegar os tomates, as frutas e os temperos e
perguntar em voz alta: "Quanto ?". Quando recebia resposta, jogava o
dinheiro no balco e dizia: " pegar ou largar", e ia embora. No dia
seguinte, era obrigada a voltar  mesma mercearia. Mahad assistia a
tudo sem poder auxili-la, tinha apenas dez anos.
        Mame       nunca   atribuiu   aos   sauditas   a   culpa   das   suas
atribulaes. Simplesmente queria que meu pai se encarregasse das
compras e das diligncias na rua, como faziam todos os homens.
Nenhuma mulher que conhecamos andava sozinha na rua. Era
impossvel: os maridos trancavam a porta quando saam de casa. Todas
as mulheres do bairro tinham pena da minha me, a nica que saa
sozinha. Era humilhante, era vulgar.
        Mame sentia que meu pai falhara com ela em muitas coisas.
Ele a fazia assumir responsabilidades que, na sua opinio, cabiam a
ele. Para papai, era muito natural chegar em casa com oito ou dez
homens convidados para almoar. Nunca dizia aonde ia nem quando
pretendia retornar. Quando a atmosfera domstica ficava menos
agradvel, ia  mesquita de manh e s voltava um ou dois dias depois.
Minha me tinha que lavar  mo cada meia e cada turbante. Uma
mulher solitria.
        Creio que havia ocasies em que ela se sentia feliz: cozinhando 
noitinha, cercada pela famlia. Mas quantas noites eram assim? s
vezes, de madrugada, eu os ouvia discutir, mame a enumerar as
muitas vezes em que papai lhe faltara, a voz tensa de raiva. Abeh dizia:
"Asha, trabalho para que a gente tenha um futuro no nosso pas". Ou
ento: "Essas coisas no aconteceriam se a gente morasse em um pas
normal". Ele detestava a Arbia Saudita e queria que mudssemos para
a Etipia. Mas mame se recusava: os etopes eram infiis.
        Alguns meses depois da nossa mudana, vov chegou para
ajudar minha me na casa. Tambm no gostava do modo como ela se
referia a papai. "Quem nasce mulher tem que viver como mulher", dizia,
citando um provrbio. "Quanto mais depressa voc entende isso, mais
fcil  aceitar."
        Pouco tempo depois de chegar a Riad, comeamos a ir ao colgio
-- um colgio de verdade -- de manh e ao madraal  tarde. Mas, na
Arbia Saudita, o colgio de verdade era igualzinho ao madraal. S
estudvamos rabe, matemtica e o Alcoro, sendo que este ocupava
quatro quintos do nosso tempo. O estudo do Alcoro dividia-se em uma
aula de recitao, uma de significado, uma de hadith, os versculos
sagrados escritos depois do Alcoro, uma de sirat, as biografias
tradicionais do profeta Maom, e um curso de fiqh, a lei islmica.
Decorvamos os noventa e nove nomes de Al e aprendamos como se
comportava uma boa menina muulmana: o que dizer quando
espirrvamos; de que lado comear a dormir e em que posio era
permitido ficar durante o sono; com que p entrar no banheiro e em que
posio se sentar. A professora, uma egpcia, costumava me bater. Eu
tinha certeza de que sua implicncia se devia ao fato de eu ser a nica
negra na classe. Quando me aplicava reguadas, ela me chamava de
aswad abda: negrinha escrava. Eu detestava aquele pas.
       Nem todos os sauditas eram assim. Certa manh, quando eu
estava no colgio, uma sbita rajada de vento me atingiu com tanta
fora que quase me derrubou. Com ela, chegou um cheiro gostoso de
chuva que me encheu de saudade da minha terra. (O cheiro de chuva
era, talvez, o mais pungente que eu recordava da minha breve
existncia na Somlia.) As nuvens comearam a se acumular, e os pais
chegaram para buscar os filhos; com a tempestade que se anunciava, o
colgio ia fechar mais cedo, mas minha me certamente no sabia
disso. Comeou a chover: as primeiras gotas grossas me atingiram com
fora, seguiu-se uma borrasca de slidos lenis de gua a se
precipitarem. As ruas no tardaram a se alagar. Como eu era a ltima
criana esperando junto ao porto do colgio, achei melhor correr na
direo que me pareceu ser a de casa. A gua j cobria a metade das
minhas canelas. Eu ca, chorando.
       Um brao grande me envolveu o peito e me tirou da gua. Pensei
que fosse um saudita disposto a me raptar e estuprar, a me cortar em
pedaos e me enterrar no deserto, como nas histrias da minha me.
Comecei a gritar: "Tudo que voc fizer comigo, Al vai ver!". Mas, sem
dizer uma palavra, o homem me levou  sua casa e me jogou no colo da
esposa. Ela me deu roupa seca e procurou me acalmar com leite morno;
enquanto isso, o marido voltou ao colgio e encontrou mame e
Haweya. Depois, quando a chuva cessou, levou-nos para casa de carro.
       Dissemos a papai que no queramos ser meninas. Era uma
injustia no poder sair com ele e fazer todas as coisas que Ma-had
fazia. Abeh sempre protestava, citando o Alcoro: "O paraso fica aos
ps da tua me!". Mas, quando olhamos para baixo, os ps descalos de
mame estavam rachados de tanto lavar o cho, ao passo que os de
abeh ostentavam carssimos sapatos italianos de couro. Ramos toda
vez que ouvamos isso, pois, em todos os sentidos da palavra, o paraso
no estava aos ps dela, e sim aos dele. Papai era importante, ia salvar
a Somlia e tinha roupas lindas, saa quando queria. E ns, e ela,
nunca podamos fazer o que queramos.
       A segregao se inscrevia em cada detalhe da vida cotidiana.
Quando a famlia decidia sair, tnhamos que tomar nibus separados: o
meu pai e Mahad, o dos homens; mame, Haweya e eu, o das mulheres.
Papai mal continha a raiva da idiotice daquilo tudo quando voltvamos
a nos reunir no mercado ou no bazar de ouro. "Isso no tem nada de
muulmano!", resmungava. "Isso  da poca da Ignorncia! Esses
sauditas no passam de umas bestas!" Na prtica, a regra dos nibus
separados se aplicava unicamente aos trabalhadores estrangeiros.
Todos os sauditas pareciam ser ricos, e as mulheres circulavam com
motorista no carro do marido.
       Toda vez que eu dizia que, quando crescesse, queria ser como o
meu abeh, ele se alegrava e exclamava: "Est vendo? As crianas vo
salvar a ptria!", e me pegava no colo. E as visitas somalis que ficavam
esperando com muita deferncia que papai chegasse a casa e falavam
com ele com todo respeito -- olhavam para mim e riam, dizendo que eu
era o retrato do meu pai, de testa arredondada e pmulos salientes.
Mais tarde, ele me abraava e dizia que eu era o seu nico filho. Isso
fazia com que Mahad me detestasse ainda mais.
       Mame tambm recebia visita com freqncia -- outras somalis,
dhulbahante como ela, quase todas empregadas domsticas de famlias
sauditas. Uma delas se chamava Obah. Era jovem e bonita, andava
sempre bem vestida. Costumava trazer as unhas pintadas a hena e
agitava as mos ao falar, deixando, para a contrariedade da minha me,
um rastro de fumaa de cigarro no ar. Um dia, Obah teve que deixar o
emprego por medo de ser desonrada; ou talvez j o tivesse sido e por
isso precisasse largar o emprego.
         Minha me reprovava a exuberncia feminina e os cigarros de
Obah.    Via   aquela frivolidade   como um    pecado.   Mesmo assim,
concordou em acolh-la. Obah era do mesmo cl, no se esperava outra
coisa.
         Ns, crianas, gostvamos da presena de Obah. Ela ria, agitava
sua fumaa e usava o turbante to solto que se viam seus brincos de
ouro. Utilizava um p amarelo e gua para manter a pele macia e lisa.
Nada tinha da austeridade da nossa exigente me.
         Um dia, Mahad e eu roubamos uns cigarros de Obah. Fumamos,
e eu vomitei. Minha me a mandou embora. No sei para onde ela foi
depois disso, porm, meses mais tarde, a rede dhulbahante informou
que Obah estava presa, acusada de prostituio. Ouvimos dizer que
tinha sido encarcerada, aoitada em pblico e, a seguir, extraditada.
         Para os sauditas, o mero fato de Obah estar sozinha no pas
bastava para consider-la uma prostituta; no havia necessidade de
nenhuma outra prova. E, para o regime de Siad Barr, na Somlia, o
mero fato de ter sado do pas e procurado emprego no exterior bastava
para consider-la uma perigosa "anti".
         Meu pai ficou furioso quando soube o que se passara com Obah.
"Isto no  o isl -- so os sauditas pervertendo o isl", rosnou. Papai
era muulmano, mas tinha dio dos juizes e das leis sauditas; achava
aquilo brbaro, toda cultura rabe do deserto. Sempre que ouvamos
falar em uma execuo ou apedreja-mento, minha me dizia: " a lei de
Deus,  a vontade de Deus, quem pode julg-la?". Mas tambm
sabamos que nenhum somali tinha chance de ganhar se um saudita
resolvesse lev-lo ao tribunal.
       O desprezo de papai pelos rabes era abrangente. No dia 16 de
setembro de 1978, houve um eclipse da Lua em Riad. No fim da tarde,
ele ficou visvel: uma sombra escura a encobrir lentamente a face plida
da Lua no azul-escuro do cu. Bateram freneticamente na porta.
Quando abri, nosso vizinho quis saber se estvamos bem. Avisou que
tinha chegado o Juzo Final, o dia em que o Alcoro dizia que o Sol
nasceria   no   oeste,    os   mares   inundariam   a   terra,   os   mortos
ressuscitariam e os anjos de Al pesariam os nossos pecados e a nossa
virtude, mandando os bons para o paraso e os maus para o inferno.
       Embora estivesse apenas anoitecendo, o muezim conclamou
repentinamente          orao   --   no   uma    mesquita     a    chamar
cuidadosamente aps a outra, como de hbito, mas todas clamando ao
mesmo tempo em toda cidade. Ouviam-se gritos no bairro. Pela janela,
vi gente rezando na rua. Mame nos chamou e disse: "Todo mundo est
orando. Vamos orar".
       O cu escureceu. Era um sinal! Outros vizinhos bateram na
porta, pedindo perdo pelas maldades passadas. Mandaram-nos rezar
por eles, pois as oraes das crianas eram as mais ouvidas. Os portes
do inferno se escancaravam para ns, o que nos deixou apavorados. Por
fim, abeh chegou, bem depois do anoitecer.
       "Abeh!" Corremos ao seu encontro. " o Juzo Final. Voc precisa
pedir perdo  mame!"
       Meu pai se agachou at ficar da nossa altura e nos abraou.
Disse devagar: "Se vocs se aproximarem de um saudita e fizerem isto"
-- ele bateu palmas com fora diante do nosso rosto -- "vai ser o Juzo
Final, para os sauditas. Eles so uns poltres."
       "Ento no  o Dia do Juzo?"
       "Uma sombra se projetou na Lua", explicou ele. " normal. Vai
passar."
       Abeh tinha razo. No dia do Juzo Final, o Sol ia nascer no oeste,
mas, no dia seguinte, nasceu direitinho no lugar de sempre, gordo e
implacvel, e o mundo no acabou.
       Nossa casa em Riad tinha um terrao no primeiro andar da ala
das mulheres, onde dormamos. Era coberto por uma cortina e uma
grade intrincadssima. Podamos ficar l, olhando a rua sem ser vistos,
coisa que, s vezes, mame fazia horas a fio. Uma tarde, ela avistou
dois somalis se aproximando. Ao reconhec-los, deixou escapar um
rudo estrangulado. Algo estava errado.
       Os homens bateram na porta, e mame disse: "Sei que  m
notcia. Alguma coisa com o meu filho?". Eles disseram que sim. O meu
meio-irmo Muhammad tinha morrido atropelado por um caminho no
Kuwait.
       Eu no recordava esse meu irmo mais velho, fruto da obscura
unio de mame com aquele outro marido, do qual no gostava. Ela
contava histrias de Muhammad. Foi ele quem matou um escorpio que
me picou quando eu era pequena: claro que eu me lembrava do
escorpio e de Muhammad me levando para casa no colo, no? Mas eu
no me lembrava. Quando eu tinha dois ou trs anos, Muhammad
partiu de Mogadscio para morar com o pai no Kuwait.
       Mas, para mame, Muhammad estava fadado a ser o seu
salvador. Ela sempre dizia: "Quando eu ficar velha, Muhammad vai me
tirar desta vida". Ao saber da morte do filho, mame se encerrou no
quarto, e uma nuvem de escurido e tristeza envolveu a casa. Mulheres
dhulbahante chegaram para cuidar dela e cozinhar para ns, pois
mame estava prostrada. Parecia ter entrado em estado de coma, no
chorava, no gritava conosco. Ficava deitada apenas, sofrendo. Todos
os adultos nos diziam: "Pelo menos desta vez, sejam bonzinhos", e, pelo
menos daquela vez, ns fomos. Papai tambm. Ao retornar da Etipia,
foi bom como um gato domstico. Mostrou-se afetuoso com mame,
chamava-a de Asha, e lhe segurava a mo at que ela finalmente sasse
da cama.
       Abeh resolveu fazer suas reunies polticas em casa; assim podia
passar mais tempo conosco. Grupos de cinco a vinte homens
participavam dessas reunies e ficavam comendo e conversando at trs
ou quatro horas da madrugada. s vezes as esposas iam auxiliar na
cozinha, mas eram desleixadas demais para a minha me. Ela precisava
de ajuda para receber tanta gente, e agora eu j estava com quase nove
anos: idade suficiente para trabalhar.
       Havia reunies quase toda semana. Eu era obrigada a passar a
tarde toda fazendo limpeza e ajudando a preparar a comida, enquanto
Mahad, por ser menino, ficava brincando com os vizinhos, e Haweya,
por ser muito pequena para trabalhar, se dedicava a me atormentar.
Aquilo era muito ruim, mas o que eu mais detestava era lavar a loua
depois do jantar, tarde da noite, os pratos e copos sujos empilhados em
toda parte. Precisava subir em um caixote para limpar aquelas panelas
enormes; uma delas era to funda que eu podia entrar para are-la.
Lembro do quanto ficava ressentida e como tinha sono.
       Uma noite no agentei mais. Estava to cansada que empilhei
todos os pratos e os escondi na geladeira. Ento fiz uma limpeza
apressada para que a cozinha ficasse bonita. No dia seguinte, ao
amanhecer, quando o meu pai se levantou para rezar, abriu a geladeira
para pegar um copo de gua, e a pilha de pratos caiu no cho. Foi uma
barulho -- acordou toda famlia --, e minha me entrou, furiosa, no
meu quarto. Tirou-me da cama e me obrigou a lavar a loua antes de ir
ao colgio.
       Chorei, dizendo que no era justo. Meu pai se aproximou
quando eu estava terminando e disse: "No  justo, mas no foi boa
idia guardar os pratos sujos na geladeira. Bastava dizer  mame:
'Estou com sono, fao isso amanh'". Papai era bom, mas s vezes
parecia no entender a determinao da minha me em instalar
responsabilidade e obedincia em mim, sua filha mais velha.
       Um dia, em 1979, Abel chegou mais cedo e disse que amos ser
expulsos. Tnhamos vinte e quatro horas para sair do pas. Eu nunca
soube o motivo.
       Em vez de ir ao colgio, tivemos que fazer as malas enquanto
mame despejava toda sua raiva nele. "A culpa  sua", dizia. "Se voc se
importasse um pouco com a nossa famlia, isso no teria acontecido.
Voc confia seus segredos a qualquer um."
       Fomos ao aeroporto. Meu pai disse que precisvamos partir no
primeiro vo, do contrrio a polcia saudita iria nos buscar. Havia um
avio para a Etipia, mas mame se recusou a ir a um pas no
muulmano. O nico outro vo era para o Sudo. Ela passou a viagem
toda olhando com tristeza para o cu.
       Quando aterrissamos no Sudo, no nos deixaram entrar no
pas. Passamos quatro dias no aeroporto de Cartum. Por fim,
conseguimos outro vo, dessa vez para a Etipia mesmo. Era a terra
dos infiis malvados, mas no tnhamos escolha.


       4. rfos chorosos e vivas


       O primeiro lugar em que nos instalamos, na Etipia, foi um
velho casaro no centro da capital. Tinha cadeiras, o que me pareceu
bastante peculiar aps toda uma existncia me sentando no cho. O
assoalho era de madeira, forrado com um tapete persa algo intimida
dor, e havia at criadas encarregadas de cozinhar e limpar. Acho que foi
a primeira vez que vi um jardim com sebes, canteiros de flores, uma
pequena fonte e um jardineiro.
       Imagino que o imvel pertencesse ao governo e fosse usado para
hospedar dignitrios. Pois, naquele pas, meu pai era um homem
importante.   Um    carro    oficial   o   transportava   a   toda   parte.
Constantemente, realizavam-se reunies no andar trreo; homenzarres
escuros fumavam muito e discutiam aos berros, sentados nas cadeiras
douradas da suntuosa sala de jantar.
       Segundo aqueles exilados somalis, a situao da Somlia era
explosiva. O movimento de oposio de papai, a FSDS, estava atraindo
levas enormes de voluntrios. Agora as pessoas j no atravessavam a
fronteira fugindo, e sim para se preparar para a luta. Todas dispostas a
arriscar a vida para se vingar de Afwayne.
       Ainda era assim que chamavam Siad Barr, o Bocudo, a goela
enorme que oprimia o povo.
       Em 1974, uma revoluo deps o imperador etope Hail
Selassi. Um conselho de oficiais de baixa patente e soldados rasos,
conhecido como o Derg, tomou o poder; dele fazia parte o brutal
Mengistu Hail Mariam, que assumiu o governo do pas. Siad Barr
aproveitou a ocasio para invadir a regio de Ogaden, que a Etipia
reclamava para si, mas que era majoritariamente povoada por
somalifonos, o subcl ogaden dos darods. A liderana revolucionria
etope pediu ajuda aos soviticos, e estes no hesitaram em abandonar
Siad Barr e enviar reforos macios aos etopes. O exrcito somali foi
obrigado a recuar. Evidentemente, a Etipia ofereceu apoio e asilo s
foras de oposio a Siad Barr, inclusive  FSDS do meu pai.
       Em 1978, no dia em que partimos da Somlia para a Arbia
Saudita, a tentativa de golpe contra o governo de Siad Barr fora obra
de militares de origem macherten, como papai. Para puni-los, Siad
Barr mandou as foras armadas arrasarem as terras macherten. Os
soldados queimaram os vilarejos, estupraram as mulheres e destruram
os audes construdos pelos nmades para armazenar gua pluvial.
Milhares de pessoas morreram de fome e sede. O governo roubou a
propriedade macherten e deu a isso o nome de comunismo. A cada
incurso de Siad Barr, novos voluntrios atravessavam a fronteira da
Etipia a fim de integrar as foras da FSDS e se vingar.
       Na poca em que minha famlia chegou  Etipia, a FSDS era
um exrcito com base na fronteira, em um lugar chamado Dirir-dawa.
Servia-lhe de quartel-general uma manso, na periferia de Adis-Abeba,
toda cercada de altos muros eriados de cacos de vidro e arame
farpado, e com guardas ao porto.
       Abeh nos matriculou numa escola; as aulas eram dadas em
amrico. Como s sabamos falar somali e rabe, tudo voltou a ser
estrangeiro durante algum tempo. S quando aprendi a me comunicar
foi que descobri uma coisa assombrosa: minhas colegas no eram
muulmanas. Diziam-se kiristaan, crists, coisa que, na Arbia
Saudita, seria um feio insulto: significava impuras. Confusa, consultei
mame, que o confirmou. Os etopes eram kufr, palavra quase obscena.
Bebiam lcool e no se lavavam direito. Uma gente desprezvel.
       A diferena era visvel na rua. As etopes usavam saia na altura
dos joelhos e at mesmo cala comprida. Fumavam e riam em pblico,
encaravam os homens sem o menor pudor. As crianas podiam ir aonde
quisessem.
       Os etopes tambm eram muito mais pobres do que qualquer
outro povo que eu conhecia, mais pobres at que os habitantes de
Mogadscio. Famlias inteiras de leprosos -- inclusive algumas crianas,
com moscas nos olhos remelentos e nos tocos que restavam de seus
membros -- pediam-nos esmola no caminho da escola. Dava tristeza
passar por elas. Mas o pior eram os olhos assustadoramente vazios, de
um cinza leitoso, do mendigo cego. Eu estremecia quando me
aproximava daquela esquina.
       Certa vez, uma mulher que ia caminhando  nossa frente, em
uma rua de Adis-Abeba, simplesmente abriu as pernas, dobrou
ligeiramente os joelhos e urinou na sarjeta sem se dar ao trabalho de
erguer a saia comprida. Minha me contorceu o rosto de nojo. Tinha
horror da Etipia. Mas, apesar dos pedintes e da sujeira, eu adorava
aquele pas. As pessoas eram boas. Os professores no puniam muito
os alunos. Eu tinha amigos pela primeira vez. No ramos obrigadas a
usar vu nem vestido longo; podamos correr, e corremos pela primeira
vez em anos. E no me obrigavam a lavar roupa nem loua. Eu me
sentia quase livre.
       Passados alguns meses, mudamo-nos para o outro lado da
cidade, para a sede da FSDS, a manso cercada de muros altos. No me
lembro de ter recebido nenhum aviso: uma tarde, o motorista de Abel
foi nos buscar na escola e simplesmente nos levou para l. Outrora
provavelmente o imvel tinha sido um hotel de luxo, com escada de
mrmore, balaustrada e uma infinidade de corredores atapetados.
Ficamos hospedados em dois quartos, no fim de um corredor do trreo,
e tnhamos banheiro e uma quitinete.
         No comeo, o cozinheiro etope nos servia a comida da cozinha
grande. Quando meu pai estava em casa, o pobre homem era obrigado a
provar a comida na nossa frente para que tivssemos certeza de que
no estava envenenada. Podamos ir  cozinha e brincar no terreno,
mas, quando ramos surpreendidos nos escritrios, papai mandava
mame nos controlar mais.
         Ela tentava nos manter dentro de casa, mas no conseguia nos
prender durante muito tempo. No tardou para que todo imvel se
convertesse em nosso territrio de explorao. Para ns, era uma
grande aventura. Adis-Abeba verdejava com exuberncia -- l chovia
muito --, e o terreno da manso era enorme. Quando atormentvamos
muito o guarda ao porto, ele nos jogava na velha e rachada fonte de
pedra junto  entrada, to funda que no conseguamos sair de l sem
ajuda.
         Dezenas de homens de farda verde entravam e saam. Quando
estavam a caminho da fronteira, iam armados. Mas, na maioria, eram
convalescentes; retirados da frente de batalha e tendo agora recebido
alta no hospital, estavam se recuperando dos ferimentos e das
amputaes. Alguns eram simpticos e brincavam conosco na terra.
         Um par de semanas depois, mame ressuscitou o fogareiro a
carvo e passou a preparar nossa comida no ptio, perto do quarto
dela. Passavam soldados. Alguns ficavam esperando papai terminar seu
programa noturno na Rdio Kulmis; esse programa tornou sua voz
imediatamente reconhecvel para toda uma gerao de exilados somalis.
Tnhamos saraus de poesia que nos lembravam nossas razes somalis.
Minha me preparava chapatis e carne cozida com ervas, e os homens
declamavam versos de cor e elaboravam respostas adequadas. Um deles
era um grande poeta moderno, cuja obra mame sabia de cor, Khalif
Sheikh Mohamoud.
         Talvez queira o Senhor que os macherten sejam consumidos
como mel. Tal como as frutas silvestres da plancie de Do'aan,
devorados tm sido os macherten.
        Ensanham-se os famlicos por morder a carne inerte dos
cadveres. rfos chorosos e vivas so saqueados e despojados de
seus rebanhos. Os seres humanos tm de aceitar que so mortais, pois
assim decretou Al. Porm difcil  tolerar o regozijo do opressor ante os
corpos espalhados...
        Em somali, as rimas soavam como um lamento; eram per-
turbadoramente tristes. Depois dessas noitadas, mame melhorava
perceptivelmente. Contava-nos histrias de sua infncia: assistia s
competies dos grandes poetas junto  fogueira no deserto, a
declamarem cada vez com mais veemncia at que todos admitiam que
acabava de surgir um poeta verdadeiramente grande.
        Entretanto, na Etipia muitos daqueles recitadores aleijados e
feridos sabiam que no eram grandes poetas e sentiam que a vida
estava acabada. Todos eles exalavam fracasso, s vezes no bem lavado,
com um rano de fumaa de cigarro, noites de insnia e amargura. A
atmosfera era sempre densa de murmrios. Todo mundo se queixava de
Abdellahi Yusuf, o chefe da FSDS. Diziam que ele protegia os seus
favoritos, reservando os altos cargos exclusivamente aos parentes de
seu subcl. Quase todos os homens que no eram macherten estavam
se afastando por causa de Abdellahi Yusuf. Os que ficavam falavam mal
dele.
        Abdellahi Yusuf era ornar mahamud. A minha me dizia que os
ornar mahamud sempre se achavam no direito de mandar, mas
punham tudo a perder. Claro, ela era casada com um osman
mahamud, s podia pensar assim. Para os somalis, a principal
referncia era a famlia: os osman, mahamud eram arrogantes. Os
dhulbahante, inflexveis. Os isaq, mascadores de qat.
        Assim funcionava a coisa. Eu era uma osman mahamud porque,
treze geraes antes, tive um ancestral chamado Mahamud, cujo filho
se chamava Osman. Alis, Mahamud tivera trs filhos -- talvez mais,
porm trs foram poderosos a ponto de fundar subcls. Osman, o irmo
mais velho, era um guerreiro natural, nascido para comandar, motivo
pelo qual os Oman Mahad se mostravam to arrogantes -- atribuam-se
o direito inato de governar. Isse, o caula, era pastor e poeta, e os isse
Mahad, como a minha av paterna, continuavam dedicados a essas
atividades. Ornar, o filho do meio, era um eterno insatisfeito, motivo
pelo qual os omar Mahad nunca faziam nada bem-feito.
       Era o que diziam os boatos. Como a logstica da FSDS estava em
mos erradas, faltavam armas. A munio no chegava a tempo. Muitos
conhecidos nossos morriam: soldados simpticos, que tinham brincado
conosco uma semana antes, sacrificavam-se inutilmente. Centenas
perdiam a vida ou ficavam mutilados nos massacres. Essas eram as
conversas que mame escutava quando estava cozinhando. Meu pai
sempre dava  luta uma feio herica; mas, para ela, que tudo
escutava, a realidade no passava disso, morte e mutilao; o sonho de
uma Somlia independente, livre, rua miseravelmente ante seus olhos.
       No havia mulheres somalis naquela manso. Ns ramos as
nicas crianas. Todos os demais comandantes do exrcito de exilados
mantinham a famlia no Qunia, mil e cem quilmetros ao sul, onde
vivia uma comunidade enorme de somalis. De modo que mame
precisava nos criar cercados de homens. Isso lhe era detestvel.
       Alguns achavam que ela tinha obrigao de fazer ch para eles.
Muitos mascavam qat e depois largavam os talos mastigados no cho.
Uma vez, mame surpreendeu a Haweya e a mim com umas xcaras
vazias, fazendo de conta que estvamos tomando ch, agitando pontas
de cigarro no ar e mascando folhas velhas de qat. Isso a enfureceu. "No
 possvel criar meninas em um lugar como este!" gritou ao meu pai.
"Voc pensa que elas vo ser crianas a vida inteira? Como criar duas
meninas em um quartel, cercadas de homens? O que voc est fazendo
com a sua famlia?"
       Minha irm e eu achvamos uma pena desperdiar com brigas o
pouco tempo que passvamos com abeh. Eu detestava quando meus
pais discutiam. Muito embora nunca tenha, que eu saiba, levantado a
mo para a minha me, meu pai era capaz de ficar muito zangado. Uma
tarde, vimos uma ambulncia chegar, e papai irrompeu no nosso
quarto, furioso. Contou-nos que um homem tentara agredi-lo, durante
uma discusso, e ele o havia derrubado, quebrando-lhe a perna.
         Minha me engravidou. Perdeu o beb, um menino nati-morto.
Passou     vrias    semanas      internada     e     voltou    calada,   amarga,
imprevisivelmente hostil.
         Depois de cerca de um ano na Etipia, abeh enfim se convenceu
de que minha me tinha razo: precisvamos conviver com outras
famlias. E resolveu nos transferir para o Qunia, onde se achava a
maioria das famlias dos demais exilados. Mame no queria ir para l;
queria mudar para um pas muulmano. O Qunia tambm era um pas
infiel. Mas cabia a papai decidir.
         Foi assim que, ao completar dez anos, eu j tinha vivencia-do
trs   sistemas     polticos   diferentes,   todos    eles    um   fracasso.   Em
Mogadscio, o Estado policial impunha ao povo a fome mediante o
racionamento e a obedincia por meio de bombardeios. A lei islmica da
Arbia Saudita tratava a metade dos cidados como animais, sem
direitos nem recursos, dispondo das mulheres sem o menor respeito. E
o antigo regime somali de cls, que salvava aqueles que precisavam de
refgio,   degringolou     facilmente    em    desconfiana,        conspirao   e
vingana. Nos anos seguintes, a guerra dos cls se aguaria,
fragmentando e, por fim, destruindo toda Somlia em uma das guerras
civis mais ferozes da frica. Claro, no era isso que eu via.


         5. Encontro secreto, sexo e cheiro de sukumawiki


         Partimos para Nairbi em julho de 1980. Minha me abominou a
idia; no s porque os quenianos eram to infiis quanto os etopes,
mas porque tinham aparncia diferente da nossa. Para ela, os
quenianos mal chegavam a ser humanos, eram imundos e iam nos
transmitir doenas horrveis. Alm disso, praticavam o canibalismo.
Mame os chamava de abid, que significava escravo, e de dhagah,
pedra, e de gaalo, outro sinnimo chulo de infiel. Minha av, que era
capaz de se orientar no deserto pelo cheiro da chuva fresca; cujas
narinas detectavam se uma mulher estava grvida ou no; que farejava
o ar e virava o rosto, enojada, dizendo que fulana estava no cio -- a
minha av dizia que os quenianos fediam. Durante os dez anos que
viveram no Qunia, as duas os trataram quase exatamente como os
sauditas haviam nos tratado.
       No entanto, papai escolheu o Qunia porque era prtico, um
pas relativamente rico naquela poca remota; diziam que era o lugar
mais seguro da frica. No Qunia, ele tinha status oficial de exilado:
podamos estudar e receber auxlio financeiro do Alto Comissariado das
Naes Unidas para Refugiados. Papai tambm sabia que, durante uma
parte do ano, podia nos deixar aos cuidados dos membros importantes
do cl osman mahamud. L moravam muitos que, embora preferissem
no participar diretamente da luta, contribuam com dinheiro e
protegiam as famlias dos combatentes.
       Abeh queria conviver conosco o mximo possvel; pelo menos era
o que dizia. Mas mame no queria morar sozinha no estrangeiro. No
queria viver da caridade e da bondade dos maridos de outras mulheres.
Sentia que meu pai j tinha dado muito da sua vida e do seu dinheiro 
FSDS. E chegou a dizer que a PSDS no diferia em nada de Afwayne.
era corrupta, inepta e estava carcomida pelas picuinhas de cl. J que
amos morar em Nair-bi, ele que tratasse de ficar conosco e de nos
sustentar. Talvez pudesse montar um negcio prprio, para variar, e as
famlias dos demais combatentes viveriam da nossa caridade.
       Para abeh, a idia de renunciar  luta contra Siad Barr era um
antema. O que mais lhe importava era o destino da Somlia como
nao livre. Nunca na vida, dizia mame, ele pusera a famlia em
primeiro lugar.
       Inicialmente, ficamos instalados em um hotel dirigido por
somalis em Eastleigh, o bairro populoso, barulhento, em que morava a
maioria dos nossos compatriotas radicados em Nairbi. Depois achamos
um apartamento perto de Juja Road, vizinho de Eastleigh, onde havia
menos somalis. A principal diferena entre Eastleigh e Juja Road estava
no cheiro. Eastleigh era impregnado de odores familiares para ns:
deliciosos   pratos   condimentados     com      coentro   e   gengibre,   ch
aromatizado com cardamomo e cravo; as mulheres que passavam com o
dirha, o vaporoso vestido somali, deixavam um rastro de incenso e
perfume forte. De vez em quando, o fedor repugnante do esgoto a cu
aberto subia para se misturar com aquelas doces fragrncias.
       Em    compensao,    o     bairro   de   Juja   Road   era   habitado
principalmente por quenianos nativos, que comiam ugali, farinha de
milho cozida at se transformar em um bolo duro, com sukuma-wiki, as
folhas verdes e grandes de uma planta parecida com a couve, as quais,
depois de picadas, passavam horas e horas no fogo. O diabo era que o
sukwnawiki tinha um cheiro penetrante, horrvel, que infestava o bairro
todo, desde o final da manh at tarde da noite.
       Nosso apartamento ficava no terceiro andar de um prdio novo,
porcamente construdo, bem em frente a um terreno baldio. Vov
comprou uma ovelha no mercado e a ensinou a subir e descer a escada.
Levava-a para pastar no terreno baldio e a prendia no banheiro durante
a noite. Era um verdadeiro animal de estimao; nunca tivemos
coragem de com-la. Sua presena fazia minha av se sentir menos
deslocada, cuidar dela era uma atividade que lhe era familiar.
       Papai nos matriculou em um colgio de lngua inglesa. Pouco
depois, mame lhe comunicou friamente que lugar de meninas era
dentro de casa, onde estavam mais seguras e mais bem cuidadas do
que em uma escola gaalo, na companhia dos infiis daquele pas
imundo em que ele as havia instalado. Dessa vez abeh explodiu.
Respondeu, aos berros, que lanaria a mais infernal das maldies se
ela se atrevesse a nos tirar do colgio sem a sua autorizao. E, poucos
dias depois, retornou  Etipia.
       Foi ele quem nos levou no primeiro dia de aula. Cada um de ns
tinha um uniforme diferente; o meu era um avental cinzento com uma
blusa branca por baixo e um suter tambm cinzento. Uma vez mais, a
escola era um lugar totalmente estranho. Ainda que as aulas fossem em
ingls, no ptio se falava exclusivamente suali. E eu, para variar, no
falava nem uma lngua nem outra. As primeiras semanas foram um
pesadelo de solido e agresses, mas no contei nada a mame. Temia
que ela nos tirasse de l e, mais do que tudo, queria ficar com outras
crianas, bem longe de casa.
       Mas a hostilidade diminuiu  medida que fui aprendendo a falar
suali. Haweya sofreu muito mais do que eu com as agresses. Fechava-
se e se tornava mais feroz com as provocaes constantes. Voltava para
casa machucada e zangada. Para mim, a adaptao foi mais fcil; eu
simplesmente tentava ser to invisvel quanto possvel.
       A Escola Primria de Juja Road era evidentemente calcada no
ensino colonial britnico. Toda manh, ns nos reunamos para saudar
a bandeira e cantar o hino nacional queniano em vez do Deus salve a
rainha. As inspetoras nos examinavam as unhas e o uniforme. As lies
eram difceis, e, quando no as entendamos, tnhamos que ficar
ajoelhados l fora, no sol. Nunca lhes ocorria chamar o aluno de lado
para esclarecer uma dvida. Ao menor erro, a sra. Nziani, a professora
de matemtica, nos batia com um tubo de plstico que ela chamava de
"minha mamba preta". Fui castigada muitas vezes, vivia com as mos
inchadas. Por fim, percebi que podia pegar algumas das cordas que
vov tecia com o mato alto do terreno em frente  nossa casa e negoci-
las com uma garota chamada Angela, que adorava pular corda; em
troca, ela me deixava copiar a lio de casa.
       Os nmeros sempre foram um mistrio para mim. Eu era
pssima aluna. S em Nairbi, aos dez anos de idade, descobri como se
media o tempo: minutos, horas, anos. Na Arbia Saudita, o calendrio
era islmico, baseado no ms lunar; a Etipia conservava o antigo
calendrio solar. Estvamos em 1399 na Arbia Saudita, em 1972 na
Etipia e em 1980 no Qunia e no restante do mundo. Na Etipia at o
relgio era diferente: o amanhecer era chamado de uma hora; e o meio-
dia, de seis. (Mesmo no Qunia, usavam-se dois modos de contar as
horas, o britnico e o suali.) Os meses, os dias -- tudo se concebia de
maneira diferente. Foi na Escola Primria de Juja Road que comecei a
imaginar o que as pessoas queriam dizer quando se referiam a datas e
horas precisas. Vov nunca as aprendeu. Passou a vida dizendo que
meio-dia era quando as sombras ficavam curtas, e contava a idade
pelas estaes chuvosas. E se dava perfeitamente bem com esse
sistema.
       Quando aprendi a ler em ingls, descobri a biblioteca da escola.
Os alunos bem-comportados podiam levar livros para casa. Lembro dos
Contos mais queridos dos irmos Grimm e de uma coleo de Hans
Christian Andersen. O que mais me seduzia eram as brochuras que as
meninas passavam umas para as outras. Haweya e eu devorvamos
aqueles livros nos cantos, e os escondamos atrs dos compndios, e os
lamos em uma noite. Comeamos com as aventuras de Nancy Drew,
histrias de valentia e independncia. Havia Enid Blyton, com seus sete
detetives e os famosos contos de liberdade, de aventura e igualdade
entre meninas e meninos, de confiana e amizade. No se comparavam
com as ridas histrias de cl que a minha av contava, com mensagem
de perigo e desconfiana. Eram narrativas divertidas, pareciam reais e
me diziam coisas que as antigas lendas jamais disseram.
       s vezes, depois da aula, Havveya e eu amos escondidas  praa
Juja Road, onde uma loja indiana vendia sorvete, cadernos de exerccio,
canetas esferogrficas e pan, um doce condimentado de coco que nos
deixava com os lbios vermelhos. Mas geralmente mame nos prendia
em casa. Ela e vov no se conformavam em nos deixar freqentar a
escola. No confiavam nos quenianos para nos ensinarem o que quer
que fosse; rejeitavam o pas nos mnimos detalhes. Mas Haweya e eu
ramos duas esponjas vidas por absorver tudo que nos rodeava.
       Certa ocasio, contei a mame que o homem tinha pisado na
Lua. Ela disse que aquilo era absurdo. "Os kiristaan sonham tanto que
so capazes de levar um avio a uma montanha e pensar que esto na
Lua", argumentou. No dia em que cheguei da escola afirmando que o
ser humano descendia do macaco, ela se escandalizou: "Agora acabou,
no pago mais a mensalidade. Pode ser que os quenianos descendam do
macaco. Os muulmanos no".
        Mas no nos tirou da escola. Meu pai ameaara amaldio-la, e,
uma vez que ela j tinha fugido de um marido, no queria tornar a se
arriscar ao castigo eterno.
        Quando abeh voltou da Etipia, os dois no fizeram seno
brigar. Mame tentou envolver o cl, na esperana de que algum amigo
o convencesse a cuidar mais da mulher e dos filhos; mas  claro que
homem nenhum se atrevia a interferir nas decises particulares de Hirsi
Magan. Mame parou de comer e adoeceu, vivia gemendo e anunciando
que ia morrer. Papai a levou ao hospital. Diagnosticaram anemia e lhe
prescreveram vitaminas.
        Depois de vrios meses, abeh encontrou um lugar maior e mais
bonito para morar, uma casa em Racecourse Road, em um bairro
chamado Kariokor. Mas mame no queria ficar no Qunia; queria que
voltssemos para Meca.
        No sei qual foi o motivo da sua ltima briga, mas ouvi o fim
dela. Papai estava uma vez mais a caminho do aeroporto. Mame lhe
disse: "Se voc for, no precisa voltar mais".
        Ele no voltou -- durante muito tempo.
        Mudamos para a casa nova de Kariokor sem abeh. No comeo,
ele s vezes telefonava para o apartamento de Jinni Boqor, ali perto.
Jinni   Boqor   era   um      negociante   osman   mahamud   que   ficara
encarregado de cuidar de ns. Mandava nos avisar que papai tinha
telefonado e voltaria a faz-lo dali a uma hora, ento corramos para l,
um a gritar com o outro na sala de visitas do homem. Abeh nos escrevia
cartas no floreado alfabeto osmaniya, que ele adorava, mas j no
sabamos mais ler osmaniya. Criei coragem de lhe escrever em ingls e
contar que no entendamos aquela escrita. Depois disso, suas cartas
foram ficando cada vez mais raras. E cessaram de chegar.
        Foi um perodo horrvel. Todo ms, mame ia ao escritrio de
Dayib Haji receber os trs mil. No comeo, era um dinheiro; depois a
inflao o reduziu a quase nada. Todo ms chegava um caminho do
armazm de outro negociante somali, Farah Gou-r, com sacos de
farinha, arroz e leo. O cl a sustentava, mas ela vivia completamente
s.
       Mame no nos contou que papai no ia voltar, mas, quando eu
acordava durante a noite, sempre a ouvia chorar. Numa ocasio, fui at
l e pus a mo no seu rosto. Ela se ps a gritar que eu a espionava,
bateu em mim e me mandou voltar para a cama. Depois disso, eu me
acocorava junto  porta de seu quarto, escutando, desejando achar um
jeito de mitigar o seu sofrimento.
       Com o passar dos anos, todos ns desistimos de fingir que papai
ia retornar.
       Em apenas um ano em Nairbi, Mahad conseguiu vaga em um
dos melhores cursos secundrios do Qunia. O Centro Starehe de
Rapazes, um estabelecimento excelente, dava anualmente algumas
bolsas de estudo a meninos de rua e a crianas cujos pais no tinham
condies de pagar a mensalidade. Admitiam-se duzentos alunos por
ano. Mahad foi aceito porque, com apenas um ano de contato com a
lngua inglesa, se classificou entre os dez melhores no exame nacional
queniano. Pelo menos dessa vez, ao receber a notcia, minha me ficou
genuinamente radiante. Para se exibir, bastava a Mahad percorrer o
bairro trajando o uniforme, e ns nos apressvamos a acompanh-lo,
cheias de orgulho. Todas as crianas da rua queriam entrar no Starehe,
mas nenhuma conseguiu.
       O diretor Griffin era a encarnao da autoridade benevolente; e
seu colgio, um paraso com quadras de esporte e biblioteca. Mahad,
porm, tinha muita dificuldade para sair da cama, de modo que, a fim
de disciplin-lo, o sr. Griffin resolveu aceit-lo como interno. Durante
algum tempo, estabeleceu-se uma trgua entre ns. Mahad voltava
somente nos fins de semana, o que era timo para mim, assim ele no
me atormentava tanto.
       Quando completei catorze anos, mame me matriculou no
Colgio Secundrio de Meninas Muulmanas de Park Road. Este no
era um bairro abastado, e a escola, branca e limpa, destacava-se com
seu enorme porto de metal e o relvado muito bem cuidado, no qual ns
alunas estvamos proibidas de pisar. No primeiro dia, uma garota
somali me abordou e se apresentou; disse que se chamava Amina. Por
brincadeira e desejando achar uma protetora no ambiente novo, menti
que aquele tambm era o meu nome. Nos quatro anos seguintes, todos
no colgio me chamavam de Amina: Amina Hirsi Magan.
       Fiz amizade com outra menina, Halwa, uma iemenita que
morava perto de casa. A me e a tia de Halwa tinham nove filhos cada
uma e moravam em casas vizinhas. Comecei a passar as tardes l. Era
como uma aldeia minscula com muitas parentas entrando e saindo.
Vrias dessas parentas ficavam semanas ou meses; com freqncia,
chegava uma me do vilarejo da famlia de Halwa, na remota regio de
Hadramut, para casar uma filha ou simplesmente fazer uma visita.
Tornei a ver a estranha, autoritria e feroz interao entre a gente do
miy chegando ao ma-galo -- visitantes rurais do mundo antigo, com
seus   costumes   arcaicos,   subitamente   aglomerados   no   ambiente
moderno do pessoal da cidade, como a me e a tia de Halwa.
       Esta no podia se afastar da me a no ser para ir ao colgio,
mas, dentro de casa, tinha liberdade de fazer o que bem entendesse. Ela
no se ocupava do trabalho domstico: sobravam mulheres para isso.
No tinha hora para dormir. Trocvamos a lio de casa -- eu estava
ficando boa em ingls, Halwa era tima em matemtica -- e assistamos
muito  televiso. A me dela me convidava para os piqueniques no
Arboretum, o jardim botnico. Sempre que podia, eu ia  sua casa.
       Na volta, no fim da tarde, s vezes cruzava com bandos de
meninos de rua a caminho do centro da cidade antes que escurecesse.
Extremamente maltrapilhos e sujos, os mais velhos iam arrastando ou
carregando os menores, ainda mais remelentos. Andavam em grupos
que s vezes chegavam a vrias dezenas; talvez se sentissem mais
seguros assim.
       Essas crianas viviam dos monturos como o que havia no fim da
nossa rua. Exalavam um cheiro asqueroso de comida podre e rato
morto. s vezes, eu parava para v-las catando comida e coisas para
vender. Protegiam-se da chuva com sacos plsticos e cheiravam graxa
de sapato em sacos de papel at ficarem com o rosto coberto por uma
camada preta. Pensar na vida daqueles garotos me deixava triste e, ao
mesmo tempo, incrivelmente feliz. Eu tinha um teto e a minha me e,
quando chegava em casa, sempre encontrava o que comer. Em
comparao com aqueles meninos, no podia me queixar de nada.
       No entanto, a atmosfera em casa continuava carregada de
exprobao.   Minha   av   se    acocorava    sinistramente   na   cama,
desgraada no nosso novo ambiente. Insistia muito em apontar a
origem do nosso sofrimento: a maldio lanada muito tempo antes, em
den, no dia em que mame abandonara o primeiro marido. Isso s
servia para aumentar o mau humor da minha me. Ela passou a ter
sbitos acessos de raiva indiscriminada. Quebrava mveis e pratos.
Chegou a destruir dois fogareiros porque no acendiam. Se antes era
indiferente e ocasionalmente gentil, passou a nos surrar pelas mnimas
travessuras, a nos puxar o cabelo, a nos espancar at no poder erguer
a mo. Era tirnica, insensata; jogava na nossa cara, aos berros, toda
uma existncia de frustrao.
       Eu sabia que no se tratava de dio por ns, e sim de muita
infelicidade; e tinha pena dela. Fora abandonada em um pas que
desprezava, com trs filhos para criar e sem um homem que a
amparasse. Seu dia-a-dia nada tinha em comum com a vida a que ela
aspirava e achava que merecia. Mame se sentia vtima. Outrora, havia
plasmado seu futuro e tomado decises -- partira da Somlia para
den, divorciara-se do primeiro marido e escolhera o meu pai --, mas,
ao que tudo indicava, em algum ponto perdera a esperana.
       Muitas somalis na mesma situao teriam ido trabalhar,
assumiriam o controle da prpria vida, mas ela, tendo assimilado a
postura rabe, segundo a qual uma mulher devota no trabalha fora de
casa, no achava aquilo adequado. Nunca lhe ocorreu sair e inventar
uma outra existncia para si, muito embora no tivesse mais que trinta
e cinco ou quarenta anos quando papai se foi. Pelo contrrio,
permaneceu    completamente      dependente.   Cultivava   rancores;   era
ressentida; muitas vezes chegava a ser violenta; e vivia eternamente
deprimida.
       Embora meu novo colgio se chamasse Meninas Muulmanas,
muitas alunas professavam outras religies. Quase a metade da turma
era queniana, a maioria crist, embora os quicuios tambm tivessem
outro deus pago. Os quenianos se dividiam em tribos que nada tinham
a ver com os cls da Somlia. As tribos eram diferentes entre si no
aspecto fsico, falavam lnguas distintas, tinham crenas prprias, ao
passo que todos os cls somalis falavam o mesmo idioma e acreditavam
no isl.
       Mesmo assim, havia semelhanas. Os quicuios consideravam-se
guerreiros; por terem lutado pela independncia, estavam convencidos
de que sua tribo tinha o direito de governar. Os cambas ganhavam
muito dinheiro -- dedicavam-se ao comrcio --, mas minhas colegas
diziam que eles eram sovinas como o diabo; elas at tinham um
provrbio: "Quem casa com um camba morre de fome". Os luos se
supunham mais inteligentes do que os demais e, de fato, eram muito
aplicados e sempre iam bem na escola.
       No curso primrio, quase todas as minhas colegas eram
quenianas, de modo que eu estava mais ou menos habituada quelas
diferenas. Para mim, a novidade no Colgio de Meninas Muulmanas
era o fato de a metade das alunas ser da pennsula Arbica e do sul da
sia. Tambm no caso delas, os grupos tnicos eram claramente
diferenciados e divididos segundo linhas de classe e tribo. Os indianos
tinham um sistema complicadssimo de classes sociais, todas elas
infiis aos olhos muulmanos. Os paquistaneses, embora maometanos,
tambm se dividiam em castas. As garotas intocveis, tanto as indianas
quanto as paquistanesas, tinham tez mais escura. As demais no
brincavam com elas justamente por isso, por serem intocveis.
Achvamos graa nessa tolice -- pois era bvio que podamos toc-las:
ns as tocamos, esto vendo? --, mas tambm ficvamos horrorizadas
quando nos imaginvamos uma intocvel, um ser desprezvel para a
raa humana.
       Os somalis se dividiam em cls e subcls, mas tambm havia
novas distines entre os exilados recentes, parentes dos guerreiros, e
os imigrantes mais antigos, que tinham sido criados no Qunia e mal
entendiam o idioma do nosso pas. Algumas meninas rabes tinham
cls como os nossos. Uma iemenita chamada Sharif era superior a uma
que se chamasse Zubaydi. Em todo caso, as rabes se consideravam
superiores a todas ns: tinham nascido mais perto do profeta Maom.
       No ptio do colgio, as somalis se davam bem com as iemenitas;
as indianas, com as paquistanesas. As iemenitas, as somalis, as
indianas e as paquistanesas brincavam e interagiam umas com as
outras, mas, na hierarquia do Colgio Secundrio de Meninas
Muulmanas, as quenianas eram inferiores.
       Essa rigorosa fragmentao do corpo discente se estendia
inclusive s nossas lancheiras. Na hora do recreio, ns nos sentvamos
no jardim da escola, que parecia um parque arborizado e com bancos.
O canto das paquistanesas e indianas cheirava a caril e a bhajias. A
comida das iemenitas e somalis tinha o aroma do coentro e do gengibre.
As quenianas levavam ugalie o comiam com sukumawiki, o prato de
odor mais forte de todos.
       Quando tnhamos dinheiro, a lancheira ficava fechada porque
preferamos comprar o peixe e as chips servidos em um jornal na
cantina do colgio. s vezes comprvamos caave com pimenta e limo
ou as mangas verdes que vendiam  porta da escola. Era uma cena
estranha: todas as meninas pagando atravs das grades do porto
trancado e a gorda queniana do outro lado, aturando a nossa gritaria e
servindo cada uma com um sorriso.
       Minha me ficava horrorizada com nosso contato com aquelas
garotas. Para ela, o pior de tudo era, talvez, o espectro das crianas
somalis que haviam perdido o idioma e s falavam o hbrido suali
queniano. Mame tinha pelas palavras o amor tpico do seu cl. Fazia
questo de que falssemos um somali perfeito em casa e, ao menor
deslize, zombava impiedosamente de ns. Comeou a nos ensinar
poesia de cor, antigos cantos de guerra e morte, de incurses, pastoreio,
verdes pastagens, enormes rebanhos de camelos.
       Quase no havia romantismo na poesia somali. Nem mesmo os
poemas femininos, menos importantes, mencionavam o amor. Este era
considerado sinnimo de desejo; e o desejo sexual, encarado como coisa
vil -- literalmente abominvel. Para Haweya e para mim, aqueles
poemas careciam do poder sedutor das histrias que as nossas colegas
nos ensinavam.
       No Meninas Muulmanas, a sra. Kataka, uma bonita professora
luo, dava aula de literatura. Lemos 1984; As aventuras de Huckleberry
Finn; Os 39 degraus. Depois lemos tradues inglesas de romances
russos, com seus estranhos patronmicos e suas paisagens nevadas.
Imaginvamos as charnecas inglesas do Morro dos ventos uivantes e a
luta pela igualdade racial na frica do Sul de Chora, terra bem-amada.
E todo um universo de idias ocidentais comeou a ganhar forma.
       Haweya e eu lamos sem parar. Mahad tambm gostava de ler;
quando lhe fazamos algum favor, passava-nos os suspenses de Robert
Ludlum que os amigos lhe emprestavam. Mais tarde, apareceram livros
bem picantes: O vale das bonecas, Barbara Cartland, Danielle Steel.
Todos eles, mesmo os piores, transmitiam idias -- as raas eram
iguais; as mulheres, iguais aos homens -- e conceitos de liberdade, luta
e aventura absolutamente novos para mim. At os nossos manuais
comuns e correntes de biologia e cincia pareciam conter uma narrativa
poderosa: a gente adquiria conhecimento e queria crescer.
       Mame passou a exigir que eu me encarregasse de todo trabalho
domstico depois do colgio. No comeo, ns trs dividamos as tarefas,
porm Mahad rosnava quando ela o mandava arrumar seu quarto, e
Haweya simplesmente se recusava. Era a minha funo, afinal: a sina
da filha mais velha.
       Eu tinha que lavar o cho; a roupa -- mesmo as meias
encardidas de Mahad -- precisava ser esfregada com perfeio e
pendurada no varal. Cabia-me acompanhar mame em suas errticas
diligncias e bancar a intrprete: quando ela ia ao mdico por causa de
enxaqueca, de psorase, de uma misteriosa dor no tero, ou quando
precisava pagar a conta de luz ou ir buscar a correspondncia. E
sempre amos a p, pois ela dizia que os barulhentos nibus quenianos
fediam e, alm disso, nunca sabia qual deles tomar.
       Haweya tinha pena de mim. Costumava dizer: "Recuse-se". Mas
eu   no   conseguia   --   no   era   como   a   minha   irm.   Quando
desobedecamos, apanhvamos. Mame me pegava, me puxava o
cabelo, atava minhas mos s costas com uma corda e me punha de
bruos no cho. Prendia minhas mos aos tornozelos e ento, armada
de uma vara ou de um fio, me surrava at que eu pedisse misericrdia e
jurasse nunca mais fazer aquilo. A dor daquelas surras era insuportvel
e, tanto quanto posso me lembrar, inocularam em mim um senso de
responsabilidade. Eu precisava ajud-la.
       As outras crianas tambm eram castigadas. Todas as que eu
conhecia apanhavam dos pais de vez em quando. Mas nenhuma ficava
amarrada e nenhuma era surrada toda semana, como s vezes
acontecia comigo. Mame me punia com muito mais freqncia do que
punia Mahad. Mas Haweya era a mais castigada de ns. No entanto,
parecia imune  dor. Levava as piores tun-das de que a minha me era
capaz, mas se negava a ceder. Simplesmente no fazia o trabalho
domstico -- limpar, lavar  mo a roupa e os lenis e torc-los e
pendur-los no varal. Haweya no fazia seno gritar e gritar, um feixe
de fria duas vezes mais forte do que mame. Com o tempo, tornou-se
perigoso bater nela.
       Tnhamos avaliaes peridicas. As de Haweya e as de Mahad
eram timas, mas, quando mame recebia as minhas notas, sempre
dizia: "Tenho trs filhos, mas uma me saiu retardada". Que injustia.
Sem dvida, eu era mais lerda do que os meus irmos, mas tinha tanto
trabalho em casa que no tinha tempo para estudar. Em todo caso,
sabia que, se me queixasse, a minha me era capaz de me tirar da
escola. Agora Mahad era o homem da casa. Curiosamente, acho que ele
sentia alvio quando papai se ausentava. Abeh reprovava a sua preguia
e o seu costume de nos atormentar e tiranizar. Quando nos
recusvamos a fazer sua vontade, ele nos machucava tanto que at a
destemida Haweya achava melhor obedecer. Mame nunca interferia; se
havia uma coisa que ela estimulava, era a autoridade do meu irmo.
       Mahad estava com quinze anos e, sendo menino, no precisava
obedecer  minha me como ns. Saa do Starehe nas tardes de sexta-
feira, e s vezes s aparecia em casa muito depois do anoitecer. Tinha
descoberto o encanto das ruas. Quando mame se punha a gritar, ele
simplesmente no fazia caso. Quando o surrava, Mahad saa. Quando
mame comprou um cadeado, ele passou a pular a cerca alta e fugir.
Untava o cabelo de gel at ficar parecido com Lionel Ritchie. Escutava
Michael Jackson em um gravador velhssimo que conseguira no sei
onde; minha me chamava aquilo de "msica do diabo" e acabou
jogando a fita pela janela. Mahad ficava nas esquinas com os
rapazinhos quenianos e voltava para casa cheirando a cigarro e colnia.
       Nessas noites, mame me arrastava pelo bairro  procura dele.
Embora se queixasse muito do fedor sufocante de sukumawiki e
cerveja, ns amos de casa em casa. Os pais dos amigos quenianos de
Mahad ostentavam grandes canecos de cerveja na mesa e sempre
ofereciam um trago  minha me. Ela respondia, indignada: "Eu sou
muulmana!", e fazia verdadeiros sermes. Os joviais pais quenianos
achavam graa naquilo e aconselhavam: "Deixe o garoto se divertir, ele
sabe o que faz". Mame virava as costas e ia embora, e eu morria de
vergonha da sua rudeza.
       Aos catorze anos, fiquei menstruada sem nem mesmo saber que
a menstruao existia. No tinha irm mais velha, e a minha me
jamais discutia alguma coisa que tivesse relao com sexo. Em uma
aula, quando eu tinha doze anos, todas ns meninas fomos instrudas
para, ao chegar em casa, perguntar aos pais qual era o significado da
Lua. Provavelmente, Lua era sinnimo de menstruao para alguma
tribo queniana, e quem fizesse essa pergunta em casa certamente
obteria uma explicao. Mas, quando falei nisso com mame e
perguntei o significado de Lua, ela apontou para o cu, dizendo: "L
est ela, e, se os escravos nem disso sabem, para que continuar indo 
escola deles?".
       Fiquei perplexa. No dia seguinte, o professor, que era homem,
escreveu um punhado de diagramas e algumas palavras na lousa, e
muita gente comeou a rir. Talvez menstruao fosse uma das palavras,
mas no sei dizer. No tinha a mais vaga idia do que era aquilo.
       Dois anos depois desse episdio, numa quinta-feira, acordei com
sangue escorrendo pelas pernas. No estava machucada e no entendia
o porqu de tanto sangue. Aquilo continuou o dia todo, chegou a
ensopar a minha calcinha, e eu no tinha tantas calcinhas assim; por
isso as lavei e as escondi atrs da caldeira para secar. No dia seguinte,
continuei sangrando, sendo que agora havia quatro ou cinco calcinhas
escondidas atrs da caldeira, e a que eu levava no corpo j estava
molhada. Fiquei preocupada -- talvez houvesse um corte dentro da
minha barriga, talvez eu fosse morrer --, mas no contei nada a
mame. Tinha certeza de que o que estava acontecendo era vergonhoso,
embora no soubesse por qu.
       Ento Haweya, que costumava fuar e espionar tudo, achou o
esconderijo das calcinhas manchadas. E correu para a sala agitando-as
no ar. Minha me soltou um berro: "Sua prostituta imunda! Voc h de
ficar estril! Tomara que pegue cncer!". E comeou a me esmurrar. Eu
me refugiei no banheiro que dividia com a minha irm.
       Ento Mahad entrou. Sempre lhe serei grata pelo que ele me
disse: "Escute, Ayaan, isso  normal. Vai acontecer todo ms.  porque
voc  mulher e pode engravidar". Deu-me dez xelins. "Esse  todo
dinheiro que tenho, mas, se voc for  mercearia, d para comprar trs
pacotes de Stayfree.  uma espcie de gaze absorvente que voc pe na
calcinha para colher o sangue."
       Perguntei: "Quando foi que voc teve isso, e onde est o seu
Stayfree?". Ele explicou: "Isso no acontece comigo porque sou homem".
Foi a primeira vez em anos que Mahad se comportou como um amigo e
confidente, no como um tirano.
       Alguns dias depois, minha me se acalmou; talvez vov a tivesse
tranqilizado. Sentou-se ao meu lado e disse que aquele era o meu
fardo de mulher e que, dali por diante, eu devia aproveitar o pano velho
para costurar toalhinhas e lav-las bem. No fiz caso; tinha o meu
Stayfree.
       Nunca mais se tocou nesse assunto. L em casa, qualquer
referncia ao que a gente tinha entre as pernas era tabu. Eu sabia o que
devia saber de sexo, e a minha me sabia que eu sabia. Eu era uma
somali, portanto, a minha sexualidade pertencia ao proprietrio da
minha famlia: ao meu pai ou aos meus tios. Era absolutamente bvio
que precisava chegar virgem ao casamento, caso contrrio, mancharia a
honra do meu pai e de todo o cl -- os tios, os irmos, os primos
homens -- para sempre e irremediavelmente. Meu sexo tinha sido
costurado para evitar isso. S o meu marido o romperia. No me lembro
de minha me me contar nada disso, mas eu sabia.
       Nos meses que se seguiram  minha primeira menstruao,
procurei me informar. Li todo captulo sobre reproduo humana no
livro de biologia que a sra. Karim tivera o cuidado de omitir. Fiz o curso
optativo de "orientao" que a enfermeira do distrito dava todo ano. Ela
explicou que podamos engravidar e nos deu algumas noes de
contracepo e da biologia elementar do tero e do embrio. No contou
como o espermatozide chegava ao vulo; o tal espermatozide
simplesmente existia. No foi l uma grande ajuda.
       Eu no sabia que o sexo era ruim. s vezes, quando saa  noite
com mame  procura de Mahad no bairro, ouvindo suas queixas
interminveis por causa do cheiro ruim do sukumawiki, topvamos com
gente transando nos becos. Na escurido das ruelas; era quase
impossvel ver aqueles casais, a no ser quando estvamos a ponto de
esbarrar neles. Nessas ocasies, mame me agarrava pelo cabelo,
arrastava-me para longe e me batia como se fosse eu que estivesse
transando e gritava: "Diga que voc no viu nada!".
       Haweya e eu estvamos entrando na idade perigosa, a fase da
vida em que no podiam nos deixar sair de casa sem vigilncia. Cerca
de um ms depois da minha primeira menstruao, mame decidiu que
ns,      meninas,   amos   parar   de   freqentar   a   escola   alcornica.
Estvamos em um madraal misto, ao estilo soma-li, cinqenta
meninos e meninas de todas as idades apinhados em uma sala com o
maalim, o professor. Este no estava nada interessado em saber quem
aprendia de fato e quem se limitava a mover os lbios, e parece que
tampouco notava os muitos e significativos contatos visuais que
ocorriam todos os sbados. Eu via tudo com o rabo do olho.
          Alm disso, Haweya e eu nos entregvamos a uma escandalosa
quantidade de travessuras no caminho do madraal. Uma tarde,
inventamos uma brincadeira com duas outras garotas somalis.
Abordvamos um menininho qualquer na rua e caminhvamos algumas
quadras segurando-lhe a mo, ento o largvamos em frente a uma
casa, tocvamos a campainha como loucas e saamos correndo. Quando
algum adulto abria a porta e olhava para fora, intrigado, no via
ningum, apenas o garotinho desconhecido, pequeno demais para
alcanar o boto da campainha. Eles ficavam perplexos, e armava-se
um alvoroo de mulheres  procura dos filhos, e o molequinho a chorar.
No acho graa nisso agora, mas na poca a brincadeira era de morrer
de rir.
          Um dia, uma daquelas mes gordonas e gritadeiras nos seguiu
at o madraal e contou tudo ao mdalim: "Foi essa e foi ESSA". Aquela
noite, o castigo no se fez esperar. E, dali por diante, mame resolveu
pagar um pregador itinerante para que nos ensinasse o Alcoro em casa
todo sbado.
          Esse maalim itinerante era um jovem rude, sado diretamente do
mais profundo serto da Somlia. Ensinava o Alcoro  moda antiga. A
gente abria o livro no primeiro captulo, pegava a tbua comprida,
escrevia o texto em rabe, aprendia a recit-lo de cor tambm em rabe,
lavava a tbua com reverncia, j que agora ela era sagrada, e repetia a
operao. Isso durava duas horas, e cada erro eqivalia a uma pancada
nas mos ou nas pernas com uma vara comprida e fina. No se discutia
o sentido de nada. Geralmente, ningum tinha a menor idia do
significado das palavras: a gente aprendia o texto em um idioma de que
mal se lembrava, sendo que a maioria das outras crianas no entendia
absolutamente nada.
       Era maante e cansativo. Eu j tinha muitas tarefas aos
sbados. Fazer a lio de casa. Cuidar do cabelo: horas de xampu e leo
de coco para que depois mame fosse entran-lo, fazendo dez ou onze
filas bem apertadas para que ele passasse mais uma semana
assentado. A seguir, eu era obrigada a lavar o uniforme do colgio e,
como a minha me pedia, tambm lavava o de Haweya e o de Mahad.
Alm disso, cabia-me limpar a minha parte da casa. E depois, como o
maalim novo fazia tudo  maneira tradicional somali, eu era obrigada a
preparar a tinta antes da aula, raspando o carvo com um caco de telha
at pulveriz-lo e, a seguir, misturando cuidadosamente o p com
pequenas quantidades de leite e gua em um vidro.
       Lembro-me de um sbado em que mame me bateu porque no
terminei a lavagem da roupa, nem a faxina, nem lavei o cabelo; s fiz a
lio de casa. Alm disso, estava ficando malcriada e respondona.
Quando chegou a hora de preparar a tinta, eu j estava fula da vida
com tanta injustia. Disse a Haweya: "Quer saber de uma coisa? No
fao mais essa porcaria. Pegue um livro e a gente se tranca no banheiro.
Fique bem quietinha que ela no bate em voc".
       Quando o maalim chegou, no havia tbuas, nem tapetes, nem
tinta, nem alunas.
       Minha me foi at a porta do banheiro e nos rogou uma praga. O
maalim tentou nos convencer a sair, mas nos recusamos. Fomos at
insolentes: "Faz quinhentos anos que ningum mais escreve em
tbuas", dissemos. "Voc  primitivo. No sabe ensinar religio. No 
nosso parente e no pode entrar aqui em casa sem autorizao de papai
e, de acordo com o Alcoro, deve ir embora."
       Por fim, mame disse ao maalim que precisava sair, de modo
que ele no podia ficar. Pagou o ms todo e lhe pediu que no voltasse
mais. Ele respondeu: "As suas filhas precisam de disciplina, e posso
ajudar. Mas, se a senhora preferir, a gente deixa tudo nas mos de Al",
e se foi. Mame saiu e, pouco depois, a minha av foi visitar uns
parentes isaq. E deixou o porto destrancado.
       Quando todos partiram, Haweya e eu fomos at l na ponta dos
ps. Chegamos a ver o maalim se afastando em Juja Road, em direo a
Eastleigh. Compreendemos que estvamos livres para fazer o que
quisssemos, e Haweya logo tratou de ir para a casa de uma amiga.
Sentindo-me culpada e tambm com medo da escala do castigo que nos
aguardava inevitavelmente, comecei a limpar a casa e a cuidar das
tarefas que no tinha feito de manh. Ento me lembrei de que o porto
continuava aberto; corri ao jardim para fech-lo.
       Bem quando eu o estava fechando, uma mo me agarrou o
pulso. O maalim estava de volta com um homem. Provavelmente tinha
ido at Eastleigh e trouxera outro sujeito consigo porque no podia ficar
sozinho com meninas em uma casa estranha. Levaram-me para dentro;
o ma alim me vendou os olhos com um pano e comeou a me bater
violentamente com a vara. Queria me dar uma lio.
       Como eu tinha lavado o cho, estava s de saia e camiseta, com
os braos e as canelas nuas, as varadas doam muito. De repente, tive
um acesso de raiva. Tirei a venda dos olhos e o encarei. Estava
realmente disposta a enfrent-lo. Ele me agarrou as tranas, puxou
minha cabea para trs e me jogou contra a parede. Ouvi claramente o
barulho de algo se partindo. Ento o m alim parou. Fez-se um silncio
incmodo, como se houvesse algo errado. A seguir, pegou suas coisas e
foi embora com o desconhecido que o acompanhava.
       Meu corpo estava todo inchado e ardendo devido s pancadas,
meu nariz sangrava. Passei algum tempo simplesmente segurando a
cabea. Por fim, fui fechar o porto e tomei um banho frio para aplacar
a dor. Estava to atordoada que no consegui acender o fogo para
cozinhar. Fui me deitar, e ningum me acordou.
       S recordo que j era manh de domingo e, quando desci, minha
me perguntou: "O que  isso no seu rosto?" Respondi que no
importava. Ela comeou a fazer a lista das minhas tarefas -- lavar
roupa, fazer isto e aquilo --, e me recusei. Fui insolente. Estava
impossvel. No fim do dia, mame perdeu totalmente as estribeiras: ia
me amarrar e me dar uma lio.
       Normalmente, ela me agarrava, me mandava ficar de braos no
cho e segurava meus tornozelos a fim de me amarrar para a surra.
Costumava bater s nos braos e nas pernas. Mas daquela vez me
recusei a me deitar e a erguer os tornozelos como devia. Mame me
puxou o cabelo -- bem do lado machucado --, mas no liguei. Estava
decidida a no obedecer. Ela me mordeu e beliscou, chamou minha av
para ajud-la -- e a essa altura tudo em mim doa --, mas no me
deitei. Tampouco chorei: encarei-a com muito dio e disse: "Isso eu no
aceito nunca mais".
       Mame mandou Mahad ajud-la a me colocar de bruos no
cho. Eu lhe disse em ingls para que ela no entendesse: "Por favor,
no faa isso. Ontem ela me bateu, depois o maalim tambm me
espancou. Agora querem me bater outra vez. Fao todo trabalho nesta
casa, isso no  justo".
       Mahad disse: "No tenho nada a ver com isso", e se afastou.
Minha me ficou mais furiosa ainda, pois se sentia trada. Por volta da
meia-noite, ela e vov finalmente conseguiram me jogar no cho.
Ataram-me, e eu disse a mame, exatamente como Haweya costumava
fazer: "V em frente, acabe logo com isso -- pode me matar. E, se voc
no me matar agora, eu mesma me mato quando me soltarem". Mame
me bateu -- e muito -- e ento disse: "Fique sabendo que no vou
desamarr-la. Hoje voc dorme a no cho mesmo".
       L pelas trs da madrugada, ela saiu do quarto e me soltou, e eu
adormeci imediatamente. s oito, hora de ir ao colgio, eu estava
estonteada e sem equilbrio e, pouco antes do almoo, perdi os sentidos.
Levaram-me para casa, e dormi mais um pouco, ento a minha me
saiu. Fui ao quarto dela e abri a gaveta que sempre estava repleta de
remdios. Peguei uma caneca grande de gua e comecei a engolir
comprimidos. Devo ter tomado quarenta ou cinqenta.
       Depois o mdico contou que era quase tudo vitamina, mas,
naquele momento, eu no sabia disso -- queria morrer. Tudo em mim
doa: fsica, mental e socialmente. Nossa vida parecia ter desmoronado.
Todo mundo era infeliz. Minha me no nos dava a menor segurana ou
orientao; usava-me para extravasar a raiva, o sofrimento, e eu tinha
que enfrentar os fatos: meu pai nunca mais ia voltar.
       Mas no morri e, no dia seguinte, tive que ir ao colgio
novamente. Um vaso sangneo se rompera em meu olho, graas s
pancadas do maalim ou s da minha me. S pedi s outras meninas
que me deixassem em paz.
       Naquela tera-feira, recebemos a visita da tia Jim'o Musse, irm
de Abshir Musse, um dos homens mais importantes da FSDS. Meu pai
e ele eram muito amigos por serem ambos filhos de mes isse
mahamud. Quando cheguei do colgio, a tia Jim'o olhou para mim e
mudou de voz: "O que aconteceu, Ayaan?" perguntou. "Voc est bem?"
Respondi: "Estou com dor de cabea e com este inchao aqui". Ao tocar
o lado esquerdo da minha cabea, Jim'o Musse ficou evidentemente
preocupada. "Quem fez isso em voc?", quis saber. "Precisamos lev-la
ao hospital." Eu estava com um galo que parecia um tomate maduro,
dava a impresso de que, se ela o pressionasse, seu dedo atravessaria
meu crnio, to mole estava.
       Minha me se aproximou e disse: "O que houve? Quem bateu na
sua cabea?". quela altura, eu estava totalmente exausta. E contei:
"No sbado, quando voc saiu, o maalim voltou e me espancou, e no
domingo voc completou o servio". Mame comeou a chorar e a gritar:
"E agora isso ainda por cima -- Al, que mal fiz para merecer tanto
castigo?".
       Tia Jim'o Musse era uma osman mahamud das mais ilustres e
mobilizou o cl. " possvel que a filha de Hirsi Magan morra", disse.
"Est com um ferimento enorme na cabea, e precisamos lev-la ao
hospital." Na manh seguinte, uns homens apareceram e me levaram
ao Hospital Nairbi, sem dvida alguma o melhor da cidade, mas
tambm carssimo. Um mdico italiano mandou tirar raio X. Meu crnio
estava fraturado, e uma grande quantidade de sangue se acumulara
entre o couro cabeludo e o osso; estava comprimindo o crebro: eu
precisava ser operada imediatamente. Rasparam meu cabelo, o que foi
horrvel. Fiquei com uma cicatriz enorme e passei doze dias internada.
O cl pagou a despesa.
       Foi nesse perodo no hospital que notei pela primeira vez que, no
fundo, minha me gostava muito de mim; todos aqueles maus-tratos
no visavam a mim propriamente, e sim ao mundo que lhe negava a
existncia a que ela tinha direito. Confessei que havia tomado os
comprimidos e, toda vez que me visitava, mame me abraava e dizia
que me amava e chorava. Eu nunca a tinha visto to vulnervel.
       Depois disso, ela passou vrios anos sem me bater.
       Quando voltei ao colgio, as coisas estavam diferentes. As
meninas que eu conhecia tinham partido; quando perguntava por qu,
as pessoas davam de ombros e diziam que provavelmente tinham ido
embora para casar. Isso acontecia de vez em quando; mesmo na escola
primria, uma garota se ia porque estava comprometida. Mas, sei l por
qu, eu no tinha notado isso at ento.
       Agora me dava conta de que Latifa, uma das meninas rabes do
litoral, desaparecera subitamente da nossa classe. Segundo Halwa,
numa tarde de sbado, o pai lhe comunicara que ela no ia mais voltar
ao colgio; tinha chegado a sua hora de se preparar para ser mulher.
Uma colega foi convidada para o casamento e nos contou. O noivo era
mais velho, de Mombasa; choveram presentes em grande quantidade.
Latifa parecia assustada; chorou, e as lgrimas lhe mancharam o
vestido branco todo engomado.
       Uma a uma, as garotas comearam a anunciar que iam sair do
colgio para casar. No raro tambm contavam aos professores. Era
algo perfeitamente respeitvel. No ocorreria a nenhuma autoridade
impedir que fossem tiradas da escola para casar com um homem
totalmente desconhecido, ainda que a maioria delas resistisse e
algumas ficassem apavoradas. Uma garota foi obrigada a casar com o
filho do tio, seu primo. Uma colega iemenita de quinze anos contou que
acabara de ser prometida a um homem muito mais velho; no estava
nada contente, mas disse: "Pelo menos no  to ruim quanto foi com a
minha irm -- ela tinha doze anos".
       Zainab, a iemenita tagarela de bochechas redondas e marcadas
de espinhas, em 1985 no voltou das frias de fim de ano. Um ano mais
tarde, eu a encontrei em um festival do centro comunitrio muulmano,
perto do colgio. Estava grvida, toda de preto, repentinamente feia e
gorda, tomando conta do filhinho de outra mulher. Contou-me que
quase nunca saa de casa sem a sogra. Pediu notcias do colgio.
Aparentemente, j no restava nada da sua jovialidade, daquela
adolescente   travessa   que   adorava   fazer   estripulia   conosco   nos
corredores.
       Fui convidada para o casamento conjunto das irms de Halwa,
Siham e Nasrien, que tinham dezessete e dezenove anos e j haviam
concludo o curso secundrio. As parentas dos noivos chegaram a
Nairbi vindas de todo Qunia, do Imen, de Uganda. Antes do incio da
cerimnia, todas fizeram questo de inspecionar as noivas. Passamos
por Siham e Nasrien, que estavam rigidamente reclinadas em almofadas
no cho, o rosto e o tronco cobertos com um pano verde, mas os braos
e as pernas nus. Cada mulher comentava a beleza e a originalidade dos
desenhos de hena, embora, na realidade, fosse bvio que estavam
examinando a mercadoria.
       No dia seguinte, as mulheres se congregaram em um salo
alugado e festejaram e danaram -- s mulheres. As noivas ficaram
sentadas em um sof, vestidas de renda cor-de-rosa, com maquiagem
de capa de revista, absolutamente imveis: duas bonequinhas perfeitas.
       Na ltima noite, a festa foi em outro salo enorme, e os homens
estavam presentes; comiam e conversavam do outro lado de um alto e
comprido anteparo que dividia o recinto, deixando apenas uma
plataforma erguida visvel para todos. No lado das mulheres, havia
mesas com milhares de bolos e diferentes pratos. Lembro-me de ter
pensado que nunca comera nada to gostoso. Depois do banquete, as
mulheres comearam a ulular, e as noivas chegaram, de vestido
ocidental e rosto coberto. Os dois noivos subiram na plataforma,
ergueram o vu das noivas e se sentaram rigidamente. Estavam sem
jeito, tinham acabado de chegar do Imen. Parecia uma cena da Arbia
Saudita.
       Nasrien havia tido um breve contato com o futuro marido
durante os preparativos. Parecia menos nervosa, resignada com tudo.
Mas Siham, que no conhecia o homem com quem acabara de se casar,
estava plida e trmula. Eles se foram pouco depois, acompanhados dos
membros mais ntimos da famlia. Halwa me contou que ento haveria
lenis manchados de sangue e mais comemoraes.
       "E se no sair sangue?", perguntei a Halwa. "Ento quer dizer
que a noiva no  virgem", cochichou ela. Desviamos a vista
rapidamente. Era uma coisa inconcebvel.
       Aos nove anos de idade, a prpria Halwa tinha sido prometida a
um primo que ela no conhecia. No queria casar com ele, mas sabia
que isso aconteceria um dia. Eram os pais que decidiam essas coisas.
Se o seu pai fosse bom -- e rico --, talvez tambm arranjasse para voc
um marido rico e bom. Do contrrio, ora, esse era o seu destino.
       O casamento por amor no passava de um erro idiota e sempre
acabava mal, na pobreza e no divrcio; sabamos disso. A moa que se
casasse fora das normas no contaria com a proteo do cl caso o
marido a abandonasse. Os parentes de seu pai no intercederiam por
ela nem a auxiliariam com dinheiro. A coitada estaria fadada a soobrar
em um destino abominvel de impureza, irreligiosidade e doena. Gente
como minha av apontaria para ela na rua e cuspiria no seu rosto. Era
a pior coisa que se podia fazer contra a honra da famlia: prejudicava os
pais, as irms, os irmos e os primos.
       Mas o encanto do romantismo nos atraa nas pginas dos livros.
No colgio, lamos bons romances, Charlotte Bront, Jane Austen e
Daphne du Maurier; fora de l, as irms de Halwa nos abasteciam de
livrinhos de banca de jornal, novelas baratas como as da televiso, mas
nem   por    isso    deixavam   de   ser    empolgantes     --   sexualmente
empolgantes. E havia uma mensagem escondida em todos esses livros:
a   mulher   tinha    a   possibilidade    de   escolher.   As   heronas   se
apaixonavam, lutavam para superar os obstculos familiares, os
problemas de riqueza e status, e casavam com o homem escolhido.
       A maioria das minhas colegas muulmanas estava saturada
dessas brochuras ordinrias que nos faziam a todas infelizes. Tambm
desejvamos nos apaixonar pelo homem com quem sonhvamos 
noite. Ningum queria casar com um estranho eleito pelo pai. Mas
sabamos que o mximo que podamos fazer era protelar o inevitvel. O
pai de Halwa deixava as filhas conclurem o secundrio antes de cas-
las. Halwa lhe pediu que a poupasse do cadafalso mesmo depois de
terminados os estudos. Dizia que eu tinha muita sorte: com o meu pai
ausente, ningum me obrigaria a casar antes de fazer pelo menos a
primeira bateria de exames.
       Quando completei dezesseis anos, chegou uma professora nova
de estudos islmicos. Religio era matria obrigatria no Meninas
Muulmanas e se dividia em duas sees: a islmica e a crist. As aulas
de islamismo, a que naturalmente ns todas assistamos, eram ridas e
enfadonhas, o curso menos espiritual que se pode imaginar. Nada de
anlise, nada de discusso tica, apenas a informao histrica
elementar e neutra; aprendamos listas de batalhas e revelaes do
profeta, de acordo com o currculo do exame nacional.
       Mas a irm Aziza era diferente de todas as professoras que
tnhamos tido. Por exemplo, fazia questo de que a tratssemos pelo
prenome, Aziza, no por srta. Said. E mais, ela era velada. E no se
limitava a cobrir a cabea como muitas outras professoras; a irm Aziza
se cobria totalmente com um hijab. O tecido grosso e preto lhe descia
do alto da cabea at a extremidade das luvas e o limite dos dedos dos
ps. Era espetacular. Seu rosto plido, triangular, contrastava com
aquele oceano de negrura. Ela era jovem e bonita -- de pele clara e
nariz delicado -- e sorria com os olhos. Jamais gritava como as outras
professoras.
       A primeira coisa que a irm Aziza perguntou foi: "Quantas aqui
so muulmanas?". A classe inteira ergueu a mo,  claro. Ns todas
ramos muulmanas desde o bero. Mas ela sacudiu a cabea com
tristeza, dizendo: "No, no acredito que vocs sejam muulmanas"
       Tivemos um sobressalto. No ramos muulmanas? O que
ramos ento? Aziza apontou para mim. "Quando foi que voc orou pela
ltima vez?" Estremeci por dentro. Fazia mais de um ano que no me
lavava ritualmente para pr o manto branco e me prostrar no longo
ritual de submisso a Deus. "No lembro", murmurei. Ela apontou para
outras meninas da classe. "E voc? E voc? Quase todas deram a
mesma resposta.
       No ramos muulmanas de verdade, ela disse com tristeza 
turma desconcertada e subitamente emudecida. Al no olhava para
ns com prazer. Via o fundo do nosso corao e sabia que no ramos
dedicadas a Ele. O objetivo da orao era a conscincia -- a conscincia
constante da presena de Deus e dos anjos -- e a ntima submisso 
vontade divina que diariamente permeava todo pensamento e todo ato.
       A irm Aziza nos lembrou dos anjos sobre os quais nos falavam
no colgio da Arbia Saudita, anjos que pairavam sobre os ombros de
cada uma de ns.  esquerda e  direita, anotavam os nossos
pensamentos, intenes e idias -- os bons e os maus. Por mais que
nos cobrssemos e rezssemos, no era suficientemente significativo
para Deus. O que contava era a inteno. Se a sua mente se desviasse
-- se voc o fizesse por motivos errados --, Deus e os anjos enxergavam
seu corao e sabiam.
       Todas tnhamos ouvido falar no inferno. Era praticamente a
nica coisa que interessava nos madraais: o inferno e todos os pecados
capazes de nos mandar para l. O Alcoro enumerava os tormentos
infernais com riqueza de detalhes: chagas, gua fervente, esfoladuras, a
dissoluo das entranhas, o fogo eterno a nos queimar para sempre,
pois, enquanto a nossa carne se carbonizava e os nossos humores
ferviam, crivamos pele nova. Esses detalhes nos sujeitavam, eram um
meio de garantir obedincia. O maalim a cujas aulas Haweya e eu
tnhamos de assistir aos sbados listava aos berros os tabus e as
restries, as regras a obedecer, chegando s vezes a cuspir de tanto
entusiasmo: "Voc vai para o inferno! E VOC tambm vai! E VOC, e
VOC -- A NO SER QU...".
         No Alcoro, o inferno tinha sete portes. O calor e a dor das
queimaduras     eram    insuportveis.   A   sede   intensa   causava   um
sofrimento to horrendo, to pior do que a pior sede na terra, que voc
comeava a pedir gua aos berros. Os humores quentes do seu corpo
crestado eram jogados na sua boca. Voc ansiava pelo cu, e esse
anseio     durava     eternamente,   eternamente.     Esse    alm-mundo
intensamente cruel e desrtico era muito mais vivido para ns do que o
cu. No Alcoro, o cu era um lugar de clima fresco, com brisas e
bebidas deliciosas; idia agradvel, sem dvida, mas um tanto vaga.
         A irm Aziza acreditava piamente no inferno, quanto a isso no
havia a menor dvida. Mas no enfatizava o medo como faziam todos os
outros pregadores. Dizia que a escolha era nossa. Podamos optar por
nos submeter  pureza e  luz divinas e merecer um lugar no cu, ou
tomar o caminho da perdio.
         Suas aulas eram interessantes, mas no me tornei uma
convertida. E o melhor na irm Aziza era que ela no ligava. No se
importava se nos recusssemos a usar cala branca sob o vestido para
esconder as pernas. No se zangava se no rezssemos cinco vezes por
dia. Dizia que Deus no queria que fizssemos nada -- nem mesmo
uma orao -- que no fosse com uma inteno ntima. Ele queria a
submisso verdadeira e profunda: esse era o significado do isl. "
assim que Al e o profeta querem que nos vistamos", dizia. "Mas vocs
s devem fazer isso quando estiverem prontas, porque, se o fizerem
antes e depois tornarem a despir o vu, o pecado ser maior ainda.
Quando estiverem prontas para isso, vocs vo optar e ento nunca
mais vo despi-lo."
         Geralmente Mahad levava seus dois melhores amigos para casa
nos fins de semana. Ambos eram quenianos, mas meu irmo no queria
que mame soubesse que seus amigos eram todos quenianos: ela no
os deixaria entrar em casa. Por isso Mahad inventou que o seu melhor
amigo, que na realidade se chamava Kennedy, era um somali chamado
Yusuf, do Qunia oriental, onde a colnia perdera o contato com a
nossa lngua. Mame no deu muita importncia a isso, mesmo porque
receber um amigo em casa mantinha Mahad entre as suas quatro
paredes. (Ela tolerava o outro colega, chamado Olulo. Tinha feies to
quenianas que era impossvel faz-lo passar por somali.)
       Quando os meninos chegavam  noitinha, normalmente eu
estava preparando a massa de po para o caf-da-manh do dia
seguinte e aproveitava para improvisar o jantar para eles. Yusuf era
bonito e me tratava bem, e aquelas noites eram divertidas -- cheias de
gracejos e provocaes. No incio, ele e eu nunca ficvamos sozinhos,
mas pouco a pouco comeamos a topar um com o outro na cozinha. Ele
passou a nos visitar mesmo quando Mahad no estava, alegando estar
 sua procura. Brincava comigo, dizendo que no se chamava Yusuf, e
sim Kennedy, e que era queniano. Claro que eu no acreditava. Estava
interessado em mim, eu sabia disso, e gostava. No havia nenhum
contato fsico -- no se fazia nem se dizia nada --, mas a toda hora um
olhar significativo deixava os meus joelhos trmulos.
       A verdade  que a irm Aziza nunca nos mandou andar de vu
feito ela, nem nos proibiu de ir ao cinema ou falar com rapazes.
Limitava-se a ler os versculos do sagrado Alcoro, usando a edio
bilnge ingls-rabe para que entendssemos. Mas depois falou deles.
Disse: "No estou recomendando que vocs se comportem assim. S
estou repetindo o que Deus disse: fujam do pecado".
       Eu sabia precisamente o que a irm Aziza queria dizer quando
se referia ao pecado. Pecado era o que eu sentia quando estava com
Yusuf. Aquela sbita e comichosa sensao, aquela excitao muito
ntima. De noite, pensava no quanto gostaria de casar com ele quando
crescesse. Tentava colocar a coisa em um contexto em que tal
sentimento nada tivesse de pecaminoso.
       Uma noite, Yusuf me convidou para ir ao cinema. E aceitei com
o corao disparado, pois aquilo obviamente era proibido. Combinamos
de nos encontrar no jardim Uhuru, o grande parque no centro de
Nairbi; assim, nenhum vizinho ia nos ver. Pus um vestido curto -- pelo
menos curto para mim:  altura dos joelhos. E passei desodorante pela
primeira vez na vida. Sa de casa me sentindo uma devassa.
       Tomei sozinha o matatou, o barulhento micronibus queniano.
L estava ele,  beira do lago, onde tinha ficado de me esperar. Faltava
uma hora para o incio da sesso. Fomos dar uma volta, conversando, e
Yusuf me segurou a mo. Meu corao bateu com tanta fora que
pensei que as pessoas podiam ouvi-lo.
       Sentamos no relvado e falamos da famlia dele, e em Kisii, onde
os seus parentes moravam, e na casa do seu irmo, onde ele passava os
fins de semana em Nairbi. Pediu-me que o chamasse de Ken, coisa que
ainda me parecia uma brincadeira. Eu ainda no sabia que ele era
mesmo queniano, embora isso no fizesse a menor diferena para mim.
Pouco me importava a sua nacionalidade. Ken perguntou: "O que voc
sente por mim?" e respondi: "Gosto de voc". Ele disse que tambm
gostava de mim, e nos beijamos.
       Foi o meu primeiro beijo. Um beijo maravilhoso que durou muito
tempo. No fizemos mais do que isso: ficamos de mos dadas, nos
beijamos e fomos ao cinema, depois ele me acompanhou at a parada
de nibus e se despediu. E voltei flutuando para casa.
       Meus encontros com Ken no eram freqentes. S de vez em
quando eu conseguia escapar  vigilncia da minha me e, mesmo
assim, sabia que qualquer somali que passasse por ns no hesitaria
em nos delatar, de modo que quase nunca podamos baixar a guarda.
Mas a sensao do beijo foi a melhor que experimentei em toda vida.
Disse a Ken: "Voc sabe que no posso dormir com voc", e ele
respondeu: "Eu sei. Voc  somali e tem que continuar virgem. Gosto
muito de voc e vou esperar. A gente vai se casar". Aquilo era
completamente recproco, completamente inocente, e to gostoso.
       Mas eu sabia que era errado. Estava vivendo em vrios nveis do
meu crebro. Havia os beijos de Kennedy; havia a honra do cl; e havia
a irm Aziza e Deus.
       Na sala de aula, a irm Aziza enumerou as sedues de Sat: o
desejo de ser bonita e atrair os homens; a emoo de se divertir; alm
da msica e dos livros malignos. Ela conhecia essas coisas. Era uma
queniana rabe do litoral e, quando se formara, tinha sido comissria
de bordo e caixa de banco em Nairbi. Contava que, nos dois empregos,
precisava fazer o cabelo, usar sapatos de salto e roupa ocidental.
       Mas ela achava aquela vida excessivamente vazia. Queria mesmo
era ser muulmana, por isso tinha voltado a estudar na Arbia Saudita,
em Medina. Sua f se aprofundara, tornara-se mais sincera, mais pura.
Ela abandonara as prticas ignorantes, como rezar para os santos.
Retornara  verdadeira devoo e  fonte do isl; por isso tinha optado
por se cobrir, por buscar a satisfao mais profunda de agradar a Deus.
       Por sermos mulheres, ramos imensamente poderosas, explicava
a irm Aziza. A maneira como Al nos criou, o cabelo, as unhas, os
calcanhares, o pescoo e os tornozelos -- cada pequenina curva do
nosso corpo era excitante. Se uma mulher excitasse um homem que
no o seu marido, pecava duplamente aos olhos de Deus, por levar o
homem  tentao e aos pensamentos maus iguais aos dela. S a roupa
usada pelas esposas do profeta podia nos impedir de excitar os homens
e de levar a sociedade ao fittia, a confuso incontrolvel e o caos social.
       Ela   era   rigorosa   no   tocante      obedincia   e      higiene.
Aconselhava-nos a raspar as axilas e os plos pubianos para nos
purificarmos. Devamos nos purificar depois da menstruao. A
feminilidade era, ao mesmo tempo, irresistivelmente desejvel e
essencialmente suja, e todas essas intervenes eram necessrias para
merecer o regozijo de Al.
       A irm Aziza nos iniciou na luta interior. Havia dois tipos de luta
por Al, sendo que o primeiro esforo era o jihad ntimo: a submisso
da nossa vontade. Tnhamos de querer obedecer aos nossos pais e nos
comportar de modo a disseminar a bondade. Tnhamos de querer ser
dedicadas. Tnhamos de pensar na vontade de Al a cada gesto do dia-
a-dia e optar por nos prostrarmos diante Dele. Aziza dispensava os
manuais que deviam nos preparar para o exame nacional de estudos
islmicos. Tal como as nossas professoras de Alcoro na Arbia
Saudita, ela estava nos preparando para a prtica da f, no em histria
do isl.
           Comecei a orar  noite s vezes. Era um ritual demorado.
Primeiro me lavava e me cobria com um pano branco bem comprido,
fixando o olhar no cho, pois Al estava presente e no se podia olhar
nos olhos de Deus. Recitava o primeiro captulo do Alcoro, um texto
breve de apenas sete versculos. Ento me prostrava com as mos
abertas na direo de Meca, o centro da religio. Dizia Louvado seja Al
e tornava a me levantar; entoava outro versculo do Alcoro -- a escolha
do versculo era livre. Repetia todo procedimento, duas, trs ou quatro
vezes, dependendo da hora do dia. Cada vez era preciso recitar o
primeiro captulo do Alcoro e outro captulo pequeno ou alguns
versculos de um captulo mais longo. Depois me sentava e terminava a
orao olhando para os lados, primeiro para o direito depois para o
esquerdo, e, com as mos unidas em concha, rogava a bno divina.
Era assim: Al, tomai-me sbia, perdoai os meus pecados. Abenoai os
meus pais, dai-lhes sade e, por favor, Al, acolhei-os no paraso. Por
favor, Al, ajudai-me a trilhar o bom caminho.
           A seguir, pegava o teub, que era um mltiplo de trinta e trs
-- ou, como eu fazia por no ter teub, usava os ossos dos dedos.
Cada mo tinha quinze ossos, contando a base do pole-gar, portanto, as
duas mos, mais os trs dgitos de um dedo extra, somavam trinta e
trs. A gente dizia Louvado seja Al trinta e trs vezes; Deus, perdoai-
me trinta e trs vezes; Al  grande trinta e trs vezes; e ento, se
quisesse, ainda podia dar Graas a Al.
           A orao era um procedimento prolongado e devia se repetir
cinco vezes por dia. No incio, eu raramente conseguia fazer tudo, mas
tentar no deixava de ser bom.
           A irm Aziza tambm falava sobre os judeus. Descrevia-os de tal
modo que eu os imaginava fisicamente monstruosos: tinham chifres na
testa e nariz to comprido que se projetava feito um bico. Diabos e djins
saltavam      literalmente   da   sua   cabea   para   desencaminhar   os
muulmanos e espalhar o mal. Tudo quanto acontecia de ruim era por
culpa dos judeus. O tirano iraquiano Saddam Hussein, que havia
atacado a Revoluo Islmica no Ir, era judeu. Os americanos, que
davam dinheiro a Saddam, eram controlados pelos judeus. E eles
controlavam o mundo, e era por isso que precisvamos ser puras: para
resistir a essa influncia maligna. O isl estava sendo atacado, e
tnhamos o dever de avanar e combater os judeus, pois s com a
destruio de todos eles haveria paz para os maometanos.
        Resolvi experimentar o vu menor. Punha-o de modo que o
pescoo e os ombros ficassem invisveis. Passei a usar cala comprida
por baixo do uniforme do colgio para esconder as pernas. Queria ser
como a irm Aziza. Queria ser pura e boa e servir a Al. Comecei a rezar
cinco vezes por dia, esforando-me para me concentrar durante todo o
longo processo. Queria compreender melhor como levar a vida que Al,
que era infinitamente justo, queria para mim.
        Pedi dinheiro  minha me para que a costureira da irm Aziza
me fizesse um enorme manto preto com apenas trs faixas apertadas
nos pulsos e no pescoo e um zper comprido. Chegava at os ps.
Comecei a ir ao colgio com aquela roupa por cima do uniforme, que me
cobria o corpo magro, um vu preto na cabea e nos ombros.
        Eu vibrava com aquilo: um sentimento voluptuoso. Sentia-me
poderosa: por baixo daquele tecido se ocultava uma feminilidade at
ento   insuspeitada,   mas      potencialmente     letal.    Eu    era     nica:
pouqussima    gente    andava     assim   na     Nairbi     daquele       tempo.
Curiosamente, a roupa fazia com que me sentisse um indivduo.
Transmitia    uma   mensagem      de   superioridade:        eu   era   a    nica
muulmana verdadeira. Todas as demais garotas, de pequeninos vus
brancos na cabea, no passavam de crianas, de hipcritas. Eu era
uma estrela de Deus. Quando abria os braos, sentia-me capaz de voar.
        Fui uma das primeiras a me velar no colgio. Algumas mocinhas
iemenitas, como Halwa, usavam longos casacos abotoa-dos, mas eram
cortados de modo a se ajustar ao corpo; deixavam bem visvel a forma
feminina l dentro. O hijab com que eu cobria a minha magreza era
totalmente envolvente: no deixava nada  mostra, a no ser um
rostinho e um par de mos.
       Ao chegar ao colgio, tirava aquela roupa, eu a dobrava e a
guardava debaixo da carteira. Depois, no fim do dia, desdobrava-a
modestamente e a vestia -- e, subitamente, tornava-me interessante,
misteriosa, poderosa. Bastava olhar para as minhas colegas para ver. E
o prazer nos olhos da minha me quando me via assim trajada! Era
uma rstia de luz a despontar na nuvem escura da sua vida.
Finalmente eu conseguira fazer uma coisa certa.
       A irm Aziza declarou que tnhamos obrigao de catequizar as
colegas crists. Explicou que esse era o nico meio de salv-las dos
tormentos do inferno. Fiz o possvel para levar s outras garotas a
mensagem da verdadeira f. Elas respondiam mais ou menos assim:
"Como voc se sentiria se eu tentasse convert-la ao cristianismo?". E
acrescentavam que seus pais lhes ensinavam a acreditar em Jesus
exatamente como os meus me ensinavam a crer no profeta Maom, eu
que respeitasse a sua f.
       Fui obrigada a reconhecer que elas tinham razo. Mesmo assim,
queria muito impedir que as minhas amigas fossem para o inferno.
Lembro-me de um dia em que resolvi enumerar, para Emily, os
suplcios terrveis que a aguardavam no alm. Ela disse: "Mas acontece
que no acredito em nada disso. J estou salva.
       Jesus nasceu por mim, morreu por mim e vai me redimir". As
meninas crists falavam na tal Trindade: Deus, o Esprito Santo e o
Filho de Deus, todos um s. Para mim, isso era uma tremenda
blasfmia. Ficvamos discutindo teologia at o ponto em que, se no
mudssemos de assunto, a nossa amizade terminaria.
       Procurei a irm Aziza e disse: "As outras garotas no vo se
converter ao islamismo. Seus pais as criaram em outras religies. No 
culpa delas e acho injusto que acabem torrando no inferno". A irm
Aziza me explicou que eu estava errada. Por meu intermdio, Al havia
lhes dado uma alternativa. Se elas rejeitassem a religio verdadeira, era
justo que fossem para o inferno. Isso me fez pensar que, s pelo fato de
tentar, eu piorava ainda mais as coisas, por isso parei de querer
catequizar as minhas colegas.
       No entanto, isso me incomodava. Se todos tnhamos sido criados
por Al e se, antes do nosso nascimento, Ele j havia determinado se
amos repousar no cu ou padecer no inferno, para que me dar o
trabalho de converter aquelas moas que Deus criara tal como eram? A
irm Aziza tinha uma explicao teolgica muito complexa da
predestinao. Alm do caminho j determinado por Al quando ainda
estvamos no tero, havia outra dimenso, a do livre-arbtrio, e quem
voltasse a sua vontade para o servio de Deus, e no para o de Satans,
agradava ao To-do-Poderoso. No era muito convincente, mas achei
que, se no conseguia entender, a culpa era minha.
       Pouco depois da chegada da irm Aziza, notei que se iniciava
todo um renascimento religioso nos corredores do colgio. Assim como
eu e algumas outras garotas nos reunamos em uma sala vazia para a
orao islmica do meio-dia, muitas quenianas se agrupavam para
rezar juntas, gritando "Aleluia!" e cantando hinos evanglicos. Eu no
sabia se se tratava de uma reao ao revivescimento do isl ou de uma
espcie de impulso comum que estava levando os adolescentes de
Nairbi a tomar aquele rumo; mas parecia que sim, ao mesmo tempo
que cada vez mais jovens muulmanos convergiam para um novo tipo
de isl, mais e mais cristos freqentavam a igreja. E eles tambm
estavam  procura de uma f mais pura, mais prxima da raiz da
religio. Uma f menos passiva, mais comprometida com o estudo
pessoal dos textos sagrados.
       Na poca, os cristos carismticos no eram menos agressivos
do que os muulmanos fundamentalistas. O pas todo comeava a se
desintegrar; talvez as pessoas estivessem em busca de certezas. Em
toda parte se viam pregadores de uma ou outra seita. No colgio, falava-
se em Alice Lakwena, na vizinha Uganda, cujos adeptos eram
invulnerveis s balas. Esse era o movimento mais espetacular, porm
havia muitos outros bandos menores de zelotes estranhos. Miserveis
igrejas de rua comearam a brotar onde antes havia mercearias. As
testemunhas-de-jeov iam de porta em porta. E,  claro, nas esquinas
se encontrava todo tipo de antigos adivinhos e feiticeiros tribais. Mesmo
na minha classe, no Meninas Muulmanas, as alunas compravam
poes do amor feitas com unhas e peles de animais esmagadas ou
amuletos para ajud-las a ir bem nas provas.
       O Estado queniano estava ruindo por dentro, desfazendo-se sob
o peso da roubalheira e do nepotismo dos homens no poder. Os
ministrios contratavam pessoas incapazes de soletrar a palavra
ministrio. O prefeito, que deveria cuidar das ruas de Nairbi, era semi-
analfabeto. O governo s existia para tomar dinheiro da populao; os
servios que prestava eram mnimos. Os cidados deixaram de ser
cidados -- o povo que, to pouco tempo antes, depositava esperana
no futuro da sua nao independente, j no era leal  nao. Cada vez
mais, os quenianos se consideravam acima de tudo membros da sua
tribo. E toda interao entre as tribos era mediada pela religio. A
religio e a cada vez mais forte conscincia tribal e clnica estavam
substituindo o sentimento nacional.
       O mesmo acontecia na Somlia, embora eu no soubesse disso
na poca. Alis, acontecia em quase toda a frica e em todo o mundo
islmico. Quanto mais corrupto e irresponsvel fosse o aparato
governamental -- quanto mais ele perseguisse as pessoas --, tanto mais
essas pessoas retrocediam para a tribo, para as tradies, para a igreja
ou a mesquita, e l se abrigavam entre seus pares.
       Avanava um isl de novo tipo. Muito mais profundo, mais
ntido e forte -- muito mais prximo da fonte da religio -- do que o isl
antigo em que a minha av acreditava, assim como os seus ancestrais
espirituais e djins. No era como o isl das mesquitas, nas quais os
imames geralmente recitavam de cor velhos sermes escritos por
doutores mortos havia muito tempo em um rabe que quase ningum
conseguia entender. No se tratava de uma aceitao passiva e
sobretudo ignorante das regras: Insh'Allah, "Queira Deus". Tratava-se
de estudar o Alcoro, compreend-lo realmente, chegar ao ncleo da
natureza da mensagem do profeta. Tratava-se de uma gigantesca seita
evanglica fortemente apoiada pelos petrodlares da Arbia Saudita e
pela propaganda iraniana dos mrtires. Tratava-se de um movimento
militante que no cessava de crescer. E eu ia ser uma pequena parte
dele.


        6. Dvida e desafio


        Enquanto eu trilhava a gloriosa senda de Deus, Haweya se
desencaminhava. Minha luta para me sujeitar  vontade de Al no
despertava o menor interesse nela. Segundo ela, Aziza se comportava
como se ainda montssemos camelos. Dizia que meu vestido preto era
horroroso. Minha irm caula era alta e bonita e sabia disso. No tinha
a menor inteno de andar pelas ruas de Nairbi metida em uma
barraca, como ela designava o meu vu.
        Minha me pode ter me batido muito, mas tambm me incutiu
um senso de disciplina. Eu me esforava para ir bem no colgio e
gostava de l; tinha muitas amigas. Mas Haweya detestava o Meninas
Muulmanas. Fazia amizades, mas estas sempre acabavam em briga.
Era muito mais inteligente do que eu: deixava legies de garotas
copiarem sua lio de casa em troca dos romances de banca de jornal
que adorava ler. Mas o curso de Haweya era um caos: em 1985, o
governo queniano resolveu purgar o ensino secundrio de todos os
supostos resqucios coloniais. Isso significou a falta total de livros, e os
professores ficaram completamente desnorteados quanto ao currculo.
Minha irm morria de tdio no colgio, e tambm estava farta de ficar
trancada em casa.
        Sempre foi uma garota forte e nunca cedeu  vontade de mame.
Recusava-se a fazer o trabalho domstico se Mahad tambm no fosse
obrigado a participar -- sabendo evidentemente que isso jamais
aconteceria. Quando mame a espancava, ela simplesmente se fechava
em si, como se fosse imune  dor. Minha me a castigava at ficar com
o brao doendo e, quando terminava, Haweya voltava a desafi-la.
Tinha vontade de ferro. s vezes se trancava no banheiro e xingava
mame -- aos berros, chamando-a de odiosa, cruel e egosta. Mas fazia
o possvel para no chorar.
       Minha me no sabia lidar com adolescentes. Era como se
nunca tivesse imaginado que fssemos crescer. A adolescncia era mais
um aspecto da vida moderna que estava longe de fazer parte da sua
formao. No deserto, onde ela fora criada, no havia um espao
significativo entre a infncia e a maturidade.
       Lcida e franca, Haweya era uma batalhadora. Em parte, eu
admirava sua coragem. Mas s vezes, naqueles anos da adolescncia, a
casa s faltava explodir de tanto dio que continha. As cenas eram
medonhas. Davam-me vontade de me refugiar dentro de mim e no sair.
Mame, vov, Haweya: as trs se punham a gritar at as veias da testa
saltarem. A qualquer momento, uma delas era capaz de se levantar de
um salto e virar a mesa, rogando as piores pragas. S o volume daquela
gritaria bastava para me deixar arrasada.
       Certa vez, Haweya foi  casa de Jinni Boqor e lhe pediu para
usar o telefone, queria falar com papai. Disse que ia lhe pedir dinheiro
para se arrumar. Jinni lhe deu duzentos xelins, e ela alisou o cabelo e o
cortou at a altura do queixo. Mame censurou Jinni, mas ele se
limitou a piscar e a alegar: "O telefonema teria custado quase a mesma
coisa. E, alm disso, ela ficou bonita!".
       Haweya costumava ganhar suas batalhas. Calava sandlias de
salto alto com tiras nos dedos, usava saia acima dos joelhos e pintava
as unhas. Era a prpria representao do pior pesadelo da minha me.
Quando ela ficou menstruada pela primeira vez, mame simplesmente
prorrompeu em lgrimas.
       Ento Haweya conheceu Sahra, uma isaq. Alis, quem primeiro
a conheceu foi vov, quando estava pastoreando a ovelha, e a convidou
a tomar ch em casa: uma mulher do seu cl. Sahra usava calas
compridas, blusas e uns culos escuros enormes. Pintava o cabelo de
vermelho. Mais velha do que ns, devia ter uns vinte e trs ou vinte e
quatro anos. Casara-se aos catorze e tinha trs filhos. Convidou
Haweya e a mim para assistir televiso na sua casa. Eu no tinha
tempo para Sahra, mas minha irm gostou da sua casa e passou a
freqent-la quase diariamente. As duas passavam horas conversando
e assistindo a vdeos. s vezes Sahra saa sozinha e deixava Haweya
tomando conta dos filhos; em troca, dava-lhe livros e batom.
       Pouco a pouco, Haweya e Sahra comearam a sair juntas, iam a
discotecas vespertinas. Sahra me aconselhava a ir tambm, eu que
procurasse me divertir, coisa que no teria oportunidade de fazer depois
de casada. Aqueles lugares ruidosos, desagradveis, estavam longe de
me atrair, mas minha irm adorava usar a roupa de Sahra e ir danar.
       Sahra garantia que era horrvel ser casada. Descrevia o marido
Abdallah como um ser repulsivo. Contou da sua noite de npcias: ele
tentando penetr-la, forando a passagem dentro dela, rasgando a
cicatriz entre suas pernas, machucando-a. Abdallah chegou a pensar
em usar uma faca, pois a sutura era to apertada que ele no conseguia
enfiar o pnis. Tambm o descreveu empunhando a faca enquanto ela
suplicava, aos berros, que no fizesse aquilo -- e acho que ele ficou com
pena da pobre menina de catorze anos, pois concordou em lev-la ao
hospital para que a operassem.
       A festa de casamento de Sahra no terminou em comemoraro:
ningum exibiu o lenol manchado de sangue para os aplausos e
ululaes dos convidados. Ouviu-se apenas um murmrio de decepo
e dvida, a suspeita de que ela j no fosse virgem e os gracejos acerca
da virilidade do marido persistiram at que a levaram ao hospital e a
prepararam para enfrentar Abdallah na noite seguinte.
       A histria me assustou: o grupo enorme de convidados, o lenol
manchado de sangue -- uma espcie de estupro organizado com a
bno da famlia. Parecia impossvel que tal coisa acontecesse com
Haweya ou comigo. Mas, para Sahra, o casamento no passava disso:
violncia fsica e humilhao pblica.
       Ela disse  minha irm: "No tive infncia. Roubaram a minha
vida". Abdallah era dez ou quinze anos mais velho do que a esposa;
primo dela ou coisa assim. Parece que no a espancava, mas o dio de
Sahra pelo marido era implacvel. Para se vingar, ela no fazia nada
pelos filhos. Chamava-os de filhos dele. Tratava Hasna, a de nove anos,
como uma escrava. A menina fazia as compras, cozinhava e limpava;
Sahra a surrava constantemente e gastava todo dinheiro do marido em
roupa e maquiagem. Eu a desaprovava totalmente.
       Haweya no foi o nico membro da famlia a se extraviar da
senda estreita que mame traou para ns. Mahad abandonou o colgio
no dia em que completou dezesseis anos. Simplesmente parou de
estudar. Passados alguns meses, o sr. Griffm, o diretor, disse  minha
me que no podia fazer mais nada: Mahad no ia ser readmitido. Ela
ficou furiosa com a expulso, porm o meu irmo se limitou a rosnar,
olhando-a de baixo a cima, alto e forte demais para que mame pudesse
bater nele.
       Mahad no teve pai que o orientasse na adolescncia. Contava
apenas com os amigos, alguns dos quais fumavam maconha e bebiam
cerveja nos bares, muito donos de si. Sempre foi muito ligado a mame
-- ela o protegia, preparava pratos especiais para ele --, mas, algum
tempo depois da nossa chegada ao Qunia,  medida que foi ficando
maior, mais forte e muito mais esperto do que ela, Mahad deixou de
sentir que lhe devia obedincia e passou a fazer pouco-caso da sua
autoridade. As rigorosas tradies somalis de mame eram totalmente
disparatadas do ponto de vista de um garoto normal que passava boa
parte da vida nas ruas de Nairbi. Na poca, o isl no o atraa. Embora
no fosse estudioso, Mahad no tolerou tirar notas mais baixas do que
os rapazinhos que ele antes superava. E se perdeu.
       A minha me no sabia o que fazer pelo futuro dele. E essa no
era a sua nica preocupao. A casa que alugvamos em Ka-riokor fora
vendida, e o novo proprietrio nos despejaria em breve. Mas os aluguis
haviam subido muito, e ela no tinha dinheiro, s o que os parentes
osman mahamud do meu pai lhe davam para viver. Todo ms mame
era obrigada a ir  casa de Farah Gour, um dos grandes homens de
negcios osman mahamud de Nairbi, e fingia no estar mendigando
quando o informava, com arrogncia, que o custo de vida subira outra
vez. No queria morar em um prdio de apartamentos lotado e
barulhento de Eastleigh, como a maior parte dos somalis de Nairbi.
Queria uma casa bonita, em um bairro limpo.
       Ainda que Farah Gour fosse um homem bom, seu bolso no era
ilimitado. Enfim ele disse claramente a mame que s restava se mudar
para um apartamento. No ramos a nica famlia da FSDS sem pai, e
ele no estava disposto a pagar um aluguel mais caro ainda. Foi um
impasse.
       Toda famlia estava infeliz e agitada quando o irmo mais velho
de mame, o tio Muhammad, chegou de Mogadscio em dezembro de
1985. Foi uma verdadeira lufada de ar fresco. Ele era grande e forte;
nada melhor do que ter um homem assim em casa. Parecia-se com a
minha me, embora fosse bem mais alto e muito mais alegre.
Costumava se sentar em um tapete no cho, com um sarongue e um
xale nos ombros, e brincar conosco, dizendo que j ramos quase
mulheres, prodigalizando elogios e nos provocando: garantia que logo
amos nos casar e que ele estava providenciando noivos jovens, bonitos
e ricos na Somlia.
       O tio Muhammad trouxe notcias do meu pai e da FSDS. AS
principais   lideranas   do   movimento   estavam   desertando,   disse.
Empregando-se no governo de Siad Barr. E os adultos se puseram a
praguejar l em baixo. Uma noite, tarde j, Haweya, que costumava
escutar atrs da porta, entrou no meu quarto, de olhos arregalados, e
cochichou: "Ayaan, a gente tem uma irmzinha. Abeh casou com outra
mulher. Tem uma nova famlia".
       Eu me esgueirei at o meio da escada vermelha para escutar.
Era verdade. O tio Muhammad estava falando da mulher com que papai
se casara. Agora ele morava na Etipia com a esposa e tinha uma filha.
       Na manh seguinte, exigi explicaes. " verdade que abeh tem
outra mulher?", perguntei a mame. Mas foi vov quem respondeu com
ar de superioridade: No vamos discutir as esposas do seu pai.
Sabemos que os homens se casam. Ningum vai sair dizendo por a que
as minhas filhas e as minhas netas so ciumentas".
       No nosso cl, o cime era considerado aviltante, uma coisa
abominvel, um sentimento to desprezvel que no podia ser aceito. De
modo que entendemos que estava proibido fazer perguntas sobre a nova
mulher de abeh, mas no resistimos: " verdade que a gente tem uma
irm? Qual  a idade dela?". Uma vez mais, foi a minha av que se
encarregou de responder com a mesma atitude tensa mas afetada: "Ora,
deve estar com uns nove anos". Ento mame interferiu, dizendo com
voz sufocada: "No, tem s trs ou quatro". E, no silncio que se seguiu,
ns todas fizemos as contas. Papai devia ter se casado logo que nos
abandonara em 1981 -- talvez poucos meses depois.
       Fiquei pensando na sucesso de mulheres e filhos de abeh: ele
abandonara o primeiro filho, depois a ns, e agora tinha outra filha, a
qual, imaginei, tambm ia abandonar um dia. Senti uma sbita onda de
compaixo por mame, com seus inmeros problemas: encontrar uma
casa decente para morar, ter que aceitar a esmola do cl do meu pai,
enfrentar   a   marginalizao   de   Mahad   e   se   preocupar   com   o
desencaminhamento de Haweya. Se abeh estivesse conosco, nada disso
teria acontecido.
       Eu estava arrasada. Sentia que toda esperana havia se esvado
repentinamente dos meus ossos. Embora quase nunca o admitisse,
naquela poca eu secretamente continuava imaginando que o meu pai
ia voltar um dia para nos transformar em uma famlia outra vez, recriar
aquele ambiente de amor e segurana. Saber daquela outra filha -- isso
era uma traio pior do que se ele tivesse me esbofeteado.
       Nos dias e nas semanas seguintes, jurei nunca deixar tal coisa
acontecer comigo. Nunca ser to dependente de ningum. Minha me
tinha to pouco controle da sua prpria vida que nem sabia que o
marido se casara novamente. Eu me enfurecia internamente ao pensar
nisso. Enfurecia-me por ela. A vida era to injusta. Mame podia ser
cruel, mas era leal ao meu pai e sempre esteve presente para os filhos.
No merecia aquilo.
       Comecei a me insurgir intimamente contra a sujeio tradicional
da mulher. Naquele tempo, ainda usava o hijab. Pensava muito em
Deus, em ser boa aos Seus olhos e na beleza da obedincia e da
submisso. Continuava tentando serenar a mente para que ela se
transformasse em um mero recipiente da vontade de Al e das palavras
do Alcoro. Mas minha mente parecia inclinada a se desviar da Senda
Reta.
        Algo dentro de mim insistia em rejeitar os valores morais
contidos   nas   aulas   da   irm   Aziza:   uma   pequena   fagulha   de
independncia. Talvez fosse uma reao ao abismo que se abria entre o
comportamento exigido pelas Sagradas Escrituras e a realidade da vida
cotidiana, com todas as suas reviravoltas. Mesmo na infncia, eu no
conseguia entender a flagrante injustia das normas, sobretudo com as
mulheres. Como era possvel que um Deus justo -- tanto que quase
todas as pginas do Alcoro louvavam Sua justia -- desejasse que as
mulheres fossem tratadas to injustamente? Quando o ma alim nos
dizia que o testemunho de uma mulher valia a metade do de um
homem, eu me perguntava Por qu?. Se Deus era misericordioso, por
que exigia que suas criaturas fossem enforcadas em praa pblica? Se
Ele era to compassivo, por que os mpios iam para o inferno? Se era
todo-poderoso, por que no transformava os descrentes em crentes para
acolh-los no paraso?
        No ntimo, eu rejeitava a doutrina e a transgredia secretamente.
Como tantas outras garotas da minha classe, continuava lendo
romances sensuais e suspenses ordinrios, mesmo sabendo que isso
era opor resistncia ao isl da maneira mais fundamental possvel. Ler
romances que me excitavam era ceder a uma coisa que nenhuma
muulmana podia sentir: o desejo sexual fora do casamento.
        Uma maometana no podia ser impetuosa ou livre nem
experimentar as emoes que eu experimentava ao ler aqueles livros.
Uma maometana no tomava decises prprias nem procurava
controlar o que quer que fosse. Era treinada para a docilidade. Ser
maometana era desaparecer at que no restasse quase nada de voc
dentro de voc. No isl, tornar-se indivduo no era um desenvolvimento
necessrio; muita gente, principalmente as mulheres, nunca expandia
uma vontade individual clara. A ordem era se sujeitar: eis o significado
literal da palavra isl: submisso.
       A meta era se tornar intimamente serena, at no erguer mais a
vista, nem mesmo em pensamento.
       Mas a fagulha da vontade crescia dentro de mim, por mais que
eu estudasse e praticasse a submisso. Era estimulada pelos romances
rebeldes, pela ausncia do pai e pela frustrao de ver o desamparo de
minha me naquele pas no muulmano. Acima de tudo, acho que
foram os romances que me salvaram da sujeio. Eu era jovem, mas j
estava dando os primeiros, pequeninos e tmidos passos rumo 
rebelio.
       Nossa   famlia   nunca   foi   muito   unida,   mas   ficou   quase
totalmente dispersa a partir daquele dezembro. Tio Muhammad
retornou  Somlia, levando Mahad consigo para que se achasse na
vida e virasse homem. Fiquei contente com a partida dele -- ele era um
bruto --, mas tambm senti inveja. Meu irmo podia viajar e ter
aventuras. Nada disso acontecia comigo porque eu era mulher.
       Um ms depois da partida de Mahad, chegou a ordem de
despejo, e nossa famlia mergulhou na crise. Fazia anos que mame
negociava mais alguns meses de adiamento com o proprietrio, mas
ainda no encontrara onde morar. Foi vov quem finalmente chegou a
uma soluo prtica -- atravs do cl, como de costume -- e nos
mudamos provisoriamente para a casa de um isaq do bairro.
       Esse homem, cujo nome era Abdillahi Ahmed, acabava de
enviuvar. Sua esposa falecera alguns meses antes, e vov passou
algumas semanas na casa dele, ajudando; era o tipo de coisa que se
costumava fazer pelos membros do cl. Ao saber da dificuldade que
estvamos enfrentando, Abdillahi Ahmed se prontificou a nos acolher.
       Ele tinha muitos filhos, mas havia mandado os menores para a
sua fazenda no interior. Somente as duas filhas mais velhas, Fardawsa
e Amina, moravam com ele em Nairbi. Abdillahi Ahmed era negociante
e somali, de modo que no tinha idia de como cuidar de duas
adolescentes. Uma velha chamada Hanan, parente dele, morava l e se
encarregava das garotas.
       Passamos a morar em um quarto: minha av em uma cama,
Haweya e eu em um beliche, e mame em um colcho no cho. Nossas
coisas ficavam guardadas debaixo da cama de vov ou em vrias casas
do bairro. Usvamos a mesma cozinha. Geralmente, Fardawsa ou
Amina cozinhavam para a famlia, e eu, para ns.
       Fardawsa e Amina tinham sido criadas no Qunia e falavam mal
tanto o somali quanto o ingls. Conversvamos em suali, para grande
desgosto da minha me. Depois do jantar, ficvamos tagarelando, na
cozinha, enquanto preparvamos a massa do an-gello da manh
seguinte, a tradicional panqueca somali. Amina, a mais velha, era
extrovertida e Haweya gostava dela; eu preferia Fardawsa, sempre
meiga e tranqila.
       Mas mame e Hanan brigavam feito co e gato. Hanan mascava
qat. Minha me no conseguia acreditar que era obrigada a morar com
uma mulher que descera to baixo. Embora o hbito de mascar essas
folhas fosse comum na Somlia, a doutrina muulmana se opunha a
todo tipo de vcio, e mame o achava particularmente abominvel em
uma mulher. Sempre que Hanan se punha a mascar qat, ela a encarava
com indignao e ia para o quarto.
       De   manh,    assolada     pela   ressaca    do      qat,   Hanan   era
simplesmente   intratvel.   Mas    depois   de     passar     algumas   horas
mascando no incio da tarde, as folhas verdes a tornavam agradvel e
tolerante. Sua vigilncia era muito mais desleixada do que a da minha
me. Amina e Haweya comearam a fugir de casa  tarde. Amina tinha
namorado, o filho mais novo de Farah Gour, um rapaz bonito que j
tinha carro. Sendo ela isaq e ele dos osman mahamud, aquilo era
terrivelmente romntico, como Romeu e Julieta. Quanto a Haweya,
creio que no raro ia ao cinema.
       Fardawsa e eu tambm fugamos s vezes. amos ao cinema com
Hawo, a filha mais velha de Jim'o Musse, que morava bem em frente 
casa de Abdillahi Ahmed. Hawo achava o meu hijab absolutamente
ridculo; morria de rir quando me via chegar do colgio com aquela
roupa preta. Depois me levava ao Odeon para assistir a algum pico
absurdo de Bollywood.
       Uma tarde, Kennedy se encontrou com Haweya em uma
discoteca e pediu notcias de Mahad e minhas -- principalmente
minhas. Ns dois no nos vamos desde que o meu irmo fora expulso
do colgio, o qual Kennedy continuava freqentando no equivalente 
dcima terceira srie. (No sistema britnico, o ensino secundrio se
inicia na oitava srie, sendo o nvel bsico a partir da dcima primeira,
geralmente chamado de quarta turma, e o nvel avanado na dcima
terceira, chamado sexta turma.) Kennedy mandou um bilhete para mim
com o nmero do seu telefone.
       Ao ver o bilhete, fiquei de pernas bambas e, evidentemente,
telefonei para ele. Cheguei a gaguejar quando conversamos, todas as
minhas terminaes nervosas ganharam vida de tanto entusiasmo. O
hijab preto no me protegia do efeito que Ken tinha sobre mim.
Combinamos de nos encontrar na casa de um parente dele; no cinema
ou no parque, arriscvamos ser vistos.
       Fui vestida da cabea aos ps. Ia disposta a falar de Al a
Kennedy. Pretendia lhe dizer que, j que Al quisera que nos
apaixonssemos, amos nos casar um dia -- assim havia de ser.
       Toquei a campainha, e Ken ficou embasbacado ao dar comigo
toda de preto: "O que aconteceu com voc? Ficou louca?". Respondi:
"No, no fiquei.  que levo a religio a srio. Coisa que voc tambm
deveria fazer". Ele segurou a minha mo e sorriu. Era to simptico, um
garoto agradabilssimo. Levou-me para dentro, e tirei o hijab e o dobrei,
fingindo que nada havia de extraordinrio em estar sozinha com um
homem em uma casa.
       Por baixo, eu estava de saia comprida e blusa abotoada at o
pescoo. Sentei-me na beira do sof, e passamos algum tempo
conversando. Ento ele me beijou. E, uma vez mais, foi como se uma
coisa se tivesse desligado na minha mente. Mesmo sabendo que os
anjos estavam me observando, no hesitei em retribuir o beijo.
       Quando escureceu, Ken preparou o jantar. Eu nunca tinha sido
servida por um homem. Foi divertido; ele era atencioso, bom e
interessante, tratava-me bem -- completamente diferente do meu
irmo. Depois do jantar, quando voltamos para o sof, perguntei: "Diga
a verdade, o seu nome  Yusuf, no?" J que eu estava arriscando a
alma naquele encontro, achava que tinha o direito de saber seu nome
verdadeiro e o do seu povo.
       Ele respondeu: "No, j disse que me chamo Kennedy".
       Continuei   pensando     que   fosse   brincadeira,   pois   estava
convencida de que aquela histria de Ken era uma piada, um modo de
ele e Mahad caoarem de mim por ser to ingnua e to protegida
contra o mundo exterior. Mas Ken disse: "Na verdade, meu nome 
Kennedy Okioga e sou da tribo kisii. No sou somali. Mahad inventou
essa histria para que a sua me me recebesse, pois ela  nova neste
pas. Sou queniano".
       Isso me deixou assombrada: "Ento voc no  muulmano?".
Ele respondeu: "No, no sou". "Ento vai ter que se converter!",
disparei, e Ken comeou a rir. "Claro que no vou me converter ao
islamismo", disse. "Do contrrio, teria que me vestir como voc."
       Eu o levei a srio e expliquei: "Os homens no precisam usar
esta roupa". E Kennedy disse: "Eu sei disso, mas no quero ser
muulmano".
       Contou-me que era ateu, que no acreditava em Deus, o que me
deixou horrorizada. Eu no podia acreditar que algo to maligno
pudesse partir de uma pessoa to boa, to bonita. E explodi: "Ento
voc vai para o inferno!" Kennedy disse: "No existe inferno nenhum.
Isso  bobagem".
       Fez-se um silncio horrvel. Percebi que no podamos voltar a
nos encontrar. Por mais que gostasse dele, no podia casar com um
no-muulmano. No s por causa da regra segundo a qual uma
muulmana no deve se casar com um infiel. Tratava-se tambm da
intransigncia somali do meu cl. Ayaan Hirsi Magan no poderia casar
com um queniano. O cl simplesmente no toleraria. Se casasse com
um queniano, era possvel que mandassem mat-lo.
       Se Ken estivesse disposto a se converter ao islamismo, eu podia
tentar alegar que ns ramos iguais para Al, independentemente de cl
ou tribo. Talvez os osman mahamud um dia aceitassem a idia, embora
passassem o resto da vida me olhando com desprezo. Mas, aos
dezessete anos, eu achava inconcebvel casar com um infiel.
       Portanto, era preciso acabar tudo. Era tristssimo. Antes de ir
embora, eu disse: "Acho que o nosso amor  impossvel". Ken
respondeu: "Eu sei como so os somalis, mas o amor  mais forte do
que tudo -- vamos tentar". Foi gentil, mas intil; era s uma espcie de
desejo infantil que estava por trs das suas palavras. Eu me limitei a
baixar os olhos e murmurar: "Por favor, preciso de tempo para pensar".
Ele sabia -- os dois sabamos -- que estvamos nos despedindo.
       No foi um bom perodo para ningum na minha famlia.
Algumas semanas depois, pouco antes de completar dezesseis anos,
Haweya anunciou que ia parar de estudar. Contou-me tudo na noite
anterior  conversa que ia ter com mame. Eu lhe pedi que no fizesse
tamanha loucura. Faltavam apenas dois anos para o exame do nvel
bsico, e ela sempre tinha sido boa aluna sem fazer esforo. Eu
estudava muito mais e tirava notas piores. Disse-lhe: "Sem um diploma,
voc no  ningum -- vai ser como mame". Mas Haweya era teimosa.
O colgio no passava de uma idiotice. Ela queria ir para a Somlia,
como Mahad. Queria morar em qualquer lugar que no fosse o quarto
que dividamos com vov e mame.
       Na manh seguinte, Haweya foi  casa de Farah Gour, aonde
mame ia todo ms, de nariz empinado, para fazer o favor de aceitar
sua mesada. L havia um ptio enorme, sempre cheio de somalis, e ela
entrou sem a menor cerimnia, vestida como de costume: com a saia do
colgio e sem vu. Anunciou: "Vim conversar com Farah Gour".
       Todos riram e lhe disseram que retornasse com a me. Uma
mocinha no podia falar diretamente com um homem mais velho sem
intermedirio. Mas, quando Farah Gour apareceu  porta, Haweya se
aproximou e disse: "Sou filha de Hirsi Magan e vim lhe pedir um favor.
O senhor pode me ouvir e dizer sim ou no. Mas tambm pode me dizer
imediatamente cV embora, voc no  bem-vinda aqui', e vou e no
volto mais".
       Farah Gour achou graa. Perguntou-lhe se queria um copo de
ch, e ela disse: "No, quero  ir para a Somlia". Exatamente assim. E
acrescentou: "Meu irmo est em Mogadscio, minha famlia est em
Mogadscio, e em breve meu pai vai para a Somlia, assim que Siad
Barr for derrotado. No quero mais ficar no Qunia. Sonho com a
Somlia desde menina e sei que o senhor vai pra l duas vezes por ms.
Por favor, leve-me".
       Farah Gour perguntou: "Sua me sabe disso?". E Haweya
respondeu: "Sabe. Se o senhor concordar em me levar, ela me deixa ir".
O que obviamente era mentira.
       Farah Gour era uma figura singular. Um osman mahamud
baixinho e gordo; creio que tnhamos o nono bisav em comum. Em
1987, devia estar beirando os sessenta anos e, ainda que no soubesse
ler nem escrever, era dono de uma frota de caminhes e viajava por
todo leste e sul da frica. Mas, embora tivesse enriquecido por iniciativa
e esforo prprios, seu patrimnio no lhe pertencia como costuma
pertencer a um ocidental. Farah Gour acreditava no cl e na FSDS.
Encarregando -- se de cuidar das famlias da FSDS, acreditava ajudar
seus compatriotas a lutarem. Era o tipo da coisa que os osman
mahamud sempre faziam. Ele compartilhava seu dinheiro e sua boa
sorte com o cl e a causa: mantinha a casa aberta para quase todos os
osman mahamud que quisessem ficar l.
       Muito tempo depois, contaram-nos como Farah Gour conhecera
sua esposa Fadumo. Aos quinze anos, sara de casa para ganhar a vida.
Essa era a tradio de Bari, onde ele nascera: o homem tinha que se
provar, sozinho. De modo que Farah partira de Bari e fora a Kismaio, no
sul. Era jovem, no entendia as pessoas nem o dialeto do lugar e no
tinha ningum que olhasse por ele ou cuidasse da sua roupa. O
dinheiro acabou depressa e sua roupa se reduziu a farrapos, mas ele
no podia voltar fracassado  casa dos pais: a vergonha seria
intolervel.
       Um dia, no mercado, Farah Gour viu uma garota mais ou
menos da sua idade fazendo angellos em um fogareiro no cho,
enrolando-os com acar e manteiga e vendendo-os aos transeuntes.
Atrado pelo cheiro das panquecas, ele se aproximou, e a moa o
chamou: "Puxa, que cara de fome", e Farah riu com alvio ao reconhecer
o dialeto de Bari.
       Eles comearam a enumerar os ancestrais, como sempre fazem
os somalis. Os dois eram osman mahamud, de modo que podiam se
tratar por irm e irmo. Farah lhe perguntou o que estava fazendo em
Kismaio, e ela respondeu: "Eu disse aos meus pais que ia fazer fortuna,
por isso estou aqui. Tenho uma banca de angello, mas, um dia, vou
comprar um caminho. Voc tambm pode ter uma banca de angello".
Farah Gour disse: "Claro que no posso, sou homem".
       Fadumo lhe ofereceu um angello e, ao ouvi-lo dizer que no
tinha dinheiro, props-lhe um modo de pagar a panqueca: "Garanto o
seu caf-da-manh todo dia, e, em troca, voc descobre como funciona
o negcio de caminhes. Preciso ficar aqui vendendo angellos e, alm
disso, sou mulher, de modo que para mim no  to fcil fazer essas
coisas como para voc". E foi assim que Farah Gour ingressou no ramo
do transporte. Os dois falavam diariamente no sonho de Fadumo de ter
caminhes em toda Somlia. Ele a pediu em casamento, e ela
respondeu: "De jeito nenhum. No sou louca de casar com um homem
que no tem nem para pagar o caf-da-manh".
       Acabaram se casando,  claro. Depois de um ano vendendo
angellos e alugando caminhes para comerciar entre Kismaio e
Mogadscio, Fadumo e Farah Gour compraram o primeiro caminho.
Passado algum tempo, compraram outro e montaram uma verdadeira
banca de angellos, com empregados e tudo. Eram as mulheres do tolka,
as nossas parentas osman mahamud mais prximas, que nos contavam
muitas vezes essa histria, e cada relato se enriquecia com uma nova
pitada de romantismo, Fadumo aparecia mais valente e esperta, e
Farah, ainda mais fascinado por ela. Quando a narravam na presena
da prpria Fadumo, ela ouvia em silncio, com um leve sorriso, e no
dizia nada. Era uma mulher corpulenta, feliz, e o seu casaro cheio de
crianas e hspedes ficava na mesma rua em que morava Abdillahi
Ahmed.
       Quando Fadumo engravidou do stimo filho, Farah Gour casou
com outra mulher e, a seguir, com uma terceira. Mas ela no se
intimidou. Disse s recm chegadas: "Sejam bem-vindas, mas tratem de
ganhar a vida. O dinheiro com que ele casou com vocs  meu".
       No sei at que ponto a histria era verdadeira, mas trazia uma
lio clarssima: sendo mulher, voc se dava bem na vida se tivesse o
seu prprio dinheiro. No podia impedir o marido de abandon-la ou de
casar com outra, mas preservava uma parte da sua dignidade se no
fosse obrigada a esmolar apoio financeiro.
       Acho que foi por isso que Farah Gour resolveu ajudar a minha
irm: gostava de mulheres fortes e ousadas. Concordou em pagar a
viagem a Mogadscio e tomou as providncias necessrias.
       Vov ficou orgulhosa de Haweya. Ia fazer o que toda darod fazia,
voltar  sua terra para aprender as tradies ancestrais. Mas mame se
zangou por ela ter feito tudo s escondidas. Sabia que aquilo ia dar
muito que falar para as osman mahamud: uma filha que abandonava a
me assim refletia muito mal a educao recebida. Em todo caso, ela
sabia que no podia impedir Haweya de voltar  Somlia para visitar os
parentes do pai: seria pior ainda.
       Mame mandou fazer vrios dirhas compridos e vaporosos para
Haweya e lhe recomendou muito que obedecesse aos mais velhos e no
manchasse a honra dos pais. No dia da viagem, levamos sua mala 
casa   de   Farah   Gour.   Haweya   estava   empolgada;   eu   chorei.
Principalmente de pena de mim, condenada que estava a seguir
dividindo o quarto com vov e mame, e a concluir os estudos sozinha.
Papai se fora anos antes, depois Mahad, e agora era Haweya que partia.
Vov no cessava de dizer que se sentiria muito melhor se pudesse
voltar  Somlia e ficar com as outras filhas e o filho. Nossa famlia
estava se desintegrando.
       Ao chegar a Mogadscio, Haweya teria de se hospedar na casa da
primeira esposa de papai, Maryan Farah, nossa parenta mais prxima
na Somlia. Seria uma grosseria no ficar com ela, era o mesmo que
despachar uma mensagem de cime e rancor. E estvamos acima disso.
       No conhecamos Maryan Farah, mas sabamos dela e das suas
filhas, que chamvamos de irms. Arro era muito mais velha do que eu;
Ijaabo tinha mais ou menos a idade de Haweya. Mulherzinha orgulhosa,
Maryan no voltou a se casar depois de meu pai se divorciar dela. Tinha
um cargo importante no governo em Mogadscio. Maryan era marehan
-- o pequeno subcl do ditador Siad Barr.
       Houve uma incessante luta de cls enquanto a minha irm
esteve na Somlia. No Qunia, no nos importvamos muito com os
cls, mas eles eram onipresentes no nosso pas. Os osman mahamud
achavam que Haweya tinha que morar com a madrasta, mesmo sendo
ela de outro cl, porque era assim que se procedia. Mas nem por isso
deixavam de vigi-la. Falavam mal do cl marehan do arrivista Afwayne.
No queriam que uma marehan sasse dizendo por a que sustentava
uma menina osman mahamud, por isso davam mesada a Haweya.
       Assim que a minha irm chegava de uma visita aos parentes de
papai, as nossas meias-irms a cercavam. Arro e Ijaabo lhe pediam,
imploravam e at exigiam que dividisse o dinheiro com elas. Usavam as
coisas de Haweya sem pedir licena, o xampu, o sabonete. Zombavam
dela por no conhecer bem os cdigos e por passar o tempo todo lendo.
Haweya no gostava delas.
       Sentia-se bem na casa de Ibado Dhadey Magan, uma irm mais
velha do meu pai que aprendera sozinha a ler e a escrever, diplomara-se
em enfermagem e era diretora do Hospital Digfeer, onde nasci. Embora
j tivesse quase cinqenta anos ou at mais, Ibado Dhadey era
moderna. Casada e sem filhos, admirava a fibra da minha irm.
       Ibado lhe disse que era uma sorte ela ter estudado e a
aconselhou a continuar estudando para ganhar a vida. Mostrou-lhe a
casa, com varanda ladrilhada e exuberantes jardins, dizendo: "Ningum
me deu nada disso. Ganhei tudo com o meu trabalho. Trate de se
qualificar e v trabalhar".
       Quando Haweya gastava em calas, blusas e saias o dinheiro
que Ibado lhe dava, a famlia de Maryan ficava injuriada. A comida era
outra questo delicadssima. Em nossa casa de Nairbi, no comamos
do mesmo prato como costumavam fazer os somalis. Mame adotara o
modo ocidental, com pratos individuais, se bem que geralmente
comamos com colher ou com a mo. Mas, na casa de Maryan, como
quase em toda Mogadscio, em uma parte do ptio os homens se
alimentavam de um prato, e as mulheres e as crianas pequenas se
acocoravam em outro canto e se serviam de outro prato.
       Haweya detestava esse costume; achava-o anti-higinico. E
acabava perdendo o apetite. Em casa, desenvolvera o hbito de comer
sozinha, depois de ns, geralmente lendo um livro. E, como no gostava
de comer sem ler, comeou a emagrecer, coisa que Maryan tomou como
ofensa pessoal.
       Minha irm passou a freqentar restaurantes com o dinheiro
que Ibado lhe dava. Uma moa sozinha em um restaurante era uma
coisa absolutamente inusitada. Ela pedia o almoo e, sem dar a mnima
para ningum, comia devagar, lendo um romance. Os garons e os
clientes a assediavam, mas Haweya simplesmente os enxotava. Era um
comportamento extraordinariamente anormal.
       Os parentes de Maryan ficaram preocupadssimos com ela, a
pobre filhinha de Hirsi Magan que fora criada como uma selvagem no
Qunia.   Procuravam     influenci-la.   Falavam   e   falavam   --   todos
subitamente interessados no que comia, no horrio das suas refeies,
na roupa que vestia e nos romances que devorava em vez de ler o
Alcoro. Haweya me escreveu dizendo que tinha ido  Somlia para se
livrar de mame, mas que estava sendo sufocada por uma verdadeira
conspirao.
       Eu tinha dezessete anos e sofria muito com a ausncia dela.
Minha amiga Fardawsa Abdillahi Ahmed tambm deixou Nairbi para
morar no campo, com os irmos menores, at que a casassem. No
colgio, s me interessavam os estudos islmicos. A proximidade do
exame do nvel bsico no me preocupava. Eu tinha necessidade de
atingir o ncleo daquilo em que acreditava. Todas as demais garotas se
resignavam em aceitar as normas da nossa religio tal como eram
apresentadas, mas eu me sentia compelida a tentar entend-las. Meu
sistema de f precisava ser lgico e coerente. Essencialmente, eu
precisava me convencer de que o isl era a verdade. E comeava a me
dar conta de que, embora muita gente admirvel tivesse certeza de que
era a verdade, parecia haver falhas na sua coerncia.
       Se Deus era misericordioso, por que os muulmanos precisavam
fugir dos no muulmanos -- e at atac-los para instituir um Estado
fundamentado nas leis de Al? Se Ele era justo, por que deixava
oprimirem tanto as mulheres? Comecei a reunir todos os versculos do
Alcoro que diziam que Deus era sbio, onipotente, justo -- e havia
muitos. Refleti sobre eles. Obviamente, na vida real as muulmanas no
tinham nada de "diferentes mas iguais" como afirmava a irm Aziza. O
Alcoro dizia: "O homem tem autoridade sobre a mulher". Do ponto de
vista da lei e em cada detalhe da vida cotidiana, era evidente que
valamos menos do que os homens.
       Eu tambm fazia um curso de Alcoro paralelamente ao Meninas
Muulmanas. O meu maalim era um rapaz conhecido como Boqol
Sawm, Aquele que Jejua Cem Dias. Vov dizia que ele tinha o estmago
grudado na espinha, de to magro. Boqol Sawm era fantico mesmo
pelos padres mais ortodoxos. Trajava um camisolo saudita um tanto
curto para deixar bem  mostra os tornozelos esquelticos. Tinha o
costume de percorrer East leigh batendo de porta em porta para
catequizar as pessoas. A Farah Gour, ele disse: "As suas filhas andam
descobertas! Vocs todos vo apodrecer no inferno!" Farah Gour o
jogou na rua.
       Mas, com o tempo, Boqol Sawm foi conquistando numerosos
proslitos. Na maioria, mulheres, entre as quais, minha me. Distribua
sermes gravados em fita cassete, e elas os escutavam e trocavam umas
com as outras. E tambm improvisavam madraais na sala de visitas
repleta de matronas vidas por ouvir as fitas magnticas ou mesmo a
Boqol Sawm em pessoa, que, tal como ordenava o profeta, delas ficava
separado por uma pesada cortina.
          Ele chegou a ser o mais solicitado pregador da comunidade e,
com o tempo, o efeito dos seus sermes se evidenciou em todos os
bairros somalis. Mulheres que antes usavam vistosos dirhas com
sedutoras anguas por baixo, que calavam sandlias italianas e
gostavam de expor os dedos bem tratados e as unhas esmaltadas ou
pintadas de hena, comearam a se ocultar sob a burca, a se amortalhar
com as mais grosseiras peas de algodo marrom-escuro, preto ou azul
marinho, deixando visvel apenas um pedacinho do rosto. Algumas
chegavam a cobrir inclusive o rosto. Variavam tanto as maneiras de se
cobrir;     o    tipo   de       vu    que    agora   se   disseminava   entre   as
fundamentalistas somalis chamava-se jilbaby um pano grosso que tudo
ocultava da cabea aos joelhos, mais uma pesada saia por baixo.
Sbito, a minha veste preta ficou escandalosamente fina e reveladora.
          Minha me ficou fascinada com a certeza de Boqol Sawm.
Estimulava-me a escutar os sermes gravados e a comparecer s suas
pregaes nas casas do bairro.
          Com a irm Aziza, havia uma atmosfera de confiana e
intimidade: ela nos deixava chegar a concluses prprias. Mas, para
Boqol Sawm, ensinar o Alcoro significava declam-lo bem alto, aos
gritos, em um misto de rabe e somali, e depois enumerar as regras: o
que   era       proibido,    o    que    era   permitido.   No   traduzia o   texto
adequadamente, tampouco explicava as entrelinhas.
          Um dia, quando eu tinha dezessete anos, Boqol Sawm escolheu
os versculos que diziam como as mulheres tinham que se comportar no
casamento. Devamos obedincia absoluta ao marido, disse s mes e
adolescentes reunidas para escut-lo. Se desobedecssemos, ele podia
nos espancar. Fora do perodo de menstruao, ramos obrigadas a
estar sexualmente disponveis a qualquer hora e em qualquer lugar,
"at mesmo na sela de um camelo", como dizia o hadith. No se tratava
de uma parceria baseada no amor ou na doao mtua; isso nem era
possvel. E Boqol Sawm bradou: "OBEDINCIA TOTAL: esta  a lei do
isl". Irritada com aquilo, eu me levantei por trs da cortina e indaguei
com voz trmula: "O marido tambm deve nos obedecer?".
       No havia nenhuma maldade na pergunta, mas Boqol Sawm
ergueu a voz com raiva. "Claro que no!"
       Cravei as unhas na mo para no tremer e prossegui: "Ento os
homens e as mulheres no so iguais".
       Boqol Sawm disse: "So iguais".
       "No, no so", insisti. "Se tenho que obedecer totalmente ao
meu marido, mas ele no precisa me obedecer totalmente, no somos
iguais. Quase todas as pginas do Alcoro dizem que Al  justo, mas
isso no  justo."
       Boqol Sawm se ps a berrar. "Voc no pode questionar a
palavra de Al! A mente Dele  insondvel.  Satans que est falando
pela sua boca, menina! Sente-se imediatamente!"
       Obedeci, mas rosnei baixinho: "Idiota". Isso alarmou as outras
mulheres presentes; acharam que eu estava mesmo com a mente
dominada pelo demnio. Mas eu sabia que estava sinceramente
procurando a verdade e que Boqol Sawm tinha me calado porque ele
no a conhecia. O erro no podia ser do Alcoro, que era a palavra de
Deus. S podia ser daquele maalim boal, de toda legio inepta de
maalins que eu tivera a infelicidade de conhecer.
       Pensei que Boqol Sawm talvez traduzisse mal o Alcoro: era
bvio que Al no podia ter dito que o homem devia bater na esposa
desobediente. bvio que o testemunho de uma mulher, no tribunal,
tinha o mesmo valor que o de qualquer homem. E eu disse comigo:
"Nenhum desses pobres coitados entende que o verdadeiro Alcoro  a
favor da igualdade verdadeira. O Alcoro  superior e melhor do que
esses homens".
       Comprei uma traduo inglesa das escrituras e as li para
compreend-las melhor. Mas descobri que l estava tudo quanto Boqol
Sawm dizia. As mulheres tinham que obedecer ao marido, sim. E valiam
a metade de um homem. As infiis deviam ser mortas.
         Fui consultar a irm Aziza, que tudo confirmou. As mulheres
eram emocionalmente mais fortes do que os homens, disse ela. Tinham
mais resistncia, eram mais testadas. O marido podia castigar a esposa
-- no s pelas pequenas infraes, como um atraso, como pelas mais
graves, como seduzir outro homem. Aquilo era justo devido ao
extraordinrio poder sexual da mulher. Perguntei: "E se o marido
seduzir outra mulher?" Ela respondeu: "Em uma sociedade islmica,
isso  impossvel".
         Ademais, ela prosseguiu, eu no devia pensar, nem um nico
segundo, na possibilidade de adaptar as palavras do Alcoro aos
tempos modernos. O Alcoro foi escrito por Deus, no pelos homens. "O
Alcoro  a palavra de Al, e  proibido refut-la", asseverou a irm
Aziza.
         Obedecer e servir a Al -- esse era o teste. Quem se sujeitasse 
vontade de Deus na terra, alcanaria a bno no alm. A norma era
rigorosa e pura. Todas aquelas dvidas reduziam muito as minhas
chances de alcanar a bno eterna, mas conclu que no podia
desprez-las. Precisava resolver aquilo.
          medida que aumentava o nmero de sectrios de Boqol Sawm,
seus sermes passaram a provocar muitos conflitos conjugais. No
incio, os pais e maridos somalis achavam aquilo divertido e caoavam
das esposas, dizendo que dali a uma semana todo aquele mulherio
entediado ia arranjar outra diverso. Entretanto, passado algum tempo,
a irritao cresceu. A geralmente bem mobiliada sala de estar sempre
tinha sido o domnio do homem. Os somalis levavam os amigos para
casa e com eles se instalavam na sala para ter conversas masculinas
(honra, dinheiro, poltica e a convenincia de tomar uma segunda ou
terceira esposa), ao mesmo tempo que bebiam ch aromatizado e
mascavam qat. Isso ocorria de preferncia  noite ou nas tardes de
sexta-feira, e Boqol Sawm deu para fazer seus sermes justamente
nessas ocasies.
       Quando ele visitava uma casa, os homens eram relegados aos
cmodos das mulheres: a cozinha, o quintal e, nas casas grandes, a
sala de estar menor e mais feia, normalmente reservada s esposas. E,
agora convertidas  f do Verdadeiro Isl da Fraternidade Muulmana,
elas se punham a dizer que era proibido mascar qaty fumar ou deixar
de rezar. Chegavam a expulsar os maridos, chamando-os de mpios.
Quando os homens as acusavam de desobedincia, elas retrucavam
que, na hierarquia da submisso, devamos nos sujeitar a Al antes
mesmo de nos sujeitar ao marido e ao pai: Al e o profeta haviam
decretado que a esposa s era obrigada a obedecer ao marido que
obedecesse a Al.
       A Fraternidade Muulmana acreditava na existncia de um isl
original, puro, ao qual todos devamos retornar. A prtica tradicional do
islamismo estava corrompida, dilura-se em velhas crendices que j no
deviam ter vigncia. Fundado na dcada de 20, no Egito, esse
movimento    de     renascimento   maometano   ganhara   impulso   e   se
propagara -- devagar a princpio, mas com muito mpeto na dcada de
70, graas aos recursos financeiros que chegavam da repentinamente
enriquecida Arbia Saudita. Em 1987, as idias da Fraternidade
Muulmana atingiram as donas de casa somalis de Eastleigh atravs da
furibunda e maci-lenta figura de Boqol Sawm.
       Em poucos meses, verificaram-se os primeiros divrcios e muitos
somalis leigos juraram se vingar de Boqol Sawm por lhes haver
destrudo a famlia. Embora o pregador tenha sido expulso das salas de
visitas e das mesquitas, seus cassetes continuaram a ser divulgados
mesmo quando ele passou para a clandestinidade.
       Nas gravaes, quando no ameaava com o fogo do inferno,
Boqol Sawm emitia prescries detalhadas acerca dos rituais permitidos
no isl e das cerimnias de nascimento, cpula, casamento, divrcio
etc. Ficou proibido comemorar o nascimento do profeta, pois isso
lembrava o Natal, quando os cristos comemoram o nascimento de
Jesus, e os muulmanos no podiam de modo algum imitar os infiis.
Usar amuletos, como a minha av, e pedir proteo aos antepassados
era blasfmia, j que tais prticas associavam Al a deuses inferiores,
coisa que levava ao fogo eterno. Recusar-se a dormir com o marido,
caso ele no observasse as obrigaes de orao e jejum, era
perfeitamente lcito. Ao entrar no banheiro para usar o vaso sanitrio,
convinha pisar com o p esquerdo e, ao sair, com o direito. A nica
saudao     permitida         entre   muulmanos        era    Assalamu    Allaikum
Warahmatul        lahi    Wabarakaatuhy        "Contigo       esteja   a   paz   e   a
misericrdia de Al e a Sua bno". Se algum nos cumprimentasse de
outro modo, o melhor era no responder.
         Boqol Sawm no foi o nico pregador que, aps uma temporada
em Medina ou no Cairo, apareceu no bairro para levar os extraviados de
volta  Senda Reta de Al. As ruas iam ficando cada vez mais povoadas
de jovens de camisolo branco  altura dos tornozelos e turbante xadrez
vermelho e branco. Os que aderiam  sua causa comeavam a coletar
dinheiro na famlia; certas mulheres chegavam a doar o prprio dote, e
chovia todo tipo de esmola. Em 1987, construiu-se a primeira mesquita
da Fraternidade Muulmana de Eastleigh, e, toda sexta-feira, Boqol
Sawm saa do esconderijo para pregar, gritando a plenos pulmes nos
alto-falantes atrs do minarete branco com um crescente e uma estrela
verdes no alto.
         Ele garantia que os homens que rejeitavam o chamado da
esposa ao isl iam torrar no inferno. Os ricos que gastavam dinheiro em
coisas    terrenas       iam    torrar   no   inferno.     Os    muulmanos       que
abandonavam os companheiros muulmanos -- os palestinos -- no
eram muulmanos verdadeiros e tambm mereciam torrar no inferno. O
isl estava ameaado, e seus inimigos -- os judeus e os americanos --
iam torrar no inferno. As famlias muulmanas que mandavam os filhos
estudarem nos Estados Unidos, na Gr-Bretanha e em outros pases
infiis iam torrar no inferno. A vida na terra era provisria, bradava
Boqol Sawm; servia para Al testar as pessoas. Os hipcritas demasiado
fracos para resistir s tentaes mundanas estavam condenados a
torrar no inferno. E quem no rompesse a amizade com os no
muulma-nos estava condenado a torrar no inferno.
       Eu tinha muitas dvidas quanto a Boqol Sawm, mas, aos
dezessete anos, acreditava na maior parte dos valores da Fraternidade
Muulmana. E, com a ampliao do movimento, verificaram-se dois
benefcios. Diminuiu o nmero de rapazes viciados em qat e outras
drogas. Na poca, a aids estava apenas comeando a matar; muitas
famlias   muulmanas    achavam     que a   melhor    preveno   era   a
abstinncia, e era justamente isso, a abstinncia, que pregavam os
fanticos religiosos de todos os matizes.
       Outro benefcio foi certa inibio da corrupo. Nas empresas da
Fraternidade Muulmana, quase no havia corrupo. Os centros de
sade e de beneficncia administrados por ela eram confiveis. Os
quenianos no muulmanos que se convertiam tambm tinham acesso
a esses servios, por isso muitos favelados se converteram.
       Em Majengo, construiu-se uma mesquita com o dinheiro doado
por um ricao saudita. Numa noite de sexta-feira, fui rezar l porque a
irm Aziza dizia que era importante visitar os bairros pobres. A orao
noturna acabava de terminar, e as ruas prximas da mesquita estavam
cheias de quenianas desajeitadamente envoltas em jilbabs novos. 
entrada, uma delas se sentou na escadaria de pedra com um beb no
colo. Erguendo o jilbab, desabotoou o vestido e ofereceu  criana um
seio totalmente nu e voluptuoso, como se fosse a coisa mais natural do
mundo.  sua frente, havia uma montanha de sapatos de homem cujos
donos -- todos eles desconhecidos -- estavam rezando atrs dela, mas a
moa parecia totalmente indiferente quele ambiente.
       Todas as alunas da irm Aziza soltaram um gritinho em
unssono, e procuramos conduzi-la por um corredor na parte das
mulheres. Uma senhora de origem suali, coberta de preto da cabea
aos ps, tentou lhe ensinar o modo islmico de amamen-tar; primeiro,
era preciso dizer Bismlah antes de dar o peito ao beb. E, enquanto
este mamava, pedir a Al que o protegesse da doena, das tentaes
terrenas e da maldade dos judeus. Evidentemente, nenhum homem
desconhecido podia estar presente; antes deixar a criana passar fome.
         Nunca fui uma grande admiradora de Boqol Sawm. Achava seus
sermes toscos; nenhum deles respondia s minhas perguntas. Mas me
interessei por um grupo de estudo de jovens muulmanos que se
reuniam no centro comunitrio perto do colgio. Era uma gente
insatisfeita com o nvel intelectual do ensino nos madraais e que, como
eu, andava  procura de uma doutrina religiosa mais profunda, de uma
compreenso verdadeira do exemplo do profeta Maom, e queria seguir
seus passos da melhor maneira possvel. Todos sentiam que o isl no
devia ser uma coisa  qual dirigir saudao algumas vezes por semana.
Queriam nele mergulhar como em um tipo de vida minuciosamente
delineado, em uma paixo, em uma permanente busca interna.
         Um grupo de rapazes somalis e paquistaneses comeou a
organizar encontros islmicos semanais, em ingls, para discutir a
questo. Aqueles debates nada tinham em comum com os sermes na
mesquita, que geralmente no passavam da repetio de velhos textos
rabes. Nas nossas discusses, os jovens oradores falavam nas relaes
entre    homens   e   mulheres,       muulmanos    e   no    muulmanos,
cristianismo e islamismo. As intervenes eram veementes e quase
sempre lcidas, assim como muito mais relevantes para a nossa vida do
que a mesquita.
         Em sua maioria, os participantes eram estudantes mais velhos,
muito inteligentes e profundamente comprometidos, que l iam por
vontade prpria -- ao contrrio dos alunos do curso alcornico, que o
freqentavam por ordem dos pais. O orador ficava em um estrado.
Quase todos os rapazes, na frente, usavam roupa ocidental, e as moas,
atrs, grandes vus. A segregao era voluntria, e reinava uma
atmosfera harmoniosa: todos ramos bons muulmanos, aspirantes 
perfeio. Nada tnhamos da passiva escola antiga, para a qual isl
significava algumas regras e rituais observados com mais ou menos
devoo, mesclando o Alcoro com costumes tribais e crendices mgicas
em amuletos e espritos. Ns ramos a tropa de choque de Deus. O isl
que     absorvamos   brotava   das    crenas   genunas,    essenciais,   de
pensadores empenhados em restaurar o isl original do profeta Maom
e seus discpulos do sculo vil. Nossa inteno era viver  maneira
antiga em todos os aspectos da existncia. No nos limitvamos a
decorar os textos: discutamos seu significado e sua aplicao ao nosso
dia-a-dia.
       Lamos Hasan al-Banna, fundador da Sociedade dos Irmos
Muulmanos, em oposio  ascenso das idias ocidentais nas terras
islmicas, o qual promoveu um retorno ao isl do profeta. Lamos
Sayyid Qutb, outro egpcio, para quem no bastava pregar: era preciso
fazer uma revoluo catastrfica a fim de estabelecer o reino de Deus na
Terra. E vibrvamos com os novos movimentos chamados Akwan
(Fraternidade) e Tawheed (Senda Reta), pequenos grupos de fiis
autnticos, tal como ns sentamos que ramos. Aquele era o
Verdadeiro Isl, o retorno  pureza do profeta.
       Estvamos convencidos de que havia uma perniciosa cruzada
mundial empenhada em erradicar o isl, uma cruzada chefiada pelos
judeus e por todo Ocidente ateu. Era preciso defender o isl. Queramos
nos alistar no jihad, palavra de mltiplos sentidos. Significava que a f
precisava de apoio financeiro, ou que era necessrio envidar esforos
para converter novos crentes. Tambm significava violncia; o jihad
violento era uma constante histrica no isl.
       Por mais que eu quisesse ser uma muulmana devota, no me
agradava hostilizar o Ocidente. Para mim, a Gr-Bretanha e os Estados
Unidos eram os pases, nos meus livros, em que havia decncia e livre
arbtrio. O Ocidente representava todas essas idias, alm da msica
pop, do cinema e da correspondncia que, no Meninas Muulmanas,
mantnhamos com garotas da Finlndia e do Canad, as quais nos
imaginavam morando em rvores na selva. Minha experincia pessoal
-- que, sem dvida, era mnima -- dizia que o Ocidente no era to
mau assim. Mas eu passava muito tempo examinando atentamente as
fotografias de muulmanos mortos que nos mostravam: para dar
significado quela carnificina, diziam que o Ocidente a havia provocado.
Ensinavam-nos que, sendo muulmanos, tnhamos obrigao de nos
opor ao Ocidente.
        Nossa meta era um governo islmico global, para todos.
        Como lutar? Alguns diziam que o objetivo mais importante era a
pregao: difundir o islamismo entre os no-maometanos e despertar os
muulmanos passivos para o chamado da verdade, da f pura. Vrios
rapazes deixaram o grupo para ir ao Egito e l ingressar na
Fraternidade Muulmana original. Outros receberam bolsas de estudo
de diversos grupos financiados pelos sauditas e se matricularam em
escolas alcornicas em Medina, na Arbia Saudita.
        A irm Aziza converteu-se ao xiismo ao casar com um xiita.
Estava encantada com a Revoluo Islmica do Ir, que em 1987
completatava oito anos. Entusiasmava-se com a santidade do aiatol
Khomeini: enfim, uma voz que se erguia contra as perverses e a
hipoocrisia dos cruzados ocidentais. Mostrava-nos fotografias de jovens
iranianos mortos, a cabea ainda cingida com a faixa verde do o
martrio, rapazes que tinham dado a vida para defender a Revoluo
Iraniana. Levou-nos  embaixada do Ir em Nairbi. Chegamos a pensar
em ir quele pas para fazer o que estivesse ao nosso o alcance pelo
aiatol, mas minha me se zangou quando soube qu[ue havamos
estado na embaixada. Nunca me deixaria ir  terra dos xiitas.
        No    grupo de estudo, tnhamos discusses exaustivas sobre o
comportamento recomendvel na vida cotidiana. Eram tantas as regras
co:om    prescries    minuciosas     e     tantas   autoridades     que   se
manifestavam acerca delas. A verdadeira muulmana devia cobrir o
corpo a at na frente de um cego, at dentro de casa. No tinha o direito
de andar no meio da rua. No podia sair da casa paterna sem
autorizao.
        Eu ficava assombrada com a abundncia de ilustres pensadores
maometanos       que   filosofavam     exaustivamente       sobre    a   exata
quantidalade de pele feminina que se podia desnudar sem precipitar o
mundo    no    caos.   Naturalmente,       quase   todos   esses    pensadores
recoheciam que, quando a menina chegava  puberdade, o seu corpo,
com exceo do rosto e das mos, precisava ficar inteiramente e oculto
na presena de qualquer homem que no fosse um familiar bem
prximo. E fora de casa sempre. Isso porque a nudez daia sua pele
involuntariamente levava os homens a sentirem um            incontrolvel
frenesi de excitao sexual. Mas nem todos os sbios estavam de acordo
quanto  parte exata do rosto e das mos da mulher que era to
desejvel que precisava permanecer coberta.
       Alguns sustentavam que a mais poderosa fonte de provocao
sexual estava nos olhos da mulher: quando o Alcoro dizia que ela devia
baix-los, na verdade estava mandando ocult-los. Outra escola de
pensamento garantia que a mera viso de um par de lbios femininos,
principalmente se fossem carnudos, firmes e jovens, deixava o homem
em um estado de libidinagem capaz de lev-lo  danao. Havia ainda
os   que   passavam    pginas    e   pginas   digressionando   sobre   a
sensualidade da curva de um queixo, ou de um nariz bem-feito, ou de
dedos longos e finos, e sobre a tendncia de certas moas a movimentar
as mos de modo a chamar a ateno para as suas tentaes. A cada
limitao, citava-se o profeta.
       Mesmo que todas as mulheres se cobrissem inteiramente, da
cabea aos ps, eis que se abria outra corrente de pensamento. Pois
isso no bastava. Um toque-toque de saltos altos no cho podia evocar
no homem a imagem de pernas bem torneadas; para evitar o pecado,
elas deviam usar sapatos baixos e no fazer barulho. A seguir, havia a
questo do perfume: o uso de qualquer fragrncia agradvel, mesmo de
um sabonete ou um xampu cheiroso, afastava a mente dos homens da
adorao de Al, entregando-o a fantasias pecaminosas. Ao que tudo
indicava, a maneira mais segura de no causar dano a ningum era
evitar totalmente o contato com os homens e no sair de casa. Neles, as
idias erticas, pecaminosas, surgiam sempre por culpa da mulher que
as incitou.
       Um dia, finalmente me levantei e perguntei: "E os homens? Eles
no devem se cobrir? As mulheres no tm desejo pelo corpo
masculino? No podem ser tentadas ao ver a pele de um homem?". Isso
me parecia lgico, mas toda sala caiu na gargalhada. Foi impossvel
prosseguir com as minhas objees.
         Eu me sentia s sem Haweya e Fardawsa, e muitas colegas de
escola me evitavam, incomodadas com aquela carola maluca enfiada em
uma tenda preta. Comecei a passar as tardes, depois das aulas, na casa
de Farah Gour. L morava uma turma enorme de moas -- suas filhas
adolescentes do cl osman mahamud tinham acabado de chegar da
Somlia --, sob a vigilncia constante mas indulgente de Fadumo.
Vrias daquelas moas eram recm-sadas da rea rural ou das
provncias somalis e estavam devidamente prometidas a bons partidos
do cl. Minha me achava que elas exerciam uma influncia positiva
sobre mim e me deixava freqentar a casa de Farah Gour  vontade. E
eu gostava disso.
         Aquele foi o meu primeiro contato com moas da Somlia. Uma
delas era Jawahir, garota esperta, bonita, um tanto impulsiva. Tinha
uns vinte e cinco anos e estava em Nairbi para casar com um dos
motoristas de Farah Gour. Hospedada na casa deste, aguardava o
retorno do futuro marido de uma viagem de cinco meses pelo Sul da
frica. Ali era um excelente empregado, e Fadumo queria que Jawahir
se sentisse bem em Nairbi, caso contrrio, ela era capaz de convenc-
lo a voltar  Somlia. Por isso, Fadumo me pediu para lhe mostrar a
cidade e lhe fazer companhia.
         Jawahir era mida, mas exuberante, muito afetada e graciosa;
quando contava casos com sua voz estridente, revirava os olhos e
agitava os braos. Em tudo imprimia muita dramaticidade. Jawahir me
lembrava as mulheres isaq do velrio da minha tia em Mogadscio,
debaixo do talai; alis, alm dos modos isaq, ela absorvera at mesmo o
sotaque isaq por ter morado perto de Hargeisa, onde seus pais se
fixaram provisoriamente. Jawahir no lia livros -- no sabia ler --, mas
era divertidssima.
         O grupo todo passava a tarde reunido, entregue a conversas e
risos de mocinhas enquanto as mais velhas cochilavam com as
crianas. O principal assunto era o casamento iminente de Jawahir e as
vrias   expectativas   matrimoniais   das   outras.   E,   evidentemente,
falvamos da circunciso. Todas elas sabiam que iam se casar em
breve; era inevitvel falarmos da nossa clitorectomia. Afinal, fora para
isso que nos costuraram.
       No faltava quem se gabasse durante as nossas conversas. As
moas faziam questo de contar que tinham sido muito bem fechadas,
que a abertura era estreitssima, e isso as tornava ainda mais puras,
duplamente virginais. Jawahir tinha muito orgulho da sua circunciso.
Costumava dizer: "Est vendo a palma da sua mo? Pois eu sou assim.
Plana. Fechada".
       Uma tarde, falando mal de outra garota, ela disse: "Se voc
passar pelo banheiro quando ela estiver l, vai perceber que no 
virgem. Ela no pinga. Urina em jorros, bem alto, feito um homem".
       Tambm discutamos a menstruao, a essncia do que nos
tornava sujas e indignas. Quando estvamos menstruadas, no
podamos rezar nem tocar no Alcoro. Todas as moas se sentiam
culpadas por sangrar a cada ms. Era a prova de que valamos menos
do que os homens.
       Nunca falvamos em sexo propriamente, no ato que ocorreria na
noite de npcias, o motivo pelo qual haviam nos mutilado. As somalis
nunca falavam abertamente em sexo. O tema era vergonhoso e imundo.
Mas s vezes, quando Jawahir e eu estvamos passeando pelo bairro,
vamos gente -- quenianos -- transando  luz do dia. A pequena
Jawahir estremecia de pudor: que pas indecente aquele.
       Em outras tardes, ela me pedia que lesse em voz alta um dos
livros que eu levava a toda parte. Nunca tinha estado na escola,
estranhava os livros. A maioria dos meus era de suspense ou ento
aucaradas histrias de amor, mas todos tinham cenas de sexo. Eu lia,
e ela fungava e dizia: "Com as muulmanas no  assim. Somos puras".
       O casamento de Jawahir foi na casa de Farah Gour. Todas as
mulheres compareceram com elaborados arabescos de hena nas mos e
levssimos dirhas. Danamos ao som do tambor de uma delas. No creio
que os homens danassem ou tivessem msica. O banquete foi
magnfico -- abateram-se vrios cabritos e cordeiros -- e,  noitinha, a
pequena Jawahir apareceu com um vestido branco ocidental, o cabelo
preso no alto da cabea, feito uma colmia. Estava adorando ser o
centro das atenes, gostava muito de representar.
       Na semana que se seguiu ao matrimnio, mame no me deixou
visit-la: dizia que no era conveniente. De modo que s no fim de
semana seguinte eu pude ver Jawahir. Estava sentada no sof,
passando cuidadosamente o peso do corpo de uma ndega para outra.
Enfim, eu lhe perguntei como tinha sido o sexo.
       Ela fugiu da pergunta. Eu estava com um dos romances de
banca de jornal de Halwa, e Jawahir o pegou, perguntando: "Que livro
imundo  esse que voc est lendo?". Respondi: "Ora essa, agora voc
mesma sabe disso tudo, conte como ". Ela disse: "S se voc ler esse
livro para mim".
       Era uma histria insossa, um homem, uma mulher, um
romance triste e uma ou duas cenas erticas. Mas, quando os dois se
beijaram, o homem acariciou o seio da mulher e, a seguir, chupou-lhe o
mamilo. Jawahir ficou horrorizada. "Como esses cristos so imundos!",
exclamou. "Isso  proibido! Com as muulmanas  completamente
diferente!"
       Ento ela teve que me contar como era o sexo. Disse que era
horrvel. Aps a cerimnia de casamento, eles tinham ido para o quarto
do apartamento alugado por Ali. Ele apagara a luz. Jawahir se deitara
na cama, totalmente vestida. Ele a apalpara por baixo da roupa, abrira-
lhe as pernas, tirara a sua calcinha e tentara introduzir o pnis nela.
No a cortara com uma faca. Fora com o pnis mesmo. Tinha demorado
e dodo muito. Uma histria parecida com a que Sahra havia me
contado.
       Toda noite Jawahir tinha que enfrentar aquela dor, e era sempre
a mesma coisa: Ali a penetrava, movia-se dentro dela e ejaculava. S
isso. Ento se levantava e ia se purificar no chuveiro; ela se levantava,
tambm tomava banho para se purificar e passava Dettol nos lugares
que estavam sangrando. Essa era a sua vida sexual.
       Isso no tinha absolutamente nada em comum com as cenas
dos livros. Em breve eu ia completar dezoito anos. Colhia informaes
nos romances de banca de jornal e beijara Kennedy. A descrio de
Jawahir estava muito longe do sexo empolgante que eu imaginava.
Decepcionada, declarei que nunca ia me casar.
        Ela riu e disse: "Espere s o seu pai voltar -- a, sim, voc vai
ver". Jawahir parecia perfeitamente resignada com a vida. Ali devia ser
um homem bom, no tinha atitudes violentas nem grosseiras e era um
timo provedor. Ela estava convencida de que Deus proibia as boas
mulheres de sentirem desejo.
        Eu j sabia o que a irm Aziza tinha a dizer a respeito do sexo e
do casamento. Ela orientava muitos casais jovens. Boa parte das
mulheres dizia que achava horrvel ter relaes sexuais. Aziza respondia
que elas s se queixavam porque tinham lido, em livros ocidentais,
descries licenciosas e no islmicas da experincia sexual. Ns,
muulmanas, no devamos copiar o comportamento das mpias. No
devamos nos vestir como elas, nem fazer amor como elas, nem nos
comportar como elas. No devamos ler seus livros, pois eles nos
desviavam da senda de Al. A mulher no podia romper o casamento
por ach-lo ruim ou tedioso: isso era rigorosamente proibido, o prprio
caminho de Satans. "Se o seu marido a machuca", dizia a irm Aziza
quelas mulheres, "conte a ele e pea-lhe para fazer a coisa de outro
modo. Se voc colaborar, vai ser cada vez menos doloroso. E, se ele no
a machucar mais, voc vai poder se considerar uma mulher de sorte."
        Na casa de Abdillahi Ahmed, a relao entre mame e Hanan
estava se deteriorando. J haviam tido pequenos entreveros no comeo,
porm minha me se controlava: sabia que, se houvesse uma briga feia,
teramos que ir embora. Mas, no incio de 1988, chegou a notcia de
uma nova guerra na Somlia. Em maio, as foras de Siad Barr
comearam a bombardear o territrio isaq. Hanan virou uma bruxa. Ela
era isaq e se ps a gritar que no queria nenhuma darod dentro de
casa.
        Decerto nunca consideramos Siad Barr parente nosso. Ele era
darod, mas do marehan, muito distante da famlia osman mahamud do
meu pai e do subcl dhulbahante da minha me. Mame tentou
convencer Hanan: o que Siad Barr estava fazendo com os isaq, em
1988, ele j tinha feito com o povo do meu pai dez anos antes. "Ns
todos somos vtimas de Siad Barr", disse. "Por isso precisamos sair de
l, por isso sou uma mendiga neste pas, com os meus filhos."
       Mas, para piorar as coisas, ao mesmo tempo que atacava os
isaq, Siad Barr ofereceu anistia aos combatentes macherten da FSDS.
Muitos membros importantes da FSDS aceitaram a oferta, alguns deles
parentes meus, osman mahamud. O irmo de Jim'o Musse capitulou e
foi nomeado ministro de Telecomunicaes de Siad Barr. Hanan ficou
intratvel.
       Todo dia s cinco horas, bem quando eu chegava do colgio, ela
ligava o rdio no programa somali da BBC, na cozinha, anunciando em
altssimo volume quantos isaq tinham morrido e quantos estavam
fugindo. No nosso quarto, mame e vov escutavam a mesma coisa.
Hanan comeava a gritar -- rogando as piores pragas aos dhulbahante,
aos macherten e a todos os darod --, e s vezes a minha me perdia a
pacincia e saa do quarto para enfrent-la. As duas mulheres
enrugadas se punham a berrar entre panelas e frigideiras, mame a
escarrar um poema improvisado, acusando Hanan de covardia, e esta
bradando que ela era ainda mais covarde por ter fugido da Somlia
muito tempo antes. Vov tambm ia para a cozinha, implorando que as
duas parassem. E eu procurava sair para ficar longe daquela balbrdia.
       Jawahir vivia me pedindo que me mudasse para a casa dela e
lhe fizesse companhia e a ajudasse nos afazeres quando Ali empreendia
suas longas viagens. Fadumo sabia da situao l em casa -- no havia
segredo entre os somalis -- e intercedeu por mim. Disse a mame que
uma jovem dona de casa como Jawahir era a melhor companhia para
uma moa j crescida; minha prpria me devia saber como era difcil
para mim estudar na casa de Abdillahi Ahmed. E acabei indo morar
com Jawahir, s por alguns meses, a fim de me preparar para os
exames.
       Eu me senti adulta. O prdio ficava em Eastleigh, o bairro
somali, de modo que continuei sujeita  vigilncia do cl. No entanto, l
havia mais liberdade e mais sossego do que na atmosfera mortfera
criada por Hanan e mame. Quando o marido estava em casa, Jawahir
adejava de um lado para outro, vestindo roupa bonita e perfumando-se
com incenso. Ele nunca dava sinal de notar essas coisas, mas pelo
menos era respeitoso e gentil.
       Quando eu estava na casa de Jawahir, dois colegas de trabalho
de Ali me pediram em casamento. Foi uma surpresa para mim -- na
primeira vez, Jawahir morreu de rir do meu espanto --, mas tudo foi
feito com muito respeito. Primeiro, os dois homens conversaram com
Ali, um aps outro, e ento ele me chamou e apresentou as propostas.
Nas duas vezes, falou minuciosamente do candidato: que era muito
trabalhador, um provedor decente, confivel e, naturalmente, dos
osman mahamud; eu podia me mudar para uma casa prxima, e aquele
homem cuidaria de mim. Tudo se resumia a dinheiro e segurana. No
se falava em amor como nos romances que eu lia. At os filmes de
Bollywood eram mais romnticos.
       Um desses pretendentes foi muito persistente. Tinha vinte e
tantos anos, era maometano convicto, mas gordo, pensei, e tambm feio
e   completamente    ignorante.   Insistiu   muito.   Disse   que   estava
motivadssimo a me proteger; esse era o seu grande trunfo. Se eu
concordasse, ele iria  Somlia procurar meu pai ou, pelo menos, meu
irmo, para pedir a autorizao deles, obviamente a nica que contava
de fato. No houve discusso, nem atrao, nem compatibilidade.
       No ntimo, eu achava aquilo absurdo. No tinha nada a ver com
a minha idia de galanteio. Eu queria romance, um homem dinmico e
esplndido, muito culto, de olhos escuros e com senso de humor.
Queria me apaixonar. Morria de medo de ser uma mulher casada. No
queria para mim a vida de Jawahir. No queria engordar e envelhecer
como a minha colega Zainab. No queria me transformar na minha me
e ter a vida sexual de Sahra e Jawahir.
       Disse no nas duas vezes, com muita delicadeza. Expliquei a Ali
que queria concluir os estudos antes de pensar em casamento. Graas
a Deus, mame me apoiou. Argumentou que eu no podia me
comprometer na ausncia do meu pai e do meu irmo. No seria
correto; era transgredir as regras. Pareceria sorrateiro. No ntimo, tenho
certeza, achava que aqueles pretendentes no estavam  minha altura.
       Quando se mudaram para a casa que acabavam de construir em
um dos projetos de alto padro que estavam surgindo na cidade, os pais
de Halwa se dispuseram a nos alugar o apartamento no pequeno prdio
em que moravam em Park Road. Pouco antes da nossa mudana,
Haweya retornou de Mogadscio com uma mala repleta de saias curtas e
um brilho diferente nos olhos. Ao v-la, mame cobriu o rosto e
exclamou: "Al! O que h de ser agora?". Esperava que a Somlia
domesticasse a menina, mas ela voltava ainda mais obstinada do que
quando partira, dona de uma determinao totalmente adulta.
       Minha irm tinha visto um lado da Somlia diferente daquele
que a minha me esperava. L as mulheres procuravam ser baarriy o
comportamento ideal para elas, o de servir bem. Quase todas tinham
sofrido clitorectomia, o que geralmente no acontecia com as rabes.
Mas tradicionalmente elas trabalhavam, e isso as distinguia das rabes
e talvez as tornasse mais livres. Na Somlia, o isl nunca foi to
poderoso quanto na Arbia Saudita, o seu pas de origem, e algumas
somalis da gerao do meu pai tinham mentalidade muito avanada. A
tia Ibado Dhadey Magan -- e at certo ponto mesmo a nossa madrasta
Maryan Farah -- serviram de exemplo para Haweya. As duas eram
muito diferentes de mame, que se recolhera em um ressentimento
passivo e amargurado desde o dia em que papai partira.
       Haweya voltou para casa com planos de sair e trabalhar. Contou
que decidira retornar ao Qunia porque a educao era melhor: Ibado
Dhadey a convencera de que precisava de qualificao. No queria
voltar ao colgio e se preparar para os exames do primeiro nvel;
achava-se muito velha para isso. Queria fazer secretariado, que no
exigia esse diploma.
       Alguns meses depois da sua volta, fiz os exames e passei a duras
penas. Era impossvel ingressar no nvel superior com aquelas notas, e
o meu orgulho no permitia pensar em repetir o ano e tentar
novamente.      Haweya   e   eu   resolvemos    fazer   juntas   o curso   de
secretariado. Sabamos o quanto ia ser difcil convencer mame, que
queria me matricular no internato feminino islmico da nossa rua para
que aprendesse a cozinhar, a fazer a faxina e a ler o Alcoro. Eu disse
que j sabia cozinhar, fazer faxina e ler o Alcoro, e que a escola de
secretariado era igualzinha ao curso secundrio.
       Haweya e eu omitimos o bvio, ou seja, que o secretariado nos
qualificaria para trabalhar em um escritrio -- que, alis, era o modo
como pretendamos ganhar a vida. Dissemos que Ibado ia pagar a
mensalidade de Haweya. O comissariado das Naes Unidas financiaria
parte da minha, j que eu era refugiada, havia concludo o ensino mdio
e ia fazer um curso profissionalizante. Por fim, com muita relutncia,
ela concordou em financiar o resto.
       No comeo de 1988, Mahad escreveu a mame, dizendo que
tinha conhecido Abdellahi Abdi Aynab, o filho mais velho do diretor do
presdio, que fora executado por ter auxiliado meu pai na fuga.
Abdellahi morava em den, contou Mahad. Dono de um negcio, tinha
s vinte e quatro anos, era muito trabalhador e muito devoto. E
Abdellahi Abdi Aynab havia pedido, respeitosamente, a minha mo.
       Mame teve uma longa conversa comigo. Era um bom partido,
disse. Havia simetria na idia. Meu pai certamente a aprovaria. Fez o
possvel para me convencer a concordar com o plano de Mahad. Mas a
proposta me apavorou. Eu estimava muito o pai daquele homem, 
claro; ele era um santo para ns. No entanto, como Mahad podia
esperar   que    eu   aceitasse   casar   com    uma     pessoa   totalmente
desconhecida e me dispusesse a ir morar em um pas em que nunca
tinha estado?
       Escrevi-lhe a carta mais perfeita possvel. Dizia: "Meu querido
irmo, tenho s dezoito anos e ainda estou longe de pensar em
casamento. Quero viver um pouco a idade adulta, no posso saltar da
infncia para a casa do meu marido". Fui educada e respeitosa, mas
muito clara.
       Ento Mahad escreveu diretamente para mim, mandando -me
pensar no assunto. E, poucos dias depois, chegou uma carta do prprio
Abdellahi Abdi Aynab. Um bonito texto em um somali elegante -- ele era
de uma famlia muito culta --, apresentando-se, falando da sua viso
da vida e incluindo duas fotografias dele em den. Era quase como as
cartas das nossas correspondentes estrangeiras,  parte as duas
carinhas de smiley. Continuei alheia  idia de me unir quele homem,
mas, em termos de proposta matrimonial a uma desconhecida, at que
ele no se saiu nada mal, pensei.
       Minha me ficou encantada com as fotografias de den, a cidade
em que iniciara a vida adulta. Disse que aquele casamento era o meu
destino. Eu no estava disposta a tomar tal deciso e me sentia
encurralada s de pensar nela. Mesmo assim, mame e Mahad
decidiram entre si que, quando chegasse a hora de eu me casar, seria
com aquele homem.
       Confesso que no me senti ameaada. Abdellahi Abdi Aynab
estava em den; Mahad, na Somlia. O plano no era imediato.
Respondi ao meu pretendente dizendo que no o estava rejeitando
pessoalmente -- coisa impossvel de fazer, j que eu no o conhecia --,
mas que o casamento simplesmente no figurava no meu horizonte no
momento. E foi bom assim. No se assinou nenhum documento.
Ningum me obrigou a nada.
       Comecei a faltar aos debates islmicos das noites de quinta-
feira. Com o decorrer dos meses, passei a ach-los cada vez mais
previsveis e menos inspiradores. Continuava detectando incoerncias
nos argumentos, e as minhas perguntas no encontravam respostas
satisfatrias. No havia nada de novo. Os oradores nos ensinavam os
antigos fundamentos do isl e falavam na necessidade de aderir quela
f e pratic-la muito mais ativamente, mas no havia progresso na
doutrina, nenhuma mudana, e todas as interpretaes se ajustavam 
convenincia, no  lgica.
       Era como se minha cabea tivesse se partido ao meio. Quando
estava no mundo da irm Aziza, eu era devota, submissa, e respeitava
as inmeras barreiras que me reduziam a um papel insignificante. O
resto do tempo, lia romances e vivia no mundo saciado e ousado da
minha imaginao. Como leitora, podia me pr no lugar da personagem
e   viver   atravs   das    suas   aventuras,   tomar-lhe   emprestada   a
individualidade e fazer as escolhas que eu no tinha na vida.
         Os dilemas morais que encontrava nos livros eram to
interessantes que me mantinham desperta. As respostas a eles, embora
inesperadas e difceis, tinham uma lgica interna compreensvel. Ao ler
O mdico e o monstro, entendi que os dois personagens eram a mesma
pessoa, que tanto o bem quanto o mal coexistiam em cada um de ns.
Valia muito mais a pena do que reler o hadith.
         Comecei a sair s escondidas de vez em quando; ia ao cinema
com Haweya ou com outras garotas somalis. No achava que estava
pecando, tratava-se apenas de amizade. Nessa poca, eu deixava de
fazer muitas oraes, quando as fazia. Agora me parecia esquisitssimo
rezar cinco vezes por dia.
         Em fevereiro de 1989, a BBC noticiou que o aiatol Khomeini
havia condenado  morte um homem chamado Salman Rushdie, autor
de um livro sobre as esposas do profeta Maom intitulado Os versos
satnicos. Houve manifestaes em todo mundo islmico contra essa
obra maligna. O aiatol disse que Rushdie, filho de famlia muulmana,
tinha cometido blasfmia e o crime de apostasia -- renncia  f --,
ambos passveis de pena capital. Condenou-o  morte e ofereceu um
prmio pela sua cabea.
         Uma noite, semanas depois, a irm Aziza e o marido apareceram
l em casa e me convidaram a dar uma volta no centro comunitrio
muulmano, ao lado da escola em que tnhamos nossas discusses.
Uma pequena multido estava reunida no estacionamento. Alguns
rapazes se aproximaram de carro, fazendo um show de queima de
bandeiras: a israelense e a americana. Ataram o livro de Rushdie na
ponta de uma vara, regaram-no com querosene e acenderam um
isqueiro, aplaudindo quando ele comeou a arder miseravelmente na
garoa.
       A irm Aziza batia palmas e cantava ao meu lado. Eu me senti
deslocada, senti um grande mal-estar. Perguntava-me se no era uma
tolice comprar ainda que um nico exemplar daquele livro para queim-
lo; afinal de contas, o dinheiro acabaria no bolso do escritor. No me
ocorreu questionar o fato de Salman Rushdie ter sido condenado 
morte: se havia insultado o profeta, no merecia outra coisa.
Evidentemente, aquele homem escrevera algo to horrendo que eu nem
sabia o que era. Mas queimar um livro me pareceu o tipo de coisa digna
do governo do apartheid na frica do Sul. No consegui articular por
que me sentia to mal, mas fui embora mais cedo. Deve ter sido a
ltima vez em que estive no centro de discusses.
       Haweya e eu iniciamos o curso de secretariado no centro da
cidade. Era uma porcaria. Cinqenta ou sessenta moas apinhadas em
um salo em cima de uma loja, sem que houvesse mquinas de
escrever para todas. A primeira lio foi "Mo esquerda, primeiro dedo.
Datilografar ffff. Mo direita, primeiro dedo. Datilografar jjjj". No
aprendemos nada, de modo que, no fim do dia, pedimos o dinheiro de
volta. Foi uma sensao extraordinria estar ao lado de Haweya
exigindo uma coisa de um desconhecido. Achei que, juntas, as duas
podamos ser fortes.
       Samos  procura de coisa melhor. Perguntamos s garotas
conhecidas, que trabalhavam, de onde vinham as boas secretrias.
Recomendaram a Escola de Secretariado Valley, cujas classes tinham
no mximo quinze alunas, ensinava taquigrafia e tinha computadores
de verdade. Ficava em Kilimani, a duas viagens de nibus pela periferia
de Nairbi, e era bem mais cara, mas nos matriculamos.
       O curso de secretariado no era intelectualmente estimulante,
mas significava uma sada para o mundo. Pela primeira vez, vi
realmente as ruas de Nairbi nas minhas viagens dirias de nibus
matatou. Certa vez, quando ia tomar o matatou, ouvi um grito "PEGA
LADRO!". Uma multido cercou um rapaz que estava correndo na rua,
um queniano mais ou menos da minha idade, vestindo apenas shorts.
Ao passar, eu o vi encolhido no cho, no centro de um crculo de gente
que atirava nele pedras enormes.
       O aglomerado foi crescendo e ficando mais determinado, alguns
esfarrapados, outros de terno e gravata. As meninas aplaudiam como se
a seleo queniana tivesse ganhado a Copa do Mundo. E eram
pedradas, berros, pontaps e mais pedradas. As pessoas gritavam
MWIZI, MWIZI, "Ladro, ladro". O rapazinho ficou gravemente ferido.
Sua cabea sangrava. Cada pancada o fazia sangrar mais. Seus olhos
desapareceram de to inchados. Ento algum o chutou com fora, na
boca, e ele ficou estirado no cho, estrebuchando.
       Fiquei com vontade de vomitar. Afastei-me; no consegui
continuar vendo aquilo. Foi a coisa mais repugnante que presenciei na
vida. Eu me senti culpada s por presenciar a cena, como se tivesse
participado da violncia.  bem provvel que o rapaz tenha morrido. Em
Nairbi, era comum ouvirmos falar em linchamentos: ladres mortos
nas ruas pela multido enfurecida. Mas aquela foi a primeira vez que vi
aquilo com meus prprios olhos.
       A atmosfera da escola de secretariado era muito mais depravada
do que a do Meninas Muulmanas. No colgio, algumas quenianas riam
ao falar em sexo; para elas, nada era mais natural do que sair e seduzir
rapazes. No entanto, na maioria elas eram crists praticantes e
admiravam os ideais do casamento cristo. Mas, na Escola de
Secretariado Valley, nossas colegas eram descaradamente incastas.
Admitiam, sem o menor pudor, que tinham relaes sexuais com
homens. Levavam a vida que a minha me execrava, o que, para mim,
as tornava profundamente chocantes e ao mesmo tempo fascinantes.
       Por exemplo, Lucy: era afvel, simptica e gostava de conversar.
Usava roupas to justas que dava para ver perfeitamente a forma das
suas coxas. Dizia: "Os homens gostam de ter o que pegar". Todo fim de
semana, ia tomar cerveja e se encontrar com rapazes nas discotecas e,
semanas depois, quando ficava farta de um deles, no vacilava em
arranjar outro. Achava graa nos nossos comentrios e respondia com
risonha ironia: "No d para comer todo dia o mesmo prato".
       Lucy s falava em sexo. O tempo todo. Para ela, as virgens eram
ou muito feias para que os rapazes as quisessem, ou fanticas
religiosas. Nada mais ridculo do que a virgindade. "Por que vou me
entregar a um homem s se posso ter todos?" perguntou-me certa vez.
"Por que voc vive metida nessa gaiola, menina?"
       Para ela, a religio em geral era uma chatice; e o islamismo,
particularmente repulsivo. E no fazia segredo disso. No pretendia se
casar, queria se divertir, e sexo era diverso. s vezes os homens lhe
davam dinheiro, o que era bom, e s vezes danavam bem, o que era
fantstico, mas a questo no era essa. Ela gostava de sexo e, quando
deixava de gostar de sexo com determinado homem, simplesmente o
trocava por outro.
       Poucos meses depois que a conhecemos, Lucy anunciou que
estava grvida. Disse que engravidara de propsito, porque o rapaz era
lindssimo e ela queria ter um filho bonito. Sua vida me parecia quase
sobrenatural; na poca, eu continuava pondo minha veste preta no fim
da tarde, para tomar o matatou e voltar para casa. Ns lhe
perguntamos se seus pais iam castig-la severamente, mas ela riu e
disse que no, iam era cuidar do beb; at ficariam contentes se ele
fosse particularmente bonito.
       Eu continuava com saudades do meu pai. Fiquei chocada com a
irresponsabilidade de Lucy com o beb e confesso que fiz um sermo.
Acabamos brigando. Mas, por influncia dela ou no, a verdade  que
comecei a relaxar um pouco no modo de vestir. J me ocorria que no
podia continuar usando aquela enorme roupa preta se quisesse
trabalhar em um escritrio de Nairbi. Com certeza, no me permitiriam
usar o hijab no trabalho.
       Aquela roupa tambm comeou a me parecer um empecilho e
sobretudo uma idiotice. Por certo, o que importava era a minha
inteno de ter um comportamento decente. Passei a usar um casaco
comprido como o de Halwa. Tambm comecei a evitar a irm Aziza.
Sabia que ela no aprovaria a minha nova indumentria.
       Ns nos formamos em setembro de 1989. Lucy, cuja gravidez j
era bem visvel, foi reprovada. Haweya e eu obtivemos certificado de
primeira classe de secretrias da Escola Valley. Voltamos para casa
exultantes, e dissemos a mame que ela j no precisava se preocupar
com o aluguel. Agora que podamos trabalhar, ns nos encarregaramos
de sustent-la.
       Enfurecida, ela se levantou da cadeira em que costumava ficar
junto ao fogareiro. No amos trabalhar coisa nenhuma. Mame foi
inflexvel. Na sua opinio, para uma moa solteira, trabalhar num
escritrio era quase o mesmo que se entregar  prostituio. Vov lhe
deu todo apoio. "Dinheiro ganho por mulher no enriquece ningum",
disse, citando mais uma prola do seu infindvel repertrio de
provrbios anacrnicos.
       Eu me voltei para Haweya, furiosa, e disse em ingls: "Ento a
gente vai embora desta casa". Agora eu sabia que existiam coisas como
penses; podamos alugar um quarto em um estabelecimento decente e
viver a nossa vida.
       Talvez mame entendesse ingls bem mais do que eu pensava.
Quando fomos para o quarto, ela saiu discretamente e comprou um
estoque enorme de comida e trs cadeados. Aquela noite, quando
Haweya e eu resolvemos dar uma volta, demos com todas as portas
trancadas. "Vocs no vo a lugar nenhum" decretou mame. "Comida
no falta -- se estiverem com fome,  s cozinhar."
       Haweya perdeu a cabea. Despindo o vu e o casaco, gritou: "A
ambio da minha vida  ser puta! Sei muito bem o que fazer para
engravidar. Veja as minhas tetas, olhe para a minha bunda. Vou para a
janela chamar um homem e pedir o seu esperma. A FICO GRVIDA!" A
gritaria da minha irm durou horas. Notei que mame at gostou da
linguagem dura e incisiva de Haweya, mas nem por isso ficou menos
zangada.
       Seguiram-se dias de dio e tdio atrs das grades. Descobri,
dentro de mim, um rancor do qual eu nem sabia que era capaz.
Passvamos bilhetes pela janela aos vizinhos do prdio, pedindo-lhes
que os entregassem a Halwa ou a Sahra. A me de Halwa tentou
convencer a minha de que no podia nos trancafiar at o fim da vida.
No tinha sentido. ramos moas inteligentes e sem pai e, afinal de
contas, ela no podia se sustentar. Disse que talvez encontrssemos
uma empresa muulmana decente para trabalhar, uma que nos
permitisse usar pelo menos o turbante.
       Mame tornou a consultar os osman mahamud, foi procurar
Farah Gour e outros homens. Farah Gour reconheceu que ela tinha
todo direito de nos proibir de trabalhar se achasse melhor. Mas no
podia nos casar, pois papai no estava presente para autorizar a unio.
E nos prender em casa simplesmente no era uma soluo a longo
prazo. Concluiu que no restava seno nos mandar de volta  Somlia,
um bom pas muulmano. Talvez l arranjssemos emprego; em todo
caso, era bvio que viver entre somalis s podia nos fazer bem.
       Mame no teve sada seno concordar. Quando soubemos que
amos para a Somlia, eu me entusiasmei. Haweya me disse: "Abra os
olhos, Ayaan. Voc no vai gostar". Sabia muito bem o que eu esperava:
esperava ser reconhecida e amada. Achava que a Somlia era povoada
unicamente por gente decente, que todos se comportavam corretamente
uns com os outros. No sei por qu, acreditava que os somalis da
Somlia eram diferentes dos que eu conhecia no Qunia. Jawahir dizia
que l no havia crime nem violncia. Fazia calor o tempo todo, nada do
frio e da neblina to comuns em Nairbi. Quando eu era menina,
sempre me diziam que tudo quanto dava errado na vida da minha me
era por culpa dos quenianos; a Somlia significava confiana, justia e
lealdade. L tudo estava no lugar certo e tinha sentido.
       Eu tambm ouvira a notcia de que as foras da FSDS tinham
avanado no norte do pas, chegando at Bari. O meu pai j visitara a
Somlia uma vez, mas se recusava a abandonar a luta e voltar para o
sorriso largo de Siad Barr, como outros exilados tinham feito. O
governo de Siad Barr parecia mesmo estar caindo aos pedaos. No
tardaria muito para que se restabelecesse a paz e todos os exilados
pudessem voltar.
       Quando viajamos, em maro de 1990, eu tinha vinte anos. No
fiquei com medo de ir para Mogadscio. Estava feliz por me separar de
mame e sair de Nairbi, feliz por retornar  minha terra verdadeira e
s minhas razes.


       7. Desiluso e engano


       Quando desembarcamos em Mogadscio, o calor nos recebeu.
Adorei. Fiquei to entusiasmada que o empregado de Farah Gour que
nos acompanhava comeou a rir de mim. Mas tambm fiquei pasma
com o caos. A pista de pouso no passava de um caminho estendido na
areia. Os passageiros se acotovelaram, trocando safanes, junto  pilha
de malas surradas que, sem a menor cerimnia, tinham sido jogadas
debaixo do avio. Ao sairmos do aeroporto, um bando de homens nos
cercou, oferecendo-se para nos levar  cidade. No havia ordem no
lugar, nem sombra de organizao.
       Pouco importava, era s o aeroporto. Eu estava disposta a
perdoar quase tudo assim que chegasse ao lugar em que ao me nos me
sentisse em casa.
       Mogadscio era linda no crepsculo. Naquele tempo, a cidade
no tinha se transformado na runa feridenta e crestada que e hoje,
devastada pela violncia dos cls. Era acolhedora e agrada vel. No
trajeto at a casa de Maryan Farah, as ruas me pareceram tamliares.
No centro, os prdios italianos eram suntuosos, e a areia branca
embelezava as ruas. Todo mundo se parecia comigo. As pessoas eram
altas e aprumadas, as mulheres desfilavam na calada com longos
dirhas estampados. Ku realmente me senti de volta a minha terra.
       Fomos para a casa de Maryan Farah, a primeira mulher do meu
pai, que morava em uma vila branca no bairro de Casa Populare, perto
da praa Tribunka. No sei bem o que eu esperava, mas certamente no
era aquilo: uma madrasta prspera e auto-confiante, alta funcionria
do governo.
        Conheci    minhas    meias-irms,    que       eram   completamente
diferentes entre si. Arro, de vinte e cinco anos, que eu vira vagamente
em 1984, quando a me a levara a Nairbi para tratamento mdico,
parecia-se muito com papai -- como eu: testa arredondada e pmulos
altos. Era delicada e mida, vestia um dirha de gaze verde-claro to
transparente que dava para ver a ala do suti rendado, angua
tambm verde-clara e sandlias malva de salto alto. Era estudante de
medicina. Sua irm menor, Ijaabo, acabara de concluir o ensino mdio;
era mais gorducha e trajava um grosseiro vestido islmico pardo.
        Mahad morava em Mogadscio e foi nos cumprimentar naquela
noite. Eu mal o reconheci. Meu irmo nunca fora gordo, mas, no
Qunia, tinha um ar delicado. Agora estava bem mais alto e musculoso,
e o sol lhe havia escurecido a pele. Fazia dois anos que se fixara em
Mogadscio, estudava em uma faculdade internacional, mas tambm
tinha visitado Bari. E se encontrara com papai.
        Abeh estava na Somlia! A poucos quilmetros de distncia, e
Mahad havia conversado com ele! Meu corao disparou.
        Meu pai estava em um lugar chamado Ayl, no litoral, bem perto
de Bari. linha entrado no pas com as foras da PSDS, que agora
controlavam a maior parte do antigo territrio isse inahamud. linha
havido muita luta, e ele estava organizando a nova administrao
daquele que agora era solo somali "livre".
        Embora a situao em Ayl fosse estvel, a estrada que a ligava a
Mogadscio era extremamente perigosa, de modo que Mahad ainda no
podia nos levar para l. Teramos que aguardar at que abrissem uma
ponte   area.    Os   bandoleiros   percorriam       vontade   o   territrio
disputado; era perigoso passar inclusive pelos postos de controle do
exrcito. Na estao chuvosa, um veculo de quatro rodas s vezes
passava dias atolado na lama. As pessoas eram assaltadas e estupradas
no caminho. Mahad no ia arriscar entregar dois cadveres ao nosso
pai. Mas abeh estava bem. Ns que tivssemos pacincia.
        Naquela primeira noite, fomos a um bairro  beira-mar em que a
brisa fresca do mar soprava desde o entardecer. Enchi os pulmes de
odores: alho, incenso e maresia. Compramos pita recheada de carne de
cordeiro. Ao percorrer aquelas ruas, lembrei-me da infncia, de quando
brincava na areia; tirando os sapatos, prossegui descala.
       Foi um prazer enorme sentir os finos e secos gros de areia nos
ps. Nairbi era poeirenta e, quando chovia, coisa freqente, o cho se
transformava em um lamaal, de modo que a gente nunca se sentia
limpa. E l todo mundo ia cedo para a cama. Mogadscio adquiria vida 
noite. As lojas ficavam abertas, e as nicas poas de luz na escurido
vinham das lmpadas nuas dos comerciantes; no havia iluminao
pblica no bairro. As pessoas passeavam em grupos, famlias jovens
com filhos.
       Mas, quando estvamos passando pelas alfaiatarias, faltou
energia, de modo que as lojas ficaram s escuras e toda rua mergulhou
subitamente nas trevas. Pouco a pouco, acenderam-se velas e lampies,
e um gerador engasgado comeou a funcionar. Evidentemente, a
Somlia era muito mais pobre do que o Qunia. Eu nunca tinha visto
um apago.
       Mahad confirmou que teramos que ficar na casa de Maryan;
recusar a sua hospitalidade seria ruim para ns. Comeariam a dizer
que a famlia de Hirsi Magan era ciumenta. Ele no chegou a dar uma
ordem, mas agora exalava muito mais autoridade. Haweya no
suportava morar na casa de Maryan, ainda que tivesse afeto e respeito
por ela. Ficava com dio de mame s vezes, mas era ferozmente leal a
ela, e gostar de Maryan a fazia se sentir culpada. Depois de um breve
perodo, Haweya se mudou, porm Mahad me pediu que continuasse l
pelo bem da famlia.
       Era uma situao incmoda. Eu sempre ficava tensa na
presena de Maryan Farah. No por culpa sua -- ela era afvel,
observava perfeitamente o comportamento adequado --, mas eu
detectava a contracorrente de um sentimento que no devamos
experimentar, muito menos manifestar.
       Em todo caso, o ar da casa tinha uma quantidade desconfortvel
de esttica. Arro, a nossa irm mais velha, s vezes era odiosa e no
fazia seno brigar com Ijaabo. Esta costumava usar vu mesmo dentro
de casa e vestia soturnas roupas cinzentas ou marrons. Para sair,
punha o jilbab completo e at cobria os olhos com um pano preto bem
fino. Embora encarasse o meu hijab com simpatia, havia nela um no-
sei-qu insuportavelmente desagradvel. Era evidente que as duas
irms tinham sentimentos ambguos por Haweya; invejavam-lhe a
ousadia, no gostavam dela.
        Arro e Ijaabo nos tratavam como meio retardadas. Caoavam da
nossa esquisitice; era um verdadeiro estigma termos sido criadas no
estrangeiro. No entanto, sobretudo Arro cobiava cada item ocidental
que possuamos. Nenhuma delas gostava de ler; era dificlimo encontrar
livros na Somlia, e parecia que ningum lia romances, coisa comum
em Nairbi. Preferiam assistir a uma infinidade de filmes indianos e de
novelas rabes na televiso, o que achvamos inconcebvel, pois as
histrias eram pura tolice, e as duas entendiam o rabe e o hindi
menos do que ns.
        Arro passava muito tempo na faculdade. Entretanto, Ijaabo
ainda   estava   na   escola.   Era   devota   fervorosa   da   Fraternidade
Muulmana. Maryan achava que essa devoo no passava de uma
fase, mas no a impedia de assistir s aulas de Alcoro de um ma'alim
que vinha toda semana.
        Ijaabo me convidou algumas vezes a participar do curso, mas
no tornou a faz-lo quando eu lhe disse que achava que o tal ma'alim
no lhe ensinava nada, restringia-se a ler o texto em rabe enquanto ela
balanava a cabea. Ijaabo ficou ofendidssima. Quem eu pensava que
era, justo eu que falava ingls, a lngua dos infiis? Como me atrevia a
dizer que aquele homem formado em Medina estava errado?
        Quando Mahad me visitava, era um alvio sair daquela casa. Ele
aparecia com freqncia, geralmente acompanhado do amigo Abshir, o
filho caula do diretor do presdio executado por ter ajudado o meu pai
e, portanto, irmo de Abdellahi Abdi Aynab, o rapaz que me pedira em
casamento. Para mim era natural sairmos todos juntos, com Haweya e
Ijaabo, em grupo. amos visitar outros parentes.
       Eu gostava de ser membro de uma famlia. Aquilo, sim, era
consanginidade: o sentimento notrio de no ter que justificar a minha
existncia nem de dar explicaes. Fazamos brincadeiras. Ns nos
divertamos. Mahad sempre se mostrava galante e agradvel, mesmo
com Ijaabo. Seu amigo Abshir tinha pele bem escura e era bonito, muito
educado e civilizado. E inteligente tambm. Atuava como imame do
movimento Fraternidade Muulmana, que conquistava rapidamente a
imaginao dos jovens da cidade. E era devotssimo. Tinha posto na
cabea que ia ser um bom muulmano, um exemplo para os demais. Eu
admirava essa caracterstica e tambm o fato de Abshir, tal como eu,
procurar explicaes. Quando ficvamos a ss, tnhamos discusses
profundas sobre religio, em somali e em ingls, que ele aprendera
sozinho a falar e a ler. Abshir nada tinha em comum com os imames
que eu conhecia.
       Na Somlia, a Fraternidade Muulmana atraa muita gente. A
ditadura de Siad Barr era anticlnica e secular. A gerao que cresceu
sob o seu governo no se interessava muito pelo cl: queria religio.
Queria a lei islmica. A fraternidade se colocava acima da poltica e do
cl; lutava pela justia divina. E tinha dinheiro. O financiamento
jorrava dos pases rabes ricos em petrleo e empenhados em apoiar e
promover o isl puro e verdadeiro.
       Na poca em que cheguei, haviam se formado pequenas
congregaes em toda Mogadscio, os chamados Assalam Alai kums,
"Abenoados sejam". Era assim que eles se cumprimentavam na rua,
em rabe, coisa que, no contexto somali, eqivalia a declamar
repentinamente em latim litrgico. Os membros mais fanticos da
fraternidade, geralmente adolescentes ou jovens, s falavam com gente
da fraternidade e freqentavam suas prprias mesquitas e cursos de
Alcoro em casas particulares. Zombavam das grandes mesquitas
oficiais freqentadas pelos mais velhos, cujos imames prestavam contas
ao governo. As mesquitas da Fraternidade Muulmana eram lugares de
indagao e conspirao, nelas as pessoas falavam mal de Siad Barr e
se doutrinavam mutuamente nos cantos.
       Levado por Abshir a freqentar esses lugares, Mahad tambm foi
se tornando mais crente. Eu gostava da influncia de Abshir sobre ele.
Com o tempo, como nos encontrvamos quase todas as noites, comecei
a lhe falar do Qunia e de mim. Ele tambm se sentia atrado,
procurava-me. Certa vez, ao entardecer, quando estvamos na varanda
da casa de Maryan Farah, ele me disse: "Eu queria conhecer uma
garota como voc". Eu o encarei e respondi: "E eu queria conhecer um
homem como voc". Abshir me segurou a mo e expressou o seu desejo
muito poeticamente.
       Depois disso, nossas pernas e mos passaram a se roar com
muita freqncia. Sempre calhava de ficarmos a ss. De mos dadas.
Passadas algumas semanas, decidi contar a Mahad e a Haweya que
estava tendo uma espcie de relacionamento com Abshir; assim, o meu
irmo podia desfazer qualquer possvel compromisso com Abdellahi.
       Mahad ficou irritadssimo por ter que escrever a den explicando
que eu no ia mesmo casar com aquele pretendente. Comentei que
Mahad havia cometido um erro ao prometer tal coisa. Ele gritou comigo,
s essa vez, mas no voltou a ser o tirano de outrora que me torcia o
brao. Fez um sermo acerca da honra, do cl e do impacto da minha
deciso sobre os nossos parentes. Certas decises, afirmou, deviam ser
tomadas pelos homens da famlia.
       Ijaabo e as outras ficaram escandalizadas com a novidade.
Muitas garotas andavam de namorico com os rapazes -- se beijavam e
se apalpavam nos cantos --, mas era proibido admitir tal coisa. Nada
mais chocante, antiislmico e anti-somali do que se apaixonar. O tipo
de coisa que convinha esconder. Evidentemente, sempre havia quem
reparasse e fizesse intriga; mas era preciso esperar que a famlia do
rapaz pedisse ao pai da moa, ocasio em que ela devia chorar. Eu
transgredira todos os cdigos. Os mexericos se espalharam.
       Em Mogadscio, era visvel a tenso entre a nova onda do
islamismo da Fraternidade Muulmana e aqueles que achavam a
religio importante, mas no to onipresente assim. A gerao mais
velha no aprovava a mistura dos sexos, mas tinha aprendido a aceit-
la como parte da cultura moderna e da vida urbana, o magalo; alis,
algumas mulheres adultas e mais avanadas no abriam mo de se
vestir      ocidental.    E   nem      todos   os    jovens    da   Somlia   eram
tradicionalistas. Muitos queriam se apaixonar e namorar, exatamente
como os ocidentais. Mas essa gerao estava dividida em dois blocos: os
que buscavam inspirao e sobretudo diverso no Ocidente, e os
adeptos dos sermes dos homens da Fraternidade Muulmana, como
Boqol Sawm.
         Nas minhas visitas ao campus em que Arro estudava medicina,
eu via multides de estudantes passeando; moas bonitas na ltima
moda italiana e de mos dadas com o namorado. Arro me beliscava,
dizendo-me para no olhar com tanta insistncia. Na sua turma,
observar demais era coisa de caipira do miy, e ela vivia se gabando das
irms recm chegadas do exterior para visit-la. Entre as suas amigas,
ter   parentes    no      estrangeiro     conferia     status    e    patenteava   o
cosmopolitismo da famlia.
         Na universidade de Ijaabo, a Lafoole, os estudantes estavam
quase    igualmente       divididos   entre o        Ocidente   e    a Fraternidade
Muulmana, fato que se evidenciava na escolha da indumentria.
Algumas moas preferiam as saias e os saltos altos ocidentais; ao
passar, deixavam um rastro de Dior, Chanel ou Anais Anais, no de
incenso. Os rapazes que as acompanhavam vestiam camisa justa por
dentro da cala, e tinham carro.
         As garotas do outro grupo circulavam de jilbab ou envoltas no
pano de oito metros que a minha av usava antigamente feito um
guntiino. Os moos a elas associados trajavam veste branca; quando
saam de cala, nunca punham a camisa para dentro, e tanto a cala
quanto a veste chegavam at os tornozelos. Tinham uma aparncia
peculiar, barba rala e canelas finssimas, mas era assim que eles
demonstravam a fora da sua f. Aparentavam tanta segurana quanto
os outros pilotando automveis.
         Quando eu ia  faculdade de Arro, era obrigada a me vestir como
Iman, a famosa modelo somali. Mas, para visitar a de Ijaabo, tinha que
ir de jilbab. Morar na casa de Arro e Ijaabo, quando as duas estavam
presentes -- s sextas-feiras, aos sbados e durante as longas frias de
julho e agosto --, era como estar em plena guerra religiosa. Arro
zombava da roupa, das amigas e do estilo de vida da irm, ao passo que
esta erigia em objetivo sagrado da sua vida persuadir Arro a rezar e a
voltar a trilhar a Senda Reta de Al.
       Ningum contou aos "adultos" do meu flerte com Abshir, e, como
Mahad, Haweya, Ijaabo e o resto da famlia o respeitavam muito,
comearam a nos deixar a ss com mais freqncia. Sempre
conversvamos sobre o profeta. Abshir se considerava um crente puro e
verdadeiro. Convenceu-me a comprar uma veste mais grossa do que o
hijab com zper que eu usava, feita de um tecido to firme que no
mostrava nenhuma curva do meu corpo. Confessei que achava difcil
observar as cinco oraes dirias e desviar a mente dos pensamentos
pecaminosos.
       E estava tendo pensamentos cada vez mais pecaminosos.
Quando ficvamos sozinhos, Abshir me beijava, e ele sabia beijar. Beijos
prolongados, meigos, emocionantes e, portanto, pecaminosos. Depois eu
lhe contava o quanto me sentia m aos olhos de Al e como aquilo me
incomodava. Abshir dizia: "Se fssemos casados, no seria pecado.
Precisamos ter fora de vontade para no fazer mais isso". E ento
passvamos um ou dois dias procurando nos dominar e refrear, mas
no tardava para que um mero olhar nos impelisse a novos beijos. Ele
dizia: "Sou fraco, muito fraco. Passo o dia pensando em voc".
       Nossa atrao era inegavelmente mtua. Mas parecia que
estvamos enganando a Deus. Abshir dizia: "A gente precisa se
arrepender", e nos arrependamos e procurvamos nos reprimir; mas
logo tornvamos a nos beijar, s vezes antes mesmo da orao noturna
seguinte.
       Eu sabia, pela irm Aziza e por minhas prprias leituras, que o
importante no era o ato, e sim a inteno. No era s o beijo que era
proibido -- ou mesmo quebrar a promessa feita a Deus --, era querer
quebrar a promessa. Eu gostava daqueles beijos, desejava-os, pensava
neles constantemente, queria mais. Combatia tais idias, mas elas eram
incontrolveis. Eu queria Abshir; ele me queria. E isso era maligno.
       Comeou o ramad, o ms sagrado de jejum, quando todos
devem se comportar da maneira mais santa possvel. Na Somlia, pas
inteiramente maometano, o ramad tambm  o ms da comunho
familiar, o grande evento festivo do ano. Mahad nos visitava quase
diariamente; ao anoitecer, quando ouvamos o chamado  orao, todos
quebrvamos o jejum do dia com trs tmaras e um copo de gua.
Orvamos trs rakhas e ento comamos a ceia comunitria, rindo,
felizes, todos os jovens sentados ao redor de um prato exclusivamente
deles, separados dos adultos.
       s oito da noite, ao ouvir o chamado  ltima orao do dia,
amos juntos  mesquita. Embora Abshir fosse imame da sua prpria
mesquita, s vezes pedia a um amigo que o substitusse na conduo
das oraes e nos acompanhava. Todas as lojas ficavam iluminadas;
havia muita alegria na rua e multides enormes a caminho da grande
mesquita central. L dentro, o vasto setor atapetado dos homens ficava
todo ornado. O das mulheres, atrs dele, era menos vistoso -- apenas
um salo branco com esteiras de sisal --, porm, mesmo assim, havia
um sentido arquitetnico de reverncia naquele espao to amplo, to
carregado de significado.
       Terminado o servio noturno, as mulheres mais velhas voltavam
para casa, mas Ijaabo e eu continuvamos rezando, assim como Mahad
e seus amigos. Todas as noites orvamos o Taraweh completo, a longa
orao opcional do ramad, uma seqncia intensa de entoaes e
reverncias que s vezes se prolongavam at as onze horas. Confinadas
l atrs, ns mulheres no vamos o imame, apenas o alto-falante. Mas
a mesquita ficava lotada: reinava um sentimento de unidade e
comunho, uma enorme solidariedade devida ao envolvimento de cada
um, em um pequeno espao, fazendo exatamente a mesma coisa e
voluntariamente.
       Ao rezar, era preciso sentir a fora de Deus e saber que eu
estava na Sua presena. No entanto, por mais que me empenhas se em
abrir a mente para aquela fora, no conseguia detect-la. Para ser
franca, rezava porque era o meu dever, mas no sentia quase nada
durante a orao, somente o desconforto da esteira nos ps e o cheiro
desagradvel de alguns corpos, perto de mim, enquanto o imame
arengava monotonamente durante horas. Nunca experimentei nenhuma
exaltao ao orar, como Ijaabo dizia que experimentava. Ela ficava com
um olhar mstico, beatfico, durante o Taraweh. Depois comentava que
aquilo era maravilhoso, que tinha visto a luz de Al e sentido a presena
dos anjos, que viajara mentalmente a um lugar semelhante ao paraso.
Nunca cheguei a um estado transcendental; faltava-me luz interior.
       Uma noite, quase no fim do ramad, fui ver Abshir rezar na sua
pequena mesquita. No passava de uma loja em uma casa de
Wardhiigley, bairro outrora pobre em que estavam comeando a
construir residncias de luxo. Ele tinha uma bela voz; sabia todo
Alcoro de cor, e o seu modo de conduzir as oraes era agradvel.
Quando comentava as escrituras, parecia entend-las deveras.
       Abshir tinha adeptos. Embora muitos fossem mais velhos do que
ele, eram ainda jovens, todos membros da Fraternidade Muulmana. Os
rapazes vestiam sarongues ou caftans curtos e tinham barba rala. As
moas, atrs de uma divisria, guardavam silncio. Da sala das
mulheres, ouvi a pregao de Abshir pelo alto-falante, dizendo que a
intimidade antes do casamento era proibida. Falou em pureza -- pureza
em atos e pensamentos -- e explicou que o remdio contra as idias
proibidas era a orao.
       Depois tentou me beijar.
       Era ramad, o que tornava o ato trs vezes pior. Senti repulsa.
Minha reao foi completamente fsica: fiquei arrepiada. Achei que no
suportaria se Abshir voltasse a me tocar. Havia algo srdido naquilo. Eu
me afastei, pedindo-lhe que nos levasse para casa -- ele notou como eu
estava chocada.
       Hoje, pensando bem, no acho de modo algum que Abshir fosse
srdido. Simplesmente estava to preso quanto eu na jaula mental. Ns
dois e todos os demais jovens do movimento Fraternidade Muulmana
queramos viver, tanto quanto possvel, como o nosso querido profeta,
mas as regras do ltimo mensageiro de Al eram excessivamente
rigorosas, e esse rigor nos levava  hipocrisia. Mas, na poca, eu s
conseguia ver que ou Abshir ou o isl estava totalmente errado, e
naturalmente acreditei que fosse Abshir.
         Contei a Mahad que ia terminar o namoro. Ele ficou exasperado;
disse que eu era uma mulher tpica, incapaz de saber o que queria.
Escrevi uma carta a Abshir. Ele pediu e suplicou; quase enlouqueceu.
Passava o tempo todo na casa de Maryan, lamentando-se com Ijaabo.
Toda famlia -- todo cl osman mahamud -- ficou preocupada com ele.
         Quase a totalidade dos parentes, inclusive as mulheres, explicou
a minha sbita mudana de opinio como resultado da indeciso
feminina. Diziam que ns mulheres estvamos em poder de foras
invisveis que brincavam com a nossa mente e nos faziam oscilar entre
um estado de esprito e outro completamente oposto. Por isso Al
ordenava que o depoimento de duas mulheres eqivalesse ao de um
homem, por isso elas no tinham condies de governar ou assumir
cargos    pblicos:    a   liderana   exigia    contemplao   e   julgamento
conscientes, o que s se alcanava mediante reflexo cautelosa. As
mulheres careciam delas por natureza. ramos volveis e irracionais,
de modo que convinha que os nossos pais ou outros guardies machos
decidissem com quem amos passar o resto da vida.
         S Haweya me entendeu. Ela gostava de Abshir, mas no da
minha convivncia com ele: detestava a roupa que ele me obrigava a
vestir, detestava o meu recente comportamento nos moldes da
Fraternidade Muulmana. Nessa poca, no sei como, ela conseguiu
alguns livros e os passou para mim. At mesmo os ruins foram gua
fresca no leito seco de um rio. Ofereceram-me uma possibilidade de
evaso.
         Embora       me   custasse    admitir     diante   dela,   eu   estava
decepcionada com a Somlia. Esperava um pas em que tudo tivesse
sentido para mim -- um pas que fosse o meu, no qual me aceitassem,
no qual eu pudesse lanar razes e me descobrir como gente. Mas,
ainda que adorasse o calor, o vento, os aromas, no me adaptava. Sem
dvida,   havia   um    senso      de   familiaridade   na   Somlia:    sabia
perfeitamente quem eu era e desfrutava da acolhida fcil dos parentes e
do cl. Todavia, por mais que Haweya me tivesse alertado, eu no
estava preparada para as limitaes e o preo a pagar por aquela
sensao de incluso. Todo mundo se metia com a vida alheia. A
ausncia completa de privacidade, de espao individual, assim como o
controle social, era asfixiante.
       Conformar-me com o papel a mim atribudo na sociedade somali
-- em um cl, em um subcl, no isl -- talvez me desse paz de esprito:
um destino fixo e um lugar seguro no cu. Eu tinha menos dificuldades
com a obedincia do que Haweya. No entanto, queria mais do que casar
com Abshir e parir seus filhos, destino igual ao da minha me. Queria
um desafio, algo arrojado. Senti repentinamente que o preo por me
sentir inserida na Somlia era o meu prprio eu.
       A religio me dava uma sensao de paz unicamente pela
garantia da vida aps a morte. Era bem fcil observar a maioria das
regras: comportar-se bem, ser educada, evitar intrigas, carne de porco,
usura e lcool. Mas eu tinha descoberto que no conseguia acatar as
normas mais profundas do isl, que controlavam a sexualidade e a
mente. No queria acat-las. Queria ser algum, ser dona do meu nariz.
Se ficasse na Somlia e casasse com Abshir, eu seria apenas uma
unidade sem rosto. Essa perspectiva me encheu de pavor. Deixou-me
em estado de confuso moral -- uma crise de f.
       Conversei com Mahad sobre as minhas dvidas e temores, e ele
me   confortou.    Disse   que     aquilo   era   normal,    fazia   parte   do
amadurecimento, que as perguntas, o sentimento de confuso e a
sensao de crise moral eram tpicos da transio para a idade adulta.
E acrescentou: "Apenas seja sincera e voc vai ver, tudo vai dar certo".
       Passei a ir  mesquita com mais freqncia naquele perodo de
intensa busca de respostas. Comecei a participar das oraes do meio-
dia s sextas-feiras, na mesquita central, para ouvir os sermes do
imame em somali. No entanto, uma vez mais, acabei travando
polmicas mentais com ele.
       No se podia discutir com um imame. No se podia de modo
algum questionar a palavra de Al. O islamismo era submisso.
Sujeitar-se na terra para merecer um lugar no cu. A vida neste mundo
era um teste, e eu estava fracassando, muito embora fizesse o possvel
para conseguir. Fracassava como muulmana. Quando rezava, sentia
que o anjo do meu ombro esquerdo estava cansado de anotar meus
inmeros pecados. Imaginei-me chegando ao cu com um livro
finssimo de boas aes e um volume de pecados mais grosso que o
Dicionrio Oxford integral. Queria experimentar uma renovao da
sensao de ser maometana, do significado de Al. Mas no sentia
nada. Dizia comigo que aquilo significava que Al no me queria. Eu
no era digna.
       Haweya saiu da casa de Maryan -- no suportava mais a
reprovao de Ijaabo e as insinuaes constantes de Arro -- e foi morar
com Ibado Dhadey Magan, nossa tia. Sendo diretora do Hospital
Digfeer, Ibado tinha contatos com a ONU e conseguiu emprego para ela.


       Depois arranjou colocao tambm para mim em um pequeno
escritrio que o Programa de Desenvolvimento das Naes Unidas havia
montado para levar a telefonia  Somlia rural. O trabalho nada tinha
de empolgante. Embora a minha funo fosse de secretria, eu sempre
acabava fazendo as vezes de intrprete do meu chefe, um ingls meio
atabalhoado. Ele se reunia com as delegaes das provncias e me
incumbia de esclarecer por que no lhes dvamos logo o dinheiro para
instalar a linha telefnica. Tambm tinha que explicar por que a
populao no devia cortar e revender os cabos que ele instalava,
enquanto os visitantes no nos davam bola e ficavam conversando entre
si. O ingls no tinha autoridade sobre sua equipe, mas aquele era um
dos famosos projetos multilaterais, de modo que ele era orientado para
respeitar as opinies e os diferentes modos de fazer as coisas, muito
embora os parceiros somalis no tivessem opinio e muito menos
metodologia.
       Trabalhando nesse escritrio, comecei a me dar conta dos
muitos conflitos que havia no pas. Cada vez mais escritrios da ONU
eram fechados e retirados das reas rurais por falta de segurana. O cl
hawiye tinha formado um movimento poltico prprio, o Congresso
Unido da Somlia, chefiado por Ali Mahdi e pelo general Muhammad
Farah Aideed. Conquanto Mogadscio continuasse em paz, sob o
controle de Siad Barr, os hawiye estavam sublevados contra o ditador
no sul, assim como os darod e os isaq no norte.
       O trabalho tambm me deu uma noo mais precisa da
burocracia somali. Quase todos os funcionrios civis que eu encontrava
eram profundamente ignorantes. O desprezo deles por tudo quanto
fosse gaalo, inclusive o meu chefe, era enorme. (Gaalo geralmente
significava "infiel branco", mas nem sempre. Mame tambm usava a
palavra para designar os quenianos.) No tinham o menor interesse em
fazer seu trabalho e passavam a maior parte do tempo confabulando
para   "transferir"   verbas   do   governo,   eufemismo   que   significava
surrupi-las.
       Na Somlia, participar do governo era ter um membro da famlia
no lugar em que se distribua o dinheiro dos impostos e das comisses.
Nem mais, nem menos. Vi o que isso fazia com a nao: destrua a
confiana pblica.
       Diante de uma corrupo de tal modo generalizada, no
admirava que as pessoas fossem suscetveis de ser atradas por
pregadores que afirmavam que todas as respostas estavam nas
Sagradas Escrituras. As organizaes criadas pelos simpatizantes da
Fraternidade Muulmana no eram corruptas. Muitos soma-lis haviam
deixado de confiar no sistema bancrio e faziam transaes financeiras
nas lojas e nos armazns de propriedade dos membros da fraternidade.
Estes tambm ofereciam assistncia mdica gratuita aos carentes.
Abriram escolas alcornicas para os jovens desempregados que
vagavam pela cidade. Nas sextas-feiras, distribuam gros e carne nas
mesquitas. Suas fileiras engrossavam tanto quanto sua influncia.
       Um carro da ONU ia me buscar em casa, e eu usava um vu
curto no escritrio, onde trabalhava das oito s duas da tarde. A rotina
no deixava de ser agradvel, mas o trabalho era um tdio. Embora
meu chefe fosse educado, no tnhamos muito dilogo, nenhuma
conversa ou aprendizado. Quando terminava o expediente, eu voltava
para a casa de Maryan e ficava conversando com a empregada.
       A casa de Maryan estava cada vez mais lotada de parentes
marehan do campo. Chegavam em pequenos grupos, fugindo dos
problemas da provncia. Ijaabo e Maryan tentavam impor regras
domsticas e ensinar aqueles primos caipiras a dar descarga na privada
e a se sentar em cadeiras, mas, quando Ijaabo ou Arro lhes dirigia uma
palavra mais rspida, eles se enfureciam e as acusavam de terem se
afastado da "nossa cultura".
       Muito se comentava o aumento da criminalidade no bairro. Um
dos tios recm-chegados de Maryan comprou um revlver.
       Haweya e eu ramos constantemente convidadas pelos parentes
do lado da famlia do meu pai. Fomos  casa do meu primo Aflao e
ficamos algum tempo com sua esposa Shukri, suas irms Amran e Idil e
seu primo Ainanshie, que morava com todos eles e trabalhava no caf
de Aflao, no centro da cidade. Era uma famlia ruidosa e simptica,
prdiga em fofocas sobre os parentes de Maryan. Ainanshie, em
particular, detestava os membros do cl de Siad Barr, o marehan, e
tinha uma implicncia especial com Maryan.
       Amran, a irm de Aflao, levou-nos a passear na praia, onde os
rabes moravam em casas cercadas por altos muros cor de areia. De
vez em quando, uma mulher totalmente coberta de preto passava
apressada, rente s paredes, e entrava. Andavam descalas por causa
da areia, e a nica coisa que delas se via eram os ps. Ainda que
aqueles montes pretos e amorfos estivessem em movimento, podiam
perfeitamente ser coisas inanimadas, era impossvel falar com elas.
Amran as chamava de "confinadas"; dizia com desdm, "No liguem
para elas". Aquilo me lembrava a Arbia Saudita.
       Pouco depois de romper com Abshir, abandonei a veste
horrivelmente dura e quente das moas da Fraternidade Muulmana e
voltei a usar a minha capa preta de Nairbi; era bem mais fresca. Mas,
por cima de um vestido longo de mangas compridas, mesmo aquela
roupa parecia excessiva. Chamava muito a ateno na rua. Ningum na
Somlia se vestia de preto. Comecei a usar um dirha de cores leves,
como a maioria das pessoas: a tnica comprida com uma aba do lado e
o vu de algodo na cabea.
       Na Mogadscio da dcada de 1990, as mulheres vestidas 
ocidental eram muito mais raras do que dez ou vinte anos antes.
Sempre foram minoria, mas ento a mar se voltara visivelmente contra
elas. Ainanshie costumava dizer: "Antes da chegada da Fraternidade
Muulmana, a gente via braos e pernas em toda parte. Ningum
reparava. Mas agora as mulheres andam to cobertas que no paro de
pensar naquelas panturrilhas redondas, naqueles braos sedosos e
naqueles cabelos com cheiro de coco. Antes eu nem pensava em
pescoo, mas, ooh, agora nada  mais sensual do que um pescoo".
       As colegas de Ijaabo e as amigas de Ainanshie, do centro da
cidade, zombavam da linguagem obscura da Fraternidade Muulmana e
diziam que aquilo no passava de dominao cultural rabe, mas,
semanas depois, algumas delas tambm comearam a usar a tal roupa
e a falar rabe. O movimento no tinha carter exclusivamente
religioso. Seus membros eram dedicados e inteligentes. Provavelmente
recebiam dinheiro da Arbia Saudita, mas tambm havia muitos
negcios   prsperos   dirigidos   pelos   adeptos   da   fraternidade,
principalmente na rea de transporte e transferncia de fundos. Eles
ajudavam a abarrotar os cofres da organizao.
       Uma tarde, como de costume, Ainanshie nos levou de volta ao
bairro de tia Maryan depois do almoo. Como no gostava de Maryan
nem de nenhum marehan, deixava-nos a uns cem metros da sua casa.
Mas, quando chegamos  esquina em que costumvamos nos despedir,
uma mo me agarrou o pescoo com violncia, e senti na garganta a
lmina afiada de uma faca. Olhei para Haweya: um sujeito esqueltico,
de   olhos   escuros,    esbugalhados   e   injetados    tambm     a   estava
ameaando com uma faca. Imaginei que era o nosso fim. Lembro-me de
ter pensado: "Pois , chegamos at os dezoito e os vinte anos". Eu sabia
que Ainanshie estava armado -- sempre levava consigo uma pistola
pequena --, mas, naquelas circunstncias, no teria a menor utilidade.
       "O ouro!" disse o homem que dominara Haweya. Respondi com
voz sufocada: "No usamos jias". O sujeito que me dominava me
apalpou as orelhas e o pescoo por baixo do vu, a faca sempre colada 
minha garganta. Ento sorriu: "De onde so essas mocinhas lindas e
to altas, e quem  esse merdinha que est com elas na rua?"
       O sujeito era isaq, notei pelo sotaque. Mogadscio estava cheia
de refugiados isaq expulsos do norte pela guerra. Pensei que talvez ele
nos soltasse se tambm fssemos isaq, de modo que me apressei a
enumerar     o   cl    da   minha   me,   tal   como   ela   me   ensinou.
Compreendendo tudo, Ainanshie manteve a calma e no sacou a arma;
se o fizesse, eu seria degolada instantaneamente. "Est vendo? Essas
moas so suas irms isaq", disse ele aos assaltantes. "E sou casado
com outra irm delas. Estou levando-as para casa."
       Os dois desapareceram com a mesma rapidez com que tinham
aparecido.
       Desde ento, Haweya e eu percebemos que j no era seguro
andar sem um acompanhante pelas ruas de Mogadscio. Diariamente se
ouviam notcias de assassinatos, estupros e casas incendiadas por
ladres armados. Em toda parte havia refugiados sem-teto. Muita gente
deslocada, como os dois bandidos isaq que nos assaltaram, se fixara na
cidade e no tinha nada a perder, gente armada e repleta de dio.
Soldados do exrcito tambm vagavam de fuzil em punho. Embora
ainda no soubssemos disso, grandes contingentes do exrcito
desertavam e eram recrutados pelas faces chefiadas pelos cls em
toda Somlia, ansiosos por cravar os dentes na garganta de Siad Barr.
       Em contraste com a guerra de cls, a Fraternidade Muulmana
tinha um carter mais universal porque acolhia gente de todas as
origens. Para muitos, a fraternidade era o mais confivel daqueles
grupos.  medida que o movimento crescia, os seus membros ficavam
mais autoconfiantes. Os imames da fraternidade comearam a atuar em
mesquitas maiores, j no se restringiam a casas semiclandestinas.
Falava-se   cada   vez   mais   em    sermes   flagrantemente   polticos,
anunciando que o governo estava com os dias contados e que tinha
chegado a hora da lei islmica.
       Siad Barr passou a mandar os soldados dispersarem os
agrupamentos mais numerosos nas mesquitas; eles disparavam as
submetralhadoras para o alto a fim de deixar claro quem estava no
poder, e muita gente morria nas correrias que se seguiam. Aps cada
uma dessas aes, a Fraternidade Muulmana ganhava mais apoio na
cidade. O movimento passou a ser um poder com que se contava nos
negcios, nos hospitais, nas escolas e nas universidades. Agora, a
universidade de Ijaabo, a Lafoole, na periferia de Mogadscio, era um
verdadeiro encrave da fraternidade.
       Na metade da dcada de 90, um grupo de polticos -- ancios
representantes virtualmente de todos os cls -- publicou um manifesto
conclamando Siad Barr a renunciar. Diziam que o pas estava
mergulhado no caos e que ele devia entregar o poder para que se
organizassem eleies. Barre jogou alguns desses homens na cadeia. A
possibilidade de uma paz estvel no pas ficou ainda mais remota.
       Os parentes de Maryan que moravam no campo compraram
vrias submetralhadoras e comearam a ficar junto ao porto, dia e
noite, com cintures de balas na barriga. O mesmo acontecia nas
residncias dos demais parentes. Guardas armados at os dentes,
geralmente membros do cl recm-chegados do campo, postavam-se 
porta dos parentes urbanos para lhes proteger a vida e a propriedade.
       Briguei com Arro e me mudei para a casa de Ibado Dhadey. Em
um sbado particularmente lgubre, resolvi ir visitar minha tia Khadija,
a meia-irm muito mais velha de mame. Khadija era solene e
imperiosa, quase da idade da minha av, porm mais alta, mais
imponente e muito mais maledicente. Cheguei a estremecer ao pensar
na sevcia verbal que ela me infligiria por t-la visitado to pouco nos
meus dez meses de Mogadscio.
       Tomei o cuidado de ir impecavelmente limpa e de roupa bem
passada e levei um presente para ela. Khadija fazia muita questo da
etiqueta. Criticava o menor erro de expresso. Eu precisava esperar que
me cumprimentasse e, ento, saud-la poeticamente, com o corpo
perfeitamente ereto.
       Comportei-me aceitavelmente  porta; a seguir, fomos tomar ch
na sala de jantar. Eu adorava aquela sala com antigos mveis e talheres
europeus. Khadija devia ser a nica mulher que vivia daquele modo em
Mogadscio. Fiquei to admirada que, apesar do meu empenho em me
comportar da melhor maneira possvel, cometi o erro de me sentar
pesadamente na cadeira.
       Minha tia reagiu no mesmo instante. "A pobre Asha no lhe
ensinou a se sentar? Por acaso voc  uma macaca?" E a descom-
postura prosseguiu interminavelmente, comparando-me com um bando
de bichinhos dos quais no se podia esperar um mnimo de bons
modos, e desferindo constantemente insultos semivela-dos  minha
me, que no soubera me educar. Foi um verdadeiro show e, embora
em parte eu me sentisse ofendida, fiquei encantada com o seu domnio
da linguagem -- a prosa bonita, soberba e seca daquela velha
rigidamente aprumada na cadeira, com o olhar mais firme que j vi.
       Era impossvel me rebelar, chorar ou protestar quando Khadija
me repreendia. Isso me valeria mais um sermo sobre a minha falta de
carter: eu nunca aprenderia nada, ia morrer to miseravelmente
quanto havia nascido. E ela exigia que a olhasse nos olhos, balanando
a cabea para mostrar que estava entendendo, coisa que eu fazia. Era
evidente que o meu estoicismo agradava a minha augustssima tia.
       Terminado o discurso, ela serviu o ch. Olhei para a porta e me
surpreendi ao dar com um rapaz ali parado. Era muito bonito e estava
achando graa na      minha difcil situao. Evidentemente, tinha
presenciado a cena toda.
       Khadija nos apresentou. Tratava-se do meu primo Mah-mud,
filho do irmo da minha me, o tio Muhammad. Mahmud morava com a
tia Khadija quando no estava no quartel. Com a morte da me, como
no gostava da madrasta, ele se alistara no exrcito ainda na
adolescncia. Khadija no tinha filhos -- era estril --, de modo que
escolhera Mahmud entre os filhos dos parentes.
       Educadamente, eu lhe dei notcias da minha me, procurando
desviar a vista do interesse obviamente sexual que se estampava nos
olhos dele. Aquele homem me olhava como mulher, escancaradamente;
uma coisa quase antropofgica.
       Ento Khadija perguntou de Abshir. Estava informada de tudo, 
claro. Sem saber o que responder, eu disse impulsivamente: "Eu
gostava dele, mas no quero passar a vida com ele". O que pelo menos
era verdade, muito embora a verdade sobre essas coisas fosse quase
uma grosseria na Somlia.
       Khadija mudou subitamente de atitude. Debruando-se na
mesa, com os olhos brilhando, arrulhou: "Mas, meu amor, tenho a
pessoa certa para voc!". E apontou para a extremidade da mesa em
que Mahmud estava. Sorrindo, ele me mediu dos ps  cabea,
avaliando-me deliberadamente. Eu era bastante disciplinada? Bastante
flexvel? Bastante orgulhosa? Ou no passava de uma fraca, de uma
catica, de uma tola que cedia facilmente e acabava derrotada pelo lado
spero da vida? Eu me senti nua. Mais do que isso, me senti exposta.
       Fui aprovada. Khadija me convidou a jantar na quinta-feira
seguinte, e l estava Mahmud. Durante o jantar, ela saiu da sala, com o
pretexto de ir rezar, e no voltou mais. Ns continuamos comendo,
escrupulosamente corteses, os dois fingindo que nada de inusitado
havia acontecido. Mahmud me perguntou se eu queria passear em
Mogadscio e se ofereceu para me levar. Eu me defendi propondo que
Haweya nos acompanhasse. Ns nos tratvamos por "primo" e "prima":
"meu querido primo" "minha queridssima prima", "meu adorvel
primo".
         No dia seguinte, ele chegou de carro para nos levar ao campo.
Haweya j o conhecia -- contara-me que o primo Mahmud era lindo -- e
foi com olhos arregalados que ento observou o modo como os ombros
dele recheavam a camisa branca. "Quer dizer que vocs vo namorar?",
ela me perguntou em ingls, e respondi tambm em ingls: "No seja
boba, seria incesto".
         Mahmud lhe pediu que traduzisse, e Haweya no se fez de
rogada. Ele tornou a sorrir mostrando os dentes brancos, e respondeu:
"Nada disso, minha adorvel prima. Dizem que os primos maternos
formam os casais mais perfeitos". A minha irm s faltou lamber o
beio.
         Mahmud era de fato encantador, o homem mais msculo que eu
j tinha visto, e logo me apaixonei. Ele estava acostumado a assumir o
controle. No era sofisticado; nada tinha de intelectual atormentado
feito Abshir. Citava antigas fbulas e ria s gargalhadas. E flertava
comigo abertamente.
         Quando Mahmud olhava para mim, eu me sentia pegando fogo.
Mas ele nunca arriscou uma insinuao sexual, obedecia a todas as
convenes. Sem dvida alguma, exalava a impresso de que o seu sexo
ardia pelo meu, porm nunca me tocou. Eu era sua prima. A honra da
famlia estava em jogo. Qualquer tipo de contato sexual entre ns seria
profundamente imprprio -- inconcebvel at. Eu mesma pensava nisso
constantemente, mas claro que no podia tomar a iniciativa.
         Passamos a nos encontrar todo fim de semana na casa da tia
Khadija. Ela me instigava com comentrios sobre o horror de casar com
homens de famlia estranha e das vantagens da unio com um primo: a
famlia sempre cuidaria de mim; a gente se dava to bem; a gente se
entendia. Tambm dizia que seria um erro casar com um osman
mahamud como Abshir. Os homens daquele cl eram muito polticos e
tambm excessivamente auto-centrados, no hesitavam em casar com
uma segunda mulher sem sequer informar a primeira. Nunca
mencionava o meu pai, mas eu sabia que estava se referindo a ele. E
era bom que no o mencionasse: por maior que fosse a autoridade de
Khadija, eu no aceitaria nenhuma crtica a abeh.
       Ainda que continuasse arrogante, tia Khadija se mostrava muito
mais afetuosa agora que eu tinha cado na sua teia. No tinha mudado
nada desde a poca em que casara o meu pai com a minha me: era
impossvel resistir aos seus ardis.
       Mahmud no tinha futuro no exrcito somali, mesmo porque
muito em breve j no existiria exrcito somali nenhum. Contou-nos
que numerosos grupos de soldados estavam se passando para as
milcias de seus cls; levavam consigo armas e estoques de munio.
       Khadija era a nica na nossa famlia prxima que apoiara Siad
Barr a vida toda. J se divisava o fim da verso somali do comunismo,
e ela via nisso uma traio  nica esperana de futuro no pas. Para
tia Khadija, s o comunismo tinha condies de superar as amargas
divises dos somalis em cls, e rejeit-lo s comprovava o interesse
egosta, brbaro e mesquinho inerente ao sistema clnico.
       Guardei para mim as lembranas que tinha do comunismo: as
longas filas sob o sol escaldante, os cochichos dentro de casa, a priso
de papai, as pancadas que me davam no colgio para que cantasse
hinos de louvor a Siad Barr. Preferi lhe perguntar o que achava da
Fraternidade Muulmana, da qual eu continuava sendo simpatizante.
       Khadija a comparou a um cncer, a doena que havia matado
minha tia Hawo quando eu era pequena. Disse que a Fraternidade
Muulmana no representava o verdadeiro isl e nada sabia do nosso
profeta, mas, embora fosse pequena, ia crescer como o tumor no seio da
minha tia e devorar o pas por dentro at nos destruir a todos.
Recomendou que eu ficasse longe daquela gente.
       Ento Mahmud nos contou que tinha recebido o prestigioso
prmio de estudar na Unio Sovitica e que ia partir dentro de alguns
dias, talvez por muito tempo. Antes que ele viajasse, tia Khadija se
apressou a informar a ambos que estava na hora de formalizar as
coisas. No houve nenhuma cena de pedido de casamento, como no
Ocidente, com o pretendente ajoelhado diante da amada: Khadija se
encarregou de tudo. Ela falava, eu concordava.
       Apesar   da   atrao   mtua,   Mahmud    e   eu   no   ramos
compatveis. Nossas conversas no eram inspiradoras como as que eu
tinha com Abshir, tampouco eram ntimas e profundas como com
Kennedy. No sei dizer se a gente se gostava mesmo. Certamente no
cheguei a avaliar se ele era um parceiro aceitvel, com o qual valia a
pena passar o resto da vida. Simplesmente estava dominada pelo
desejo. Tudo se resumia a isto: uma tempestade de hormnios.
Concordei em casar com Mahmud s para ter relaes sexuais.
       A clitorectomia no elimina o apetite sexual nem a capacidade
de ter prazer.  uma ablao desumana em muitos aspectos.
Fisicamente cruel e dolorosa, sujeita as meninas a toda uma existncia
de sofrimento. E nem chega a ter eficcia na inteno de anular a
luxria. Embora j tivesse me apaixonado por Kennedy e por Abshir, eu
no estava preparada para lidar com a fora do meu desejo por
Mahmud.
       Ele queria que nos casssemos logo, antes da sua viagem. Seria
como garantir um direito: nenhum outro homem poderia se aproximar
de mim. Entretanto, meu irmo jamais concordaria com um casamento
s pressas. Sendo eu filha de Hirsi Magan, as minhas npcias tinham
obrigatoriamente de ser um grande evento. Mahad fazia questo de que
o meu pai aprovasse a unio, e isso podia levar meses.
       No nos restava seno casar secretamente, disse Mahmud. E
tomou todas as providncias. A cerimnia se realizaria na vspera da
sua partida. Um primo nosso, Ali Wersengeli, concordou em ser o meu
guardio substituto. Eu sabia que aquilo estava errado -- o responsvel
por mim s podia ser o meu pai ou o meu irmo --, mas Mahmud disse
que no fazia mal. Khadija arranjaria as coisas com a famlia da minha
me. Quanto  do meu pai, ela certamente no ia gostar, mas ningum
podia se opor ao matrimnio de primos maternos. Mesmo que
fugssemos sem a devida autorizao, era uma unio claramente
aceitvel, impossvel de ser anulada.
       Hoje sei que estvamos arriscando todo tipo de anomalias
genticas em nossos filhos, mas no tnhamos a mais vaga idia dessas
coisas. Na Somlia, assim como em boa parte do Oriente Prximo e da
frica, o casamento consangneo  encarado como o mais seguro que
existe: conserva o patrimnio da famlia, e os eventuais conflitos so
rapidamente solucionados pelos parentes do casal.
       Na noite das nossas bodas, o nikah, eu estava louca de
entusiasmo. Tinha vinte anos e ia casar em segredo com o homem que
eu desejava. No contara nada nem mesmo a Haweya; Khadija era a
nica que sabia. Passei o dia fazendo desenhos com hena nas mos e
nos ps. Quando Mahmud foi me buscar na casa de Khadija, eu estava
com um vestido vermelho longo e de saltos altos, o tipo de roupa que
nunca pensara em usar, e toda perfumada. Quando me olhei no
espelho, vi uma mulher feita.
       Fomos nos imortalizar em um estdio fotogrfico. De l nos
dirigimos  casa do cdi encarregado da cerimnia de casamento. As
ruas estavam escuras -- havia corte de energia outra vez --, de modo
que estacionamos e seguimos pela ruela  luz de um lampio. O xeique
estava nos esperando  porta, de veste e turbante brancos que
brilhavam na negrura da rua. Meu primo distante Ali Wersengeli e outro
homem que eu no conhecia j tinham chegado. Comecei a perceber
que estava me metendo em uma coisa serissima, mas era tarde para
voltar atrs. Foi com passos trmulos que avancei na escurido.
       O cdi acenou a cabea para ns e fez as perguntas de praxe.
       "Voc  Mahmud Muhammad Artan?"
       "Sou."
       "Voc  Ayaan Hirsi Magan? No precisa responder, a sua
presena basta."
       Simplesmente continuei sentada.
       O cdi enumerou os nomes de Mahmud e as respectivas idades.
Ento se voltou para mim: "Voc  virgem?". Eu me mantive calada, que
era a maneira adequada de responder, e ele escreveu "virgem" na
certido.
       Tendo nos declarado casados conforme a lei do isl, o cdi
perguntou: "E qual  o preo da noiva?".
       Ns nos entreolhamos -- no tnhamos pensado nisso --, e
Mahmud disse: "Um Sagrado Alcoro", que era a resposta simblica.
No havia a quem pagar o tal preo: eu era uma noiva clandestina.
Mahmud assinou o documento e pediu uma cpia, mas o cdi explicou
que a certido primeiro teria que ser selada e entregue s autoridades.
Ali deveria busc-la na semana seguinte.
       Depois de calorosos e msculos apertos de mo, as duas
testemunhas desapareceram. E me vi sozinha com o meu primo -- o
meu marido -- em um Land Cruiser. Assombrada com a enormidade do
que acabava de fazer, olhei de relance para ele. Mahmud no retribuiu o
olhar. No nos tocamos nem nos beijamos. Mas eu sabia muito bem o
que me esperava: a minha noite de npcias.
       Mahmud entrou no estacionamento do Hotel Arubo, o mais
chique da cidade. Embora no tivesse reservado quarto, solicitou um de
casal. O recepcionista pediu para ver a certido de casamento; era a
influncia crescente da Fraternidade Muulmana. Mas Mahmud no a
tinha. Voltou para o carro, furioso, xingando a fraternidade. "No sei o
que est acontecendo com este pas", rosnou. "Quem  essa gente
afinal?"
       A coisa se repetiu no hotel seguinte e nos outros. Arrisquei
perguntar se no valia a pena eu entrar tambm, e ele gritou: "Est
louca? Amanh cedo a sua cara vai estar estampada nos cartazes,
dizendo que voc  prostituta: uma mulher e um homem sem certido
de casamento? Pense no seu nome!"
       O hotel que finalmente se disps a me aceitar devia ser um dos
mais ordinrios de Mogadscio, um que no ligava para certido de
casamento. O fornecimento de energia eltrica continuava interrompido.
Foi preciso levarmos um lampio ao quarto. Uma barata correu para
debaixo da cama quando abrimos a porta. Mahmud me entregou o
lampio e olhou para mim pela primeira vez naquela noite. Disse que eu
podia me preparar.
       Lavei-me automaticamente no banheiro, que estava imundo.
Depois me deitei na cama, totalmente vestida: no sabia o que fazer.
Queria que tudo fosse extremamente ertico, eu no papel de Marilyn
Monroe ou de lady Chatterley, mas nem sabia tirar a roupa. Ao voltar
para o quarto, Mahmud disse: "Ah, voc resolveu bancar a pudica?"
       Pudica era a ltima coisa que eu queria ser. "O que voc quer
que eu faa?", perguntei.
       "Que tire a roupa,  claro."
       Obedeci desajeitada e rigidamente. No era nada do que eu
sonhara. Tentei umas carcias preliminares, tal como tinha lido nos
livros, e Mahmud ficou desconfiado. "Ei, voc j andou fazendo isso?"
perguntou.
       Balbuciando que no, eu o deixei se encarregar de tudo. Se
mentisse que j tinha tido experincia sexual, talvez houvesse um
prembulo; mas depois o mais provvel  que Mahmud se divorciasse
de mim. Como admiti que era virgem, no tive direito ao menor prazer.
Jawahir, Sahra e as demais estavam cobertas de razo, pensei. Mulher
boa era a virgem que nada sentia.
       No chegou a ser um estupro. Eu queria transar com Mahmud
-- mas no daquele jeito. Ele arquejou, forou e suou para romper a
minha cicatriz. O ato foi horrivelmente doloroso e demorou uma
eternidade. Rilhando os dentes, suportei a dor at ficar entorpecida.
Depois, Mahmud se virou e dormiu pesadamente; fui me lavar outra vez
no srdido banheiro. Em todos os aspectos, a noite de npcias foi
exatamente como a que Jawahir tinha descrito um ano antes, no
Qunia.
       Na manh seguinte, bem cedo, Mahmud me levou para a casa
de Ibado Dhadey. Ia embarcar para a Unio Sovitica naquela mesma
tarde; no voltaramos a nos ver. Ns nos despedimos. Eu estava meio
que no piloto automtico, embora desse a impresso de agir com toda
naturalidade. Talvez um pouco acanhada,  verdade, mas isso era
natural naquelas circunstncias.
        Ibado se zangou quando entrei. Disse-lhe que tinha passado a
noite na casa de tia Khadija e subi, lavei-me outra vez e passei
desinfetante nas feridas, exatamente como Jawahir. Sabia que no
queria ver Mahmud nunca mais. A cicatriz doa tanto que eu mal
conseguia me levantar, por isso disse a Ibado que estava doente.
Haweya chegou e ficou to preocupada que comecei a chorar e lhe
contei tudo. Estava muito mal comigo mesma para carregar tanta culpa
sozinha. Tinha me comportado abominavelmente: cedera  tentao,
trara a minha famlia e agora estava presa para sempre quele homem.
E a culpa era toda minha.
        Haweya foi um anjo. No me censurou; estava assombrada com
o romantismo que impregnava aquilo tudo. Quando me queixei da dor,
ela cuidou de mim. Disse que achava que a cerimnia no tinha
legitimidade. Ali Wersengeli simplesmente no podia ser o meu guardio
oficial j que o meu irmo e o meu pai estavam no pas. Ns duas
rogamos a Al que no me deixasse engravidar.
        Alguns dias depois, Ali Wersengeli apareceu em casa para
entregar uma cpia da certido de casamento; disse que j enviara a
outra a Mahmud na Unio Sovitica. Guardei a minha sem ler. J podia
me sentar e andar, embora o machucado ainda doesse bastante. Quinze
dias depois, fiquei menstruada: a misericrdia de Al se confirmou.
        Na cidade, a violncia se tornara to corriqueira que ningum
mais se interessava pelas notcias de assalto, a menos que a vtima
fosse conhecida. Os piores eram os militares: no havia dinheiro com
que pag-los, e bandos de soldados invadiam as casas, saqueando o
cidado comum. s vezes irrompiam tiroteios, e as crianas saam  rua
correndo, reagindo ao barulho dos disparos como se fossem fogos de
artifcio.
        No campo, a rebelio contra Siad Barr se intensificava. Os
macherten e os isaq combatiam seu exrcito no leste e no norte; a
revolta hawiye, no sul, se transformara em guerra declarada. As
pessoas zombavam de Siad Barr e do seu exrcito enfraquecido.
Diziam que os combatentes hawiye praticamente haviam cercado a
cidade; em vez de Afwayne, agora o chamavam de prefeito de
Mogadscio, pois este era o nico territrio ainda sob o seu controle.


       Em outubro de 1990, a agncia de telecomunicaes em que eu
trabalhava fechou. Era perigoso para os estrangeiros ficar no pas, o
pessoal no essencial da ONU foi repatriado. Um deles era o meu chefe
britnico. Ouvindo rdio no Qunia, mame ficou apavorada. Queria
que Haweya e eu voltssemos a Nairbi.
       Uma onda de saudade do Qunia me inundou. Eu sentia falta
dos cinemas e dos livros, sentia falta de Halwa e morria de saudade de
mame; pode parecer estranho, mas sentia falta da sua firmeza moral.
Tinha saudade da sua noo clarssima do comportamento correto, o
qual eu esperava encontrar na Somlia, mas no encontrara. Pelo
contrrio, l havia destrudo a minha vida e a minha relao com Deus.
Sentia-me feia e confusa, e foi um grande alvio quando mame nos
mandou retornar a Nairbi.


       8. Refugiados


       Haweya e eu partimos de Mogadscio em meados de novembro
de 1990, apertadas em bancos de madeira com outras trinta pessoas na
traseira de uma picape. amos acompanhadas de Qubqac, sobrinho de
Ibado e nosso primo em segundo grau, muito mais velho, que tinha
parentes no Qunia, perto da fronteira. Seria um longo desvio. A
estrada de Kismayo, no litoral da Somlia, j estava nas mos dos
rebeldes hawiye; era perigosssimo percorr-la. O nico meio de ns,
darod, chegarmos sos e salvos ao Qunia era a longa estrada de
Baidoa, no norte, e depois pelo oeste, atravessando o deserto. Mesmo
nesse caminho poderia haver bandoleiros ou membros extraviados dos
exrcitos rebeldes, em busca de aventura e enlouquecidos de qat.
       Aps algumas horas de viagem, chegamos a Afgoye, uma das
principais cidadezinhas comerciais do sul da Somlia. A paisagem
verdejou subitamente. Ao longo do rio, espalhavam-se os arrozais e os
pomares: mamoeiros e goiabeiras, bananais e mangueirais. As bancas
de rua estavam repletas de comida, e a carne era maravilhosa.
       Em Afgoye, as pessoas tinham aspecto diferente, pareciam-se
mais com os quenianos. Eram descendentes de escravos e camponeses,
os prias sab. Moravam nas terras arveis que alimentavam o resto da
Somlia, mas mesmo assim aquela gente era considerada inferior a ns.
Todos se afastavam para nos dar passagem. Um darod bem-nascido da
nossa picape no hesitou em empurrar uma velha sab que no saiu do
caminho a tempo. Eu me alegrei por estar indo embora. A intolerncia
escancarada era uma das coisas que eu mais detestava na Somlia.
Pensava que pertencer a um cl superior significava ter moralidade
superior. No via nisso motivo para maltratar as pessoas com base em
suas caractersticas fsicas e na categoria do seu sangue. Mas, quando
eu manifestava a minha irritao com o escandaloso preconceito contra
a gente dos cls sab, chamavam-me de comunista.
       No entanto, ao pensar nisso, tambm ficava exasperada com a
atitude dos prprios sab. Em lugares como Afgoye e Baidoa, eles eram
maioria: por que obedeciam tanto? O que estavam esperando? Acaso
temiam os avies e as bombas dos cls superiores? Ou seria porque
dependiam do dinheiro dos nortistas? Teriam interiorizado a idia da
prpria inferioridade, aquela humilhao cotidiana? Por que no se
insurgiam?
       Passamos a primeira noite em Baidoa, um vilarejo comercial
quente e poeirento cerca de duzentos e cinqenta quilmetros ao norte
de Mogadscio e a quase trezentos da fronteira queniana, aonde
chegamos pouco depois do anoitecer. Ento embarcamos em outro
nibus caindo aos pedaos rumo a Luuq, um antigo entreposto
comercial  beira do rio Juba. Quando samos de Baidoa, a rea rural
se esvaziou: s havia areia, vegetao rasteira, espinheiros e um ou dois
baobs. Era o tipo de terra em que a minha me tinha sido criada.
Ocasionalmente, passvamos por um menino conduzindo camelos, que
nos olhava de esgue-lha no sol, ou por uma mulher com um pano
amarrado no ombro e um beb s costas, caminhando, na distncia,
com um feixe de lenha preso  barriga.
       Em Luuq, as pessoas eram magras. Os refugiados dormiam nas
ruas, e as casas estavam crivadas de balas. Os quartinhos minsculos
do hotel eram um forno, de modo que todo mundo preferiu dormir do
lado de fora, as mulheres em esteiras estendidas no ptio interno, os
homens no externo. No havia gua corrente nem eletricidade. Todos se
lavavam com uma caneca e riam de Haweya e de mim por usarmos o
instrumento dos estrangeiros, a escova de dentes, em vez de esfregar
um ramo de accia nos dentes. No caf-da-manh, serviram fgado de
cabra com alho e cebola; no pude engolir aquilo to cedo, porm os
demais tentaram me induzir a comer antes que entrssemos nas regies
de fome. Mais adiante, a comida ia escassear.
       Sob o sol inclemente, a picape avanava ruidosamente na areia,
por certo seguindo uma espcie de caminho que eu no conseguia
enxergar. No havia sombra; amos simplesmente sentados em bancos
de madeira.
       Passamos a noite seguinte em Bulo Haawo, um vilarejo no lado
somali da fronteira do Qunia, um aglomerado de casebres de sap e
uma loja que tinha um armrio com um pouco de gelo dentro. Mas,
apenas algumas centenas de metros alm da aldeiazinha precria,
atravessamos a fronteira e demos com a cidadezinha queniana de
Mandera, com prdios de concreto, uma rua pavimentada e eletricidade.
A   eletricidade   tinha   se   tornado   uma   raridade   em   Mogadscio;
surpreendeu-nos encontr-la l. Passamos pelo controle oficial, onde as
pessoas subornavam abertamente os funcionrios fardados. (Uma vez
que Qubqac tinha documento queniano e Haweya e eu falvamos
perfeitamente o suali, deixaram-nos entrar no pas sem pagar propina.)
       Em Mandera, Qubqac levou-nos  casa da sogra e das cunhadas
para saud-las; elas tinham eletricidade e gua corrente. L havia lojas
e uma escola, at mesmo um conselho distrital e uma delegacia de
polcia. Tudo naquela cidadezinha do Qunia, pas que os somalis
consideravam inferior, funcionava muito melhor do que qualquer coisa
na Somlia, apenas alguns quilmetros atrs de ns.
         Mandera era habitada por somalis sejui (tambm conhecidos
como somalis quenianos), que falavam em tom montono e misturavam
palavras sualis ao nosso idioma. Os nicos quenianos "nativos" eram a
polcia, que mantinha a ordem, e o exrcito, que vigiava a fronteira. Mas
os fatos, na Somlia, acabavam desbordando no Qunia. Eram comuns
as incurses do outro lado da fronteira em busca de bens e gado, e os
contrabandistas entravam com qat e todo tipo de mercadorias e de
gente.
         Passamos duas noites em Mandera, at Qubqac se decidir a pr
o p na estrada novamente. Tomamos um nibus para Garissa, uma
cidade trezentos e cinqenta quilmetros mais ao sul, que tinha ruas
asfaltadas,   hotis,   estao   rodoviria,   semforos,   mesquita.   L
compramos passagens para Nairbi. Estvamos quase em casa.
         Quando finalmente chegamos a Nairbi, quase uma semana
depois de sair de Mogadscio, e fomos recebidas pelos cheiros e as cores
de Eastleigh, tudo estava exatamente como havamos deixado. At o
odor pungente de sukumawiki era bem-vindo: significava estar em casa
outra vez. Eu chegava ansiosa por rever a minha me, mas, quando nos
aproximamos do nosso bairro, dei-me conta de que tambm receava as
brigas e as cenas que inevitavelmente teramos de aturar.
         Dias depois da nossa chegada a Nairbi, no fim de novembro, o
conflito irrompeu nas proximidades de Mogadscio. O exrcito de Siad
Barr ainda controlava o centro da cidade, mas a periferia estava
completamente cercada pelas foras rebeldes hawiye.
         Milicianos excitados pelo qat passavam em caminhonetes,
atirando a esmo e incendiando fazendas e plantaes.
         Para dividir a oposio, Siad Barr procurava insuflar a
hostilidade entre os cls, sempre latente na Somlia. Suas foras
atacavam os darod fingindo-se hawiye: no local dos assassinatos,
pichavam slogans como "Darod fora da terra hawiye" e "use", as iniciais
de uma das milcias hawiye. Faziam o mesmo com estes, pichando
palavras de ordem como "Os hawiye so inferiores e merecem ser
exterminados".
        Assim, ao cair, Siad Barr levou o pas consigo: a luta para
dep-lo degringolou em uma guerra civil total. Os hawiye j no
queriam apenas a cabea de Siad Barr: queriam uma limpeza tnica.
Os darod foram pegos de surpresa. Esperavam que os hawiye se
vingassem do subcl de Siad Barr, mas no que atacassem todos os
cls    do   darod.   Mogadscio   mergulhou   no   caos,   com   saques,
assassinatos indiscriminados e destruio de propriedade. De uma hora
para outra, os milicianos invadiam os bairros e incendiavam as casas;
muitas crianas ficavam abandonadas quando os pais fugiam. Todo
darod que conseguia escapar ia de carro, a p ou se arrastando a
Afgoye, Baidoa, Kismayo, no litoral, e as cidadezinhas e os vilarejos
junto s fronteiras do Qunia e da Etipia.
        Alguns deles reagiam, e nessas batalhas um grande nmero
tanto de darod quanto de hawiye perdia a vida. O exrcito de Siad Barr
ficou reduzido  guarda do palcio presidencial. No dia 27 de janeiro de
1991, em meio a essa carnificina, mame, Haweya e eu soubemos, pelo
programa somali da BBC, que Barre havia se refugiado -- em Nairbi.
        Uma noite, quando estvamos ouvindo ansiosamente o rdio em
nosso apartamento de Park Road, bateram na porta. Levei um susto ao
dar com Abdellahi Yasin, um dos melhores amigos de Mahad em
Mogadscio, l em casa. Acompanhava-o o filho de sua irm mais velha,
um rapaz que foi apresentado a ns como Osman Abdihalin Osman
Yusuf Kenaidiid, um dos netos de Osman, o homem que ensinara meu
pai a ler e escrever, e bisneto do rei que o meu av Magan servia.
Ficamos embasbacadas. Era uma honra receber aquele homem em
casa.
        Abdellahi e Osman nos contaram que Mogadscio estava
virtualmente paralisada. Somente veculos militares circulavam nas
ruas. Nas regies j controladas pelos hawiye, os soldados iam de porta
em porta prendendo os darod. Mahad deixara a cidade antes deles,
rumo a Bari, que agora se achava sob o firme controle da FSDS. Mame
ficou quase histrica de medo; e Haweya e eu, terrivelmente aflitas.
       Abdellahi e Osman se instalaram na nossa sala de visitas e,
quinze dias depois, estavam dormindo em colches no cho quando
Mahad chegou. Ao v-lo, mame, Haweya e eu quase desmaiamos de
alvio. O seu plano era ir a Bari, mas o cl fizera questo de que
voltasse  segurana do Qunia. Sara da cidade pelo mesmo caminho
que ns, e o fizera em cima da hora: um dia aps a sua passagem por
Afgoye, a cidadezinha foi ocupada pelos rebeldes hawiye.
       Mahad chegou com nosso primo Warsame, filho da irm gmea
de mame, e com dois meios-irmos deste. Agora eram seis homens,
todos eles mais ou menos aparentados conosco, dormindo em
colchonetes na sala de estar. Pouco depois chegou o irmo mais velho
de Osman, Mahamuud. Uma vez mais, foi uma honra lhe oferecer
hospitalidade, mas o terror se estampou no rosto da minha me quando
Mahamuud nos contou que Mogadscio j estava quase totalmente
dominada quando ele partira. Os hawiye sitiaram o palcio de Siad
Barr, e havia estupros e assassinatos em toda parte. Os milicianos
hawiye arrastavam as mulheres e crianas darod para a rua e as
matavam, disse; chegaram a incendiar casas ainda com gente dentro.
Havia escassez de gua, e as pessoas estavam to debilitadas por falta
de alimento que no podiam lutar nem fugir. Posteriormente, soubemos
que minha tia Khadija fugira para Kismayo, onde adoeceu. Por fim,
chegou a notcia da sua morte.
       Ibabo Dhadey Magan, cuja me era hawiye, reuniu alguns
parentes no seu complexo para mant-los a salvo. Mas os darod
estavam comeando a abandonar a cidade em veculos ou a p, fugindo
do desastre. Dirigiam-se ao litoral juntamente com as pessoas que
escapavam das fazendas incendiadas ao sul de Afgoye. Agora havia
centenas de milhares de somalis nas estradas. Iniciara-se o xodo
massivo para o Qunia, a Etipia e outros pases.
       Mahamuud deixou a mulher e os filhos em Kismayo, com os
parentes; fez a viagem ao porto queniano de Mombasa, em um barco
lotado de refugiados, a fim de procurar um lugar seguro para a famlia
em Nairbi. Calculava que eles tinham gasolina suficiente para chegar 
fronteira queniana, ao lugar em que os refugiados estavam se
aglomerando, cerca de cento e cinqenta quilmetros deserto adentro.
Todos o chamavam de Dhobley, Atoleiro.
       Mahamuud passou uma semana pedindo diariamente a Mahad,
que tinha carteira de identidade queniana e falava suali e ingls, que
fosse com ele buscar a famlia na fronteira. Esta se convertera em um
caos, e o governo queniano fazia o possvel para impedir a entrada de
mais somalis no pas; Mahamuud precisava de ajuda.
       No entanto, Mahad procrastinava. Sempre respondia com um
gesto de desdm: no dia seguinte fariam a viagem  fronteira. A
ansiedade de Mahamuud era visvel. Por fim, uma noite, durante o
jantar, ele anunciou que partiria sozinho ao amanhecer. No agentei
mais e disse: "Tambm falo suali e ingls, e Haweya e eu acabamos de
chegar da fronteira, portanto sabemos o que fazer. Vamos com voc".
       Minha me se ops, uma moa no podia ir a uma zona de
guerra. Mas eu disse que ia ficar do lado queniano: que mal poderia me
acontecer? A discusso se prolongou por vrios dias. Todo mundo
tomava partido. Mahad continuava prometendo acompanh-lo, mas
logo saa, dizendo que ia  mesquita para l ficar at o fim da tarde. Era
evidente que a Mahamuud s restava ir comigo ou sozinho.
       Partimos no fim de janeiro. Fazia dois meses que eu tinha
chegado.
       Depois de uma ou duas noites na estrada, desembarcamos no
vilarejo queniano de Liboye, na fronteira. Mahamuud estava to nervoso
que mal conseguia falar. Levava sob a camisa uma bolsa de couro
recheada de dlares americanos para o suborno, mas eu  que tinha
que negociar com a polcia no posto fronteirio. Nunca havia tentado
subornar ningum; nem mesmo sabia quanto valia o dlar to longe da
capital.
       Em toda parte se viam soldados de farda verde-oliva, todos
armados de metralhadora e com cintures de munio a tiracolo.
Encontramos um oficial do exrcito que se disse comandante. Respirei
fundo e expliquei em suali: "Este homem est  procura da famlia.
Foram passar as frias na Somlia e ficaram presos l. S precisamos
atravessar a fronteira e traz-los para c".
       O militar me examinou e perguntou: "Quantos voc pretende
trazer?". Respondi: "Uma mulher e quatro crianas pequenas. Na
verdade, s uma mulher, porque as crianas so to pequenas que nem
contam".
       Ele me endereou um olhar debochado, e percebi que aquele era
o   melhor   momento      para   lhe   dar   dinheiro.   Voltando-me    para
Mahamuud,      disse:    "Voc   tem   uns   quinhentos   xelins?".    Estava
chutando. Era o equivalente a uma semana de aluguel do nosso
apartamento de Nairbi. Mahamuud ps uma cdula na minha mo, e a
entreguei ao oficial. Este a examinou e exigiu: "Mais duas". Pagamos, e
ele disse: "Podem ir".
       Perguntei seu nome. Ele respondeu: "Mwaura", um nome
quicuio muito comum. Mas duvidei que aquele homem fosse quicuio:
era muito alto. Disse a Mahamuud que no confiava nele. No tnhamos
nenhuma garantia. Mesmo que encontrssemos sua mulher e seus
filhos, no tnhamos certeza de que voltaramos a encontrar aquele
militar nem de que ele nos deixaria entrar novamente no Qunia. No
havamos recebido um pedao de papel, nem mesmo um aperto de mo.
S contvamos com aquele nome duvidoso, Mwaura, e o meu suali,
mas no havia escolha.
       Fomos sozinhos para a zona fronteiria, descendo um morro
vazio. A cena era de extremo desespero, com barracas e precrios
abrigos de refugiados espalhados at onde a vista podia alcanar.
Parecia que toda populao da Somlia estava acampada ali. Em algum
lugar alm daquela zona desolada, ficava a colnia de Dhobley,
apressadamente erigida pelos refugiados; e, em algum lugar de
Dhobley, Mahamuud esperava encontrar seus familiares.
       No havia seno poeira: absolutamente nenhuma rvore,
nenhuma sombra. O rgo das Naes Unidas responsvel pelos
refugiados havia montado um acampamento no lado queniano da
fronteira, no sop do morro. Dezenas de plsticos azul-claros se
aglomeravam perto de uma barraca de lona grande e bem-feita, onde as
pessoas faziam fila, no sol, para se registrar. Passamos por um posto de
sade -- na verdade, apenas um lugar onde registrar os bitos -- ao
redor do qual se erguiam milhares e milhares de tendas.
       Quanto mais avanvamos, mais precrios se tornavam os
abrigos. No comeo, a maioria era de lonas azuis esticadas em galhos e
varas, com famlias inteiras abrigadas sob eles. Um pouco mais adiante,
as lonas davam lugar a meros estaleiros improvisados com galhos e
pedaos de pau fincados no cho; por cima, estendiam roupa -- vus ou
um vestido de mulher -- para que as crianas ficassem na sombra. As
barracas improvisadas se api-nhavam ao redor de pequenos poos
cavados na areia, alguns dos quais no passavam de poas barrentas.
O cheiro da chuva recente ainda pairava no ar, mas a gua das poas j
evaporava no calor.
       Andamos at chegar a um vasto estacionamento com algumas
caminhonetes e Land Cruisers. Todos l eram dos darod -- macherten,
marehan, wersengeli ou ogaden, mas todos darod --, de modo que nos
sentimos  vontade entre eles. Embora houvesse tenso entre os
subcls, l no haveria nenhum massacre. Mahamuud explicou que
precisvamos viajar a Dhobley, a dezoito quilmetros dali. Negociou o
preo durante algum tempo e achou um motorista macherten que se
disps a nos levar, mas foi necessrio esperar at conseguir passageiros
suficientes para lotar o veculo.
       Eram umas quatro da tarde quando chegamos a Dhobley. Para
onde quer que se olhasse, via-se gente. Havia uma famlia acocorada
debaixo de cada espinheiro, a maioria em esteiras, algumas diretamente
na areia branca. s vezes tinham barracas, mas essas eram ainda mais
miserveis e decrpitas do que as mais prximas da fronteira; todas
feitas de pano, galhos e farrapos.
       Ao sair do veculo, demos com dois sujeitos disputando uma lata
de gua. Um deles se encolerizou de vez e sacou a arma; meu corao
quase parou. Num instante, todos os homens estavam empunhando
pistolas ou fuzis. Avistei uma srie de cartuchos usados no cho, semi-
enterrados na areia. Trs ou quatro ancios se aproximaram do
valento, abriram os braos e disseram: "Pode ficar com a gua.  toda
sua -- v", e lhe entregaram a lata. Ele se sentou no cho e, pondo as
mos na cabea, comeou a chorar. Estava esfarrapado; os dedos a lhe
sarem dos sapatos rotos; uma verdadeira runa.




       Esta  a carta que enviei ao meu pai depois de reunio do
Tolka(conselho dos ancies) em Hasna, passados uns dias, ele me devolveu a
carta acompanhada de uma dura resposta escrita em vermelho.
                          Embora no saiba quando foi tirada, adoro esta
                  fotografia do meu pai. Quanta determinao em seu olhar!
                  Ainda hoje a levo comigo na carteira.




       Meu pai me mandou acompanhar Osman ao aeroporto. Fazia apenas
quinze dias que eu o conhecera. O homem  esquerda  um amigo dele que nos
serviu de escolta. Lembro que me sentia perdida e atordoada. Todos os meus
sonhos de liberdade e amor me tinham sido arrebatados. Estava condenada a
um destino incontornvel, o de esposa subserviente de um desconhecido.
       Amigos tiraram esta foto, em 1993, em Veluwe, na Holanda. Na poca,
meu maior pesadelo era que minha famlia me visse assim. O cabelo to curto a
escandalizaria.




     Quando Haweya pediu que enviasse
     fotografias minhas em 1993, escolhi
    esse vestido solto, bordado, um
    thaub, e botei um vu para no
    contrariar minha famlia.
         Esta fotografia foi tirada quando Haweya trabalhava nas Naes
Unidas no Que nico lavrador de verdade, na foto,  o homem  direita. Acho
graa na cena. Haweya olha para o terreno como se esperasse que seu sorriso
fosse capaz de fazer o milho brotar por si so exatamente como costumava olhar
para os pratos sujos l em casa, nas esperana de que eles se limpassem
miraculosamente.




        Acho que nesta foto estvamos no escritrio do centro de refugiados.
Deve ter sido no outono de 1994, Haweya chegara em janeiro desse ano. Ainda
hoje consigo ver a tristeza no seu olhar.
       Esta  a fotografia de Mahad que Haweya levou para mim. Foi tirada
em Nairbi em 1992. O prdio atrs deles  um marco nacional no Qunia; e, ao
lado, v-se a formidvel esttua do presidente Jomo Kenyatta, que tambm
empresta o nome ao edifcio. No sei quem  o homem  direita.
         Esta foi a primeira vez que tirei frias na vida. Em 1994, Ellen e eu
passamos trs dias em Londres: a viagem foi divertidssima, se bem que um
tanto catica. Percebemos que tnhamos esquecido de anotar o nome do hotel e
passamos horas perdidas na cidade. Como eu era criana na poca.




         Esta fotografia foi tirada em 1996, quando conheci os pais de Mirjam. O
pai dela tinha uma coleo de chapus, e ns os provamos. Fiquei com o quepe
de policial.
        Esta  uma foto de junho de 2000, quando fui visitar meu pai na casa
da minha prima Sadiyo, em Dsseldorf. Acusavam-me de ter sucumbido ao
imperialismo cultural ocidental tanto nas idias quanto na escolha da
indumentria. Eu retrucava que usar vu e turbante era sucumbir ao
imperialismo cultural rabe. Sadiyo correu para o quarto e voltou com essa
roupa somali clssica, o guntina (nove metros de pano enrolados no corpo) que
vesti para mostrar por que os somalis nunca poderiam levar a cabo o
imperialismo cultural!
       Os velhos tentaram desarm-lo, mas no conseguiram. Deram
uma nova lata de gua ao outro homem. Queriam muito que se
mantivesse a calma -- todos tinham se transformado em especialistas
em preveno de conflito. Eu me acerquei de Mahamuud e cochichei:
"Essa gente  perigosa". Ele me olhou e disse: "So perigosos, sim.
Esto com fome e sede. Andaram muito. No tm mais nada a perder.
Sentem que j esto mortos".
       Mahamuud estava coberto de razo. Aqueles pobres diabos
pareciam fantasmas. Eram magrrimos. Fazia semanas que estavam
fugindo de casa e tinham perdido tudo no caminho. Os bebs morriam;
viam-se crianas inertes nos braos de quase todas as mes. Sempre
atacados por bandidos, passaram por todo tipo de frente de batalha.
Era desnorteador olhar para os olhos daquela gente. Pareciam estar
chegando de uma visita ao inferno.
       Eu me senti impotente. Estava l para ajudar um homem a
encontrar a sua famlia, e eis que me via cercada de um mar de
desesperados. Entre eles, destacava-me como a nica com aparncia
descansada e alimentada. Era quase como se fosse a ltima esperana
de cada mulher, de cada famlia, debaixo de cada rvore. Muitos se
aproximaram, suplicantes: "D para voc falar com os guardas da
fronteira? Me leva para l? Tenho famlia". E eu era obrigada a
responder: "No.  impossvel, no posso fazer nada". Estava l com
Mahamuud, e ele s tinha um objetivo: encontrar a famlia.
       Prosseguimos, perguntando a cada um se tinha visto uma
mulher chamada Si'eedo Mahmuld Osman Yusuf Kenaidiid; Mahamuud
era casado com a prima, de modo que os dois tinham os mesmos nomes
avoengos. Inevitavelmente, as pessoas que encontrvamos queriam
saber o nosso nome, e era natural responder com a verso mais
extensa: "Sou Ayaan Hirsi Magan Isse". Era como uma multitudinria
reunio clnica: a genealogia fazia as vezes de carteira de identidade.
       Algum disse: "L, debaixo daquela rvore, h alguns jama
magan". Fui na direo apontada e os vi: Ainanshie e Aflao, e Amran e
Idil, de Mogadscio. Na ltima vez que os vira -- no dia da partida,
menos de trs semanas antes -- eles eram ricos, tinham pernas e
braos gordos, fortes. Agora estavam reduzidos a figuras esqulidas,
com a roupa sobrando no corpo esqueltico. Embora as suas feies me
fossem conhecidas, j no eram das mesmas pessoas. Tinham
emagrecido muito. Com eles se achava Abdiwahab, outro primo meu de
segundo grau que trabalhava no caf de Aflao. Abdiwahab, antes to
gordo e sobretudo to alto, convertera-se numa caveira, e parecia mais
alto ainda. De olhos desorbitados e bochechas chupadas, era pele e
osso, nada mais. Foi como olhar para um zumbi.
       Eles me abraaram, e eu comecei a chorar -- todos choramos --,
e as duas moas me imploraram: "Por favor, no nos largue aqui, leve-
nos com voc", e eu sabia que no podia fazer nada. No tinha dinheiro.
O de Mahamuud mal bastava para salvar sua prpria famlia. Eu
prometera ao oficial da fronteira voltar s com uma mulher, e ainda no
a havia encontrado. A nica coisa que pude dizer foi que, assim que
chegasse a Nairbi, tentaria arrecadar dinheiro para que Mahad
voltasse  fronteira e desse um jeito de tir-los de l.
       Choraram desesperadamente. Amran e Idil tinham apenas
dezessete e dezoito anos. Disseram: "Voc veio com esse homem para
salvar a famlia dele, mas somos a sua famlia, e voc no quer nos
salvar -- pensamos que tivesse vindo nos buscar". Estavam histricas.
Antigamente Haweya chamava Amran e Idil de "barricas", to gordas
eram; agora estavam subnutridas, assustadas e desinquietas.
       A mulher de Aflao abortara um beb na estrada, e Ainanshie
tivera que largar a esposa e o filho de colo em Mogadscio, pois ela era
hawiye, do cl inimigo, e arriscava ser linchada no caminho pelos
refugiados darod. Ainanshie me contou que combatera os hawiye com
os darod de Mogadscio e tinha matado alguns. Achava bom fazer tal
coisa, vingar-se da carnificina. "Apareceu um sujeito com uma faca. Eu
o baleei e lhe cortei a garganta de orelha a orelha" sorriu ele com
satisfao. Comecei a tremer -- aquilo era simplesmente impossvel,
uma alucinao de horror. Lembro-me de ter pensado: "Isto aqui  o
inferno, o primeiro porto do inferno".
          Mahamuud me pressionou para seguir adiante, queria localizar
a famlia antes do anoitecer. Prometi voltar quando estivesse a caminho
da fronteira e, com muita dor, despedi-me de Ainanshie e sua famlia.
Continuamos      andando,    detendo-nos   a   cada   rvore   para   pedir
informaes. Debaixo das mais altas ficavam as famlias com homens
armados. As mulheres sozinhas tentavam abrigar os filhos sob arbustos
pouco maiores do que uma moita. Mahamuud encontrou conhecidos --
parceiros de negcios, vizinhos -- e todos diziam: "Mais adiante, mais
adiante. Esto l embaixo".
          Ele avistou Fadumo, a esposa de seu irmo mais velho, Ma-
hamed, a qual tambm era irm da mulher de Mahamuud. Ela o
agarrou e no o soltou mais. Seu marido veio correndo, descalo.
Conservava o bigode e as sobrancelhas cerdosas, mas o que restava
dele tinha afundado nas depresses do esqueleto. Parecia um cadver
correndo. Mahamed e Fadumo estavam com os quatro filhos, que
olharam para mim como se eu fosse um anjo descendo do cu.
          Mahamed nos informou que a esposa de Mahamuud estava ali
perto e que os seus filhos iam bem. Segurou o brao do irmo, e
comeamos a caminhar. Vendo-o de longe, a mulher de Mahamuud se
precipitou ao seu encontro. E, atirando-se nos seus braos, comeou a
chorar.
          Foi a primeira vez em que vi um casal somali demonstrar afeto.
Ficaram agarrados, um acariciando a face do outro, ambos chorando e
sem se soltar. Os filhos chegaram atropeladamente e abraaram os dois
-- foi um momento muito ntimo de pura alegria e lgrimas, e Mahamed
e eu desviamos o olhar em sinal de respeito.
          Ainda suspirando nos braos de Mahamuud, sua mulher,
Si'eedo, nos levou para a rvore sob a qual estava acampada. L se
achava a irm mais nova de Mahamuud, Marian, com um casal de
filhos. Sua menina de trs anos era a criana mais linda que eu tinha
visto. Mas, quando olhei para o beb, tive a impresso de que no era
um beb -- apenas uma minscula e enrugadssima forma humana,
recm-nascida, agarrada ao seio seco da me faminta. Uma criancinha
desnutrida, de propores fsicas horripilantes, a cabea maior do que o
resto do corpo. A coisa mais feia do mundo. Ao mesmo tempo, vi nela
um sbito mpeto de vida. Uma vida em extino, mas ainda presente.
Disse a Marian: "A gente precisa salvar esse beb. Est vivo -- temos de
lev-lo para o outro lado da fronteira". Ela me encarou: "Al me deu este
filho e, se quiser, Al o tomar de volta". Era uma adepta convicta da
Fraternidade Muulmana e, portanto, sumamente passiva. Sentia-se
testada por Deus; tinha que aceitar a morte do filho se essa fosse a Sua
vontade. Denotar sofrimento ou desespero era fracassar na prova da f.
Alis, todo mundo parecia esperar com toda pacincia que o beb
morresse no seu colo. E por que no? Afinal de contas, muitos outros
estavam morrendo. O filho caula da Mahamuud, de mais ou menos
um ano e meio, tambm adoecera, tinha a bundinha flcida e enrugada
de desidratao.
       Eu disse: "A gente precisa partir amanh.  preciso salvar esse
beb". Todos me acharam sentimental, exausta talvez, e reprovaram a
minha maneira de lidar com a morte e o horror que nos rodeava. Talvez
tivessem razo. Aquela criana no podia sobreviver. Esquentamos
gua para o ch, ento esfriei um tanto e entreguei um copo a Marian
para que desse ao filho. Quando ela o aproximou, o beb comeou a
mover os lbios.
       Naquela noite, dormimos em esteiras e panos finos estendidos
na areia branca, um bem perto do outro. Si'eedo preparou um ralo
mingau de sorgo com gua suja. No continha nenhum nutriente, nem
mesmo sal. Depois, envoltas nos vus, dormimos no mesmo lugar em
que havamos comido. Foi estranhamente confortvel; a areia era
macia, e o vento tinha o cheiro de Mogadscio. Mas todos estavam com
sarna e piolhos e me avisaram que eu podia me contagiar. Enquanto os
piolhos passeavam visivelmente no pescoo das crianas, l estava eu
munida de escova e pasta de dentes, com uma muda de roupa de baixo
e outra de roupa limpa na sacolinha. Era surreal.
       No dia seguinte, enquanto o pessoal pegava suas coisas, resolvi
ir at a rvore sob a qual Aflao, Ainanshie e seus familiares estavam
acampados. No caminho, muitos quiseram saber quem eu era. "Sou
filha de Hirsi Magan", respondi. Ento algum perguntou: "De que
esposa?".
       "Da esposa dhulbahante, Asha Artan." Indicaram-me uma
rvore, junto  qual encontrei uma prima que eu no conhecia: Zainab
Muhammad Artan, a meia-irm de Mahmud, com quem, trs meses
antes, eu casara secretamente em Mogadscio. Tive um sobressalto ao
saber quem era. Aquela vida parecia a anos-luz de distncia.
       Zainab contou que viajara de Mogadscio a Kismayo pela estrada
costeira. Quando os soldados hawiye atacaram Kismayo, ela e o marido
fugiram, apavorados, tendo que levar consigo os filhos de outra mulher
-- dois meninos que estavam brincando com os filhos de Zainab quando
os soldados chegaram, e de cujo paradeiro os pais no tinham a menor
idia agora.
       Ela apontou para eles. Eu os reconheci. Eram Ahmed e Ai-
darus, os dois filhos menores da irm caula da minha me. Tinham
mais ou menos cinco e sete anos. Um deles chegou correndo e me
agarrou a mo direita, o outro, a esquerda, e os dois ficaram olhando
para mim. No pediram nada -- no foi necessrio. Eu precisava lev-
los. Aquelas crianas eram minhas -- minha responsabilidade.
       Levei-as a Mahamuud e contei a histria; ele se limitou a
balanar a cabea. Tambm sabia que era impossvel abandon-los.
       Precisvamos retornar  fronteira queniana o mais depressa
possvel, antes que o oficial Mwaura se esquecesse de ns. Olhamos ao
nosso redor. Prometramos voltar com uma mulher e quatro crianas
pequenas, mas agora levvamos tambm o irmo de Mahamuud e sua
famlia, a irm com dois filhos e ainda meus dois priminhos.  parte
isso, ambas as esposas traziam jovens parentes consigo. De modo que
estvamos acompanhados de um homem, quatro mulheres e doze
crianas. Em vez de um grupo de sete, ramos nada menos do que uma
penca de vinte.
       Decidimos tentar passar juntos, muito embora soubssemos que
o dinheiro dificilmente daria para que todos entrassem no Qunia.
Mahamuud pagou para que a caminhonete nos transportasse a todos
at o estacionamento perto da fronteira. Isso acabou com todo seu
dinheiro somali. Agora s lhe restavam os dlares, e, se os mostrasse
ali, com tanta gente armada por perto, arriscava ser morto. A picape
nos deixou numa terra de ningum entre os dois pases. Havia uma
multido enorme entre ns e a margem do rio em que o Alto
Comissariado das Naes Unidas para Refugiados (ACNUR) montara
sua barraca, muito mais gente do que no dia anterior. Ns nos
instalamos ao sol, e Mahamuud foi fazer os trmites.
       Era tarde quando ele voltou. Chegou carregado por quatro
homens que o jogaram na areia junto  nossa esteira. Tinha sido picado
por um escorpio e estava quase paralisado de dor. Ns o acomodamos
em um guntino e tentamos lhe oferecer um mnimo de conforto; no se
podia fazer mais nada. Ele estava com a perna inchada e preta.
       Agora cabia a mim entrar no Qunia, conversar com os guardas
fronteirios e tentar arranjar um pouco de comida para todos enquanto
aguardvamos, do lado somali da fronteira, que Mahamuud se
recuperasse a ponto de poder caminhar. Se morresse, o que seria
perfeitamente possvel em caso de picada de escorpio, a nossa situao
ficaria ainda mais desesperadora.
       Graas  minha carteira de identidade, os guardas me deixaram
entrar em Liboye, onde consegui comprar leite; vov dizia que leite de
camela neutraliza o veneno do escorpio, mas s encontrei leite de vaca.
Na volta, guardei um pouco para o bebezinho, ainda que os outros
afirmassem que era um desperdcio, e tambm ofereci um pouco a
Marian para que recuperasse o seu prprio leite. Mas, quando lhe
propus que desse nome ao beb, ela se recusou; no queria se apegar 
criana porque j estava preparada para a sua morte.
       Passamos quatro dias esperando naquela zona sem sombra e
repleta de tendas de lona. Mahamuud ficou com febre. Quando chovia,
pegvamos gua em um buraco verdolengo de algas. Misturvamos
farinha de milho com a gua e dvamos um pouco ao beb.
         As crianas choravam o tempo todo, num lamento constante.
Meu primo mais novo apresentava uma espcie de infeco respiratria.
Todos estavam com diarria. O beb era to pequeno, magro e
vulnervel que eu tinha medo de carreg-lo. Marian o mantinha
apertado ao peito, envolto em um pano.
         A ONU comeou a distribuir comida; entregavam as raes
somente s pessoas que se declaravam chefes de cl, e estes as
distribuam entre os prprios familiares ou as vendiam. S quem estava
registrado na barraca principal recebia alimento, mas, para tanto, era
preciso enfrentar uma fila de centenas de pessoas. Havia um tanque,
mas no conseguamos nos aproximar dele: sendo a gua o bem mais
escasso de todos, as brigas por ela eram constantes. As pessoas
morriam  nossa volta. A ONU contratou policiais somalis e quenianos
para ajudar a sepultar os cadveres.
         O lugar estava infestado de escorpies e cobras, havia todo tipo
de   rpteis,   e   eu   no   sabia   qual   deles   era   perigoso.   Tentava
desesperadamente recordar as lies da minha av, ao mesmo tempo
que procurava pensar no que fazer para nos conservarmos vivos. Todos
os demais se mostravam bastante passivos; como se estivessem
entorpecidos, apenas aguardando a morte. Em toda parte, os flagelados
me olhavam como se eu pudesse salv-los. Nos meus sapatos, na
minha escova de dentes, nas idas e vindas da fronteira para comprar
farinha de milho e bananas, eu parecia uma emissria do outro mundo:
do mundo da vida normal que provavelmente ainda existia em algum
lugar.
         Certa manh em que fui buscar gua com um bando de
mulheres, comentaram que uma delas havia sido assaltada durante a
noite. Alm de ter chegado sozinha, sem homem que a protegesse,
pertencia a um subcl pequeno. Os soldados quenianos a arrebataram
do abrigo, de madrugada, e a estupraram.
       Fui visit-la na minscula cabana de trapo que ela tinha feito.
Encontrei-a reduzida a uma enorme chaga: o rosto inchado e coberto de
sangue seco, a roupa toda rasgada, feias marcas nas pernas. Tremia
incontrolavelmente. Eu a toquei e perguntei se podia ajud-la, mas ela
no respondeu. S dizia YaAllah, YaAllah, "Al tenha piedade de mim".
       Fui buscar mais um pouco de gua para ela, e todas as pessoas
prximas me disseram: "No convm ser vista com essa mulher. Ela 
impura. Vo comear a dizer que voc tambm ". A nica coisa que eu
conseguia ver era um ser humano que tinha sido vtima de violncia e
estava  beira da morte, mas, para aquela gente, ela no passava de
uma pria.
       Eu sabia que a coitada no tardaria a morrer. Fui at a barraca
do ACNUR, encontrei uma funcionria cingalesa e lhe contei, em ingls,
a respeito da mulher sozinha que fora estuprada. Expliquei que os
somalis iam deix-la morrer. Ela foi at l com alguns policiais e a levou
embora. Relatei o episdio a Mahamed e aos outros, e eles disseram:
"Claro que a culpa no  da mulher, mas sabe como , h tantos
problemas, voc no pode salvar todo mundo". Sim, eu sabia disso, mas
no custava nada termos ao menos um pouco de cuidado com os
outros. Dois dias depois, falou-se em um novo caso de estupro. Aquilo
comeou a acontecer com muita freqncia: os soldados quenianos
chegavam de madrugada e violentavam as somalis que estavam
sozinhas,    sem   protetor.   E   todas   essas   mulheres    acabavam
marginalizadas e abandonadas at morrer.
       Era isso que a minha av queria dizer quando me advertia que
uma somali sozinha era como um pedao de banha de carneiro ao sol.
As formigas e os insetos caam em cima dela, e ela no tinha aonde ir
ou onde se esconder; era devorada e derretida at que no sobrasse
mais do que uma manchinha de gordura. E vov tambm explicava que,
se tal coisa me acontecesse, a culpa seria exclusivamente minha.
       Era horrvel. Todos no acampamento se diziam maometanos,
mas ningum ajudava aquelas pobres vtimas em nome de Al. Todos
rezavam -- at mesmo a mulher naquela pocilga estava rezando --, mas
ningum era capaz de um mnimo de compaixo.
       A febre de Mahamuud j estava comeando a ceder quando
Mahad chegou quela terra de ningum, diretamente de Nairbi. Trazia
xelins quenianos; havia arrecadado dinheiro dos osman mahamud para
resgatar o mximo de pessoas possvel. Eu lhe pedi que fosse buscar
Aflao e a famlia de Ainanshie em Dhobley, e ele prometeu ir.
       Agora o meu irmo agia como o prprio comandante-chefe, se
bem que a mim me parecia que tinha chegado depois da batalha.
Manifestou em voz alta a sua preocupao com o meu bem-estar
naquele lugar horrvel. Mandou-me voltar imediatamente a Nairbi com
a esposa e os filhos de Mahamuud; disse que depois voltaria para
buscar a famlia de Mahamed e Marian com os dois filhos. Mas eu
conhecia Mahad: suas intenes nem sempre coincidiam com a
realidade. Por isso teimei em ficar. No podia largar aquelas duas
famlias e muito menos o bebezinho sem nome.
       Mahad foi a Dhobley. Passou duas noites l. Dois dias depois do
seu retorno com Ainanshie, Aflao e os demais, Mahamuud finalmente se
levantou. A febre tinha passado. Todos estavam vivos, at mesmo o
beb. O dinheiro reservado para as propinas e o transporte diminura
muito  medida que eu comprara mantimentos na aldeia queniana da
fronteira, e as pessoas acampadas perto de ns j comeavam a lanar
olhares cpidos ao nosso estoque. Agora que Mahamuud tinha
condies de se locomover, estava na hora de atravessar a fronteira.
       ramos Mahad e eu, Mahamuud e a famlia, a famlia de
Mahamed, a de Aflao e Ainanshie, Marian com a menina e o beb e os
meus dois priminhos: quinze adultos e dezesseis crianas.
       Resolvemos nos separar. Mahad ficaria esperando mais um dia
com a famlia de Aflao e Ainanshie. Partimos imediatamente com
Mahamuud, dois homens, trs mulheres, as duas meninas que estavam
com elas e doze crianas pequenas.
       Primeiro precisvamos encontrar Mwaura e negociar. Fui com
Mahamuud pelo caminho de Liboye. Os soldados nos detinham e
interrogavam a toda hora, eu respondia em suali. Por fim, localizamos
Mwaura num terreno baldio em que se aglomeravam centenas de
refugiados, que tentavam negociar com os proprietrios quenianos de
caminhonetes e nibus. Mwaura olhou para mim e disse: "Ah, a
mocinha que fala suali". Mostrou-se mais simptico dessa vez. Eu lhe
dei vrias notas extras de mil xelins para que deixasse todos passarem.
Foi uma transao fcil, de adulto para adulto, olhos nos olhos. Ele no
era um mau sujeito, e mais tarde descobri que havia lhe dado dinheiro
demais. Por muito menos Mahad fez a mesmssima viagem depois de
ns.
       Entretanto, Mahamuud levou vrios dias negociando o nosso
transporte. Fez diversas vezes o penoso caminho de volta ao lado somali
da fronteira, onde estvamos esperando, para dizer: "Amanh, quem
sabe". Ocorre que ramos muitos; e os preos, exorbitantes. Todos os
somalis que ainda tinham dinheiro, como ns, procuravam subornar a
polcia e oferecer altas quantias a quem se dispusesse a lev-los para
mais perto de Nairbi. Enfim, Mahamuud anunciou que havia fechado
negcio. Encontrara um motorista de nibus disposto a nos levar --
mas concordou em lhe dar quase todo dinheiro que restava.
       O nibus nos deixou em um lugar no sop do Garissa, onde
passamos a noite. No dia seguinte, tomamos outro nibus para Garissa
e depois outro at Nairbi. A essa altura, as crianas j nem choravam;
estavam quase inertes.
       Chegamos  casa de mame s dez e meia de uma manh do fim
de fevereiro de 1992. Eu tinha passado trs semanas fora. Ela estava
aflitssima por nossa causa -- tambm parecia mais magra e muito
abatida. Ficou estupefata ao ver o meu estado: imunda, infestada de
piolhos e acompanhada de uma multido famlica.
       Comemos e bebemos gua limpa; mas, antes de nos lavarmos,
coloquei Marian num txi e mandei o motorista nos levar ao Hospital
Nairbi. No tnhamos mais dinheiro, e eu sabia que o Hospital Nairbi
era carssimo; tinha sido operada l na ocasio em que o maalim tinha
me quebrado a cabea. Mas tambm sabia que eles primeiro nos
atenderiam, s depois apresentariam a conta. Salvar a vida do beb era
s o que me interessava.
       Aproximando-me do balco de recepo, anunciei: "O meu filho
est morrendo", e a enfermeira arregalou os olhos, horrorizada. Pegou-
o, aplicou soro no seu bracinho, e muito devagar, muito mesmo, aquele
corpo minsculo comeou a se desenrugar ligeiramente. Depois de
algum tempo, o menino abriu os olhos.
       A enfermeira disse: "Ele vai viver", e nos mandou fazer o
pagamento no balco da caixa. Pedi para falar com o diretor e contei
toda a histria. Confessei que no tinha um tosto. Ele, um mdico
indiano de meia-idade, pegou a conta e a rasgou. Disse que no
importava. A seguir, explicou-me como cuidar do beb e onde obter sais
reidratantes. E voltamos de txi para casa.
       Mame pagou a corrida e olhou para mim com respeito.
"Parabns", disse. Um raro elogio.
       Nos dias subseqentes, a criana comeou a engordar, aquela
enrugada imagem de filme de terror se transformou em um beb de
verdade, esperto, cheio de vida. Uma noite, no jantar, eu disse: "Agora a
gente precisa dar nome a esse menino". Ele j devia estar com um ms
e meio. Bem nesse momento, bateram na porta e mais um refugiado
entrou, o irmo caula de Osman, Mahamuud e Mahamed, Abbas
Abdihalin, de dezoito anos. "Dem o meu nome a ele, o nome do grande
Abbas!" gracejou o rapaz. E foi esse o nome que puseram no beb,
Abbas. Hoje em dia, ele deve ser adolescente.
       O pequeno Abbas era o queridinho de todos. Um menino sem pai
e sem futuro -- um menino que podia ter morrido facilmente, mas que,
pela graa de Al... --, ele era uma jia, adorvel e cheio de vida,
acalentado e mimado por todos ns. A casa estava lotada e no havia
quem no comemorasse o mero fato de estar vivo. Os dois primos que
eu trouxera comigo viraram filhos da minha me, que os tratava na
palma das mos e lhes preparava refeies especiais. Ela passou algum
tempo estranhamente feliz com aquela tribo enorme  sua volta. Chegou
o ramad -- o ms da famlia --, e o nosso apartamento era como uma
reunio clnica dos osman mahamud.
       Comearam a nos enviar dinheiro do exterior. Somalis do mundo
inteiro, do Canad, da Europa, faziam transferncias pelo hawala. O
sistema hawala  um timo exemplo da engenhosidade somali. Voc
visita um homem em Toronto, Estocolmo ou Kuala Lumpur. Entrega-
lhe dinheiro. Ele telefona para uma mercearia de um bairro somali de
Nairbi, Birmingham ou qualquer outro lugar, e d um jeito para que o
seu amigo receba a quantia. Paga-se uma comisso, mas no h
nenhuma burocracia. O processo consiste em alguns telefonemas e
dura um ou dois dias; baseia-se inteiramente na confiana interna do
cl ou da Fraternidade Muulmana, que administram o sistema mais
barato e confivel do mundo. O mesmo acontecia com todas as famlias
somalis que acolhiam refugiados no Qunia: quem mandava dinheiro
eram os cls.
       Contudo, ainda que no faltasse dinheiro para comer, o
apartamento tinha se transformado em um hospcio. S o barulho j
enlouquecia. Era quase impossvel manter a ordem com os homens o
dia todo fora de casa. A sarna e os piolhos tambm nos faziam perder a
cabea -- principalmente a sarna. Compramos uma caixa inteira de
loo na clnica, mas o remdio s tinha efeito se todos o usassem ao
mesmo tempo e lavassem tudo; no nosso apartamento, as pessoas
sempre se esqueciam, ou simplesmente no se importavam, e no
paravam de chegar novos refugiados. Houve um perodo em que havia
trinta e cinco ou quarenta pessoas l em casa. Voltvamos a nos
contagiar permanentemente; era uma praga.
       Uma tarde, Mahad chegou com dois hawiye amigos dele de
Mogadscio, que no tinham onde ficar. No podia deix-los na rua em
Nairbi, mas nosso apartamento estava repleto de darod -- apinhado de
homens que no faziam seno amaldioar dia e noite os carniceiros
hawiye. Mahad entrou, parou na soleira da porta e, muito emproado,
apresentou os dois recm-chegados. Explicou que eles no tinham
aonde ir e que, pessoalmente, nunca fizeram nada de mal e, dirigindo-
se a todos, disse: "Aqui ningum vai falar mal dos hawiye". O choque
nos deixou petrificados, mas ningum se atreveu a desobedecer. Eles
ficaram uma semana l em casa.
       Certa manh de maro, recebi uma carta em ingls. Era de uma
finlandesa dizendo que estava apaixonada por Mahmud Muhammad
Artan. Vinha anexada uma fotografia dos dois. Alto e bonito, de camisa
branca, ele estava abraando uma mulher muito loira diante do azul do
mar. A finlandesa dizia ainda que Mahmud tinha uma fotografia minha
e dele, emoldurada, mas jurava que ramos primos. Era verdade que eu
no passava de uma prima?, perguntava.  que a tal finlandesa tinha
planos de casar com Mahmud.
       Aquilo foi uma ddiva do cu. Eu quase tinha esquecido aquele
homem, e eis que agora surgia uma finlandesa disposta a me livrar
dele. Escrevi uma resposta educadssima. Claro que eu era prima de
Mahmud e claro que no podia ser sua esposa: seria incesto. Caso ele
tivesse dado a entender, fosse como fosse, que ramos casados, s
podia ser brincadeira. Dobrei a carta e a fotografia, sentindo-me muito
adulta por saber resolver to bem meus problemas pessoais.


       9. Abeh


       Em abril de 1991, meu pai chegou a Nairbi. Uma noite, logo
aps   a   ceia   do   ramad,   os   irmos   Abdihalin   irromperam   no
apartamento com a notcia. Contaram que, na casa de Farah Gour,
tinham ouvido falar que nosso pai desembarcara em Nairbi. Eu me
levantei de um salto e, gritando de entusiasmo, comecei a danar ali
mesmo. Haweya tambm se alegrou. Mahad ficou um tanto calado, e
minha me se mostrou admirada com a nossa enorme capacidade de
perdoar.
       Eu disse: "Mame, vou procurar abeh e traz-lo para c". Ela
respondeu: "Nada disso. Aqui eles no podem ficar". Mas repliquei:
"Depois a gente conversa sobre isso", completamente alheia s suas
emoes. Ela no fez cena porque no podia. No era permitido  me
separar os filhos do pai: pertencamos a ele.
       Haweya e eu nos envolvemos em vus e fomos  casa de Farah
Gour, que estava lotada de refugiados: gente dormindo em todos os
andares. Percorremos todos os cmodos at encontrar Fadumo. "Onde
ele est?", perguntamos. Ela abriu um sorriso luminoso. Sim, abeh
estava em Nairbi, disse. Naquele momento, todos tinham ido fazer o
Taraweh na mesquita. Iam voltar tarde. Ainda que com lgrimas nos
olhos, feliz por ns, Fadumo tentou nos fazer entender que todo mundo
estava  espera de uma oportunidade de conversar com nosso pai. Ele
chegara no dia anterior, e toda aquela gente o aguardava. No entanto,
tnhamos todo o direito -- o mais importante dos direitos.
       Ficamos esperando at quase meia-noite, ento a porta se abriu
repentinamente, emoldurando a figura de abeh. Corremos e nos
atiramos nos seus braos, exatamente como fazamos anos antes, em
Meca, quando ele chegava, muito embora agora fssemos duas vezes
mais altas. Ns o obrigamos a se sentar no cho, e ele no cessava de
rir e gritar "Minhas filhas, minhas filhas, minhas meninas!" e de nos
abraar. Olhou para ns: "Vocs cresceram muito, mas continuam
exatamente com a mesma carinha". No havia muito afeto no seu olhar.
       Fadumo nos convidou a ficar na sala de visitas, mas queramos
era levar papai para casa. Ele se levantou, sorriu e lhe disse: "H tempo
de partir e tempo de ficar: este no  o tempo de ficar". Estava mais
grisalho, tinha envelhecido, mas continuava exatamente a mesma
pessoa. At o seu cheiro era o mesmo; reclinei a cabea em seu pescoo
e fiquei cafungando at que ele tirasse o turbante e o desse para mim.
Estvamos felizes, todos os presentes sorriam, radiantes -- em meio a
tanto assassinato, carnificina, refugiados, doenas e perdas, ainda
restava alegria. Eles ficaram contentes por ns. Disseram: "V com as
meninas, v". Empurramos abeh ipara fora, e algum se prontificou a
nos levar para casa.
       Demos com mame e Mahad na calada em frente ao prdio, na
escurido. Entendi que ela no queria receber papai na frente de toda
aquela gente; tinha passado horas na rua  nossa espera. Abeh saiu do
carro, abriu os braos e exclamou com voz sonora: "Ah, Asha!"; ela virou
o rosto e disse: "No". Ele a abraou assim mesmo, mas ela foi pura
rejeio, pura frieza.
       Ento Mahad o abraou -- uma saudao bem contida, alis --
e, enlaando o ombro de mame, levou-a para dentro.
       Haweya e eu os seguimos com papai, e, ao v-lo, todos no
apartamento comearam a gritar e a saud-lo e a contar histrias.
Mame se enfurnou na cozinha.
       Na primeira noite, abeh dormiu na sala com os outros homens.
Na manh seguinte, acordou s cinco e meia e, acendendo todas as
luzes, ps-se a entoar o chamado  orao, Allaahu Akbar, como na
mesquita. Os jovens no cho despertaram, sobressalta-dos. E todos se
levantaram, um tanto desconcertados, e foram se lavar e se preparar.
No quarto, mame nos acordou, dizendo: "Seu pai est chamando para
a orao". Toda casa comeou a rezar.
       Minha me indagou em voz alta se aquela gente estava orando
para agradar a Al ou a abeh, j que poucos se davam ao trabalho de
rezar antes da chegada dele. Mahad, Haweya e eu achamos graa nessa
custica observao, mas, mesmo assim, aquele foi um belo momento.
Todos o sentiram, ainda que estivessem morrendo de sono.
       No havia o que fizesse mame se enternecer com abeh. Toda
manh, ele a cumprimentava: "Dormiu bem, Asha?" E toda manh ela
lhe dava as costas. Nos seis meses que ele passou conosco, ela no lhe
dirigiu uma s vez a palavra ou o olhar. No entanto, diariamente me
acordava bem cedo e me mandava preparar um caf-da-manh especial
para o nosso pai, muito melhor do que o dos outros;  noite, antes de ir
para a cama, separava um prato, um copo, um garfo, uma colher e uma
faca para que, naquela cozinha atulhada, nunca faltasse uma prateleira
com loua e panelas reservadas para ele.
       Eu admirava muito a sua sensibilidade pelo cdigo de honra,
assim como a sua dignidade, mas no gostava do pouco-caso que fazia
de abeh, muito embora entendesse por qu. Ela tinha sido abandonada,
ficara sozinha com os filhos, precisara pedir esmola aos parentes dele;
apesar de tudo, fazia questo de que todos na casa respeitassem a
privacidade   e   a   necessidade   de   sossego   de   abeh;   adotava   o
comportamento mais adequado; mas se safava da situao, no dava o
brao a torcer, sumia.
       Esvaziei a despensa para que papai l se instalasse, uma sale-ta
com uma minscula janela no alto. Ele dormia em um colchonete no
cho, a roupa empilhada em uma cadeira de couro de vaca, o exemplar
do Alcoro e um abajur sem cpula para ler.
       Quando abeh estava presente, reinava uma atmosfera de ordem
na casa. As pessoas se mostravam mais dignas; sentavam-se com o
corpo aprumado e escutavam -- era ele quem falava. Antes da sua
chegada, os rapazes passavam tardes inteiras mascando qate jogando
baralho; tomavam o cuidado de sumir com os vestgios antes que
mame entrasse, mas no faziam nada alm disso. Agora o nosso
apartamento parecia um madraal. Estava limpssimo: os homens
passaram a dobrar a roupa e a tirar os sapatos  porta. A hora de
dormir mudou drasticamente: amos cedo para a cama e cedo
acordvamos. E orvamos.
       Abeh passava a maior parte do dia fora, na mesquita, em
reunies com os ancios, com os representantes dos cls, tentando
alinhavar algum tipo de acordo de paz. Continuava totalmente absorto
na sua viso de uma Somlia unificada, ideal, mas agora estava
convencido de que s o islamismo era capaz de unir os cls em guerra.
S a lei de Al podia pacificar a violncia que se desencadeara em todo
pas. Ele tinha desistido da democracia ao estilo americano.
       Papai me falou da sua filhinha em Adis Abeba. Chamava-se
Marian; ainda no sabia somali, mas ia aprender com ele. Sua nova
esposa s falava etope. No insistimos muito nesse assunto; era
indelicado conversar sobre uma mulher com a filha de outra. Mas abeh
se referia  filhinha deles com tanta meiguice que o perdoei.
       Terminado o ramad, as pessoas comearam a se dar conta de
que no podiam ficar no nosso apartamento at o fim dos tempos.
Passei a percorrer Eastleigh, com um ou outro homem,  cata de
proprietrios de imveis para alugar. Mahamuud no tardou a
encontrar apartamento para a famlia, para a de Mahamed e tambm
para Marian com os filhos. Alguns outros rapazes foram morar em uma
penso em Ngara Road.
          Mesmo assim, ainda ramos muitos. Minha vida se concentrava
em administrar os vrios problemas da nossa famlia subitamente
expandida: procurar apartamento, providenciar a ligao da gua ou da
luz, cuidar da transferncia de valores, servir de intrprete. Tambm me
incumbia      do    servio   domstico,   que   mame      considerava
responsabilidade minha por ser a filha mais velha; levava as crianas ao
mdico, ia pagar as contas. Ajudava a registrar as pessoas nos
programas de transferncia para outros pases, que estavam tirando os
refugiados cultos da Somlia. Levava-os  embaixada para obter
passaporte antes que o pouco que restava do aparelho de Estado somali
fosse abaixo e a diplomacia do pas acabasse de vez, deixando-os
encalhados para sempre.
          Muitas semanas depois, chegaram outros rapazes, amigos de
Mahad. Quanto mais homens havia, menos ajuda recebiam as
mulheres nas tarefas domsticas, e Mahamuud, quando mudou, levou
consigo todas as que me auxiliavam. Ento, obrigada a fazer tudo
sozinha, protestei. Exigi que mame contratasse uma empregada
queniana para lavar a roupa e manter a casa limpa; naquelas
circunstncias, no se podia dizer que fosse um luxo.
          Ela no concordou. Eu a desafiei: "J que voc no quer
empregada, ponha a mo na massa e faa o servio". E fui dizer ao meu
pai que precisava de trezentos xelins por ms para pagar uma
domstica. Agora que ele estava no Qunia, no faltava dinheiro; abeh
pagava o aluguel. E no se ops  idia de uma empregada para me
ajudar.
          Mas, em poucas semanas, mame deu um jeito de se livrar da
moa. Mandou-a embora, alegando que ter empregada feria seus
princpios. Contestei que no podia fazer todo trabalho sozinha -- lavar
a roupa  mo, limpar, cozinhar. Ela no me ajudava. Mas, dessa vez,
recusei-me a lavar uma pea de roupa que fosse, e a insolncia me
valeu uma surra com o rolo de macarro.
       Minha me andava deprimida, voltara a ser amarga, insensata,
cada vez mais fechada em si mesma, e passou a bater em mim com
muita freqncia. Era grosseira; os refugiados iam embora por sua
causa. Sentia que tudo dava errado na sua vida; enquanto isso, no
mundo mais vasto, as pessoas se trucidavam feito animais.
       Embora tivesse voltado a Nairbi, no participei mais dos
debates da juventude islmica e preferi no entrar em contato com a
irm Aziza. A idia de que tudo ia ficar perfeitamente bem quando a
Casa do Isl estivesse concluda -- de que surgiria um belo califado, no
qual todos seriam compassivos, prestativos e viveriam conforme as
regras, no qual tudo funcionaria s mil maravilhas --, parecia-me
quase uma tolice. Quando meu pai nos fazia rezar, eu me limitava a
repetir os movimentos, pensando no caf-da-manh, no trabalho que
me aguardava e no dia seguinte.
       Alguns meses depois, Maryan Farah, a primeira esposa de abehy
chegou de Mogadscio com Arro e Ijaabo. No foi morar conosco; seria
pedir demais. Tinha parentes em Eastleigh e, no comeo, hospedou-se
l com as filhas. Mas a tal famlia de Eastleigh era pecadora demais
para Ijaabo, que no queria morar com gente que mascava qat e assistia
a filmes ocidentais. De modo que, embora Arro tenha continuado l, ela
no tardou a se mudar para a nossa casa, queria ficar com abeh. Afinal,
era pai dela tambm.
       Ijaabo contava histrias horrendas de Mogadscio. Tinha visto
ces comendo cadveres na rua, e o fedor que pairava no ar era
insuportvel. Ela mesma s estava viva porque sua av, a me de
Maryan, era de uma famlia hawiye da mesma linhagem que as foras
de ocupao. Mesmo sendo darod, Maryan no era esnobe e tratava
com respeito os parentes hawiye. Quando ocorreu o colapso, o lado
hawiye da famlia providenciou para que poupassem a sua casa, muito
embora o resto do bairro tivesse sofrido um banho de sangue.
       Quando Maryan e as filhas finalmente partiram, a populao da
cidade estava reduzida  metade: s ficaram os mais fracos e os hawiye.
Mogadscio se transformou em um lugar de assassinatos em massa,
contou-nos Ijaabo. No havia autoridade -- ningum era capaz de impor
nenhum tipo de ordem.
       Minha meia-irm estava mais magra e mais devota ainda. De
certo modo, eu a entendia. Para Ijaabo, a morte passou a ser uma coisa
muito real: qualquer um podia morrer a qualquer momento, e era
urgente estar preparada para prestar contas a Deus. Mas isso tambm
a levava a se comportar como uma espcie de rob, fustigando
constantemente os outros para que fossem mais observantes. Passadas
algumas semanas, aquilo se tornou sumamente irritante. Mais de uma
vez, Haweya a mandou parar de atorment-la. E Ijaabo se queixava com
voz estridente: "Sou sua irm e a amo tanto, no a mando rezar pelo
prazer de incomod-la, e sim porque quero que voc v para o cu. Al
disse, versculo tal, versculo qual, 'Lembrai-vos: aquele que no ora
ser carvo para o fogo".
       Uma    tarde,   pouco   tempo   depois   da   chegada   Ijaabo   ao
apartamento, uma moa chamada Fawzia bateu na porta  procura de
Abdellahi Yasin. Disse que no tinha onde ficar. Estava com o filho de
trs anos. O menino, embora filho de um osman mahamud conhecido
de Abdellahi, era um garac, ou seja, um bastardo nascido fora do
casamento. Fawzia estava sozinha e pediu muito a Abdellahi que
intercedesse para que a acolhssemos em casa.
       Ainda que muito constrangido, Abdellahi Yasin nos contou toda
a histria. Mame fez cara de nojo. Disse que no ia receber uma
prostituta em casa. Estremeci. Nada indicava que Fawzia fosse
prostituta. Tornei a ver a imagem daquela mulher no abrigo de trapos,
no acampamento. E disse a ela: "Se voc no a deixar ficar, quem vai
embora daqui sou eu".
       A luta foi prolongada, mas, graas ao apoio de Mahad e Haweya,
venci. Por fim, mame disse: "Est bem, essa mulher pode ficar, mas
no quero v-la". Consegui uma toalha e um lenol limpos -- artigos
raros l em casa --, e a pobre mulher e o filhinho acabaram passando
alguns meses conosco. Na poca, havia tanta gente no apartamento que
Haweya, Ijaabo e eu precisvamos dividir um colcho.
       Ijaabo, que via em Fawzia a prpria encarnao da libidinagem,
empreendeu imediatamente uma campanha para convenc-la a se
arrepender dos pecados e ingressar na Fraternidade Muulmana. Dizia:
"O nico modo de lavar a sua vergonha  orar, orar e orar, e entregar a
vida a Al, em busca do perdo". Uma noite em que ela estava afligindo
mais uma vez a pobre Fawzia, no agentei e a mandei calar a boca --
aquilo era extremamente irritante. Disse que o teste a que Al nos
submetia no era para saber se condenvamos uma mulher que
engravidou fora do casamento; o que Ele testava era a nossa
hospitalidade e caridade.
       Ijaabo citou o Alcoro pela sexcentsima vez naquele dia: "Ao
homem e  mulher que cometerem adultrio, aoitai cem vezes cada
qual". Retruquei: "Tudo bem, tome esta vara. J que no h lei islmica
no Qunia, voc se encarrega de aoit-la?". Meu pai, que estava
presente no momento, achou graa e me apoiou. Ijaabo ficou furiosa e
passou semanas imprecando.
       Mahad e Haweya sabiam que eu era a preferida de abeh, mas
tambm fazia tempo que sabiam que no valia a pena se queixar disso.
O cime era proibido.
       Todos os somalis rejeitavam Fawzia. Quando amos fazer
compras, ela era freqentemente molestada na rua. Os homens
passavam a mo nos seus seios e a olhavam com descarada lascvia.
Nenhum deles jamais se atreveria a me enderear um olhar daqueles:
eu era filha de Hirsi Magan. Mas Fawzia tinha fama de meretriz e no
contava com protetor no cl. Era uma caa.
       Estava habituada  violncia verbal e fsica. Condicionara-se a
acreditar que a merecia. Aconselhou-me a no fazer caso das
observaes de Ijaabo. Ao contrrio desta, Fawzia me auxiliava na
cozinha, na faxina e nas compras. Aps a orao do amanhecer, no
voltava para a cama como os demais, ajudava-me a preparar os
angellos do caf-da-manh de todos.
       Disse-me com todas as letras que vivia exclusivamente para o
filho, que tambm era uma caa. As outras crianas o tratavam como
um pria. Meus priminhos Aidarus e Ahmed no lhe davam trgua. E
minha famlia no movia uma palha para impedir os maus-tratos. Ele
era estigmatizado. Foi a primeira vez que vi um filho de me solteira.
       Na Somlia, a maioria das moas solteiras que engravidava se
suicidava. Eu sabia de uma garota de Mogadscio que vertera uma lata
de gasolina no corpo, na sala de estar, diante de toda famlia,
queimando-se viva. Evidentemente, se no tivesse feito isso, seu pai e
seus irmos se encarregariam de mat-la.
       Chegou da Sua uma carta para Fadumo, a mulher de
Mahamed Abdihalin. Sua irm, que morava l, fizera todos os trmites
para conseguir um visto para ela e os filhos. Bastava ir buscar os
documentos na embaixada sua e comprar as passagens. O plano era o
seguinte: Fadumo iria para a Europa com os filhos.
       Mas, em vez de se fixar na Sua, que raramente concedia asilo
aos somalis, ficaria na Holanda. Ao desembarcar, tinha orientao de
rasgar a passagem antes de sair do aeroporto e, a seguir, pedir asilo no
pas, no qual era muito mais fcil ser considerada refugiada e viver com
ajuda financeira do Estado.
       Mahamed continuaria em Nairbi; estava tentando abrir um
negcio. Se Fadumo recebesse asilo, tambm poderia ir para a Europa.
Para ele, mandar a esposa e os filhos  Holanda era uma espcie de
seguro: se as coisas no dessem certo em Nairbi, tinha a possibilidade
de se juntar a eles.
       Uma semana depois de partir, Fadumo escreveu que estava em
um campo de refugiados na Holanda. O nome do lugar no agradou
muito, campo de refugiados. Meses depois, Mahamuud tambm se foi;
mudou-se com Si'eedo para Abu Dabi, onde ia estabelecer um negcio.
Aquela gente havia perdido tudo -- os parentes, o patrimnio, a
empresa, a vida social, os planos futuros --, mas estava disposta a
comear de zero em um pas estrangeiro. Eu no via nenhuma fraude
nisso: admirava-lhes a flexibilidade.
       Alguns meses depois da chegada de Maryan Farah a Nairbi,
abeh resolveu casar com ela novamente. Ia sair do nosso apartamento
de Park Road para morar com Maryan, Ijaabo e Arro. Imagino que, ao
saber que mame no lhe dirigia a palavra, Maryan props a abeh que
fosse viver com ela; era muito melhor. Uma vez tomada a deciso, ele
reuniu Mahad, Haweya e eu, e nos contou tudo. Pediu a nossa bno,
a qual no negamos, se bem que tenhamos nos recusado a assistir 
cerimnia nupcial. Sei que Haweya e Mahad ficaram ressentidos com a
deciso, mas eu, embora no tivesse ficado exatamente contente, queria
ver abeh feliz.
       Eles alugaram uma casinha em Buruburu. Papai me disse que
eu podia ir visit-los quando quisesse. Chegou a me convidar a morar
com eles. Era absurdo, evidentemente. Eu nunca abandonaria a minha
me para viver com a outra mulher.
       Quando ele se foi, mame no expressou nenhuma emoo.
Limitou-se a dizer: "Bom, agora a despensa est vazia", e voltamos a
guardar tudo l. Por mais que ela se mostrasse fria e seca, eu sabia que
aquilo a estava matando por dentro -- tantos anos morando sozinha,
dormindo sozinha, o abandono emocional e, agora, a rejeio pblica.
       Ela se tornou mais hostil e passou a falar comigo da pior
maneira possvel. Comeou a me bater novamente. Acho que perdeu o
juzo em dado momento. Outrora, em den, tinha chegado a assumir o
controle da prpria vida, mas depois o perdeu; agora morava em um
pas onde no queria morar, no tinha mais nada de seu. Estava 
deriva. Creio que era isso que tanto a exasperava.
       Numa tarde de sexta-feira de janeiro, em 1992, meu pai foi
diretamente da mesquita ao nosso apartamento. Nunca fazia isso --
nunca nos visitava --, mas chegou radiante, empolgadssimo. "Ayaan,
minha filha, tenho uma tima notcia para voc -- a melhor de todas --,
Al ouviu as minhas oraes!", exclamou. "Hoje, na mesquita, um
homem abenoado me procurou com uma proposta de casamento, e lhe
ofereci a sua mo!"
        Lembro-me de t-lo deixado falar durante algum tempo, sentindo
os ps afundarem no cho. Temperei a garganta e disse no, mas ele
nem me ouviu. Insisti: "No vou casar com um desconhecido!" e o meu
pai,   efervescente   de   entusiasmo,   retrucou:   "Mas   no      um
desconhecido! No tem nada de desconhecido!  seu primo! Um osman
mahamud!" E enumerou todos os nomes do sujeito.
        Eu disse: "No digo desconhecido nesse sentido, abeK\ e ele
perguntou: "Em que sentido ento?". "Nunca vi a cara dele!", reclamei.
Meu pai disse: "No seja por isso -- voc vai ver a cara dele amanh".
        Papai havia me entregado a um homem chamado Osman
Moussa, um belo e jovem somali criado no Canad. Estava em Nairbi a
fim de resgatar os parentes vitimados pela guerra civil e tambm para
arranjar noiva. Achava as somalis do Canad muito ocidentalizadas, o
que significava que se vestiam de modo indecente, desobedeciam ao
marido e se misturavam livremente com homens; no eram baarri, o
que as tornava indignas do casamento. Por outro lado, com a guerra
civil, as filhas das melhores famlias estavam disponveis em troca de
quase nada.
        Abeh tinha conhecido aquele rapaz na mesquita, apenas duas
horas antes. Era alto, disse, de ossatura forte e dentes brancos, bem
nutrido do leite e da carne da Amrica do Norte. Osman Moussa
provavelmente o abordara. Posso imaginar a cena, o respeitoso desfiar
da genealogia e, enfim, o pedido: "O senhor tem filhas, e estou 
procura de noiva". Meu pai deve ter ficado contentssimo.
        Arro era mais velha do que eu, de modo que o certo seria
oferec-la. Mas no. Ele preferiu oferecer a mim quele bom partido;
Osman Moussa me aceitou, e os dois se puseram a desfilar na
mesquita, anunciando aos ancios dos outros cls aquela unio
maravilhosa, abenoada por Deus. No lhe passou pela cabea
perguntar a minha opinio.
       No se estabeleceu o preo da noiva. Devido  guerra civil, seria
uma indecncia falar nisso. Mas aquele era um casamento estratgico;
Osman Moussa poderia se gabar de ser casado com uma magan, e ns
agora amos ter parentes no Canad. Meu pai s podia ficar exultante
com tal unio.
       Enfeixei coragem para lhe dizer: "Abeh, e se eu j estiver com
outra pessoa?" mas ele nem chegou a me ouvir. Disse: "Al j nos
mandou a resposta". Estava satisfeitssimo com sua prpria astcia.
       Quando ele foi embora, ainda sem caber em si de contente, fui
falar com mame. Ela se limitou a dizer: "Ah, quer dizer que agora ele 
muito pai para assumir a responsabilidade do casamento das filhas?
Que timo, hein?". E nada mais.
       Fiquei apavorada, mas no chorei. Raramente chorava naquela
poca. Apenas via, e via clara e desapaixonadamente as grades se
fecharem ao meu redor.
       No dia seguinte, papai apareceu l em casa com Osman Moussa.
A sala estava limpa; e todos, entusiasmados. Menos eu. Pus uma roupa
normal: vestido solto e vu curto. No ia me emperiquitar para
semelhante ocasio.
       O sujeito entrou. Fez meno de me apertar a mo. Era bem alto
e trajava um jeans comprido; de cabea raspada e bon de beisebol,
parecia um jogador de basquete. Foi muito educado. Eu disse: "Ol,
entre. Sou Ayaan", sem o fitar nos olhos, e fui chamar a minha me. Ela
e papai ficaram conosco na sala -- ns duas sentadas na cama -- e o
sujeito comeou a falar do Canad, onde vivia desde menino, e dos
refugiados, e da guerra.
       No nos olhamos. Osman Moussa conversou com mame,
procurando agradar. Quando tinha oportunidade de erguer a vista, eu o
esquadrinhava -- seu modo de falar, seu rosto --, pensando: "Ser que
vou gostar desse homem?" Afinal, ia constituir um lar e uma existncia
com ele; cozinhar, parir seus filhos, satisfazer seus caprichos. E o que
sabia a seu respeito? Falava um somali tosco, semi-aprendido. Mas
parecia srio.
        Uma boa muulmana, crente e devota, teria pedido orientao,
sabedoria e fora a Al, mas no foi o que fiz. Sentia que cabia a mim
descobrir. E comecei a pensar na noite passada com Mahmud,
imaginando o tal Osman Moussa quela luz. Acaso eu queria ir para a
cama com ele? No podia pedir ajuda a Deus nessa matria.
        Kennedy era generoso e meigo. Havia uma liga entre ns:
compartilhvamos as coisas. Ele me via esfregando o cho e lavando
meias e, em qualquer situao, gostava de mim e me respeitava. Mesmo
com Abshir, rapaz to travado pelos seus regulamentos, havia atrao
entre ns. Mas o tal Osman Moussa era um ilustre desconhecido. No
me repugnava nem atraa. Causava-me indiferena, uma ausncia total
de sentimento. E tampouco dava sinal de ter um interesse especial por
mim.
        O casamento ficou marcado para o sbado seguinte, dali a seis
dias.
        Nosso segundo encontro foi mais ntimo. Osman Moussa chegou
com a irm, e pedi a Mahad e a Haweya que ficassem comigo para me
ajudar a avaliar aquele pretendente. Mame deixou os cinco jovens a
ss. Fiz perguntas sobre a orao; queria descobrir se ele era religioso.
Sentia que precisava tomar uma deciso rpida, muito embora me fosse
praticamente impossvel impedir que o acordo se consumasse. Osman
Moussa,    obviamente,    manifestou     simpatia   pela    Fraternidade
Muulmana, ainda que, a julgar pela sua roupa, no fosse um devoto
do quilate de Ijaabo; usava jeans e bon de beisebol. Mas, embora
parecesse menos vigoroso na devoo, aparentava ser mais empenhado
ainda do que Ijaabo em policiar a piedade alheia.
        Indaguei: "O que voc espera da sua esposa?" Mortificada, a
irm de Osman exclamou: "Se for para vocs discutirem isso,  melhor a
gente se retirar!" Mas o rapaz soltou uma gargalhada: "Quero  que voc
me d uns seis filhos. Vamos ser o lar de todos os osman mahamud". E,
tal como da outra vez, prosseguiu reiterando que as garotas somalis
criadas no Canad no passavam de meretrizes, consumiam lcool,
freqentavam discotecas, no se cobriam e dormiam com brancos.
Ningum as controlava; ele nunca escolheria uma delas para me dos
seus seis filhos. Para pari-los, aquele homem precisava de uma mulher
como eu, que se vestisse como eu, que fosse submissa, impecvel como
eu, alm de filha de um homem to devoto, o maravilhoso Hirsi Magan.
       Ns o interrogamos sutilmente acerca dos poemas picos
somalis que aprendemos com mame, alguns compostos pelo bisav do
irmo de Abdihalin, para a nossa eterna admirao. Osman no
conhecia nenhum. Pior ainda, em vez de admitir sua ignorncia, fingiu
dominar o assunto, coisa que o amesquinhou. Ns lhe propusemos as
antigas charadas de vov; ele no decifrou nenhuma.
       Passamos a falar ingls -- imaginando que o ingls daquele
sujeito fosse melhor que o seu somali arranhado --, e Haweya quis
saber que livros ele lia. "Bom, quer dizer", foi a resposta, "leio de tudo,
sabe?" Percebi que o seu ingls tambm no era grande coisa e que
Osman evidentemente no lia nada.
       Tomando coragem, pedi-lhe que tirasse o bon de beisebol, e ele
o tirou. Imaginei que pudesse me apaixonar pela sua cabeleira ou algo
assim. Mas, embora tivesse apenas vinte e sete anos, o coitado era to
careca quanto o traseiro do beb Abbas. Os somalis costumam associar
a calvcie  sabedoria, mas aquele rapaz no tinha nada que explicasse
a perda do cabelo em idade to precoce.
       Mahad trouxe  baila a poltica; na poca, s se falava na paz.
Ele perguntou: "O que voc pretende fazer quando voltarmos 
Somlia?" Osman Moussa respondeu: " claro que vou ter um cargo no
governo. Morei fora do pas e sou um osman mahamud. A nica soluo
para a Somlia so os osman mahamud. Temos experincia de
governo".
       Ficou patente para os trs que o cara no passava de um idiota.
Considerava os osman mahamud o prprio povo escolhido; era obtuso,
vulgar e sectrio, o consumado tipinho da Fraternidade Muulmana.
Lembro-me de ter pensado: "No, ser possvel que abeh seja capaz de
fazer isso comigo?"
       Quando Osman finalmente se foi, procurei reum. coragem para
tornar a coisa nas minhas prprias mos. Vesti casaco e tui a
Buruburu, onde morava o meu pai. Quando ele abriu a porta, eu disse:
"Osman Moussa esteve l em casa hoje Haweva, Mahad e eu o
testamos. Descobrimos que ele nao tem nada na cabea. Nao sabe se
expressar, nao tem coragem de ad mitir seus defeitos, e um sectrio''.
       Assim, de chore. Para que papai no desconsiderasse as minhas
palavras, como era seu costume. Fie me convidou a entrar, a sentar, e
pediu: "Agora fale .
       "Acho que esse homem e eu somos incompatveis.
       Ele abriu um sorriso. "Com base em uma tarde?"
       Retruquei: "Voc achou que ramos compatveis com base em
um minuto, por que no posso achar o contrario em uma tarde?"
       Mas abeli disse: "Acontece que sei de outras coisas. Ele e filho do
filho do filho de..." -- arrolou toda linhagem de Osman. uTem um bom
emprego no Canad, no masca qat,  limpo, trabalhador, consciente, e
um homem forte. Vou entreg-la a ele para garantir o seu futuro."
       E prosseguiu: "A cerimonia vai ser no sbado, na casa de Farah
Gour. J compramos o carneiro, j combinamos com o cadi. No tem
cabimento voc me dizer que no quer nada disso. Nao posso conceber
que rejeite o marido que escolhi s porque ele no gosta de ler
romance".
       Abeh reduziu tudo ao mnimo. Imagine como acharia ridcula a
minha oposio se eu acrescentasse: mas ele nao tem um fio de cabelo!
       Mesmo assim, continuei aprumada e disse: "Nao vou me casar"
       Ele rebateu: "Nao posso aceitar o seu nao paia uma coisa que
voc nunca provou".
        "Quer dizer que no posse dizer no antes de me casar?"
       ''Claro que no. )a esta tudo arranjado."
        Ningum me amarrou. Ningum me manietou. No apontaram
uma arma para minha cabea. Mas eu no tinha nenhuma sada.
       No isl, a cerimonia do nkah e o momento em que a pessoa fica
legalmente comprometida com o cnjuge. Assina-se um contrato
nupcial, mas a consumao nem sempre  imediata; a noite do
defloramento geralmente se segue  festa que termina na casa em que o
marido e a mulher vo morar. Meu pai decidiu que ao meu nikah, no
sbado, no se seguiria imediatamente a festa de casamento -- ou a
noite de npcias. Esta seria celebrada com a famlia de Osman Moussa
no Canad.
       No dia seguinte, ele esteve em casa de mame para me explicar
esse detalhe. "O mkah vai ser no sbado, mas vocs podem dar outra
festa, no Canad, para a noite de npcias. De modo que tero toda
semana que vem para se conhecer, at que Osman viaje", sorriu. E,
quando ele tiver partido, vocs podem se corresponder ou telefonar.
Est vendo? No vai lhes faltar oportunidade de se conhecerem."
       No cedi. "No vou ao Nikah. E abeh se limitou a dizer: "A sua
presena no  necessria". O que legalmente era verdade.
       Agora papai era o centro das atenes. Que casamento havia
arranjado, que boa notcia em tempos to difceis! A nica coisa que o
impacientava era aquilo que, para ele, no passava de um melindre
meu.
       Mas, como se faltasse drama na nossa famlia, na tarde seguinte
-- tera-feira --, Ali Wersengeli, o primo que um ano e meio antes
oficiara de guardio na minha cerimnia matrimonial com Mahmud,
irrompeu, enfurecido, no nosso apartamento. Tinha ouvido falar no meu
noivado com Osman Moussa e estava decidido a impor o direito de
propriedade de Mahmud sobre a minha pessoa.
       Recebido por mame, contou que eu casara com o filho do tio
Muhammad. Coisa que Hirsi Magan precisava saber com toda urgncia:
as bodas tinham que ser canceladas.
       Por sorte, Mahad estava em casa e interferiu. "Que casamento 
esse afinal?" gritou. "No pode ser verdade. Quem foi o guardio? Eu
no estava presente, nem o meu pai. No houve casamento nenhum."
       A   minha   me    se   controlou.   Manteve   perfeitamente   a
compostura, como sempre fazia -- em pblico. "Quem foi o guardio
dessa suposta cerimnia?" perguntou com arrogncia.
       "Fui eu", admitiu Ali.
       "Voc no tinha o direito de bancar o guardio", atalhou Mahad,
erguendo a voz. "Eu estava em Mogadscio. Por acaso voc me chamou?
Chamou o pai dela? Podia ter ido me buscar! Por que no foi?"
       "Isso no importa. O casamento se realizou."
       "Voc tem prova de que houve essa cerimnia? Tem algum
documento?"
       Ali no tinha. Eles conversaram. Quando Ali anunciou que ia
embora, a minha me, contrariando a etiqueta, no lhe pediu que
ficasse. "No haver fofoca com os meus filhos", disse com firmeza.
       Mahad se voltou para mim assim que Ali saiu. "Cad a
certido?" Era intil negar o que tinha acontecido. Confessei tudo -- ou
quase tudo. No mencionei a noite no hotel, mas admiti que casara com
Mahmud, em Mogadscio, na vspera da sua viagem  Unio Sovitica e
que, mais tarde, ele se apaixonara por uma finlandesa, com a qual
pretendia casar. Fui buscar a carta e as fotografias que ela me enviara.
"Est vendo? Mahmud quer esquecer tudo, e respondi que concordava"
conclu canhestramente. "Foi um erro."
       Mostrei o documento do cdi que Ali Wersengeli havia me dado
em Mogadscio.
       Mahad o examinou, desconfiado. "Isto aqui no  um documento
legal -- no vale nada", decretou. "No havia guardio legtimo."
       E, depois de rasgar o papel e jogar os pedaos no cho,
entregou-se a uma demorada arenga sobre a minha irresponsabilidade.
Mame no disse quase nada. Eu sabia que ela estava furiosa, mas,
acima de tudo, aliviada com o fato de o meu casamento com Mahmud
ser nulo; no imediato, a nica coisa que lhe interessava era imaginar
um meio de poupar a famlia de um escndalo.
       O objetivo da vida de Mahad passou a ser impedir Ali Wersengeli
de inteferir antes do nikah, dali a quatro dias. Primeiramente, foi contar
a papai que um nosso primo materno acabava de chegar a Nairbi, um
sujeito de m ndole, que, por pura maldade, estava disseminando todo
tipo de boatos sem fundamento acerca de Ayaan. Abeh naturalmente
ficou revoltado com a existncia de gente assim neste mundo.
          A seguir, Mahad descobriu onde Ali Wersengeli morava e foi
visit-lo. Disse-lhe que o meu nikah estava marcado para dali a dez
dias e prometeu providenciar um encontro dele com o meu pai na
semana seguinte. No sei por que se deu ao trabalho de inventar essa
mentira, j que o meu casamento era genuinamente nulo pela lei
somali.
          Se tal encontro ocorresse, seria tarde demais, eu j estaria
casada.
          O dia do meu casamento foi igual a todos os outros. Eu me vesti
normalmente e fiz todo trabalho domstico. Estava em estado de
negao. Sabia que, na casa de Farah Gour, havia um cdi registrando
a minha unio com Osman Moussa perante o meu pai, Mahad e uma
multido de outros homens. Depois haveria um grande almoo: carneiro
grelhado s para homens. Eu no estaria presente. A cerimnia
islmica dispensava a minha presena e a minha assinatura.
          Preparei o almoo em casa e, depois de comer, sa com Haweya.
Fomos a p at o Arboretum, conversando sobre a sbita mixrdia em
que a vida se transformara nos ltimos oito dias.
          Depois do nikah, meu novo marido e eu tivemos uma semana
para nos conhecermos. Fomos ao parque Uhuru. Ele me apresentou aos
amigos. Falou da sua vida quando era mais jovem, nos sonhos que
tinha. Era tudo to banal que no gravei quase nada. Conversamos
sobre religio: Osman Moussa era muito devoto ao islamismo e ao bom
nome da sua famlia. Disse que a Somlia estava em guerra civil porque
nos extraviramos do caminho de Al. Tornou a mencionar as somalis
do Canad e a sua frouxido moral. No esboou nenhum gesto carnal
para comigo, pois me respeitava como filha do meu pai e sua prima
distante. Podamos esperar at a festa de npcias no Canad.
          Quando ficvamos a ss, eu me sentia um gelo. No era capaz
de me imaginar na cama com aquele homem ou acordando diariamente
ao seu lado.
       Nem tudo foi tradicional. A sogra no inspecionou a minha
virgindade. Estvamos acima daquele procedimento indigno. Foi um
grande show: ele me apresentou aos amigos e eu me comportei
adequadamente, como era de esperar da filha de Hirsi Magan, sempre
envolta no meu hijab preto, o qual todos aprovaram com entusiasmo.
Conversvamos sobre a guerra e os acontecimentos do dia. Eu apenas
procurava me comportar bem: falar baixo, ser educada, tentar no
envergonhar meus pais. Sentia-me vazia.
       Os amigos de Osman se zangavam no porque algum houvesse
trapaceado ou mentido, e sim por causa das mulheres que no usavam
vu ou no rezavam com a devida freqncia. Reconheci a atitude de
Ijaabo. Aquilo me irritava cada vez mais.
       Acompanhei Osman at o aeroporto seis dias mais tarde, quando
ele regressou a Toronto. Ficou de providenciar o meu visto o mais
depressa possvel, e eu iria para l assim que pudesse: esse era o plano.
No aeroporto, ele me abraou, dizendo: "No vejo a hora de voc
chegar". Acenei a cabea solenemente, desejei-lhe boa viagem e me safei
do seu abrao. Sabia que estava sendo fria e lamentava isso, mas no
consegui proceder de outro modo.
       Por fim, Ali Wersengeli foi conversar com o meu pai. Abeh bateu
a porta na sua cara e, a seguir, foi falar comigo em Park Road. Ele
aparecia muito amide naqueles dias, com papis para assinar e vistos
a discutir, entusiasmado com a sua astcia e energizado pela
incumbncia de preparar a minha viagem. "Andei ouvindo umas
histrias de voc com Mahmud, o filho do irmo da sua me", disse. "O
que h de verdadeiro nisso?" Respondi: "Nada". E papai foi embora,
cantando. Estava felicssimo.
       Na verdade, Ali Wersengeli no tinha muito que contar.
Faltavam provas da minha cerimnia de bodas com Mahmud: Mahad
rasgara a certido de casamento, e o prprio Mahmud havia deixado
notoriamente de reclamar o seu suposto direito conjugai sobre mim. A
maioria das pessoas no tardou a concluir que tudo era exatamente o
que Mahad dizia: um boato maldoso. Ningum queria que nada desse
errado para Ayaan Hirsi Magan. Em meio a tantas notcias deprimentes,
ao caos e  guerra civil na Somlia, eu era um smbolo de esperana:
uma mocinha pia e obediente que merecia o maravilhoso partido que o
seu pai arranjara.
       O cdi era um funcionrio civil reconhecido, de modo que,
semanas depois do meu nikah, papai foi buscar a certido de
casamento redigida pelo cdi e registrou oficialmente o meu casamento
junto s autoridades quenianas. Eu soube disso porque, em um dia de
junho, ele me levou um documento oficial do governo do Qunia,
redigido em rabe e em ingls, com lacunas especiais para indicar
"Virgem ou no" e "Valor do dote". As duas lacunas tinham sido
preenchidas para mim -- as respostas eram "Virgem" e "Dez exemplares
do Sagrado Alcoro" --, e o documento tambm indicava que o meu pai
havia me representado no meu casamento em fevereiro. Abeh me disse
que agora eu devia assinar a documentao queniana.
       Vacilei, mas j estava casada com Osman Moussa aos olhos do
isl e de todos os muulmanos que conhecia. Que diferena fazia
obedecer ou no? De modo que pus o meu nome bem abaixo da
assinatura do meu pai, em rabe: A. H. Magan.
       Abeh   teve   muito   trabalho   para    providenciar   os   meus
documentos de viagem no escritrio do ACNUR. Em algumas semanas,
conseguiu o passaporte, ento saiu  caa do visto. Telefonava com
freqncia para Osman Moussa a fim de tratar disso. A embaixada
canadense em Nairbi estava repleta de somalis tentando imigrar, e
parecia impossvel providenciar o que quer que fosse em meio 
corrupo e ao caos da burocracia queniana. Meu pai acabou
solicitando a ajuda de um parente que residia em Dsseldorf, cujo
nome era Mursal, e os dois decidiram que valia mais a pena eu
aguardar na Alemanha o visto final de entrada. Era mais rpido e mais
prtico.
       Papai comeou a me chamar a sua casa de Buruburu para uma
srie de prelees extras sobre o isl e o comportamento da boa esposa.
Passamos vrias manhs relendo os captulos do Alcoro que tratavam
dos deveres da mulher casada e discutindo-os formalmente. Por
exemplo, a obrigao de pedir autorizao para sair de casa. Ele
explicou: "Vocs podem fazer o seguinte: cheguem a um acordo, logo no
comeo, para que essa autorizao seja dada em carter permanente. 
um voto de confiana, ele confia em voc, de modo que no h
necessidade de pedir autorizao cada vez que voc for  mercearia".
         Havia uma injuno alcornica para que a mulher ficasse o
tempo todo sexualmente disponvel ao marido. Abeh no entrou em
detalhes, mas leu: "Tuas esposas so a tua lavra, entra na tua lavra do
modo como quiseres". E disse: "Voc deve estar sempre  disposio do
seu marido, na cama e fora dela. No o faa implorar; no se recuse;
no o leve a procurar fora de casa. Isso tambm  uma espcie de
autorizao que voc d desde o comeo: estar sempre disponvel. Ele
no vai abusar desse direito porque  de boa famlia. No vai for-la
nem estupr-la, pois  um muulmano devoto e um osman mahamud".
         Conversamos sobre ser maometano no Ocidente. Ter amigos
infiis era uma zona cinzenta, disse o meu pai; coisa pouco
recomendvel, mas, se eu fizesse amizades boas e sinceras com infiis,
desde que no os imitasse em nada, tais relaes no eram proibidas.
         Tambm falou no que ensinar aos filhos. Havia um s Deus, no
existiam djins, nem santos, nem magia, nem intercesso. Era proibido
pedir ajuda a um esprito ou djin; eqivalia a pr outros seres no nvel
de Al. Em tudo quanto fizesse, primeiro eu devia perguntar: "O que
faria o profeta?". Algumas coisas eram claramente permitidas, e outras,
claramente proibidas, mas, nas zonas cinzentas, disse ele, o profeta era
liberal: jamais tornava obrigatrio algo que prejudicasse a pessoa. "No
h coero no isl", afirmou. "Nenhum ser humano tem o direito de
punir o outro por no observar os deveres religiosos. S Al pode fazer
isso."
         Foi como no madraal, s que mais inteligente. Falamos at em
martrio. Abeh disse que o suicdio, na guerra santa, s era aceitvel no
tempo do profeta -- e, mesmo assim, unicamente por causa dos mpios
que atacaram o profeta primeiro. Atualmente, no havia nenhuma
guerra santa, pois s o profeta Maom podia declarar uma guerra
santa.
         Esse era o islamismo do meu pai: uma religio eminentemente
pacfica, assim ele interpretava pessoalmente as palavras do profeta.
Tudo dependia da noo de certo e errado de cada um, pelo menos at
certo ponto. Era mais inteligente e muito mais humano do que a religio
que eu tinha aprendido com o maalim. No entanto, a sua verso do
islamismo tambm deixava perguntas sem resposta e uma sensao de
injustia: por que s as mulheres tinham a obrigao de pedir
autorizao para sair, e no o inverso?
         O isl do meu pai era, evidentemente, uma interpretao do que
dissera o profeta. Por isso mesmo, carecia de legitimidade. No se podia
interpretar a vontade de Al nem as palavras do Alcoro: isso estava
escrito ali mesmo, no prprio livro. Havia um comando "somente
leitura". Era proibido selecionar e escolher: s se podia obedecer. O
profeta disse: "Eu vos deixei orientao clara; que ningum se afaste
dela depois de mim, a no ser aquele que h de ser destrudo". Um
fundamentalista diria ao meu pai: "A frase 'S o profeta pode declarar
guerra santa' no est no Alcoro. Voc resolveu inclu-la. Isso 
blasfmia".
         Osman Moussa pagou todos os trmites da viagem porque agora
eu era dele. Essas coisas tinham regras claras: o marido pagava as
despesas da mulher. Fiz o circuito completo, despedi-me de todos: de
Halwa, de Ainanshie e da famlia de Farah Gour. Agora eles eram meus
primos prximos por tambm terem parentesco com o meu marido.
         Despedi-me do meu pai na vspera da viagem. Ele me abraou e
disse que amos passar muito tempo sem nos ver: "Quem parte sempre
quer voltar, mas muita coisa pode impedir". Eu o encarei com ceticismo;
sabia que estava falando por experincia prpria.
         No dia da minha partida, mame me ouviu combinar com
Haweya o que fazer. Esta achava que o melhor plano era me divorciar
de Osman Moussa o mais depressa possvel, assim que chegasse ao
Canad. E, uma vez divorciada, ir para os Estados Unidos e ter a minha
vida. Ela imaginou um monte de histrias romnticas para mim.
       Ento mame entrou, gritando que ramos imorais. Disse que
eu no passava de uma prostituta, de uma hipcrita, que havia
destrudo a sua relao com o prprio irmo e ia arruinar a honra da
famlia dela e da do meu pai. E acrescentou: "S me despeo de voc e
s lhe desejo felicidade com duas condies. A primeira,  voc
prometer ficar casada com Osman Moussa. Ser uma boa esposa, orar a
Al e sempre agradecer o destino que o seu pai construiu para voc. E a
segunda  ir contar tudo ao seu pai".
       Achei que ela estava coberta de razo. Convinha mesmo
procurar abeh e lhe contar tudo; talvez assim ele encontrasse uma
sada para mim. De modo que pus o vu e fui  sua casa. Disse: "Abeh,
preciso contar uma coisa", e ele tornou a abrir os braos para mim. "Ah,
Ayaan! A minha filha querida veio me visitar outra vez!"
       Eu disse: "Preciso confessar uma coisa a respeito do irmo de
mame, Muhammad, e do seu filho Mahmud".
       Abeh gritou: "Disso j tratamos, no tratamos? Acabou, minha
filha. Acabou. Tenha um pouco de considerao pelo seu velho pai.
Querida, voc devia era estar preparando a sua viagem".
       E seguiu com uma profuso de palavras, e a minha lngua ficou
presa na garganta. Acho que ele sabia que o que eu tinha a dizer era
indesejvel. De modo que voltei para casa e descrevi toda cena para a
minha me. Ela me mandou voltar imediatamente a Buruburu e contar
tudo. Perguntei: "Quer que eu perca o avio?" e ela me pediu: "Ento
prometa, em nome de Al, ficar com esse homem, o seu marido".
       Eu me recusei. Disse que no prometia nada.
       Mame no se despediu de mim. Eu disse adeus para as suas
costas duras, sa e fui de txi ao aeroporto.
                         SEGUNDA PARTE:


                        MINHA LIBERDADE


       1 0 . A fu g a




       Quando aterrissamos no aeroporto de Frankfurt, de manh
cedo, fiquei assombrada com as dimenses. Tudo era de vidro e ao, e
tudo, at o ltimo parafuso, tinha timo acabamento. Aquilo me
impressionou: no lugar de onde eu vinha, os aeroportos eram um caos,
constantemente em expanso, sempre em obras. E todos ao meu redor
pareciam saber perfeitamente aonde iam. Havia mulheres da idade da
minha me, ou at da minha av, com valises chiques, empurrando
carrinhos repletos de malas que combinavam entre si, todas enrgicas e
decididas.
       Eu me perdi. Sa  procura do balco da companhia area. Sabia
que meu destino era Dsseldorf, mas a passagem dizia Munique, de
modo que era preciso troc-la. Fiquei vagando, pedindo informao s
pessoas, sem me importar com as placas de orientao. O aeroporto era
do tamanho de um bairro. E tudo nele parecia igual: eu me sentia
desnorteada como uma caipira do miy.
       O meu longnquo tio Mursal havia se prontificado a cuidar de
mim na Alemanha, enquanto eu aguardava o visto. No o conhecia.
Quando finalmente cheguei a Dsseldorf, troquei alguns dlares por
marcos alemes, tentei adivinhar qual era a moeda certa e liguei para o
nmero que Mursal dera ao meu pai. Outro homem atendeu o telefone:
Ornar, o scio de Mursal. Disse: "Ento voc  a filha de Hirsi Magan?
Pode anotar o endereo e entreg-lo a um taxista?".
       Respondi que sim, anotei o endereo e sa. Tudo era to limpo,
parecia um filme. As ruas, o asfalto, as pessoas -- nada na minha vida
tinha semelhante aparncia, com exceo talvez do Hospital Nairbi.
Era to moderno que parecia esterilizado. A paisagem lembrava uma
aula de geometria ou de fsica, s se viam linhas retas, e tudo era
perfeito e preciso. Os prdios eram cubos e tringulos e me incutiam a
mesma sensao neutra, quase assustadora. Os letreiros pareciam ser
em ingls, mas eu no entendia uma palavra, era como decifrar uma
equao algbrica.
       Minha av devia ter sentido coisa parecida quando esteve pela
primeira vez em uma cidade e viu a lmpada eltrica, o rdio, uma
avenida repleta de veculos. Aquilo me era estranho.
       Avistei uma fila de txis; todos com a palavra inglesa na capota,
mas os carros eram Mercedes bege. Em Nairbi, s se viam txis assim
 porta dos hotis de luxo: eram a opo mais sofisticada concebvel,
exclusivamente para estrangeiros e ministros de Estado. Antes de
embarcar, achei melhor perguntar ao motorista quanto ia custar a
corrida.
       Ele respondeu: "Mais ou menos vinte marcos", quantia que eu
podia pagar. Perguntei: "Mas o senhor vai me levar neste carro?" e o
taxista achou graa. Era simptico e falava ingls. Sentei-me na frente,
ao seu lado, e ele me falou de Dsseldorf, disse que os alemes eram
um povo muito bom e gentil.
       Achei a cidade velha simplesmente maravilhosa, os pincu-los e
as torres pontiagudas das igrejas lembravam um pouco um minarete.
As ruas, caladas de pedra, pareciam feitas para seres humanos, bem
diferentes do assustador aeroporto ultramoderno.
       O txi me deixou no lugar indicado, e Ornar me recebeu: um
homem alto, bonacho, bigodudo, de terno cinzento, mas sem gravata.
Disse que estava surpreso. Ningum chegava to facilmente do
aeroporto, e, alm disso, eu havia trocado de avio em Frankfurt -- um
verdadeiro prodgio. "Voc vai gostar daqui", acrescentou. "A maioria
dos somalis telefona de madrugada, pedindo: cPor favor, venha me
buscar'. E, quando pergunto: cOnde voc est?', respondem: 'Perto de
um prdio alto'. So uns inteis."
       Ornar no se preocupou com o fato de a minha bagagem no ter
chegado   comigo.    Garantiu   que,   na   Alemanha,   elas   jamais   se
extraviavam. Meu tio tinha um compromisso e iria me encontrar mais
tarde, de modo que Ornar me levou a um hotel da cidade velha.
Prometeu voltar s oito horas para irmos jantar.
       Tudo no quarto era branco e original. Examinei o edredom e
jurei contar a Haweya daquela inveno fantstica. Embora o cmodo
fosse pequeno, tudo parecia engenhosamente projetado para caber ali:
os armrios se encaixavam na parede; o televisor, na estante. Que coisa
bem-feita, pensei.
       O banheiro foi outra revelao. Tnhamos chuveiro em Park
Road, mas sem gua quente, por isso esquentvamos a gua e
usvamos um balde e uma caneca. No hotel havia grande profuso de
gua quente, com diferentes jatos de cima e dos lados. Eu me lavei.
Ainda estava claro l fora, por isso resolvi dar uma volta. Queria
conhecer o lugar.
       Anotei o nome do hotel -- sabia que ia me perder -- e, pondo o
vu curto e o casaco comprido, sa  rua. Nunca tinha visto tanta gente
branca. As mulheres andavam expostas -- praticamente nuas--, com
as pernas, os braos, o rosto, o cabelo e os ombros, tudo descoberto. As
quenianas geralmente se cobriam menos do que as somalis, mas creio
que a brancura da pele das alems chamava mais a ateno. Homens e
mulheres juntos, no em bares, mas com plcida familiaridade, como se
fossem iguais. Passeavam de mos dadas  luz do dia, sem se esconder
de ningum, e todo mundo parecia achar aquilo a coisa mais normal do
mundo.
       Depois de algum tempo, tirei o casaco; achei que assim
chamaria menos a ateno. Mesmo estando de vu e saia longa, fazia
muitos anos que no me apresentava em pblico to descoberta. No
entanto, sentia-me annima. L no havia controle social. Nenhum
olhar me acusava veladamente de ser prostituta. Nenhum cafajeste me
convidava a ir para a cama com ele. Nenhum membro da Fraternidade
Muulmana me ameaava com o fogo do inferno. Eu me sentia a salvo;
podia satisfazer a minha curiosidade  vontade.
       Andei at ficar com dor nos ps. Tudo se mantinha to bem
conservado. Os sulcos entre as pedras da rua eram limpos. As fachadas
das lojas reluziam. Lembro de ter pensado: "Que coisa assombrosa,
como  possvel?". Estava habituada a montes de lixo malcheiroso e a
ruas esburacadas, nas quais a sujeira ia ao nosso encontro e nada
permanecia limpo. Em Nairbi, com exceo dos poucos encraves
abastados reservados aos riqussimos funcionrios do governo e aos
empresrios milionrios, as pessoas viviam amontoadas em barracos de
blocos de concreto nus ou de papelo e folhas de metal. No faltavam
mendigos, batedores de carteira e rfos morando nos monturos; o
trnsito era maluco; os rdios, ensurdecedores; e os motoristas de
matatou chamavam os passageiros aos berros. Eu me senti como que
em outro mundo, um mundo calmo e organizado, como nos romances e
em alguns filmes, mas, de certo modo, nunca tinha acreditado neles.
       Quando voltei ao hotel, Ornar estava muito apreensivo. Disse
que j eram nove horas da noite, respondi que no podia ser: ainda
estava claro na rua. Suspirando, ele me explicou com toda pacincia
que, na Europa, havia uma estao quente, na qual ficava claro at
tarde da noite; e uma estao fria, em que a escurido durava quase o
dia todo. Na Europa, disse, no se podia calcular as horas pelo sol.
Deu-me seu relgio e me perguntou se eu sabia ver as horas.
       Senti-me uma verdadeira idiota. L at os planetas e o sistema
solar eram diferentes. Eu estava bancando a Alice no Pas das
Maravilhas.
       Osmar disse que os africanos como ns no podamos comer
comida alem e me levou a um restaurante chins. Prestei ateno ao
trajeto e me dei conta de que todas as ruas tinham o nome devidamente
escrito em pequenas placas. No era preciso parar constantemente para
pedir informao aos transeuntes. Que agradvel e engenhoso, pensei;
no nosso bairro, em Nairbi, s umas poucas ruas importantes tinham
o nome escrito. Perguntei a Osmar quem as fazia. Ele revirou os olhos e
respondeu: "Isto aqui  um pas civilizado".
        Conheci o meu parente Mursal no dia seguinte. Ele ficou sem
jeito ao confessar que no podia me receber em casa. Era casado com
uma alem que no gostava de hospedar somalis extraviados. De modo
que havia arranjado outra famlia osman mahamud, de Bonn, disposta
a me receber. No ficava longe. Mursal prometeu telefonar diariamente
para a embaixada do Canad e averiguar se a papelada do meu visto
estava pronta; dava na mesma esperar na casa da tal mulher ou na
dele.
        Levaram-me para l assim que um furgo do aeroporto entregou
gentilmente a minha bagagem no hotel. Chegamos a um enorme
aglomerado de casas idnticas -- um conjunto habitacional do governo,
informaram eles. Obviamente, a mulher de Bonn, Amina, tambm era
osman mahamud. Mas se sentia rejeitada pelo cl porque tinha casado
com um hawiye e, portanto, seus filhos eram hawiye. Mursal a ajudara
muito; provavelmente gastava boa parte da sua renda com os
companheiros somalis em dificuldades.
        Havia televisores ligados em todos os cmodos e muitas
crianas. O filho mais velho, Ahmed, tinha uns catorze anos; ofereceu-
se para me mostrar a cidade. Era julho, perodo de frias escolares, e
ele, que no tinha o que fazer, estava ansioso por exibir seu superior
conhecimento da cidade.
        Embora j fizesse tempo que morava na Alemanha, Amina ainda
era totalmente somali. No se orientava bem sozinha, de modo que s ia
fazer compras na companhia do filho. Ao passo que eu, quando fui dar
uma volta com Ahmed no dia seguinte, percebi que provavelmente
conseguiria fazer tudo por minha conta. Ele me explicou como usar o
metr; no era to difcil assim.
        Aqueles brancos no me atemorizavam. Pareciam indiferentes,
mas isso era bom. Eu havia tomado dois avies sozinha, passeara em
Dsseldorf, e o mundo no me parecia to perigoso quanto mame e
vov diziam. L todo mundo era annimo, mas ser capaz de percorrer
aqueles lugares desconhecidos me incutia uma sensao de liberdade e
poder. Eu me sentia segura.
       H meses eu pensava cada vez mais freneticamente no que fazer
para escapar ao casamento que meu pai escolhera para mim. No
queria ir para o Canad nem viver com Osman Moussa nem levar uma
existncia predeterminada desde o dia em que nasci mulher -- a
existncia da minha me. Pensei em ser uma pssima esposa quando l
chegasse, para que Osman Moussa acabasse me mandando de volta
para a casa em Nairbi. Havia, porm, um obstculo: a possibilidade de
eu engravidar. Mas, naquela primeira tarde em Bonn, uma idia
comeou a germinar dentro de mim: eu no tinha nada que ir para o
Canad. O melhor era desaparecer ali mesmo. Fugir de tudo, me
esconder e procurar viver a minha prpria vida, como a personagem de
um livro.
       No tinha nenhum plano concreto, mas achava que devia
procurar o momento certo. No me preocupava a solido nem a
existncia que levaria sem a minha famlia. No tinha um plano
minucioso, apenas uma idia. Achava que fugir era como saltar de um
matatou em movimento, quando ele diminua a velocidade ao se
aproximar do sinal fechado, e depois v-lo se afastar na rua. Eu ia
achar o momento certo para me evadir.
       No pretendia ficar na Alemanha; l Mursal me encontraria
facilmente. Ia para a Inglaterra. Eu falava a lngua do pas e me
adaptaria  cultura, aos seus prados e vacas,  rainha, a Mayfair e a
Whitechapel -- conhecia tudo aquilo, pensei, graas aos livros e ao jogo
Monoplio. Sim, ia para l. Tinha o meu diploma da Escola de
Secretariado Valley; poderia trabalhar, economizar, estudar. Ningum
descobriria o meu paradeiro.
       No sabia como fugir nem o que era liberdade. Mas sabia o que
seria da minha vida se fosse para o Canad. Uma vida igual  da minha
me e a de Jawahir, igual  da mulher que estava me hospedando em
Bonn. Eu no formulava a coisa precisamente assim naquela poca,
mas, por ter nascido mulher, nunca me deixariam ser adulta. Seria
sempre menor de idade, outros decidiriam por mim. Seria eternamente
uma unidade em uma imensa colmia. Podia ter uma vida decente, mas
sempre dependeria de que algum me tratasse bem.
         Eu sabia que outra existncia era possvel. Tinha lido acerca
dela e agora eu a estava vendo, cheirava-a no ar que me envolvia: a vida
que sempre quis, com uma educao real, um emprego real, um
casamento real. Queria tomar as minhas decises. Queria ser uma
pessoa, um indivduo com existncia prpria.
         O jovem Ahmed me mostrou toda Bonn. Foi muito simptico,
conversou muito comigo. Quando estvamos voltando para casa, eu lhe
perguntei: "Diga, o que preciso fazer se quiser ir  Inglaterra?" Ahmed
respondeu que no era fcil; havia o mar entre a Alemanha e a
Inglaterra, de modo que era preciso pedir visto. Mas os pases vizinhos
da Alemanha no exigiam isso. Era bem mais fcil ir  Holanda ou 
Blgica, explicou. Onde eu estava afinal? S recordava que, no livro de
geografia, havia um captulo sobre os ricos pases renanos: a Alemanha,
a Holanda, a Blgica, no? Lembrava-me apenas de que o professor
observara que tudo aquilo junto era menor do que a Tanznia. Que
raiva de no ter prestado mais ateno s aulas; do contrrio, pelo
menos teria uma idia de onde me achava.
         Mas a Holanda -- eu conhecia uma pessoa na Holanda. Uma
pessoa que certamente me auxiliaria. Fadumo, a mulher de Mahamed
Abdihalin, que eu tinha ajudado a tirar do campo de refugiados de
Dhobey -- ela pedira asilo na Holanda. Morava l, em uma espcie de
campo.
         Ahmed me contou que a Holanda era fcil, ficava a apenas uma
hora e meia de trem. Bastava comprar a passagem e embarcar, no
havia necessidade de visto.
         Naquela tarde, fui  cabine telefnica da esquina e disquei o
nmero do tal centro de refugiados. Fadumo foi to amorosa e
receptiva, felicitou-me efusivamente pelo casamento, do qual j tinha
notcia. Aventei a idia de ir visit-la; ela adorou.
       No lhe contei que pretendia fugir, nem marquei data para
chegar. Tampouco disse alguma coisa a Ahmed. Limitei-me a informar
sua me que ia passar uns dias com uma parenta e pedi a Ahmed que
me levasse  estao ferroviria e me ajudasse a comprar a passagem.
Deixei a mala grande na casa de Amina; levei apenas a sacola com os
documentos.
       Ao sair, olhei pela ltima vez para a mala com o meu enxoval: os
dirhas de seda e o incenso, os muitos acessrios somalis que ia
abandonar. Levei comigo duas saias compridas, algumas tnicas, o
casaco -- o que deu para carregar. Prometi a mim mesma um dia
explicar tudo ao meu pai.
       Embarquei na sexta-feira, 24 de julho de 1992. Todo ano penso
nisso. Vejo que essa  a minha verdadeira data de nascimento: o meu
nascimento como pessoa, tomando decises prprias na vida. No
estava fugindo do isl, nem  procura da democracia. No tinha
grandes ideais na poca. No passava de uma mocinha que aspirava a
ser ela mesma; por isso ousei me lanar no desconhecido.
       Era quase meia-noite quando cheguei  Estao Central de
Amsterd. Um jovem norte-africano se aproximou, oferecendo-me
ajuda. Levou-me ao balco, onde troquei um pouco de dinheiro, e me
mostrou o telefone pblico. Foi muito gentil -- talvez por causa do
turbante que eu estava usando ou do meu olhar confuso. Deu-me seu
telefone, caso eu tivesse algum problema.
       Liguei para Fadumo. Ela disse que era muito tarde para ir ao
centro de refugiados de Almelo naquela noite. Deu-me o nmero do
telefone da sua prima Mudoh, que morava muito mais perto, em
Volendam. Telefonei para ela: estava escuro na Estao Central de
Amsterd, e eu no sabia o que fazer. Disse: "Sou Ayaan, filha de Hirsi
Magan, e estou procurando um lugar onde passar a noite". Mudoh me
explicou que nibus tomar, quanto pagar e onde descer.
       Era de madrugada e depois de algumas paradas eu era a nica
passageira no nibus. Estava bem assustada. Perguntava ao motorista
se Volendam estava perto, sempre achando que algo horrvel poderia
acontecer a qualquer momento. Ele dirigia de maneira distante e
rpida. Mas no me seqestrou nem me cortou em pedaos, tampouco
me bateu, como eu temia. Ele me deixou perto de uma cabine telefnica
verde, exatamente no lugar descrito por Mudoh.
       O marido dela foi me buscar. Era holands. Mudoh no s
casara fora do cl como fora da nao somali e fora do isl. Ela, uma
mulher, havia casado com um gaalo. At eu fiquei um pouco surpresa
com isso. No conhecia nenhuma somali que tivesse se atrevido a fazer
tal coisa. Perguntei-lhe como a sua famlia reagira ao saber. Ela disse
que a chamaram de srdida: baniram-na como uma pria. Mas, aps o
colapso de Mogadscio, eles ficaram amabilssimos. Viviam pedindo
auxlio e dinheiro. Mudoh os ajudava, mas s os parentes prximos, os
irmos. Ao que tudo indicava, tinha eliminado o cl da sua vida.
       Decidi confiar nela. Contei-lhe tudo. Disse que no queria aquele
casamento, queria ir para a Inglaterra. Ela me desaconselhou. Explicou
que era complicadssimo ir para l. Valia mais a pena ficar na Holanda.
L eu tambm podia usar o meu ingls. Recomendou-me pedir asilo, tal
como fizera Fadumo; convinha perguntar como ela havia procedido.
       Passei o fim de semana com Mudoh. Ela me mostrou o bairro.
Todas as casas eram iguais, todas da mesma cor, todas enfileiradas
como pequenos bolos recm tirados do forno. Eram casas novas, com
cortinas de renda e babado, e, na frente, um relvado muito verde e bem
aparado, uniforme como um caprichado corte de cabelo. Em Nairbi, a
no ser nas manses ricas, as cores eram berrantes; e as casas,
completamente anrquicas -- um palacete, um casebre inacabado, um
terreno baldio, tudo lado a lado --, de modo que aquilo tambm foi uma
novidade para mim.
       Mudoh ps o lixo na rua no domingo  noite. Em todo bairro, vi
gente fazendo o mesmo. Ela explicou que havia normas: era preciso pr
as latas de lixo para fora na hora certa, da maneira certa. A lata
marrom para o lixo orgnico; a verde para o plstico; e os jornais eram
coisa completamente diferente, em outra hora. Bastava observar as
regras, e, no dia seguinte, o governo levava tudo para a reciclagem.
Caramba, pensei. No Qunia todo mundo tinha medo do governo e,
quando ele se aproximava de uma casa, era um susto. O lixo, as
pessoas o jogavam em um monte no fim da rua. Achei que no seria
difcil me adaptar quela vida.
       Na segunda-feira, fui a Almelo perguntar a Fadumo o que fazer
para obter asilo na Holanda. Ela ficou contentssima ao mever, me
abraou e at chorou. O lugar onde morava era muito diferente do
campo de refugiados de Dhobley; l no havia barracas, e sim casas --
pr-fabricadas, mas adequadas -- e tudo era organizado. Fadumo tinha
uma casa s para ela e os cinco filhos, um deles recm-nascido.
       Ficamos    conversando,       e   lhe   contei   tudo.   Fadumo   ficou
horrorizada e me pediu, chegou a suplicar, que no fizesse aquilo.
"Pense no seu pai", repetia. Ela era uma osman mahamud, de modo que
sentiu aquilo intensamente: precisava me impedir de cometer um erro
pavoroso que me prejudicaria para sempre e mancharia a honra de todo
cl. O seu casamento tinha sido arranjado pelos pais, contou-me, e era
muito feliz. Nada melhor do que um casamento arranjado, sobretudo
um casamento arranjado no interior da famlia, com a bno do pai:
esse era o grande destino que se podia esperar.
       Mesmo assim, insisti para que ela me contasse como havia feito.
Fadumo disse que pedir asilo era fcil. Havia centros especiais para
acolher refugiados; o mais prximo ficava em Zwolle. Bastava ir at l e
fazer a solicitao. Convinha ir o mais depressa possvel e dizer que eu
estava fugindo da guerra civil e acabara de chegar  Holanda. Havia um
prazo para os trmites.
       Fui a Zwolle. No tive dificuldade para localizar o centro.
Praticamente todo mundo falava ingls ou, pelo menos, tentava
compreender. Havia um policial fardado, e ao v-lo fiquei com medo,
mas ele me disse educadamente: "O nosso centro est lotado, no
estamos aceitando mais refugiados, mas a senhora pode ir a Zeewolde".
Deu-me uma passagem de nibus, uma de trem e instrues para a
viagem. Recomendou-me passar pelo Auxlio a Refugiados antes de me
registrar. E elogiou o meu ingls.
       Para mim, os policiais eram opressores e achacadores. Jamais
solcitos. Eu lhe perguntei: "Por que o senhor est me ajudando?", e ele
sorriu e respondeu: "So as normas". Perguntei: "Todos os policiais so
educados assim?" Ele disse: "Espero que sim".
       Depois disso, tudo passou a ser possvel. Para mim, qualquer
governo s podia ser ruim, corrupto e desonesto. No fazia seno
oprimir. E l toda aquela gente se dispunha a me ajudar, mesmo eu
sendo estrangeira. Como eles no tratariam a gente do seu prprio cl?
       No nibus para Zeewolde, fiquei observando a rea rural 
minha volta. Era muito plana, com longas estradas vicinais, moinhos e
gordos carneiros de plo bege -- mais l do que carneiro, pensei,
acostumada que estava aos nossos magros rebanhos de cabea preta.
Havia canais em toda parte: canais de irrigao. Os nibus eram
bonitos e limpos; as portas se abriam automaticamente. Perto de
Zeewolde, a terra parecia mais deserta, e a vegetao, mais seca, e o
solo era todo riscado de canais mais largos; tratava-se de um plder,
terra nova que os holandeses acabavam de conquistar ao mar, se bem
que, na ocasio, eu no soubesse disso.
       Diante de mim, abria-se uma grande oportunidade, mas eu
comeava a desanimar. Aos vinte e dois anos, estava sozinha pela
primeira vez. Precisaria cuidar para no cair nas armadilhas em que a
minha famlia e a maioria dos muulmanos acreditavam que as moas
sozinhas costumavam cair: no triste fim da prostituio ou no traballho
como domstica, ou num casamento inferior ao meu status, com um
homem que me exploraria -- por precipitao, o nome conspurcado.
       Enquanto esperava para fazer baldeao, reparei que o nibus
chegou exatamente na hora marcada, catorze horas e trinta e sete
minutos, pontualmente. Em Bonn, os nibus tambm eram assim, e
aquela misteriosa pontualidade me parecia esquisitssima. Como era
possvel prever que o nibus chegaria precisamente s catorze e trinta e
sete? Acaso eles tambm controlavam as regras do tempo?
       O Centro de Recepo de Zeewolde era um vasto complexo de
bangals, todos providos de uma pequena cerca viva. Tinha uma
quadra de tnis, gente jogando vlei, e, perto do escritrio, vi a placa de
uma piscina. Era tudo absolutamente inacreditvel.
       Eu me dirigi ao pequeno escritrio junto ao porto e mostrei ao
homem o papel que o policial de Zwolle tinha me dado. Ele me apertou
a mo, disse: "Seja bem-vinda", e anunciou que ia me levar 
administrao. Pegando a minha sacola de lona com uma mo e, com a
outra, duas malas de cobertores, lenis e toalhas, conduziu-me a um
bangal.
       Havia refugiados em toda parte. Muitos curdos e iraquianos,
mas os iranianos tambm eram numerosos, todos brancos, embora os
holandeses os chamassem de pretos. Um grande nmero de mulheres
chegara da frica, mas vestiam minissaia e camiseta; a julgar pela
aparncia, deviam ser da Libria ou do Congo, dois pases em guerra
civil. Tambm no faltavam rolos de pano ambulantes: eram as rabes
sentadas no cho, envoltas nas suas vestes, observando os homens.
       Mas tambm havia gente branca; perguntei ao holands qual era
a origem dessas pessoas, e ele respondeu: "So maometanos". E,
notando a minha surpresa, acrescentou: "Da Bsnia".
       Ele me levou ao bangal 28 e disse que eu iria dividi-lo com trs
etopes. s quintas-feiras, disse, poderia levar a minha roupa de cama 
lavanderia e receber outra limpa. Fiquei boquiaberta. O homem
explicou que o jantar era s cinco e meia, no refeitrio, e que, no dia
seguinte, eu iria receber instrues mais pormenorizadas; algum me
mostraria onde seria a entrevista, onde ficavam o escritrio do advogado
e o posto de sade. O atendimento mdico era gratuito, informou-me,
assim como o alojamento e a comida: o governo fornecia tudo. Alm
disso, eu receberia uma ajuda financeira semanal para as despesas
bsicas.
       Nunca tinha ouvido falar em Estado de Bem-estar Social. No
conseguia entender por que aqueles desconhecidos me davam tanta
coisa. Onde arranjavam tanto dinheiro? Como era possvel que ele no
acabasse?
       Na manh seguinte, precisei ir  polcia de imigrao. Tiraram as
minhas impresses digitais e me disseram para preencher uns
formulrios, mas tudo foi completamente diferente do que eu esperava:
"Como vai a senhora? Aceita uma xcara de ch? Ou prefere caf?" E
cada passo do procedimento era explicado; chegaram a perguntar se eu
precisava de um intrprete. Depois me entregaram um carto verde,
que me transformou em solicitante oficial de asilo, uma pessoa que
seria entrevistada e avaliada para receber o status de asilada.
       A polcia me mandou ao escritrio do Auxlio a Refugiados, onde
duas mulheres me contaram que eu tinha direito a assistncia jurdica
gratuita e me explicaram os trmites. Perguntaram por que eu queria
morar na Holanda, e lhes contei a minha histria, sinceramente: o meu
pai tinha me obrigado a casar com um homem que eu no aceitava, e
eu no queria ir morar com ele no Canad. Uma delas disse: "Isso que
aconteceu com a senhora  pavoroso, mas quantas mulheres se casam
a contragosto na Somlia?".
       " a nossa cultura", expliquei. "Praticamente todas."
       "E nos outros pases?  assim em todos?"
       "Acho que em todos os pases muulmanos."
       "Est vendo?  impossvel dar status de asilada a todas as
mulheres que foram casadas pela famlia." Leu para mim a Conveno
de Genebra sobre refugiados e disse: "Se a sua histria no for
verdadeira nem coerente e se no se enquadrar nestas categorias, a sua
chance  mnima. Para receber asilo, a senhora precisa provar que tem
motivos claros e especficos para temer perseguio".
       Voltei ao bangal. No dia seguinte, tinha encontro com o
advogado oferecido pelo governo. Comecei a esboar uma histria
baseada na minha experincia ao sair de Mogadscio em 1991 e na
experincia dos refugiados em nossa casa em Park Road. Uma histria
minuciosa e coerente, mas inventada. Olhando para trs, no me
orgulho desse fato, mas, sim,  verdade que, para ficar na Holanda, no
contei toda a minha histria.
       E, ademais, no disse que me chamava Ayaan Hirsi Magan; isso
facilitaria muito o trabalho da minha famlia para me localizar. Escolhi
o prenome do meu av Ali, o nome que o seu pai havia lhe dado antes
que as pessoas passassem a cham-lo de Protetor. Um nome comum e
corrente, com o qual era fcil desaparecer. Dali por diante, eu seria
Ayaan Hirsi Ali, nascida em 13 de novembro de 1967.
       No dia 6 de agosto, fui entrevistada pelo Servio Holands de
Imigrao. Minha advogada, uma mulher cautelosa de cabelo preto e
comprido, me acompanhou. Quando bati na porta do escritrio, o
funcionrio da imigrao se levantou e, contornando a escrivaninha,
veio me apertar a mo. Foi educadssimo, mas senti que estava me
testando, tentando me pegar em contradio. Sondou a minha histria
com muita insistncia; sa de l sentindo que o homem percebera tudo.
Com toda certeza, seria rejeitada.
       Depois da entrevista, fiquei em estado de tenso permanente.
Achava que Mursal ia me encontrar ou, talvez, o prprio Osman
Moussa; os dois j deviam estar  minha procura. Via os nibus
chegarem ao centro, lotados de refugiados da Bsnia. Assistia  CNN e 
BBC, na televiso do centro de asilados, e me sentia muito mal. Estava
ocupando a cama de algum que merecia estar l, de uma pobre coitada
da Libria ou da Bsnia, que havia sofrido muito. No passava de uma
garota mimada, burra e ingrata, que devia estar agradecia ao pai que
lhe arranjara marido em um pas rico. Sentia-me enormemente culpada
pelo que tinha feito  nossa famlia. E estava com medo, no da solido,
mas do desconhecido: que ia ser de mim? Mas tambm experimentava
uma sensao de liberdade. O que eu estava vivendo era a vida real.
Lembro-me de, no centro de refugiados, ter pensado: "Se eu cair morta
neste instante, pelo menos vi o mundo". No me ocorreu voltar 
Alemanha e pegar o visto para o Canad. Aquela parte da minha vida
estava encerrada.
       No comeo, as etopes com as quais eu dividia o bangal me
pareceram frvolas e definitivamente tolas. Achavam muita sorte a
minha ser de um pas mergulhado na guerra civil, o que significava que
eu tinha muito mais chance do que elas de obter o status de asilada e
ficar na Europa. O tempo que elas passavam se vestindo e as roupas
que usavam! A maquiagem e as minissaias, uma a emprestar o cinto
para a outra -- a coisa durava uma eternidade, e elas saam
descobertas, felizes da vida. Mina era a mais simptica. Certa manh,
ela me disse:" Vamos, tire esse vu e essa saia comprida. Voc  bonita".
       "No!", respondi. "Sou muulmana." Era exatamente o que
sempre me diziam: o diabo, na forma de garotas etopes, estava me
tentando. Porm Mina, que at ento tinha sido acolhedora, prestativa e
agradvel em tudo, me perguntou: "Mas por qu? Por que as
muulmanas so obrigadas a andar cobertas e no podem transar?
Qual  o seu problema, afinal?".
       Qualquer um que tivesse sido criado em Nairbi sabia como
eram os etopes: entregavam-se ao sexo quando dava vontade. Na nossa
rua, havia uma casa de jovens refugiados etopes, e todos diziam que
eles transavam como cabras, ou seja, o tempo todo. E os etopes, por
sua vez, insultavam os somalis, dizendo que no sabamos aproveitar a
vida, por isso ramos frustrados, por isso vivamos brigando. Esse tipo
de caricatura mostrava claramente como vamos os cristos, pois os
somalis e os etopes sempre se detestaram, desde o incio dos tempos.
       "Por que eu haveria de me descobrir, de deixar a pele nua?"
perguntei a Mina. "Voc no tem vergonha? O que espera conseguir
andando seminua por a? No sabe que isso afeta muito os homens?"
       "Uso esta saia porque tenho pernas bonitas", retrucou ela. "No
vo ser lindas eternamente, e quero aproveitar." Balanou uma delas na
minha frente. "Se os outros tambm gostarem, tanto melhor."
       Eu no conseguia acreditar. Disse: "Isso  exatamente o
contrrio de tudo que me ensinaram". E todas elas, pois a essa altura
as outras garotas estavam interessadssimas na discusso, interferiram:
"Mas por qu ?. Por que as muulmanas so to complicadas?".
       "Acontece que, se os homens virem mulheres vestidas como
vocs esto agora, com os braos nus e quase tudo  mostra, vo ficar
confusos e sexualmente tentados. Vo ficar cegos de desejo."
       As garotas caram na gargalhada, e Mina disse: "Duvido. Alm
do mais, e da se eles se sentirem tentados?"
       A essa altura, eu j estava lamentando, pois sabia no que aquilo
ia acabar, mas ainda argumentei: "A no conseguem mais trabalhar, os
nibus perdem a direo, instaura-se um estado de fitna total!".
       "Ento por que  que no estou vendo nenhum estado de caos
total aqui na Europa?"
       Era verdade. Bastava olhar  minha volta. A Europa funcionava
impecavelmente, cada nibus, cada relgio. No se detectava nem
sombra de caos. "No sei" respondi, sem jeito. "Deve ser porque esses a
no so homens de verdade."
       "O qu? Quer dizer que esses operrios holandeses grandalhes,
fortes, loiros, no so homens de verdade?" A essa altura, as etopes
estavam chorando de rir da idiota que eu era. Achavam que tudo aquilo
no passava de burrice islmica. Os maometanos vivamos nos gabando
de tanta coisa, mas a nossa cultura era uma grande frustrao sexual.
E quem eu achava que era, afinal, para rogar fitna ao mundo? Elas
foram amveis porque sabiam que eu no tinha culpa de me sentir
assim, mas no me pouparam.
       Eu me levantei, pus o vu e fui para a porta do bangal. Um
grupo de refugiadas bsnias alojadas mais adiante estava tomando sol.
Embora tambm fossem maometanas, estavam quase nuas, apenas de
shorts e camiseta, sem suti, de modo que os seus mamilos ficavam
quase  mostra. Ali perto, havia homens trabalhando ou conversando
com toda naturalidade, e nem as notavam. Fiquei muito tempo olhando
para elas, pensando: ser que h alguma verdade no que dizem as
etopes?
       Na manh seguinte, resolvi fazer uma experincia: sair sem vu.
Estava com a minha saia verde comprida e com uma tnica tambm
comprida; tomei o cuidado de levar o turbante na bolsa, para o caso de
surgir algum problema, mas tinha decidido no cobrir a cabea. Queria
ver o que acontecia. Sa suando frio. Aquilo era realmente haram e
tambm a primeira vez, desde os meus dezesseis anos, em que eu
pisava um espao pblico com o cabelo descoberto.
       Pois   no   aconteceu   absolutamente     nada.   Os   jardineiros
continuaram podando as sebes. Ningum teve nenhum ataque de
nervos. Se bem que ali s houvesse holandeses, portanto, talvez no
fossem homens de verdade. Passei por etopes e zairenses, e ningum
reparou; mas, afinal, aquela gente no era muulmana. Ento me
acerquei de um grupo de bsnios. Nenhum deles olhou para mim. Alis,
eu chamava menos a ateno do que quando estava de vu. No vi
nenhum homem perder a cabea.
       Pouco a pouco, nos dias subseqentes, abandonei o vu. Pensei
com meus botes: "Vou dizer a Al que estou tomando cuidado. No
fao mal a ningum". Ele no me fulminou com um raio. Cheguei 
concluso de que, quando o Alcoro mandava as mulheres se cobrirem,
queria dizer que elas no deviam chamar a ateno. De modo que eu
no podia estar pecando. Alis, no sei por qu, mas andar com o
cabelo ao ar livre fazia com que me sentisse um pouco mais alta.
       Dali por diante, meu nico cuidado foi ficar longe dos somalis.
Sabia que eles reconheciam facilmente uma compatriota. Um homem j
havia me abordado para perguntar qual era o meu cl. Usei o nome
novo, Ayaan Hisri Ali, e, no sendo darod, ele no detectou a mentira
imediatamente. No entanto, eu sabia que era s uma questo de tempo
para que me descobrissem.
       Um dia, as etopes disseram que um amigo delas ia lhes ensinar
a andar de bicicleta. Tratava-se de um refugiado etope que havia lhes
comprado trs bicicletas de segunda mo com os vinte florins que todos
recebamos semanalmente para as despesas pessoais. Iam passear no
vilarejo: seria uma aventura. Eu as acompanhei.
       Observando aquelas garotas montadas no selim, de saia
curtssima, farejei no ar o destrambelhado comportamento tipicamente
etope. Mesmo assim, tambm fiquei com vontade de andar de bicicleta.
Mas, ao tentar, com a minha saia comprida, s consegui ficar sentada
de lado. "Isso no  cavalo, sabe?" zombou o etope. "Voc precisa pr
cala. Por que no compra um jeans?"
         Eu acabara de receber cento e cinqenta florins para comprar
roupa. No dia seguinte, fui ao vilarejo com Mina e experimentei algumas
calas baratas. S as masculinas eram compridas o suficiente para me
cobrir as pernas, e acabei saindo com um enorme e largussimo jeans
de homem. No mostrava um centmetro da forma das minhas pernas,
e eu o usava com uma tnica que chegava  metade das coxas.
Ningum podia achar aquela roupa indecente. Ento tentei andar de
bicicleta. Ca muitas vezes, mas me senti livre.
         Comecei a me divertir muito. A cada dia, as etopes inventavam
uma coisa para fazer. Certa vez, me convidaram para ir  piscina.
Respondi: "No sei nadar, vou acabar me afogando", mas elas disseram:
"Deixe de bobagem", e a prpria administrao da piscina emprestava
maios. De modo que, menos de um ms depois de chegar  Europa, eu
me apresentei com um maio justssimo diante de uma multido de
refugiados, mulheres e homens.
         Confesso que estremeci. No estava preparada para aquilo.
Mesmo bracejando na gua, eu no parava de pensar em Al e nos
anjos que estavam me vendo l do alto. Em compensao,  minha
volta, nenhum homem parecia registrar a minha presena. De vez em
quando, um deles olhava para mim, mas em nenhum momento tive a
impresso de que ia acabar no inferno ou no fundo da piscina, afogado.
Os bsnios altos e a bela musculatura dos zairenses: eu me surpreendi
admirando-os tambm. Mas no cheguei a ter um ataque epilptico por
causa disso.
         No cessava de pensar em tais coisas, discutindo comigo
mesma, procurando justificar os meus atos. Precisava me cobrir porque
era excessivamente sedutora e ia desencaminhar os homens; at o
encanto de um perfume ou dos saltos altos, mesmo debaixo de um
hijab    preto,   provocava   um   intolervel   caos   de   luxria.   Mas
evidentemente isso no era verdade: tudo continuava exatamente como
antes.
         Eu no tirava os olhos das bsnias. Achava-as fascinantes,
porque os holandeses do centro de refugiados as chamavam de
"maometanas", como se ns outras no fssemos. Puxei conversa com
uma delas, que disse que era muulmana, sim, mas nunca tinha usado
vu nem turbante; alis, estava de camiseta. Tampouco lia o Alcoro;
nem sabia dizer BismAllah Al-Rahman Al-Raheem, "Em nome de Al, o
clementssimo, o misericordiosssimo". Eu no entendia como aquela
moa se achava qualificada para se dizer muulmana, mas tudo
indicava que, para ela, o isl no era uma f, e sim uma etnia. Coisa
que me pareceu estranhssima.
         No fim de agosto, chegou uma carta oficial da repartio
holandesa encarregada dos refugiados. Fiquei com o corao na mo; s
podia ser a notificao de que eu tinha sido rejeitada. Seria despachada
para o Canad ou Nairbi -- dava na mesma. No merecia o status de
asilada; estava tudo acabado. Quando Mina viu a minha cara, confessei
que havia mentido para as autoridades. Ela deu de ombros, dizendo que
tambm mentira; o campo estava cheio de gente morrendo de medo de
ser expulsa por causa das suas histrias fabricadas.
         Mina abriu a carta para mim. Era uma transferncia. Eu deveria
ir para Lunteren, um centro de longa permanncia, esperar a resposta
final.
         Escrevi para Haweya, que alugara uma caixa postal em East-
leigh. Dei meu endereo, pedindo-lhe que guardasse segredo. Ela
respondeu: "Aqui houve muita confuso quando voc sumiu. Papai me
pediu seu endereo. Eu me recusei a dar, e agora no nos falamos". E
prosseguiu: "O seu marido est na Alemanha  sua procura, e papai 
quem coordena daqui a operao de busca. Cabe a voc decidir se vai
fugir ou se encontrar com ele, mas aviso, caso voc no saiba, que
praticamente todos os osman mahamud da regio esto procurando
voc em toda parte. Tome cuidado" Pediu-me que lhe mandasse roupas
e um passaporte, pois tambm queria fugir. O meu pesadelo se
realizava: estavam me caando.
       Cheguei a Lunteren no fim de agosto de 1992. A estao
ferroviria era um prediozinho adorvel no centro de um vilarejo
calado de pedra e com relvados muito bem cuidados. Todo mundo era
branco e bem vestido, todo mundo parecia feliz.
       Viajei para l com outra moa, Rhoda, que se dizia somali, muito
embora o seu sotaque denunciasse a qualquer um a sua origem
djibutiense. O centro de refugiados ficava em meio a um bosque; no
tnhamos o que fazer a no ser andar. Estava escuro quando chegamos
quele enorme terreno repleto de casinhas sobre rodas, os chamados
trailers, todos pintados de verdes claros e escuros, e com um escritrio
de alvenaria branca.
       amos dividir um trailer com duas outras somalis, mas, quando
batemos na porta, no nos deixaram entrar. Ambas eram hawiye e
reconheceram o meu sotaque darod. No queriam nenhuma darod
morando com elas. O assistente social iraniano que nos acompanhava
as mandou abrir, mas elas no obedeceram. Ele se foi e, pouco depois,
retornou com uma colega holandesa, Sylvia, e dois policiais. Sylvia
ameaou arrombar a porta e transferir as duas se no acatassem as
normas do campo.
       Aquilo me pareceu uma ingenuidade. Eu lhe expliquei que os
hawiye e os darod estavam se destruindo mutuamente na Somlia, de
modo que era impossvel morarmos juntas naquela minscula casa de
bonecas. Mas Sylvia disse: "Isto aqui  a Holanda. Tratem de se ignorar.
Vocs so quatro mulheres adultas e vo conseguir".
       Por fim, elas abriram a porta. Constatou-se que uma das
hawiye, Yasmin, tinha uma av do cl isse mahamud, como a me do
meu pai. Expliquei que fora criada no Qunia e no era hostil ao seu
cl. Yasmin disse que tambm no tinha nada contra mim. Pouco a
pouco, ns nos entendemos e ficamos amigas.
       Yasmin no pretendia ir para a Holanda. Estava a caminho dos
Estados Unidos, com documentos falsos, quando a detectaram no
aeroporto de Amsterd. Ao ser presa, pedira asilo e, embora tivesse a
minha idade, tinha declarado aos funcionrios que era menor para
poder ficar no pas. Conhecia a lei.
       Ela no gostava da Holanda. Dizia que os holandeses a trataram
como criminosa no aeroporto. O pas fedia a estrume e a lngua era
horrvel. Chamava os holandeses de gaalo e de kufr. Em termos
somalis, ser gentil significava dar aquilo que a pessoa pedia. Portanto,
quando algum dizia no, educadamente e at explicando o porqu
desse no, Yasmin e as outras o interpretavam como arrogncia ou
racismo.
       Como todos os refugiados, eu era obrigada a me apresentar
semanalmente para que carimbassem o meu carto verde. O dia le de
setembro foi a minha primeira tera-feira em Lunteren, de modo que
naquela manh me apresentei no posto policial do centro de refugiados.
Quando me aproximei da escrivaninha, a policial olhou para mim e
desapareceu um instante atrs da mesa. Tornou a se levantar,
arrulhando em ingls "Oooh! Meus parabns!" e acenando um
documento rosado no lugar do verde. No entendi, mas ela me apertou
a mo, dizendo: "A senhora pode passar o resto da vida na Holanda se
quiser. Recebeu asilo. Agora vou ler os seus direitos".
       Suando, pensei: "Obrigada, Al, muito obrigada".
       A mulher explicou que no havia melhor status do que o A, que
eu acabava de receber. Na qualidade de asilada classe A, nunca mais
precisaria me apresentar para que carimbassem o meu documento.
Podia trabalhar ou receber auxlio-desemprego, podia comprar ou
alugar imveis, podia me matricular na universidade, tinha direito 
assistncia mdica gratuita e, depois de cinco anos no pas, podia me
naturalizar e at votar. Eu nem sabia que havia eleies na Holanda.
Votar para qu?, pensei. Tudo l funcionava com tanta perfeio.
       "Alguma dvida?", a mulher me perguntou, e eu disse: "Sim. Por
que a senhora est fazendo tudo isso?". Ela respondeu: "As autoridades
decidiram que a senhora tem motivos bem fundamentados para temer
ser perseguida no seu pas.  a lei".
         Deu-me uma passagem de nibus para Ede, onde eu tinha a
possibilidade de solicitar habitao ao municpio. Eram tantos os
refugiados em Ede que agora a cidade tinha listas de espera no
programa habitacional, mas eu poderia me inscrever e, enquanto
aguardava, continuar morando no centro de permanncia prolongada
de Lunteren. Ela pediu desculpas por isso. E eu poderia mesmo ir para
a universidade?, perguntei. A moa disse que sim, se bem que primeiro
tinha, evidentemente, que aprender a lngua. Sa de l levitando,
examinando a carteira de identidade rosada com a minha fotografia,
toda escrita no indecifrvel holands. Puxa vida, eu ia ficar naquele
pas, com aquela gente to simptica. Era um verdadeiro sonho.


         11. O julgamento dos ancios


         No comeo, tive uma grande sensao de alvio. Livre do
pesadelo de ser devolvida ao Qunia ou enviada de volta  Alemanha,
fiquei eufrica. Registrei-me em diversas reparties pblicas de Ede,
viajando constantemente de nibus; depois o Auxlio a Refugiados me
deu uma bicicleta usada. Comprei mais um jeans: no voltei a usar saia
comprida. Ia de bicicleta a todos os lugares.
         O meu primeiro objetivo era aprender holands. Agora que
estava asilada oficialmente, tinha o direito de fazer um curso, no centro
de refugiados, ministrado uma vez por semana por uma voluntria do
vilarejo. Mas uma vez por semana era pouco para mim; eu queria mais.
A tal voluntria, uma mulher abenoada, conseguiu convencer uma
escola de idiomas de Ede a me aceitar e ainda se disps a pagar as
aulas;    eu   lhe   restituiria   o   dinheiro   em   prestaes   semanais
economizadas da ajuda financeira que recebia. De modo que comecei a
pedalar trs vezes por semana at o meu curso de holands no
Midlands College, em Ede. Lembro-me de que as folhas estavam
mudando de cor, e eu adorava percorrer o bosque de bicicleta, com a
sensao de ter um propsito e uma sorte extraordinria.
         As cartas de Haweya relatavam as inmeras brigas com mame
e a ciso cada vez maior entre minha me e abeh, assim como pediam
roupas    insistentemente.    Contavam   que   os   somalis   de   Nairbi
hostilizavam muito a minha me, acusando-a de estar por trs do meu
desaparecimento. Ela se recusava a falar com quem quer que fosse: a
comunidade inteira -- a famlia de Farah Gour, minhas meias-irms,
Arro e Ijaabo, todo mundo, enfim -- estava convencida de que mame
havia planejado a minha fuga para se vingar do meu pai. Achavam-me
dcil demais para ter concebido sozinha um estratagema to ardiloso.
Eu me senti muito mal imaginando as coisas por que mame era
obrigada a passar.
         Estava comeando a esfriar. A chuva era incessante, o vento
sacudia os trailers e, l fora, geava durante a noite. Em um dia muito
mido para usar a bicicleta, fiquei esperando o nibus e senti tanto frio
que tive vontade de chorar.
         Numa tarde fria de novembro, no dia em que completei vinte e
trs anos, um refugiado iraniano ateou fogo no prprio corpo, no
refeitrio, bem quando eu estava indo para a fila do jantar. Como seu
pedido de asilo tinha sido recusado, ele se banhou em querosene e
riscou um fsforo: uma desvairada manifestao de desespero. Isso me
deixou desolada. Gente que merecia muito mais do que eu passava
anos aguardando naquele centro de refugiados e acabava recebendo
deciso negativa. Geralmente, as pessoas oriundas de pases envolvidos
em guerra civil eram aceitas na Holanda, quase sempre com status C, o
direito de ficar temporariamente por razes humanitrias. Mas aos
iranianos, aos russos, aos iraquianos -- a maioria dos que solicitavam
asilo -- era habitual negarem o direito de permanncia.
         Tive sorte e me sentia culpada por haver obtido to depressa o
status de asilada,  custa de mentiras, enquanto tanta gente era
rejeitada. Procurava auxiliar as pessoas; isso me dava a sensao de
que ainda era boa. Queria retribuir tudo aquilo de algum modo e pagar
a bondade com bondade, que era como eu compreendia o isl na poca.
Apresentei-me como voluntria no centro. Trabalhava uma vez por
semana no escritrio da lavanderia e na biblioteca. Sylvia, que
trabalhava no centro, me convidava para jogar vlei. Era divertido.
       Eu gostava de todos os funcionrios, e eles gostavam de mim.
Eu era til a eles porque falava ingls, a lngua franca do centro.
Sempre que um somali adoecia e no conseguia se fazer entender, ou
quando algum precisava de ajuda para preencher um formulrio, o
pessoal sabia que podia me chamar para servir de intermediria, o que
lhes poupava o trabalho de providenciar um intrprete oficial. Quando
havia problemas com um somali -- e sempre havia --, a mediadora era
eu. Quando as pessoas no queriam ser transferidas, envolviam-se em
brigas ou queriam alguma coisa -- eu era solicitada pelos prprios
somalis ou pela equipe.
       Por sorte, nenhum somali no centro era osman mahamud;
mesmo assim, olhavam para o meu jeans com indisfarvel hostilidade.
Para eles, era perfeitamente normal me repreender ou tentar me pr nos
eixos. Viviam me mandando cobrir o cabelo e usar saia comprida. Um
homem chegou a dizer: "Voc est envergonhando a todos ns com a
sua bicicleta. Quando voc chega, com as pernas abertas, a gente v a
sua genitlia".
       Respondi que estava usando a mesma cala que ele e que, se ela
deixava aparecer a minha genitlia, a de um homem devia ser mais
visvel ainda; e me afastei o mais depressa que as minhas pernas
permitiram. Sylvia comunicou que quem me ameaasse fisicamente
seria transferido, mas, excetuando isso, eu que tratasse de me
defender. "Os somalis aqui dependem da sua boa vontade" disse.
"Batem na sua porta e lhe pedem para traduzir quando querem alguma
coisa. Eles precisam de voc. Diga que no  da conta deles a roupa que
voc veste."
       Foi o que fiz. Usei a linguagem direta. E falava olhando-os
firmemente nos olhos. Era uma espcie de exerccio para aprender a
dizer essas coisas em voz alta.
       No comeo de dezembro, recebi uma carta do meu pai: estava
endereada ao centro de refugiados. Ele havia me localizado. Comeava
assim: "Meu querido fgado". Abeh tinha o costume de me chamar de
"fgado", o que era muito significativo na Somlia, pois ningum pode
viver sem o fgado. (Haweya era os seus olhos; Mahad, o seu corao.)
"No nosso jogo de esconde-esconde, finalmente a encontrei."
       A carta visava me persuadir a retomar o bom caminho, mas era
formulada de modo que eu pudesse faz-lo de cabea erguida -- e
deixando a sua honra intacta. Papai fingia acreditar que eu ainda tinha
planos de viver com o marido que ele escolhera para mim, que apenas
cometera um breve desvio. E dizia que precisava de trezentos dlares
para uma operao urgente na vista. "Embora voc ainda tenha de
receber bastante dinheiro, sinto que consegue levantar algumas
centenas de dlares, pois  muito influente", escreveu.
       Ele sabia que eu ficaria aflita ao receber essa notcia: sua vista,
sempre to fraca, agora estava falhando. Imaginou que eu me atiraria
imediatamente nos braos de Osman Moussa a fim de conseguir o
dinheiro: de que outro modo ia levantar aquela importncia? O marido
era o provedor da mulher -- e, se necessrio, da famlia da mulher.
Abeh terminava a carta assim: "A sua casa ser uma fonte de honra ou
uma fonte de desgraa para mim... Fique com Deus". Ele me conhecia.
Estava convencido de que, para salvar sua vista, eu concordaria em
voltar para o meu marido.
       Vrios dias depois, Osman Moussa telefonou para o centro de
refugiados. Foram ao trailer me avisar que era uma ligao do Canad.
Fiquei com as pernas bambas. Fui at o telefone, falei com ele e menti
outra vez. Inventei uma histria. Fingi que no tinha fugido, apenas
queria passar algumas semanas na Holanda com a minha querida
amiga Fadumo. Ele me recriminou -- "Voc no pode sumir assim" -- e
me mandou voltar  Alemanha o mais depressa possvel. Eu disse que
sim. Depois falei na carta de abeh. Osman Moussa contou que estava
em contato permanente com ele e que ia cuidar disso. Parece que
enviou o dinheiro.
       Agora eu sabia que era apenas questo de tempo: o meu pai, o
meu irmo e o meu marido conheciam o meu endereo. Eu no tinha
para onde ir. Cedo ou tarde chegariam para me buscar. Fiquei com
medo -- medo da violncia fsica que provavelmente me aguardava. Mas
no tinha a menor inteno de capitular com eles. Aquele centro, na
pequenina Ede, era a minha nica chance de ter vida prpria, e eu no
ia deix-la escapar. De algum modo, pensei, precisava fugir daquela
arapuca.
       Em uma fria tarde de janeiro, Yasmin e eu fomos nadar na
piscina coberta no camping vizinho, reservada para as mulheres uma
vez por semana. No sabamos nadar, mas ficamos brincando, gritando
e rindo na gua. Quando voltamos para casa, fui diretamente para o
chuveiro dar um jeito no cabelo, que estava ficando impossvel. Fazia
pouco tempo que o havia cortado bem curto para minimizar o trabalho.
As duas estvamos em meio a uma conversa ruidosa e alegre, com o
rdio em alto volume, quando bateram na porta com fora. Ao abrir, dei
de cara com Osman Moussa ao sol do fim da tarde. Estava
acompanhado de trs homens.
       Fiquei paralisada, de cabelo desalinhado, a pele escurecida pelo
ar livre, de jeans, sem saber o que dizer. Aquilo me fez voltar a ser a
Ayaan antiga: a menina dcil, compelida durante anos pelo hbito de
oferecer hospitalidade. "Asalaam Aleikurr) saudei. "Vocs no querem
entrar?"
       Afastei-me   para    lhes   dar   passagem,   e   aqueles   quatro
homenzarres encheram o espao do nosso trailer. Eu no tinha a
menor idia do que fazer. Peguei a garrafa trmica e disse: "Sentem-se,
vou fazer um ch para ns". E, refugiando-me no quarto de Yasmin,
expliquei que legalmente aquele homem era o meu marido. Pedi a ela
que recebesse os visitantes; eu voltaria o mais depressa possvel. Antes
de sair, pus um turbante.
       Em primeiro lugar, procurei Hasna, uma somali de quarenta e
poucos anos que morava no trailer vizinho; embora ela fosse muito
intrometida, eu sabia que compreendia o cdigo de conduta e se
comportaria bem. Hasna disse que ia preparar o ch para os visitantes
na casa dela -- era maior -- e comeou a trabalhar. Uma vez
encaminhado o meu dever de anfitri, fui procurar Sylvia e lhe contei
tudo. Confessei que mentira para obter o status de asilada. Contei que,
na realidade, estava fugindo de um casamento arranjado pelo meu pai.
Agora o meu marido acabara de chegar para me levar embora.
        Imaginei que Sylvia fosse dizer que eu no podia continuar na
Holanda, que deveria retornar ao Qunia ou viver com aquele homem.
Mas ela disse: "O que voc fez para obter o status de asilada  problema
seu. Guarde isso para voc. Quanto a esse homem, se voc no quiser ir
para o Canad, diga-lhe que no vai. Mesmo sendo seu marido, ele no
pode obrig-la a ir a lugar nenhum. Se ele ficar violento, chamo a
polcia".
        Voltei ao meu trailer me sentindo muito mais segura. Hasna teve
a sensibilidade de levar consigo Yasmin e os trs somalis, deixando-me
a ss com Osman Moussa. Com um largo gesto de desprezo, ele
abarcou a casinha minscula onde eu morava. "Ento  isto?",
perguntou com sarcasmo. " isto que voc queria?"
        "Sim,  isto", respondi.
        "Agora voc vem comigo?"
        "Nao, no vou."
        Eu estava calma. No houve gritos nem lgrimas; no houve
drama. Sabia que, para Osman, eu tinha me transformado em um
enigma, mas ele no era nenhum mistrio para mim. Nos seus olhos,
no havia seno arrogncia e desdm. Osman estava oferecendo a lua a
uma garotinha tola que preferia morar em um campo miservel, entre
desconhecidos. Achava que tinha autoridade sobre mim, que era o meu
dono. Mas no, pensei c comigo. Eu sabia que tinha direitos naquele
pas. Propus que nos reunssemos aos outros no trailer de Hasna e
tomei a dianteira.
        Quando chegamos l, Hasna disse: "Deixem, vou falar com ela".
Levou-me para o quarto. "Voc ficou louca?", perguntou. " burra?
Retardada? Esse homem  bonito e rico. Que mais voc quer? O que
espera da vida?"
          Eu disse: "Logo vou conseguir alugar uma casinha para mim.
Vou trabalhar".
          "Por que est fazendo isso com voc?", espantou-se Hasna. E
acrescentou que eu seria amaldioada, ficaria  merc da pobreza, da
doena e de trinta danaes diferentes. Eu a deixei concluir e ento
disse: "Para mim chega por ora".
          Por fim, Osman Moussa concordou em ir embora. Era evidente
que no sabia o que fazer. Eu me sentia a salvo na Holanda, num
centro que contava com seguranas que no deixariam ningum me
forar     a   sair   a   contragosto.   Estava   nervosa,   mas   tambm
inesperadamente confiante.
          Decidi enfrentar minha famlia. Descobria uma fora interior.
Havia testado a minha autoconfiana e me sentia capaz. Tornara-me
resistente e tinha descoberto o imprio da lei. L tambm havia
predadores potenciais, mas eu era capaz de evit-los. Podia pedir
socorro  polcia e a Sylvia. Ela conhecia a minha histria e no
reprovava o que eu tinha feito; pelo contrrio, estava disposta a me
ajudar.
          Dias depois, Osman voltou. Disse que havia consultado meu pai
e que os dois decidiram convocar um tolka, um encontro dos nossos
parentes mais velhos e mais ilustres. O tolka se reuniria no centro de
refugiados no dia 26 de janeiro. Concordei.
          Nos dias que se seguiram, praticamente todas as darod do
campo foram ao meu trailer tentar me convencer a ir para o Canad.
Insistiam em dizer que eu estava cometendo o maior erro da minha
vida. Meu pai tinha arranjado um partido e tanto para mim. Qualquer
uma delas daria tudo para ter a metade da minha sorte. Sozinha na
Europa, eu no seria ningum. Contaram-me histrias povoadas de
espritos, que terminavam em mortes horrveis, e garantiram que os
djins seriam atrados se eu desobedecesse. Citaram todos os casos, na
histria recente da Somlia, de moas que fugiram de casa e se
tornaram prostitutas, doentes, estreis, indignas de se casar -- mesmo
porque, pense bem, voc j est com vinte e trs anos, mais jovem no
h de ficar.
       Houve uma verdadeira campanha espontnea de presso de
toda aquela gente que nem me conhecia. Eu me limitei a escutar. J
sabia o que fazer.
       Dois dias depois, Hasna voltou ao meu trailer. Embora fosse do
subcl ogaden, tinha sido casada com um osman mahamud; isto fazia
dela a minha parenta mais prxima no campo, alm de ser minha
vizinha. Mandou-me trocar de roupa: a reunio do cl seria no seu
trailer depois do jantar.
       Na noite de 26 de janeiro, Osman Moussa chegou com oito
ancios do osman mahamud e dois macherten; o numeroso grupo de
homens se aglomerou diante do trailer de Hasna, no escuro. Muito
embora estivssemos em solo holands, aquela seria uma reunio real e
formal dos ancios do nosso cl. Devido  grande vergonha que eu
havia causado, a famlia osman mahamud no ia permitir que eu
decidisse o meu futuro sozinha.
       Hasna e eu os cumprimentamos. Osman procurou seguir o
procedimento ao p da letra. Alguns dos homens presentes eram
grandes nomes, gente que eu nem sabia que estava na Europa: os
patriarcas da minha famlia, a nobreza do osman mahamud. Tnhamos
em comum um antepassado da quinta ou da oitava gerao. Inclusive,
um dos presentes era um boqor, descendente direto do rei para o qual o
meu av Magan havia combatido.
       Eu      tinha   a   inteno   de   observar   os   cdigos   de   bom
comportamento durante o confronto que me aguardava. Mas nem por
isso vesti a saia comprida. Fui de jeans e de tnica. E no cobri o
cabelo com o turbante. A indumentria estava correta, no expunha
minha pele -- mas transmitia uma mensagem clara: as coisas tinham
mudado.
       Os homens precisaram se curvar para entrar no acanhado
espao; instalaram-se no banco e nas cadeiras, todos os rostos
mergulhados na sombra projetada pela vela de Hasna. Abdellahi
Moussa Boqor, o prncipe herdeiro de todos os osman mahamud da
Somlia, abriu a reunio. Era majestoso, augusto: sua autoridade
inundava o pequeno trailer. Passou meia hora falando. Primeiro exps o
procedimento que a reunio adotaria, depois discursou sobre os valores
do cl. Elogiou o meu pai. Lembrou o quanto o casamento era precioso,
o quanto a nossa honra e o nosso nome eram importantes. Dirigiu-me
um apelo: o pas estava se desintegrando, aquilo no era coisa que ns,
dos cls de alto nvel, devamos fazer com os outros. Quando ele
concluiu, outro homem tomou a palavra. Os oito ancios osman
mahamud foram se revezando conforme a hierarquia.
        Permaneci calada; com o corpo aprumado, bebia o ch
segurando a caneca com as duas mos. Transgredira a regra mais
sagrada do cl -- tinha marcado o meu pai com um estigma infamante,
irreparvel --, mas sabia me comportar. No ia ser grosseira. No
desceria ao nvel do histerismo ou do insulto. Estava sentada como
convinha, os ps na posio correta, e olhava para a boca dos homens,
no para os olhos, o que seria uma insolncia -- s de vez em quando
erguia a vista, acenando a cabea, para mostrar que estava prestando
ateno. Sabia que aquele era o meu julgamento. O que estava em jogo
era o meu direito de governar a minha prpria vida.
        Abdellahi Moussa Boqor disse: "Agora me parece que o prprio
Osman    Moussa   deve   se   manifestar".   O   meu   marido   discorreu
demoradamente acerca da honra e da famlia, acerca do cl e da guerra.
Admitiu que no me conhecia; por excesso de autoconfiana, talvez, no
empreendera nenhuma averiguao, havia tomado tudo por lquido e
certo. Mas agora, disse, estava realmente disposto a me conhecer: quem
eu era como indivduo, no apenas como filha do meu pai.
        Ento Adbellahi Moussa Boqor se dirigiu a mim. Eu ainda no
tinha dito uma palavra. "Voc entende que esta  uma reunio formal,
embora no estejamos no lugar adequado?" Fiz que sim. Ele disse:
"Agora cabe a voc pensar na resposta. No podemos aceitar que diga
sim e depois torne a desaparecer em um pas qualquer. Se disser sim,
deve ser com sinceridade. Sua resposta ser definitiva". Tornei a
balanar a cabea.
        Ele props: "Vamos fazer uma pausa para que voc pense um
pouco. Estamos todos dispostos a voltar amanh para ouvir a sua
resposta, ou ento nos reuniremos na minha residncia ou em uma
casa prxima". Eu sabia que tinha chegado a minha vez de falar. E
disse: "J tenho a resposta".
        Encarei-o: "E a resposta  no". Fiquei surpresa comigo mesma,
estava to calma e determinada. Nunca me sentira to bem na vida. E
acrescentei: "No quero ser casada com Osman Moussa, embora o
respeite e embora ele nunca tenha me maltratado.
        Entendo perfeitamente o que vocs esto fazendo por mim, sei
que  extraordinrio. Tambm entendo que a minha resposta 
definitiva".
        Boqor ficou um momento calado. Era evidente que estava
perplexo. Por fim falou: "Posso fazer algumas perguntas?" Concordei.
Ele perguntou: "Osman Moussa foi violento?", e respondi: "No. Sempre
foi corretssimo em tudo"
        " sovina?"
        "No, tem sido muito generoso."
        "Voc sabe alguma coisa de Osman que no sabemos?"
        "Eu mal o conheo."
        "H outro homem?"
        Eu disse: "No".
        A cada pergunta, ele me oferecia uma oportunidade de me
explicar de modo a justificar o meu comportamento e a abrandar a
mcula na minha honra e no bom nome do meu pai. Mas eu estava
decidida a no mentir, a no dizer que Osman Moussa havia me
magoado ou enganado, fosse l como fosse. Seria muito desleal da
minha parte. Eu apenas no o queria.
        Enfim, Abdellahi Moussa Boqor indagou: "Ento por que voc fez
o que fez?".
       Demorei um pouco para responder, mas ento as palavras
simplesmente saram. " a vontade da alma", disse. "No se pode coagir
a alma." Usei uma linguagem grandiloqente, no a que se esperava de
uma mulher, muito menos de uma mocinha de vinte e trs anos.
Abdellahi Moussa Boqor me encarou e disse: "Respeito a sua resposta.
Acho que todos devemos respeit-la". Voltou-se para Osman: "Voc a
aceita?"
       "Preciso aceitar."
       Ento o prncipe herdeiro disse a todos os presentes que a
aceitao de Osman devia ser considerada honrosa e corajosa, e no
faria seno favorecer ainda mais a sua reputao de sbio.
       Abraou Osman Moussa e lhe deu tapinhas nas costas. Todos os
outros o imitaram.
       Eu me senti muito mal com o que havia feito a ele. Aquele pobre
homem no tinha culpa nenhuma. E disse: "Sabe, um dia vou pagar a
despesa que voc teve com a passagem e tudo mais" porque isso me
incomodava.
       Osman Moussa ficou ofendidssimo: "Alm de tudo que voc j
fez, isso  o mesmo que pr sal na ferida". Pelo cdigo de honra, no era
realmente necessrio, mas eu no tinha inteno de ofend-lo. No me
restou seno agradecer.
       Ento todos os homens se levantaram e, um aps outro,
seguraram com ambas as mos a minha. E saram. Foram muito
respeitosos. No houve violncia. Somos osman mahamud, no rabes,
e os osman mahamud raramente batem nas mulheres. Mas, olhando
para fora e vendo-os se afastarem na escurido da noite, entendi que
tinha feito algo que nunca, nunca mais, poderia ser desfeito. No estava
arrependida, mas sabia que me divorciara de tudo quanto era
importante e significativo para a minha famlia.
       Quanta coisa mudara em um espao de meses! Em Nairbi, eu
no conseguira defender o meu direito de recusar aquele homem. Tinha
chegado a dizer a meu pai que no queria casar com ele, mas eu fora
incapaz de agir para evit-lo. Se o fizesse, seria deserdada, banida,
privada da proteo invisvel do cl. A minha me e a minha irm
tambm seriam punidas, ainda que com menos rigor. Eu passaria a ser
vista como uma caa, como Fawzia e outras somalis que eram sozinhas:
esmolando um teto, vtima potencial de qualquer predador. No sei de
onde tiraria foras para fazer isso.
       Mas agora eu era asilada. Tinha o direito de ficar na Holanda e
sabia que gozava de muitos outros direitos. Ningum podia me obrigar a
ir aonde eu no quisesse. Aquele cartozinho cor-de-rosa que me
outorgava o status de asilada mudava tudo. Agora eu sabia que ia dar
um jeito de reunir coragem para continuar a desafi-los.
       No entanto, sentia-me arrasada de tanta culpa. No consegui
dormir naquela noite, pensando no que eu tinha feito ao meu pai.
       Na manh seguinte, bem cedo, no dia 27 de janeiro, fui para o
meu quarto e escrevi a carta mais difcil da minha vida. Comeava
assim: "Em nome de Al, o clementssimo, o misericordiosssimo", e
prossegui:
       Meu querido pai,
       Com todo respeito, vou diretamente ao que interessa para lhe
dizer que sou uma decepo para voc e decidi me divorciar de Osman
Moussa Isse. Todos os pedidos de desculpas ou de perdo no o fariam
se sentir melhor, mas s lhe peo que me entenda e que saiba o quanto
lamento. Claro que no espero que seja compreensivo comigo, mas foi
isso que aconteceu.
       Osman telefonou para voc e, seguindo o seu conselho,
submeteu a questo  ateno dos ancios (tolka): ns nos reunimos e
chegamos a um acordo pacfico e honrado (se  que h alguma coisa
honrada nesta situao). O acordo  que haver DIVRCIO. Sinto
muito, papai, mas  assim. Voltarei ao Qunia assim que tiver dinheiro
para a passagem e assim que me devolverem o visto. Por ora, vou
estudar.
       Papai, sei que voc est triste comigo, mas, por favor, responda
e, quando a raiva passar, procure me entender e me perdoar. Talvez
seja pedir demais, mas preciso da sua bno.
         Com todo amor da sua filha Ayaan
         Cerca de uma semana depois, recebi uma carta do meu pai com
carimbo de 26 de janeiro, ou seja, da noite em que o tolka se reunira.
Decerto Osman havia lhe telefonado. "Querida Ayaan", dizia.
         No pude acreditar no que Osman me contou a seu respeito. Se
for verdade, voc me tornou vil e desgraado, assim como  nossa
famlia, alm de me causar dor e tristeza. No consigo rezar nem dormir
desde que Osman telefonou. Olhe, Ayaan, no agento mais esta
situao. Portanto, ou voc tem a bondade de obedecer a seu marido,
ou vou ser obrigado a ir para a Holanda, e ento ns dois vamos decidir
a questo cara a cara.
         Eu me senti violentada pelo dio dele, pela forma como eu
prejudicara a sua reputao. E fiquei realmente com medo: se fosse 
Holanda, meu pai era capaz de me bater, talvez at de me matar. Eu o
envergonhara e sabia que ele tinha que me castigar.
         Quinze dias depois da reunio do cl, chegou outra carta de
papai. Estava rabiscada nas folhas da que eu lhe enviara em 27 de
janeiro: com tinta vermelha, a que se usava para escrever aos inimigos.
Na primeira pgina, ele dizia: "Como no vou abrir as suas cartas, no
adianta me escrever". No outro lado, por cima da minha assinatura,
dizia:
         Querida raposa sem-vergonha,
         Voc no precisa de mim, e no preciso de voc. S peo que Al
arruine a sua vida assim como voc arruinou a minha. Amm! Esta  a
ltima mensagem que recebe de mim, assim como a sua carta foi a
ltima que aceitei de voc. V para o inferno! Fique com o diabo.
         Acrescentou em furiosas maisculas: "QUE AL CASTIGUE A
         SUA VIGARICE. AMM DO SEU OTRIO.'".
         O medo de que o meu pai me matasse se tornou menos agudo.
Eu j estava morta para ele. E, embora continuasse fisicamente intacta,
sentia como se tivessem me chutado o estmago. Era uma renegada.
         Comprei um carto telefnico e liguei para a famlia indiana que
morava na casa vizinha  nossa em Park Road. Pedi para falar com
Haweya. Precisava muito dela. Foi a primeira vez que conversamos
desde a minha partida. Ela disse que tinha lido minha carta a abeh e
que se orgulhava de mim. Mas tambm lamentava a minha sina.
Recomendou cuidado: era possvel que abeh me procurasse. Sua clera
incutia medo at mesmo nela.
       Eu lhe pedi que levasse mame  casa dos vizinhos na semana
seguinte. Queria conversar com ela tambm. E supliquei  minha irm
que tentasse convenc-la a no me repudiar.
       Quando ouvi a voz de mame, havia tanta interferncia na linha,
ela parecia estar em outro planeta: "Ento voc fez mesmo o que eu
desconfiava que ia fazer". Ergueu a voz: "Sabe como esto me tratando
aqui?". Respondi: "Haweya me contou". Ela disse: "Voc cometeu um
grande erro, mas continua sendo minha filha". Prosseguiu: "Seu pai
est furioso. No tem medo de que ele a amaldioe? A maldio do pai 
mais poderosa do que a da me".
       Respondi: "S nos resta esperar para ver". Mame me desejou
sorte antes de desligar. Foi muito meiga. Prometeu voltar a conversar
comigo. Ento a linha caiu.
       Era como se eu estivesse vivendo o derradeiro episdio da minha
vida. Tinha deixado meu pai em apuros e, agora, decepcionava tambm
minha me. Pensei em morrer e despertar no outro mundo, onde
ningum se esconde do julgamento de Al. Os meus pecados no
tinham fim. Eu envergonhara meus pais, havia rejeitado um marido
legtimo, descuidava das oraes dirias; usava roupa de homem e
tinha cortado o cabelo. Com toda certeza, o livro das ms aes escrito
pelo anjo do meu ombro esquerdo ia pesar muito mais do que o magro
volume dos atos bons. O meu pai me amaldioara, e agora eu estava
perdida.


       12. Haweya


       Passei muitos meses deprimida por causa da carta do meu pai.
A nica coisa que me restava fazer era seguir adiante, sozinha, no rumo
que eu havia escolhido. O tempo comeou a melhorar pouco a pouco,
assim como o meu domnio da lngua holandesa. O pessoal do centro de
refugiados me estimulava a traduzir do somali diretamente para o
holands, sem passar pelo ingls. E tinham a pacincia de corrigir os
meus erros. Era como andar de bicicleta na rua -- eu percebia que
estava melhorando.
         Sylvia era quem mais me incentivava. Dizia que eu tinha futuro.
Podia solicitar ao governo a equivalncia do meu diploma queniano ao
do ensino mdio holands, o que me permitiria seguir estudando e
talvez at me habilitasse para o curso universitrio que eu queria muito
fazer.
         Um dia, acompanhei uma jovem somali ao hospital para uma
consulta com o ginecologista. O mdico me pediu que lhe explicasse que
era preciso tirar a roupa para que ele lhe examinasse o tero com um
comprido instrumento prateado. Ela disse: "Tudo bem, mas duvido que
ele consiga ver o meu tero".
         Compreendi: a moa era totalmente fechada, nada mais do que
uma cicatriz.
         Tentei informar o mdico, mas ele se limitou a retrucar: "Faa o
que eu disse". Mas, quando a garota se deitou na maa, o homem olhou
entre as suas pernas e retrocedeu, chocado, deixando escapar um
palavro. Tirou as luvas com raiva, pois nenhum instrumento de ao
entrava ali. A jovem no tinha vulva, apenas uma lisa superfcie de
tecido cicatrizado.
         Era o famoso farooni, uma exciso to extrema que extirpava
inteiramente a genitlia, transformando-a em uma dura faixa de pele
escura. Eu nunca tinha visto algo assim -- em geral, s as meninas
isaq do norte eram mutiladas daquele modo --, mas sabia do que se
tratava.   O    ginecologista   pensou   que   ela   tivesse   sofrido   uma
queimadura. Toda a equipe mdica ficou revoltada ao saber do que se
tratava. E comecei a desconfiar que a clitorectomia era uma coisa
inusitada na Europa.
         Em maio de 1993, chegou uma carta oficial: eu tinha onde
morar. A prefeitura de Ebe me oferecia um quarto-e-sala. Eu passaria a
receber auxlio-desemprego para pagar o aluguel.
         Fiquei contente com a oportunidade de sair do centro. Os
refugiados brigavam muito por causa de poltica ou de mulher, e o diz-
que-diz era permanente. Mas, ao receber a notcia, Yasmin comeou a
chorar: "Quer dizer que voc vai me largar aqui?".
         Seu pedido de asilo tinha sido recusado. Mas, como ela se
declarara menor de idade, foi autorizada a permanecer no pas. Era
obrigada a morar no centro de refugiados e a freqentar uma escola
especial      para   estrangeiros,   que   ela   detestava.   Perguntei   ao
departamento de habitao se ela podia morar comigo, mas a resposta
foi negativa: era um quarto-e-sala. Se eu quisesse um apartamento de
dois quartos, teria que aguardar.
         Pensei nisso. Eu tinha sido muito egosta. Se no fosse leal a
Yasmin     agora,    arriscava   a   me    transformar   em   uma    pessoa
definitivamente m. Desisti do quarto-e-sala e solicitei um apartamento
maior.
         Comecei a fazer amizade com o pessoal que trabalhava no centro
de refugiados. Hanneke, uma conselheira poucos anos mais velha do
que eu, apresentou-me  sua amiga Ellen, que tinha a minha idade e
estudava assistncia social na faculdade vocacional crist. Alugvamos
vdeos, amos passear e organizvamos pique-niques -- todo tipo de
criancice que eu adorava. Elas me apresentaram aos amigos e aos
familiares.
         Hanneke e Ellen eram crists e levavam a religio a srio, mas
nem por isso deixavam de freqentar bares. Na primeira vez em que
Hanneke me convenceu a acompanh-las, pensei que Al fosse me
fulminar de vez. Fazia muito tempo que no rezava, mas entrar em um
bar -- isso era verdadeiramente haram. Alis, resultou que o tal bar era
apenas um lugar em que as pessoas passavam horas de p, em meio a
um batalho de outras, consumindo lcool e conversando aos berros
por causa da msica altssima. Eu no conseguia entender bem o
porqu daquilo. O costume era deveras curioso.
       No entanto, continuei freqentando o local, j que as outras
gostavam. Embora no bebesse, s vezes, ao voltar para casa, eu me
sentia culpada. Como era possvel ir a lugares como aquele, lugares que
outrora pareciam to srdidos? Dizia para mim mesma: "No fiz nada
errado. No seduzi nem encorajei ningum, s tomei refrigerante,
vestindo jeans. No h nenhum mal nisso". J que eu no fazia nada
errado, Al no tinha por que me castigar.
       No fundo, no entendia por que as pessoas preferiam bater papo
em   um   lugar   to   ruidoso.   Ede    era   uma   cidadezinha   bonita,
conservadora, protestante, um lugar sossegado e seguro. Ningum se
comportava mal nos bares. O pessoal bebia, e os que estavam em grupo
formavam pequenos crculos e se punham a gritar, uns com os outros,
ao som da msica. Ao decidir a que bar ir, as pessoas sempre escolhiam
o mais lotado. Eu no via lgica nisso.
       Para mim era difcil decifrar os holandeses. Eu me imaginava em
casa, dizendo a Haweya: "Eles so perfeitamente normais durante o dia,
mas  noite tm hbitos esquisitssimos".
       Hanneke queria que eu conhecesse mais a Holanda. Num fim de
semana de primavera, resolveu me levar a Amsterd. Passamos o dia l,
passeando entre as casas elegantes de Herengracht, o Canal dos
Cavalheiros, com suas pontezinhas delicadas. Aparentemente, toda
cidade holandesa tinha um centro antigo e adorvel e se empenhava
muito em preserv-lo. Qualquer um podia sair  noite sem ser
molestado por ningum; tudo era organizado e limpo. Tudo parecia
funcionar to bem naquele pas, ao passo que, a algumas horas de
distncia, no havia seno conflito, sujeira e sofrimento.
       Hanneke tambm me levou ao Bairro da Luz Vermelha, perto da
Estao Central, s para me mostrar como era. Recordo que senti como
que uma pontada no estmago ao ver aquelas mulheres nas vitrines,
completamente nuas ou com roupas escassas e obscenas. Aquilo me fez
pensar nas peas de carne penduradas em ganchos nas bancas de
aougueiro no mercado de Kariokor. Era uma explorao abominvel
que me causava arrepios. Hanneke no conseguiu me convencer de que
aquelas mulheres estavam l porque queriam, ganhando a vida
honestamente.
       Mas aquele lado desagradvel da sociedade parecia no ter nexo
com a Holanda que eu conhecia. Os holandeses comuns no eram
depravados assim. Talvez eu tivesse mais contato com eles do que a
maioria dos estrangeiros, mas estava convencida de que no eram os
monstros licenciosos que muitos refugiados soma-lis imaginavam.
       Ellen e eu conversvamos muito sobre a f crist. Sua relao
com Deus era de dilogo e amor, coisa muitssimo diferente do temor e
submisso que me ensinaram a demonstrar. Ela era de famlia
protestante   fundamentalista,      de   uma    rigorosa   seita   holandesa
reformada. Aos domingos, seus pais iam duas vezes  igreja, e a
obrigavam a usar saia comprida; Ellen estava  procura de um modo
prprio de se relacionar com Deus, e isso a perturbava. No entanto, a
sua f era muito menos restritiva que a do isl que eu conhecia. Alis,
parecia-me demasiado agradvel e conveniente para ser verdadeira.
       Ela dizia que s rezava quando tinha vontade. Seu Deus era
uma bondosa figura paterna, muito embora, curiosamente, no a
ajudasse diretamente -- preferia que ela ajudasse a si prpria. "Na sua
religio, h muito inferno", dizia, "e vocs s rezam porque so
obrigados.  uma relao senhor-escravo."
       Ellen tinha namorado. Estava apaixonada por um refugiado
iraniano, Badal Zadeh. Mas queria casar virgem. Ela beijava o
namorado ostensivamente na boca, mesmo na frente dos outros. "Mas
isso  normal!" explicava-me. E era verdade, os jovens viviam fazendo
isso na rua. Coisa que notei assim que sa do avio, e todos os somalis
disseram que aquele era o comportamento tpico dos gaalos imundos.
Entretanto, Ellen continuava querendo ser virgem!
       Um     dia,   ns   quatro   estvamos    assistindo    televiso   no
apartamento que Hanneke e Ellen dividiam em Ede. O programa se
chamava Voc s precisa de amor. Holandeses e holandesas fa-' ziam
declarao de amor a algum na frente do pas inteiro, e o apresentador
bancava o cupido. Depois dos comerciais, os espectadores descobriam
se esse amor era correspondido ou no. Yasmin e eu achamos aquilo
uma barbaridade.
       Comecei a falar com Ellen em amor, namoro e virgindade. Para
mim, somali que era, ser virgem significa ser mutilada, suturada
fisicamente. Eu j percebera que os holandeses no conheciam essa
prtica, por isso perguntei: "Como seu marido vai saber se voc 
virgem ou no? No h um teste?".
       Ela respondeu: "Claro que no. Ele vai saber que sou virgem se
eu disser que sou". Minha pergunta lhe pareceu estranha, de modo que
ela indagou: "Vocs fazem algum teste?" Contei: "Eles nos cortam e nos
costuram, de modo que a pele fica fechada, e quando o homem nos
penetra, sai sangue. No h possibilidade de fingir".
       Ellen e Hanneke ficaram horrorizadas. Quiseram saber: "Por
acaso fizeram isso com vocs?" Yasmin e eu dissemos que sim, e
Yasmin acrescentou: "Quem no for cortada no pode ser pura, pode?"
Arregalando os olhos azuis com muita inocncia, Ellen perguntou:
"Pura de qu?"
       Pura de qu? Pura de qu, afinal? Fiquei muito tempo pensando
nisso e descobri que no tinha resposta. No era somente por causa do
isl que nos cortavam: nem todas as maometanas se submetiam 
clitorectomia. Mas, na Somlia e em outros pases muulmanos, era
evidente que o culto islmico  virgindade a incentivava. Eu no sabia
de nenhum fatwa denunciando a mutilao genital da mulher; pelo
contrrio, a supresso da sexualidade feminina era importantssima
para os imames. Boqol Sawm e os outros maalims no cessavam de
afirmar que as mulheres precisavam tomar conscincia do seu poder
sexual: tinham que se cobrir totalmente e ficar dentro de casa. Eles se
detinham nos menores detalhes, mas nunca disseram que era errado
mutilar e costurar as meninas.
       De que nos queriam purificar? Algum era o nosso dono. Aquilo
que eu tinha entre as pernas no era meu. Eu estava marcada.
          Descobri que no achava resposta para dar. No me restou
seno encarar Ellen e dizer: " a nossa tradio". E, sendo uma crente
sincera, ela perguntou: "Mas voc acredita que Deus a criou, no
acredita?" Respondi que sim, claro. Ellen disse: "Neste caso, se Deus
nos criou tal como somos,  porque Ele quer que sejamos assim. Por
que no ficar assim? Por que a sua cultura se acha no direito de
aperfeioar a obra divina? Isso no  blasfmia?" Fiquei olhando para
ela. Havia uma boa dose de verdade nas suas palavras.
          Ellen contou que as holandesas no eram circuncidadas,
tampouco os holandeses. Yasmin fez cara de nojo. E, assim que samos
de l, comeou a esfregar a pele. Em casa, passou horas se lavando.
"Fiquei no apartamento delas e comi a sua comida, e elas no foram
purificadas!" disse. "So sujas, este pas  uma imundcie de ponta a
ponta."
          Fiquei pensando. Ellen no era suja, nem a Holanda. Alis,
aquele pas era muito mais limpo do que a Somlia ou qualquer outro
lugar em que eu havia morado. No conseguia entender por que Yasmin
achava a Holanda to ruim, ainda mais com aquele povo nos tratando
com tanta doura e hospitalidade. Eu estava comeando a entender que
o   sistema    de     valores   holands   era   mais   coerente   e     sincero,
proporcionava mais felicidade a mais gente do que o sistema em que
fomos criadas. Desgraadamente, muitas das idias holandesas no
condiziam com o islamismo.
          Respondi:    "Sabe    de   uma   coisa,   Yasmin?       bom     ir   se
acostumando. Porque o seu professor, na escola,  incircunciso, o
pessoal que prepara o seu almoo  incircunciso. Para continuar
completamente pura aqui, voc vai ter que ficar dentro de casa, sem ter
contato com ningum".
          Mas Yasmin disse: "H uma diferena, e  por isso que o Alcoro
nos probe de ter amigos infiis".
          Em julho de 1993, finalmente recebi um apartamento de dois
quartos em Ede. Custava seiscentos florins por ms, mas eu tinha
direito a um emprstimo de cinco mil para a moblia, os quais
       teria que restituir, e a um auxlio-desemprego mensal de mil e
duzentos florins. Yasmin, que para os holandeses tinha apenas quinze
anos, ficaria sob a minha guarda.
       O apartamento ficava na James Wattstraat, em um bairro de
prdios baixos de alvenaria -- talvez um pouco pobre, mas de modo
algum sujo. Eu o achava bonito. Mas, no prdio vizinho, havia uma
turca que era espancada quase toda noite. Ouvamos tudo. Ouvamos
quando ela era jogada contra a parede da sala de estar e pedia
clemncia aos gritos. EUen e Hanneke nos disseram que convinha
chamar a polcia. Fizemos isso, mas a polcia retornou a chamada para
dizer, muito educadamente, que no podia fazer nada. Eles j tinham
estado no apartamento, mas a mulher em questo se recusava a dar
parte da agresso. Na noite seguinte, l estava ela aos berros outra vez.
       O marido subia o volume do televisor para que ningum a
ouvisse. Eu raramente via a mulher na rua; ela quase no saa de casa.
Creio que tinha vergonha; o bairro todo sabia. Encolhia-se e vivia
escondida.
       Um dia, um funcionrio do centro de refugiados foi averiguar o
nosso progresso. Disse: "Ayaan, como  possvel que o seu holands
tenha piorado depois que voc saiu de l?". Ao mudar para a cidade,
praticamente parei de falar holands. Falava somali com Yasmin e
ingls com Ellen e Hanneke. Compreendia o holands elementar, mas
no conseguia me expressar bem; isso me constrangia.
       O funcionrio se props a afixar um aviso, na sua igreja, para
ver se algum se dispunha a nos dar aulas gratuitas de conversao.
Foi assim que, cerca de um ano depois de chegar  Holanda, conheci
Johanna.
       Johanna foi uma me para mim enquanto eu me adaptava
pouco a pouco quele pas estranho, mas agradvel. Yasmin e eu amos
 sua casa uma vez por semana, depois trs, depois quantas vezes
quisssemos. Simplesmente chegvamos e entrvamos, como se
estivssemos na Somlia. Cozinhvamos na sua cozinha e brincvamos
com os seus filhos. Johanna nos ensinou muito mais do que o idioma.
Ela nos ensinou a viver no Ocidente.
       Havia as pequenas coisas. Como economizar: escolher os itens
mais baratos nas estantes baixas do supermercado; desligar a ca-
lefao e usar agasalho dentro de casa. Que comportamento ter em
sociedade: na Holanda, as pessoas abriam o presente na frente de quem
o havia dado, e, mesmo sendo mulher, costumavam olhar nos olhos das
pessoas.
       Johanna tambm nos ensinou outras coisas importantes.
Recomendava-nos ser diretas, falar sem rodeios, ir ao que interessava.
Se ficssemos sem dinheiro, era preciso reconhec-lo e procurar
descobrir por que havamos gastado demais. No era questo de honra,
de vergonha, de prembulos complicados: tratava-se de admitir o
problema claramente e aprender a lio. Ensinou-nos a ser confiantes e
a lidar com os problemas com objetividade. Eu tinha passado a vida
vendo a minha me contornar os problemas e fingir que no existiam,
na esperana de que Al os fizesse desaparecer de uma hora para outra.
Mas Johanna enfrentava as coisas. Dizia o que queria; preferia ser clara
e direta a evitar as questes difceis. Afirmava que no havia nenhuma
grosseria em dizer no.
       Sua casa de tijolo era moderna, com um quintal bem cuidado.
Embora pequena, tinha sido montada de modo que tudo coubesse
perfeitamente. O equipamento era fascinante. Havia um varal especial
no quintal, que se abria quando ela queria secar a roupa e se dobrava
quando no ia ser usado. At mesmo o cortador de queijo era
engenhoso.
       Marteen, o marido de Johanna, no era o chefe da famlia. Os
dois discutiam tudo, um pedia conselho ao outro. As crianas podiam
interromp-los, e os dois ouviam a opinio delas. E Marteen ajudava no
servio domstico.
       Toda noite, as crianas iam para a cama s oito em ponto, sem
um minuto de atraso. Era uma vida estruturada, e tal estrutura fora
construda com muito esforo mental. Johanna vivia consultando livros
sobre o desenvolvimento infantil e, embora castigasse os filhos quando
se comportavam mal, no batia neles. Sua famlia se parecia muito com
o resto do pas: bem organizada, planificada, bem administrada e
agradvel. Nada passava despercebido naquela casa. s vezes parecia
um pouco sufocante, mas era acolhedora e segura. O modelo era muito
mais atraente do que o de qualquer famlia que eu tinha visto no mundo
de onde vinha.
       E, mais importante, aquela famlia me dava carinho. Recebia-
me. Johanna era sensata e ctica, com senso de humor seco e enorme
receptividade e disposio para amar. Comecei a encar-la como
confidente, como orientadora.
       Contei-lhe que me sentia muito egosta pelo que tinha feito aos
meus pais. Porm ela no via nada de errado no fato de eu ter me
colocado em primeiro lugar. Dizia que no havia egosmo em fazer o que
eu quisesse da vida -- todos deviam procurar a felicidade. Garantia que
eu agira bem e me fazia sentir que ainda podia ser uma boa pessoa.
       Todos os valores islmicos que me ensinaram recomendavam
que eu me colocasse em ltimo lugar. A existncia terrena era um teste
e, se eu conseguisse me pr em ltimo lugar nesta vida, estaria
servindo a Al; no alm eu teria o primeiro lugar. Quanto mais
sujeitasse a minha vontade, mais virtuosa seria. Mas Johanna e Ellen,
assim como todo mundo na Holanda, achavam natural buscar a
felicidade pessoal na terra, aqui e agora.
       Assim que me mudei para o apartamento de Ede com Yasmin,
comecei a procurar emprego. Sentia vergonha de viver do auxlio do
governo. Sylvia e os demais funcionrios do centro de refugiados
tiveram a pacincia de responder s minhas perguntas incessantes, de
modo que agora eu sabia, toscamente, o que era o Estado de Bem-estar
Social: os capazes contribuam para ajudar os carentes. Eu era capaz:
tinha braos e pernas. No queria continuar recebendo sem dar.
       Primeiro fui  delegacia do trabalho. A mulher que me registrou
informou que no tinha muito sentido trabalhar. Eu queria continuar
com o curso de holands, e o que ganhasse com bicos espordicos seria
subtrado do meu auxlio financeiro; s poderia ficar com o excedente se
houvesse excedente.
        Decidi trabalhar mesmo assim e, naquela tarde, eu me inscrevi
em todas as agncias de emprego temporrio da cidade. Disse que era
secretria formada e queria uma colocao. Apesar do meu holands
precrio, o pessoal das agncias ps o meu nome no banco de dados.
Dois dias depois, uma funcionria do Temp Team me telefonou: a
fbrica de suco de laranja Riedel, em Ede, precisava de uma faxineira
temporria.
        Passei a limpar a fbrica das seis s oito da manh, antes do
incio do turno dos operrios. A oficina, a cantina, os banheiros. No
era agradvel, mas tampouco difcil. Outro emprego que tive consistia
em embalar enormes rolos de linha em uma fbrica de tintas, a Akzo
Nobel. Minha vizinha na linha de montagem se encarregava de fechar as
caixas com fita adesiva. Tive funo parecida na fbrica de biscoitos
Delacre, acondicionando o produto em embalagens de plstico. Fiz
esses bicos vrias vezes, substituindo o pessoal em licena mdica ou
de frias; tambm fui contratada para colocar cartas no envelope em
uma construtora.
        Nada havia de nobre nessas atividades, mas elas tampouco me
desonravam. Ainda que fossem banais, pagavam-me por elas e elas me
eram convinientes: eu trabalhava no perodo da manh e ia  aula de
holands no fim da tarde. Encarava-as como degraus: trabalhando
bastante, conseguia ganhar mais do que o auxlio financeiro do Estado,
e o excedente me ajudava a pagar o aluguel e o curso.
        O trabalho nas fbricas me deu oportunidade de entrar em
contato com outras classes sociais. At ento, s conhecia assistentes
sociais e gente da classe mdia que prestava trabalho voluntrio no
campo    de   refugiados.   Os   operrios   holandeses   falavam   outra
linguagem, e a sua relao com os imigrantes era tensa. Na fbrica de
biscoitos, quase todos os empregados eram mulheres, e elas se dividiam
nitidamente em grupos tnicos: holandesas de um lado e marroquinas e
turcas de outro. Ficavam separadas no refeitrio e tambm no trabalho.
Quando colocavam uma marroquina junto com uma holandesa, o
servio era feito s pressas e constantemente surgiam conflitos, as
embalagens se amontoavam e caam no cho, ao passo que, quando as
marroquinas ficavam juntas, elas se esforavam para trabalhar bem.
Tratava-se    de    xenofobia   mtua:     as     holandesas    achavam     as
marroquinas preguiosas e antipticas, e as marroquinas diziam que as
holandesas fediam e se vestiam como prostitutas. Os dois grupos se
consideravam superiores.
       A fbrica de tintas era quase exclusivamente holandesa. L
havia empregados com dez ou at vinte anos de casa. Diziam gostar do
trabalho, e eu via que se empenhavam em trabalhar muito e com
eficincia, tinham prazer em fazer bem mesmo uma tarefa humilde.


       Pouco a pouco, fui mudando, aprendendo a me adaptar quele
pas novo, a administrar o tempo para trabalhar e estudar.
       Seis meses depois de me inscrever na delegacia do trabalho,
chamaram-me para fazer um teste de Q.I. O teste era muito longo, e
tenho certeza de que foi carssimo. Grande parte dele inclua
matemtica, matria em que sempre fui uma negao; o resto eram
testes psicolgicos e de conhecimento da lngua -- da lngua holandesa,
 claro. O meu desempenho deixou muito a desejar.
       A funcionria disse que eu tinha condies de fazer um curso
vocacional    de   nvel   mdio,   alguma      coisa   administrativa,   como
contabilidade ou treinamento para recepcionista. Um curso com pouca
teoria e que me preparasse rapidamente para trabalhar. Eu lhe contei
que queria estudar cincia poltica, mas ela disse que era impossvel: eu
no   tinha   a    menor   possibilidade     de   ingressar    em   um    curso
universitrio.
       A mulher me encaminhou a uma escola de contabilidade em
Wageningen, uma cidadezinha prxima de Ede. Ainda que se tratasse
de um curso bem caro, ela no viu outra opo. Provavelmente achava
que as estrangeiras tinham mais facilidade para entender a linguagem
universal dos nmeros.
       Fui muito mal. Em quatro semanas, a minha coluna de dbito
no correspondeu uma s vez  de crdito. O professor suspirou e olhou
para mim: "Voc no tem jeito para isto". Respondi: "Foi o que eu disse".
Ento ele escreveu uma carta explicando que eu no tinha aptido para
a contabilidade, e parei de ir  aula.
       Continuava querendo mais do que aquela vida. Estava decidida
a estudar cincia poltica. J que o curso era universitrio, entraria na
faculdade. Ellen e Hanneke achavam isso uma loucura: diploma, v l,
era uma ambio razovel, mas de cincia poltica7. Tentei explicar que
queria entender por que a vida na Holanda era to diferente da vida na
frica. Por que havia muito mais paz, segurana e riqueza na Europa.
Quais eram as causas disso e como construir a paz.
       No tinha nenhuma resposta, s perguntas. Pensava nisso o
tempo todo. A cada contato com o governo, perguntava: "O que fazer
para ter um Estado assim?". Via Hanneke e Ellen programarem as
tarefas com as outras moas que moravam no apartamento -- a lista de
quem se incumbiria da faxina, das compras e da cozinha. Era como um
cronograma: todas faziam todo trabalho. E surpreendentemente no
havia conflito. Como elas conseguiam ser assim?
       Na Holanda, tudo tinha regras. Uma noite, um policial me deteve
porque estava de bicicleta com o farol apagado, e fiquei paralisada,
achando que ia acontecer uma coisa horrvel. Mas apenas recebi um
sermo firme, embora corts, e uma multa de vinte e cinco florins. Alm
disso, ele disse que eu no precisava pagar a multa imediatamente;
seria enviada pelo correio. E, de fato, no ms seguinte recebi uma conta
detalhada. Fiquei pensando naquele sistema inteligente que impedia o
cidado de dar dinheiro ao policial para que ele no se sentisse tentado
a embols-lo.
       O   Estado    era   muito   presente   naquele   pas.   Podia   ser
burocrtico, s vezes obtusamente complexo, mas sempre muito
benfico. Eu queria saber como fazer tal coisa. Aquele era um pas infiel
cujo estilo de vida ns, muulmanos, tnhamos o dever de rejeitar e
combater. No entanto, por que era muito mais bem administrado, mais
bem conduzido, e proporcionava uma vida muito melhor do que os
lugares de onde eu vinha? Os pases que cultuavam Al e acatavam
Suas leis no deviam gozar da paz e da riqueza? E os pases mpios no
deviam ser ignorantes, pobres e belicosos?
       Eu queria entender o conflito. Em 1992 e 1993, praticamente
todo mundo no ocidental estava mergulhado em guerras civis e
confrontos tribais. O fim da Guerra Fria ampliara as fissuras do dio. E
muitos pases em guerra eram muulmanos. O que havia de errado
conosco? Por que os infiis tinham paz, e os islmicos no faziam seno
se trucidar: no ramos ns que adorvamos o verdadeiro Deus? Eu
estava convencida de que, se estudasse cincia poltica, compreenderia
essas coisas.
       No      ia   ser   fcil   ingressar    na    universidade.    O    governo
considerava o meu histrico escolar e o meu curso queniano de
secretariado equivalentes ao diploma Havo Plus, mas at isso era um
tanto forado. Para entrar na faculdade, eu precisava de outra
qualificao chamada propadeuse. Fiquei apavorada: no ia conseguir
passar em matemtica. Com a ajuda de Ellen, imaginei que a maneira
mais fcil de ser aprovada na propadeuse era me inscrever em
assistncia social num curso profissionalizante, como tinham feito Ellen
e Hanneke. Depois de um ano, poderia pedir transferncia para a
universidade e, assim, contornar a matemtica.
       Na escola de idiomas, solicitei inscrio no exame do idioma em
que   precisava      ser    aprovada     para        me   matricular   no    curso
profissionalizante. Meu professor foi gentil, mas disse com indulgncia
que era muito cedo, fazia s um ano que eu estudava holands. Eram
necessrios trs. Eu estava sendo impaciente e irresponsvel. Inscrever-
se agora era jogar dinheiro fora.
       Ellen comentou que o professor no tinha direito de me impedir
-- o dinheiro era meu. De modo que fui  central de exames de
Nijmegen e me inscrevi na prova de holands. E passei. Meu prximo
passo seria o curso profissionalizante.
       Durante todo esse perodo, procurei evitar os outros somalis.
Mesmo quando ainda morava no centro de refugiados, no tinha muito
contato com eles. O grupo que freqentava o trailer de Hasna s se
queixava, principalmente os que viviam fora do centro, e que estavam
na Holanda havia anos e apenas o visitavam. Aquela gente no se
integrava  sociedade holandesa. No trabalhava. No tinha nenhuma
ocupao e freqentava o centro de refugiados s para filar uma
refeio. Alguns indivduos aprenderam a andar de bicicleta, tinham
ambio, estudavam e trabalhavam -- eu no era a nica --, mas esses
no tinham tempo para socializar. Os outros passavam a noite
mascando qate falando mal da Holanda.
       Todos enfrentvamos a mesma confuso. Sempre tivemos
certeza de que, na qualidade de muulmanos e somalis, ramos
superiores aos infiis, e eis que ento no tnhamos superioridade
nenhuma. Na vida cotidiana, no sabamos como funcionavam os
caixas eletrnicos ou que era preciso apertar um boto para que o
nibus parasse. Uma vez, tomei um nibus com Dhahabo, outra
refugiada somali. Quando ele estava passando pelo lugar aonde
queramos ir, Dhahabo gritou: "PARE!" e todo mundo ficou olhando
para ns. Foi constrangedor.
       Para escapar a tais constrangimentos, muitos se recolhiam em
um enclave somali. Sua reao era cultivar a fantasia de que, sendo
somalis, eles sabiam mais do que os brancos inferiores. "No queira me
ensinar a usar o termmetro, os termmetros somalis so muito mais
avanados" -- esse tipo de atitude. "Ele tem hlito de porco. No passa
de um motorista de nibus. Como se atreve a pensar que pode me
ensinar a me comportar?"
       Nas minhas primeiras semanas no centro de refugiados, quando
eu estava com um grupo numeroso em frente ao trailer de Hasna,
algum nos chamou aos gritos: "Venham ver: um homem chorando na
televiso!". Fomos correndo para l; era um programa intitulado Sinto
muito, no qual as pessoas faziam confisses. Um holands grandalho,
de ombros largos, vermelho e de voz estridente, estava aos prantos por
causa de uma coisa que tinha feito. E murmurou: "Lamento muito" e
nos entreolhamos, horrorizados, pasmos. Tenho certeza de que
ningum ali nunca tinha visto um homem chorar. E camos na
gargalhada. Aquele pas era definitivamente esquisito.
       Na poca em que me mudei para Ede, estava comeando a
entender a Holanda. E agora ficava irritada com os somalis que, mesmo
j tendo vivido muito tempo no pas, se queixavam de que s lhes
ofereciam trabalho humilde. Queriam profisses de alto nvel: piloto da
aviao civil, advogado. Quando eu dizia que eles no tinham
qualificao para tanto, respondiam que era tudo por culpa da Holanda.
Os europeus haviam colonizado a Somlia, por isso no tnhamos
qualificao e estvamos naquela situao. Eu achava essa atitude
absurda. Estvamos nos dilacerando: ns, s ns.
       Tratava-se do mesmo procedimento defensivo e arrogante que eu
vira tantas e tantas vezes nas pessoas da rea rural que migravam para
a cidade, tanto em Mogadscio quanto em Nairbi. Na Holanda, o eterno
pretexto era que tnhamos sido mantidos no atraso pelo racismo. Todos
pareciam fermentar permanentemente no dio de sermos discriminados
porque ramos pretos. Quando a balconista se recusava a baixar o
preo de uma camiseta, Yasmin dizia que os descontos especiais eram
exclusivamente para os brancos. Ela e Hasna me contaram que quase
nunca pagavam o nibus; simplesmente inventavam compromissos na
cidade e, quando o escritrio do centro de refugiados se recusava a lhes
dar a passagem, diziam que era por racismo.
       "Basta chamar um holands de racista para que ele lhe d o que
voc   quiser",   disse   Hasna   certa   vez,   com   satisfao.   Havia
discriminao na Holanda -- isso  inegvel --, mas falar em racismo
tambm podia ser estratgico.
       s vezes, era bom estar entre somalis, relaxar com gente que eu
entendia plenamente. Adaptar-me aos holandeses ainda me custava um
esforo enorme. Se eu dissesse: "Desculpem, preciso acordar cedo
amanh", os somalis se enfureciam. Aquilo era comportamento de
branco, quem eu pensava que era para trat-los com tanto desprezo?
Estava virando gaalo.
       Os jovens somalis me abordavam constantemente na rua como
se tivessem uma espcie de direito sobre mim. Faziam propostas
obscenas; para eles, eu era notoriamente imoral, portanto, estava
disponvel. As mulheres sempre tentavam tirar dinheiro de mim. Eu no
dava. Pensava: se esto precisando de dinheiro, por que no trabalham
em uma fbrica como eu?
       Ficava   envergonhada   e   at   desacoroada   ao   ver   tantos
compatriotas aceitarem o auxlio financeiro para, logo depois, atacarem
a sociedade que o dava. Eu ainda conservava muito sentimen-to
clnico; sentia-me responsvel pelos atos deles. No gostava de seu
costume de negar os malfeitos, mesmo quando pegos em flagrante. No
gostava do costume de se vangloriar nem dos mitos e das teorias da
conspirao evidentemente falsas que propagavam. No gostava das
intrigas sem fim nem da eterna ladainha segundo a qual eles eram
vtimas de fatores externos. Os somalis nunca pediam desculpas,
jamais reconheciam um erro e eram incapazes de dizer "No sei":
inventavam pretextos. Todas essas estratgias grupais para fugir ao
confronto com a realidade me deprimiam. A realidade no era fcil, mas
o fingimento no a tornava mais fcil.
       Por isso, eu passava mais tempo com Ellen e Hanneke. E
Yasmin ficava completamente s quando as suas aulas terminavam,
geralmente s trs da tarde. Uma turma de rapazes isaq e hawiye do
centro de refugiados comeou a freqentar o nosso apartamento, 
tarde, para mascar qat. (Os somalis sempre do um jeito de conseguir o
que querem, de modo que no faltavam        folhas frescas de qat nem
mesmo na pequenina Ede.) Yasmin cozinhava para eles, e ao chegar eu
os encontrava estendidos no tapete da sala, as folhas e os talos
espalhados no cho.
       Ficava sem lugar dentro da minha prpria casa, sentia-me
invadida. Para os somalis,  desonroso expulsar uma visita. Mas, enfim,
preferi adotar a maneira holandesa: mandei Yasmin parar com aquilo.
No queria aqueles homens no meu apartamento. Propus que, quando
eles tocassem a campainha, fingssemos no estar em casa. Depois
disso, passaram a dizer, na rua, que eu era uma darod antiptica e
tratava os isaq e os hawiye com suma arrogncia. Achei bom. J no
queria observar nenhum cdigo de honra.
       Minha relao com Yasmin comeou a deteriorar. Uma noite ela
partiu. S dois dias depois, ao dar pela falta do carto de banco e dos
meus documentos de asilada classe A, foi que percebi que ela tinha ido
embora. Pouco antes, Yasmin havia me dado trezentos florins para
pagar o aluguel, os quais tambm haviam desaparecido. Alguns dias
depois, recebi uma carta dela. Dizia que estava na Itlia, muito embora
o selo e o carimbo do correio fossem da Dinamarca. Pedia desculpas e
garantia que no tinha usado o carto de banco; quanto aos trezentos
florins, no chegava a ser propriamente um roubo, pois eram dela.
Disse ainda que se sentia muito sozinha e detestava viver na Holanda.
Acrescentou que a conta do telefone daquele ms provavelmente seria
alta, mas ela tinha necessidade de conversar com a famlia.
       Cerca de um ms depois, quase enlouqueci ao receber uma
conta de dois mil e quinhentos florins. Estava mais do que falida. Com
a ajuda de Johanna, entrei em contato com a companhia telefnica.
Eles enviaram uma conta discriminada: telefonemas para a Austrlia, o
Canad, o Qunia e a Somlia -- eu no sabia que Yasmin conhecia
tanta gente. Johanna disse: "Leve a carta de Yasmin ao assistente social
dela, pois serve de prova de que foi ela que fez as chamadas; eles se
encarregaro da conta". Foi o que fiz, e o departamento de assistncia
social responsvel por Yasmin pagou cerca de dois mil florins.
       Certa manh de janeiro de 1994, o telefone tocou. Era Haweya
falando de um telefone pblico do aeroporto de Frankfurt. Fazia meses
que eu no ligava para casa. Agora a minha irm estava na Europa.
Acabara de chegar! Senti uma alegria enorme. Perguntei-lhe se era
apenas uma visita ou mais, e ela respondeu: "Mais". Eu disse: "Ento
venha para a Holanda -- venha morar comigo".
         Telefonei para os meus amigos Jan e Greetje. Jan, que tinha
cinqenta e tantos anos e fazia trabalho voluntrio para o Auxlio a
Refugiados, sugeriu que Haweya fosse de trem at a fronteira alem; ele
iria busc-la de automvel a fim de evitar os postos de controle. Assim,
a minha irm poderia declarar que tinha viajado diretamente para a
Holanda, de modo que podia pedir asilo no pas, no na Alemanha.
         Quando o carro de Jan finalmente chegou com ela, ns nos
abraamos e nos pusemos a gritar, a pular, a rir, e tornamos a nos
abraar    muitas   vezes.   Mas,   depois   de   algum   tempo,   Haweya
desmoronou numa poltrona e comeou a chorar. Por fim contou que
tinha feito aborto em Nairbi. Um sujeito de Trinidad, que trabalhava
na ONU e era divorciado -- ela tinha dormido com ele e engravidara.
         Um tobaguiano: incircunciso e nem mesmo muulmano! Nariz
chato, cara de lua e cabelo pixaim. Para a minha me, um homem
desses era to subumano quanto os quenianos. Em termos clnicos, o
que Haweya tinha feito era simplesmente imperdovel. Fugir do marido
era uma coisa, mas engravidar fora do casamento, com um homem
daqueles -- era como se toda famlia osman mahamud tivesse sido
contaminada por um vil tobaguiano.
         O tal amante mexeu os pauzinhos para que Haweya fizesse
aborto discretamente, com um mdico indiano. Posteriormente, como
ela estava deprimida, ele disse: "Voc precisa espairecer um pouco, v
visitar a sua irm na Holanda".
         Procurei reprimir a somali que havia em mim e que estava
estarrecida com a histria. Mandei-a parar de chorar. Disse que aquelas
no eram as melhores circunstncias para ter um filho, que ela no se
torturasse. Disse as coisas que Johanna teria dito e, depois, a levei para
a cama, no antigo quarto de Yasmin, exatamente como Johanna teria
feito.
         Mas ela no se reanimou. Andava calada, distrada, ausente,
desconcentrada. No dormia. Contava que, l em casa, as brigas com
mame eram totalmente descontroladas. Chegara  Europa sem
nenhum plano, sem a menor idia do que fazer.
       Eu queria tanto a minha irmzinha morando comigo. Ajudei-a a
forjar uma histria que lhe permitisse obter o status de asilada. Ela
solicitou asilo em Lunteren, e o centro permitiu que ficasse morando
comigo, contanto que se apresentasse uma vez por semana.
       Haweya comeou a aprender holands, mas tinha apenas uma
aula por semana, com um voluntrio do centro de refugiados, pois no
podia fazer um curso regular enquanto no recebesse a documentao
de   asilada.   Eu   saa   com   ela   e   as   minhas   amigas.   Juntas
empreendamos longas caminhadas e assistamos aos filmes que
queramos sem medo de punio. Fizemos algumas viagens a Amsterd;
eu lhe ensinei a andar de bicicleta. Tivemos muitos momentos felizes.
Mas geralmente ela parecia no querer nada. Passava a maior parte do
tempo estendida no sof, assistindo televiso at que j no houvesse
mais programas. Tinha crises de choro: as lgrimas simplesmente lhe
escorriam pelo rosto. Saa sozinha e ficava andando a esmo.
       De vez em quando, ligvamos para mame, do telefone dos
vizinhos indianos. Essas conversas eram previsveis. Mame sempre
nos mandava rezar, jejuar, ler o Alcoro. Ou ento se queixava. Dizia
constantemente que tinha sacrificado a vida inteira pelos filhos e,
agora, todos a tinham largado. Estava com a perna coberta de chagas
de psorase. Morria de dor de cabea. Ns a havamos abandonado para
que morresse assim; e a culpa era toda nossa. Mahad no se importava
com ela e no parava em nenhum emprego; achava-se bom demais para
as coisas que tinha condies de fazer. Nem sempre era agradvel
telefonar para ela, mas eu telefonava. E mandava dinheiro, pois era o
meu dever.
       Passaram-se meses. Haweya comeou a ficar muito mais tempo
no centro de refugiados,  procura de companhia. Descobri que estava
tendo um caso com um somali de l e desconfiei que os dois andavam
dormindo juntos. Um dia, ela me contou que estava grvida de novo. Eu
tinha rompido quase todas as ligaes com a Somlia, e eis que a
minha irm me obrigava a reviv-las.
       Fiquei verdadeiramente fula da vida. Acho horrvel pensar nisso
hoje. Gritei: "Ser que isso virou hbito? Engravidar uma vez pode ser
perdovel, mas agora voc est na Holanda! O centro de refugiados
distribui camisinhas de graa!". E acrescentei: Voc no pode abortar
novamente --  homicdio. Vai ter o beb e vai cuidar dele".
       Banquei a moralista. Haweya insistiu em fazer aborto. Tivemos
uma briga horrvel. Fomos ao atendimento mdico no centro de
refugiados.   Pedi        psicloga   Jose,   da   assistncia   social,   que
conversasse com Haweya, estava preocupadssima com ela.
       Para minha surpresa, Jose contou que a minha irm j a tinha
procurado: "Os problemas so profundos. Mas no se preocupe com ela.
Temos tido uma sesso por semana, e acho que isso vai ajud-la". Eu
no sabia que Haweya estava fazendo psicoterapia. Jose explicou que
era porque ela tinha medo do meu julgamento.
       E Haweya tornou a fazer aborto e, quando recebeu o status de
asilada, passou a freqentar uma boa escola de lnguas. Floresceu
durante algum tempo; seu senso de humor e sua vivacidade tornaram a
brilhar. Ela podia ser agradvel, perspicaz, engraada e charmosa. Mas
logo voltava a se deprimir, a descuidar da roupa e do cabelo. Ou ento
agredia as pessoas; chegava a ser violenta. E continuava com insnia.
       No pude me matricular no mesmo curso de assistncia social
que Ellen e Hanneke, embora a faculdade ficasse em Ede. Tratava-se de
uma instituio crist, e para freqent-la os alunos precisavam
reconhecer a existncia da Santssima Trindade. Na poca, isso era uma
blasfmia absoluta para mim. Associar Al a outras unidades e dizer
que Ele tinha um filho eqivalia a me candidatar a inquilina do inferno.
Al no tinha sido gerado nem gerava ningum. Estava fora de questo
estudar em um lugar assim.
       Queria    me       matricular   numa     faculdade   profissionalizante
secular, em Arnhem, mas um funcionrio do Auxlio a Refugiados disse
que eu no me sentiria bem l: recomendou-me a de Driebergen, que
tambm era secular, porm muito mais multicultural, eufemismo que
significava mistura tnica. Uma vez mais, o conselho foi bem
intencionado, mas baseado em noes preconcebidas do lugar em que
eu, na qualidade de imigrante, me sentiria bem. E evidentemente tais
conselhos s serviam para reforar a necessidade de os refugiados
construrem enclaves.
       Quando fui me matricular em Driebergen, o administrador
decretou que eu teria que prestar exame de admisso. Provas de
holands, histria e educao cvica. Atordoada, perguntei onde
arranjar livros para estudar essas matrias. Ele explicou que havia um
curso preparatrio para o exame. Durava quatro meses: eu poderia
comear em fevereiro de 1994 e prestar exame em junho.
       Retornei  delegacia do trabalho e contei que havia encontrado o
que queria fazer. Como desistira da contabilidade, eles poderiam fazer a
gentileza de pagar o curso preparatrio de histria da Holanda? A
delegacia de trabalho se recusou: no era possvel financiar uma coisa
no autorizada pelo teste de Q.i. que eu fizera. A sada era solicitar uma
bolsa de estudos, a qual s seria concedida quando eu j estivesse
efetivamente matriculada na faculdade. De modo que no me restou
seno pagar o curso.
       Tudo l era diferente do colgio no Qunia. Ns nos sentvamos
em crculo e chamvamos o professor pelo prenome. No havia nenhum
"Bom dia, sra. Nyere" em coro, no havia uniforme. Quem fosse
reprovado tinha direito a uma segunda chance, o que me parecia um
pouco maluco, mas no deixava de ser bom. E custava apenas trezentos
florins. Em troca disso valia a pena viver frugalmente.
       A   matria     mais   fascinante   era   histria.   Toda   semana,
discutamos um captulo do livro, que tratava no s da histria da
Holanda como tambm do mundo moderno. Cada captulo se dedicava
a um pas, e os li todos, palavra por palavra. Havia a Alemanha: como
tinha se tornado um Estado unificado; depois a Repblica de Weimar, a
ascenso de Hitler, a Segunda Guerra Mundial. Havia a Revoluo
Russa: os czares, os bolcheviques, Stlin. Havia os movimentos pelos
direitos civis nos Estados Unidos, e a Guerra do Vietn. Cada pas tinha
uma vida: lutava e adquiria forma, os sistemas surgiam e desapareciam
-- era quase como ler obras de fico.
       O livro transmitia uma viso muito romntica e otimista da
histria   moderna.   Tinha   um   captulo   intitulado   "Colonizao   e
descolonizao", que terminava com a perspectiva de um futuro
brilhante para a frica. Falava no fim da Guerra Fria e na queda do
Muro de Berlim, que ps fim ao comunismo, assim como na histria
das Naes Unidas. Fiquei completamente absorvida.
       Percebi que o texto no passava de um apanhado geral que nos
dava uma idia do acontecido. Eu queria mais. Queria seguir estudando
e saber por que tantos pases descolonizados se haviam fragmentado e
por que os pases em que eu tinha morado no funcionavam.
       Esse livro de histria me ensinou holands. As aulas de
educao cvica, por outro lado, eram cheias de termos que eu no
compreendia, como municipalidade e cmara alta. Sofri muito com isso.
Fui reprovada em holands apenas por um ponto: ainda estava fraca
em gramtica. Mas, como tinha o meu exame de equivalncia,
deixaram-me entrar na faculdade profissionalizante de Driebergen.
Passei raspando, mas passei.
       As aulas comeavam em setembro. Solicitei e consegui uma
bolsa de estudos restituvel; e ento, no fim de agosto, fui convocada a
um fim de semana introdutrio. As outras moas -- predominavam as
mulheres no curso de assistncia social -- eram simpticas e abertas,
se bem que mais jovens. Aos vinte e quatro anos, eu era desajeitada,
mal-vestida e tinha cortado o cabelo bem rente, como homem.
       Gostava dele assim. Na Holanda era dificlimo cuidar do cabelo
comprido, entran-lo e passar leo. Com ele bem curto, eu ficava livre
de tanto trabalho e, mais do que isso, ficava livre dos olhares
insistentes. Sem vu nem turbante, de cabelo curto e jeans, eu no
chamava a ateno. No havia nenhum somali naquela faculdade
profissionalizante, de modo que ningum se achava no direito de me
dizer o que fazer. As poucas marroquinas e turcas que havia no se
achavam responsveis por mim.
       Eu me sentia muito pressionada: precisava provar a mim mesma
que era capaz. A assistncia social em si no me encantava tanto --
para mim, era a maneira mais fcil de entrar em cincia poltica --, mas
fiquei inesperadamente interessada pelo curso de psicologia. A idia de
tomar certa distncia de mim mesma e pensar sistematicamente
naquilo que eu era e em como se constitua a mente descortinou um
modo inteiramente novo de encarar a vida.
       Conhecer Freud me fez entrar em contato com um sistema moral
alternativo. Em Nairbi, eu tinha muito contato com os cristos e ouvia
falar nos budistas e nos hindustas. No entanto, nunca imaginei que
pudesse existir um arcabouo moral para a humanidade que no
derivasse da religio. Sempre havia um deus. No t-lo era imoral.
Quem no aceitasse Deus no podia ter moralidade. Por isso as
palavras infiel e apstata horrorizavam tanto os maometanos: eram
sinnimos da mais profunda imoralidade.
       Mas eis que havia a psicologia, uma histria sem razes
religiosas. Falava em impulsos, na paixo de comer, de transar, de
defecar, de matar e em como dominar tais impulsos aprendendo a
entend-los. Ao ler a matria da primeira semana, pensei: "Ser que
esto tentando tornar as pessoas mpias?". Mas os textos eram
       fascinantes. Neles reconheci tanta coisa de mim e da minha
famlia. Entrei em contato com Rogers, Skinner e Pavlov, e adorei essas
teorias sobre o que fazia pulsar o indivduo humano.
       Tambm achei claras explicaes sobre a sexualidade, que tanto
havia me atormentado na adolescncia. Aos poucos, comecei a enxergar
que o modo como me criaram no podia dar certo. A clitorectomia no
eliminava o impulso sexual humano, tampouco o medo ao fogo do
inferno. A represso no levava seno  hipocrisia e  mentira,
estratgias que corrompiam o indivduo e no o protegiam da gravidez
indesejvel nem de doenas.
       Ao que tudo indicava, os holandeses faziam as coisas de outro
modo. Explicavam a puberdade para os filhos, dizendo-lhes que o
desejo sexual chegaria junto com as mudanas. Pareciam esperar que
os adolescentes vivessem os sentimentos sexuais, mas o faziam usando
a razo, com mais informao do que eu nunca imaginara que estivesse
disponvel.
       Tambm fiz o curso de desenvolvimento infantil, que me era
inteiramente novo. E me perguntava como eu podia ser ainda que
vagamente equilibrada se os meus pais nunca levaram em conta coisas
como o desenvolvimento cognitivo, a segurana emocional, a capacidade
motora, a capacidade social, todas consideradas vitais na criao de um
ser humano bem formado.
       Li que a represso destrua a autoconfiana da criana,
tornando-a introvertida e anti-social, e me lembrei da inclemncia com
que Haweya fora reprimida no ensino fundamental. Na poca, no me
ocorreu que a clitorectomia fosse um tipo de trauma, mas pensei em
mame batendo em ns. No queria julg-la. Gostava dela. Todo mundo
que eu conhecia em Nairbi batia nos filhos. Mas nos disciplinar sem
nunca dar uma explicao -- segundo os livros, era prejudicial e errado.
       Fiz amizade com Naima, uma marroquina da minha classe que,
toda manh, ia de bicicleta  estao de Ede e tomava o mesmo trem
que eu para Driebergen. Tinha a minha idade e, na sua companhia, eu
sentia algo parecido com a serena familiaridade de estar entre somalis,
mas sem a dureza da sua reprovao. Cozinhvamos juntas, e a comida
dela era muito parecida com a minha. As duas jejuvamos durante o
ramad. Com Naima, no havia necessidade de ser rigorosamente
pontual como com os holandeses, o que me deixava mais  vontade.
       Ela era casada. Tendo chegado  Holanda ainda menina, l
havia passado toda vida. Recusava-se a usar vu, mas era muito ativa
no grupo de mulheres marroquinas do centro comunitrio local, e elas
danavam e comiam juntas. Quando Naima me levou para conhec-lo,
foi quase como estar com Halwa e as suas irms.
       Certa manh, ela apareceu de olho roxo. Perguntei: "O que
aconteceu?". Naima disse que o marido a tinha espancado; contou isso
de modo totalmente impassvel. Nas semanas que se seguiram, voltou a
ser agredida. Eu lhe disse que era uma loucura deix-lo fazer tal coisa.
Aconselhei-a a abandonar o marido. Naquele pas, era possvel pedir
divrcio.
       Naima, porm, sabia que eu entendia por que isso lhe era
impossvel. O marido era da aldeia do pai dela. Os dois ficaram noivos
antes de se conhecerem. E ela sempre vivera assim. Mesmo na Holanda,
onde era perfeitamente possvel ir embora, Naima sentia que no podia
simplesmente fazer isso. Seria uma vergonha, e ela ficaria sem ter onde
morar. Aonde ir? Onde se esconder? Eu tinha conseguido desaparecer
na Holanda, mas a famlia de Naima morava l: no tardaria a localiz-
la.
       Curiosamente,    era    dos   holandeses   que   ela   se   queixava
constantemente. Vivia dizendo que os balconistas a olhavam de
esguelha por serem racistas e no desejarem marroquinas nas lojas.
Pessoalmente eu achava que eles ficavam olhando era para os seus
hematomas, e lhe disse isso. Nunca olhavam torto para mim, e eu era
muito mais escura do que Naima. Ela alegava que comigo era diferente
pelo fato de ser asilada, e os holandeses tinham uma viso romntica
dos refugiados. Aquilo me pareceu absurdo: como podiam saber se eu
era asilada ou no?
       Mas, no trem, quando o condutor se aproximava para conferir o
nosso passe de estudante, Naima inventava que ele havia examinado o
dela mais tempo do que o das moas brancas. Nunca se queixava da
violncia e da humilhao que sofria em casa, s do racismo holands.
Hoje em dia, penso que aquela obsesso por identificar o racismo, to
presente tambm entre os somalis, no passava de um mecanismo de
defesa que poupava a pessoa de se sentir pessoalmente inadequada,
permitindo-lhe exteriorizar a causa da sua infelicidade.
       Naima tinha razo em uma coisa: no era justo esperar dela o
mesmo que das minhas colegas holandesas, que nada tinham que fazer
a no ser estudar e querer ser estimadas pelos demais. Sua situao
era muito mais desfavorvel.
       Eu passava a tarde toda lendo livros de psicologia, depois ia
cuidar de Haweya no sof. Ela era o prprio estudo de caso de qualquer
tipo de neurose que existisse. Toda^as estudantes de psicologia sentiam
a mesma coisa pelas companheiras de apartamento, mas nenhuma
tinha coragem de diz-lo. Eu sim. Vivia dizendo  minha irm o que via
de errado nela. Tambm a aconselhei a parar de fazer terapia com
Jose. Achava a minha amiga Hanneke uma opo muito melhor.
       Haweya se sentia agredida com tudo isso. Era como se eu
estivesse dando a entender que ela sofria de uma doena mental.
Mudou de terapeuta, mas achou Hanneke muito despreparada para
compreend-la. Pouco tempo depois de comear, abandonou a terapia
de vez. Dali por diante, ficou impossvel conviver com ela. Parou de ir 
aula e se instalou definitivamente no sof, assistia televiso dia e noite,
deixando os pratos empilhados na pia. Largava a roupa suja espalhada
no cho. s vezes, nem erguia os olhos quando eu chegava. Era capaz
de passar dias chorando de remorso por haver maltratado mame,
dizendo que estava definitivamente condenada ao inferno. Mame se
recusara a se despedir dela, e Haweya partira dizendo: "Eu a odeio. De
hoje em diante, voc no  mais minha me".
       Por mais que eu        me solidarizasse com a minha irm,
brigvamos. Era impossvel tolerar o modo como vivia, estirada no sof
o dia inteiro, como uma forma de vida totalmente inerte. Uma vez, fiquei
to irritada que arranquei o plugue da tomada e joguei o televisor
escada abaixo. Haweya se limitou a me encarar, depois se trancou no
apartamento, deixando-me do lado de fora. No abriu a porta por mais
que eu implorasse.
       Eu estava descala, e o frio era de amargar, mas acabei indo
para a casa de Johanna e Maarten. Fazia tempo que os dois diziam que
Haweya e eu no podamos continuar morando juntas. Sabiam que
brigvamos muito e achavam que eu a protegia exces sivamente,
destruindo minhas chances de ir bem na escola. Levaram-me para
casa, e Johanna decretou: Haweya tinha que se mudar.
       Ela at que gostou da idia. Havia um quarto-e-sala disponvel
em um prdio prximo ao de Ellen e Hanneke, a dez minutos de
bicicleta. Brincamos que, assim, ningum a recriminaria por no lavar a
loua. Uma podia visitar a outra. Johanna lhe emprestou dinheiro para
pagar a cauo do apartamento; Maarten nos ajudou na mudana e
construiu a moblia nova.
       Depois      disso,   Haweya   retomou   o   curso   de   holands.
Aparentemente, voltou a cuidar da prpria existncia. No comeo, ns
nos vamos com freqncia. Ela parecia precisar da minha companhia.
Dava a impresso de que podamos ser mais amigas agora que
estvamos ligeiramente separadas. Uma holandesa foi morar no meu
apartamento; a vida ficou mais tranqila.
       Em maio de 1995, Sylvia, a assistente social do centro de
refugiados, convenceu-me a ser intrprete oficial somali-holands. Disse
que o meu holands era muito melhor do que o da maioria dos
intrpretes oficiais com os quais ela trabalhava, e a atividade era bem
remunerada. O Servio de Imigrao pagava aos intrpretes quarenta e
quatro florins por hora e outros vinte e dois florins pelo tempo gasto no
transporte, bem mais do que os treze que recebia na fbrica de biscoito.
Embora na poca eu ainda estivesse na faculdade, Sylvia garantiu que
traduzir seria ideal: podia trabalhar nas horas livres, depois da aula.
       Fui  sede do Servio de Imigrao, em Zwolle, e me candidatei.
Eles testaram o meu holands (mas no o meu somali) e disseram que
eu passaria por um perodo de experincia de alguns meses para ver
como me saa. Solicitaram que eu comprasse um pager. Na faculdade,
todo mundo me achava fantstica quando o pager bipava e eu corria
para o telefone.
       Comprei roupas mais formais: uma saia preta at os joelhos,
uma blusa comprida bem chique e alguns sapatos. Minha primeira
tarefa foi servir de intrprete a um refugiado somali em uma delegacia
de polcia. Uma ocasio importantssima para mim.
       Foi exatamente como a minha prpria experincia ao pedir asilo,
s que agora, menos de trs anos depois, eu me achava em uma
situao totalmente diferente. O refugiado era um darod de barba rala e
cala at os tornozelos. Quando entrei, ele me examinou e perguntou:
"Voc  a intrprete?" Ao ouvir a minha resposta, o homem rosnou:
"Mas voc est nua. Quero um intrprete de verdade". Traduzi as suas
palavras, e o policial holands lhe disse: "Eu  que decido quem faz a
traduo, no voc".
       A atmosfera certamente era bem diferente do simptico ch ou
caf que me ofereceram. O darod tentou descobrir a minha genealogia,
quem eu era, mas o policial o interrompeu. Nenhum dos dois voltou a
olhar para mim durante a entrevista. Eu no passava de uma parte do
processo, como a mquina de escrever. Foi um alvio. Embora o
desprezo   do   somali   me   incomodasse,   eu   sabia    que,   para   ser
profissional, tinha que aprender a controlar as emoes. Aquele era o
meu trabalho, uma mera transao, nada diferente de embalar biscoitos
na fbrica. E, alm disso, era ele que precisava de mim.
       No fim, o policial me entregou um formulrio j preenchido em
que constava o tempo que eu trabalhara e a quantia que deveria
receber. Sa de l animadssima.
       Meu compromisso seguinte foi no centro de recepo de
Schalkhaar. Traduzi a entrevista de uma gala que morava nas
imediaes de Afgoye. Os combatentes hawiye a capturaram e a
encarceraram em um complexo com vrias outras mulheres. Todas
estavam l para ser estupradas, e ainda eram obrigadas a cozinhar, a
fazer a faxina e a ir buscar lenha para os soldados. Ao contar sua
histria, ela comeou a tremer. Falava baixo, dizia frases breves,
entrecortadas e, ao traduzi-las, no consegui refrear as lgrimas.
       Pedi desculpas  funcionria: "Sei que estou atrapalhando.
Lamento, mas  que comecei a trabalhar h pouco tempo. A senhora me
permite sair um minuto para lavar o rosto?". Mas, ao erguer a vista, vi
que a holandesa tambm estava chorando.
       A histria era verdadeiramente horrenda. A moa engravidara e
tivera um filho. O beb ficava sempre com ela. Mas, uma noite, um
soldado hawiye lhe arrebatou a criana e a atirou na fogueira. E a
obrigou a v-la se carbonizar.
       Ela era magra. Dizia ter vinte e oito ou vinte e nove anos, mas
parecia ter mais de cinqenta. Falou nas mulheres galas que tambm
estavam presas. Ela fugira quando outro subcl hawiye ocupara o
complexo; no sabia o que fora feito das demais.
       Dois meses depois, voltei a Schalkhaar para mais uma
entrevista. Ao me ver, a mesma funcionria se aproximou correndo para
me contar que a gala tinha obtido asilo. As duas sorrimos e nos
congratulamos reciprocamente. Mas, quela altura, eu j sabia quantas
outras deixavam de receber o status de exiladas na Holanda.
       Havia tantos tipos diferentes de sofrimento no mundo. Muitas
vezes, na minha funo de intrprete, eu desejava que dessem uma
oportunidade quela gente -- principalmente s mulheres, para que
pudessem realmente fazer alguma coisa da vida. Mas, quando estava
traduzindo uma histria, j sabia que a pessoa no tinha a menor
chance de ficar no pas.
       Fui intrprete de homens que haviam matado: evidentemente ex-
soldados; traduzi a entrevista de um conhecido torturador do Godka, o
centro de interrogatrios de Siad Barr em Mogadscio. Agora os
parentes das suas vtimas o estavam caando. Eu no disse nada: era
apenas a intrprete. No sei se ele conseguiu asilo.
       No fim de junho, prestei o exame final do primeiro ano de
faculdade e fui aprovada. Obtive o propadeuse. Agora tinha o direito de
me matricular na melhor e mai antiga instituio de ensino da Holanda:
a Universidade de Leiden.


       13. Leiden


       S havia trs universidades em que eu poderia estudar cincia
poltica: a de Amsterd, de Nijmegen ou de Leiden. Em Nijmegen, o
curso no me interessava; tratava exclusivamente de administrao
pblica -- o uso da terra e das vias aquticas -- e geografia social. A de
Amsterd, diziam que era um caos: os prprios alunos marcavam as
provas e exigiam paridade com os professores. Mas a de Leiden, a
universidade mais antiga da Holanda, tinha padres rigorosos. E,
quando visitei a cidade velha, com os pequenos canais e bandos de
estudantes passando de bicicleta, desejei muito participar daquele
mundo.
         Leiden era to linda que parecia uma ilustrao dos livros de
contos de fadas, com os quais aprendi ingls em Nairbi. As casas
tinham     altos   campanrios,    telhados   escalonados    e   escadas
curiosamente estreitas, em espiral, que eu sempre achava perigosas, os
degraus muito menores do que os meus ps. Cada uma delas fazia com
que me sentisse mais estrangeira e, ao mesmo tempo, mais encantada
com aquela cidade de casa de bonecas.
         No meio do ano, na faculdade profissionalizante, eu me inscrevi
em Leiden. No foi uma experincia agradvel. A secretria disse que
era legalmente obrigada a registrar a minha inscrio, mas deixou claro
que achava aquilo uma insensatez. Sugeriu-me que conversasse com a
decana, que tambm se mostrou ambgua. Disse-me que o melhor era
voltar  faculdade profissionalizante e concluir o curso de assistncia
social: em trs anos estaria qualificada para arranjar rapidamente um
emprego de verdade. Em Leiden, eu corria o risco de no conseguir me
formar em cincia poltica. Talvez fosse um curso demasiado abstrato
para ser til. Mais valia continuar onde estava, era mais conveniente
para mim. Insisti em me inscrever. Estava decidida a pelo menos tentar.
         Agora que eu tinha o meu propadeuse, o requisito para
ingressar, poderia iniciar as aulas em Leiden. Quase imediatamente,
fiquei assoberbada. Os primeiros trs cursos eram bsicos: introduo 
cincia poltica, introduo  histria e introduo  administrao
pblica. Havia pilhas de livros para ler toda semana: livros sobre a arte
da governana, sobre a teoria do Estado, sobre a histria da Holanda e
da Europa. No ramos obrigados a decor-los, mas precisvamos
conhecer\>s temas, as teorias e -- o que era novidade para mim --
tnhamos que desenvolver opinio prpria. Sempre queriam saber o que
cada um de ns achava.
         Por mais que me dissessem que cincia poltica era uma pssima
escolha, eu adorava o curso. Podia ser rido para os outros, mas no
para mim. Desde menina, absorvera fragmentos daquela histria:
democracia, justia, nao, guerra. Agora, com o ensino bom e srio,
comeava a conceber a boa governana como um processo, como algo
que se desenvolvera.
          A histria da Europa era uma crnica fascinante que comeava
no caos. A Holanda vinha do nada: lama, pobreza e domnio
estrangeiro. O prprio pas tinha sido construdo graas ao esforo
coletivo. O oceano rugindo sobre metade do territrio era demasiado
poderoso para que se pudesse enfrent-lo individualmente, de modo
que os holandeses aprenderam a ser inteligentes e a colaborar.
Sulcaram o mangue de canais a fim de controlar os alagamentos e
erigiram um novo pas no lugar outrora ocupado pelo mar. Aprenderam
a   ser    empreendedores    e   persistentes.   Aprenderam    a   negociar.
Aprenderam que a razo valia mais do que a fora. Acima de tudo,
aprenderam a assumir compromissos.
          Metade da Holanda era protestante; metade, catlica. Em
qualquer outro pas europeu, isso seria a prpria receita do massacre,
porm l as pessoas souberam lidar com o problema. Depois de um
perodo de opresso e carnificina, aprenderam que era impossvel
vencer uma guerra civil: todos saam perdendo. Instituram um sistema
que possibilitava s pessoas serem ao mesmo tempo distintas umas das
outras e iguais. Dois grandes blocos se desenvolveram na sociedade
holandesa, os protestantes e os catlicos, sendo que ainda havia um
grupo menor de no-religiosos, os seculares chamados liberais. Esses
blocos eram os "pilares", o alicerce da sociedade holandesa.
          Tais pilares operavam exatamente como os cls. Havia geraes
que catlicos e protestantes freqentavam escolas, hospitais, clubes e
lojas separados; tinham at canais de televiso e estaes de rdio
diferentes. Ainda em 1995, em Leiden, os pilares definiam parcialmente
quem a pessoa era e quem ela conhecia, tal como os cls da Somlia.
Mas,      na   Holanda,   tudo   era   negociado   e   compartilhado   com
equanimidade aparentemente coerente.
          Entendi o porqu do apego to profundo dos holandeses 
liberdade. Em muitos aspectos, aquele pas foi a capital do Iluminismo
europeu. H quatrocentos anos, quando os pensadores do continente
romperam os fortes laos do dogma eclesistico que constringiam a
mente das pessoas, a Holanda foi o centro do livre-pensamento. O
Iluminismo separou a cultura europia das suas razes mergulhadas em
antigas idias de magia, realeza, hierarquia social e preponderncia do
clero, para enxert-la em um tronco grande e forte que sustentava a
igualdade de cada indivduo e o seu direito a opinies livres e ao
autogoverno -- desde que isso no ameaasse a paz cvica e a liberdade
alheia. Foi em Leiden que o Iluminismo se afirmou. Em Leiden os
holandeses conquistaram a liberdade. E tambm foi em Leiden que esse
compromisso com a liberdade penetrou em mim.
       s vezes, era como se um alapo tivesse se fechado no meu
crebro, de modo que podia seguir lendo os compndios sem lutar para
ajustar o seu contedo  minha f no isl. s vezes, era como se cada
pgina me questionasse como muulmana. Beber vinho ou usar cala
no era nada em comparao com a leitura da histria das idias.
       Os autores contestavam fundamentalmente a idia do poder de
Deus na terra, e o faziam com um raciocnio belo e convincente. Darwin
dizia que a histria da criao era um conto da carochinha. Freud
afirmava que tnhamos domnio sobre ns prprios. Spinoza negava a
existncia de milagres, de anjos, da necessidade de orar a uma entidade
exterior: Deus era a natureza e ns. mile Durkheim assegurava que os
seres humanos inventaram a religio para se sentirem seguros. Eu lia e
lia e, depois, tentava enfiar aquilo tudo no pequeno alapo do meu
crebro.
       Em todo caso, ler aqueles livros de histria ocidental era pecado.
Mesmo a histria da formao dos Estados modernos me obrigava a
encarar as contradies da minha f em Al. A prpria separao
europia entre o univero divino e o Estado era haram. O Alcoro dizia
que no podia haver governo sem Deus; o Alcoro era o livro das leis de
Al para a conduo das coisas do mundo.
       Em fevereiro de 1995, houve grandes inundaes em toda
Holanda. Quando s voltas com catstrofes naturais, como secas ou
inundaes, os somalis se reuniam para rezar. Os desastres eram sinais
divinos a mostrar que os seres humanos estavam se comportando mal
na terra. Mas os holandeses acusavam o governo de no ter conservado
os diques adequadamente. No vi ningum rezar.
       Era um paradoxo estranhssimo. Na Holanda, tudo se fundava
na religio das pessoas, mas a nao, no seu ncleo, parecia ser
totalmente    mpia.   Qualquer   um   podia   contestar   (e   contestava)
permanentemente a existncia de Deus. As pessoas questionavam todos
os aspectos da religio. O prprio territrio holands era um desafio a
Al. Conquistar terra do mar, controlar as inundaes com canais --
era como desafiar a Deus.
       L quase tudo era secular. Zombavam de Deus em toda parte. A
exclamao mais comum entre os holandeses era Godverdomme. Eu a
ouvia a toda hora -- "Que Deus amaldioe"; para mim, a pior coisa
possvel --, no entanto, ningum era fulminado por um raio. A
sociedade funcionava sem nenhuma referncia divina, e funcionava
perfeitamente bem. Aquele sistema de governo criado pelo homem era
muito mais estvel, pacfico, prspero e feliz do que os sistemas
supostamente concebidos por Deus que sempre me ensinaram a
respeitar.
       s vezes, o alapo j no fechava: estava abarrotado de idias.
Tomada de um acesso de culpa, eu me esquadrinhava: a cala, o
cabelo, os livros, as idias. Pensava nos anjos da irm Aziza, que
decerto continuavam empoleirados nos meus ombros, observando-me,
registrando tudo. Tentava me convencer, debilmente, de que eu estava
adquirindo conhecimento. Se Al tudo predeterminava, deveria ter
previsto que eu faria aquilo.
       Tentei me convencer de que um dia, quando tivesse desenvolvido
fora de vontade e estivesse novamente em ambiente muulmano, eu
seria capaz de me arrepender e de obedecer verdadeiramente s leis de
Deus. Por ora, seria sincera. Procuraria no prejudicar ningum. No
adotaria as idias sobre as quais estava lendo. Mas no ia deixar de
estud-las.
                                        * * *


       Com exceo de estatstica, em que fracassava repetidamente,
eu gostava de todas as matrias em Leiden, sobretudo filosofia poltica.
Os seres humanos tinham feito tantas observaes; que bom no
precisar conceber tudo aquilo sozinha. Era um grande privilgio
acompanhar o pensamento das pessoas, pgina por pgina. Tudo, nos
livros, era formulado de modo to belo, to racional. Aprendamos a
definir, a pensar claramente o que dizamos, a expor o pensamento em
unidades de composio e a argumentar com base em dados. Assim,
aperfeiovamos as teorias antigas e expandamos nossa compreenso
do mundo.
       Muitos      dos   primeiros   cursos,   em   Leiden,   enfatizavam   o
empirismo. Apenas os fatos: os prprios fatos eram uma bela idia.
Falavam em mtodo e razo. L no havia lugar para as emoes e a
irracionalidade.
       Por vezes, ao ler livros de histria ou filosofia, eu ficava
literalmente arrepiada. Lembro-me de quando estudei a histria da
Primeira Guerra Mundial. No fim do sculo xix, a cincia levou a
indstria, a riqueza e a medicina  Europa. Mas, na virada do sculo,
as pessoas passaram a desconfiar umas das outras. Formaram alianas
e armazenaram armas. Queriam poder e territrio. Irrompeu a guerra, e
toda uma gerao de jovens, que acabava de escapar da pobreza e da
doena, foi massacrada nas trincheiras. As pessoas criaram juzo e
interromperam a guerra, mas tornaram a repeti-la trinta anos depois.
Para mim, aquilo era assustador e, ao mesmo tempo, fascinante como
um romance e apresentava muitos paralelos com o que tinha visto em
outros pases.
       Quando eu olhava para os garotos ao meu lado, era evidente que
no sentiam a mesma emoo. Era uma histria que eles j sabiam de
cor, uma disciplina a mais. Em Leiden, a maioria dos estudantes tinha
dezoito anos e estava vivendo pela primeira vez a experincia de morar
longe dos pais.
       Todos os alunos eram brancos, quase sempre loiros de olhos
azuis. No entanto, notavam-se claras distines de cl entre eles. Havia
garotas de cabelo cacheado, que pintavam os olhos e usavam suteres
com a palavra Benetton estampada; essas eram as clones. As que
tingiam o cabelo e deixavam a cor natural aparecer na raiz eram um
lixo. E as de cabelo oleoso e sem lavar, as maloqueiras; usavam drogas.
Assim que uma moa de aparncia ligeiramente diferente se afastava de
um grupo de colegas, as outras se punham a falar nela. Embora todos
se identificassem pela roupa e o sotaque -- por classe, no por cl --,
era quase como estar entre somalis, tentando descobrir se fulano era
osman mahamud e, ento, sentindo-se  vontade para falar mal dos
hawiye.
       s vezes, durante a aula, eu notava que havia uma questo de
classe social. As pessoas costumavam dizeV: "No temos problemas de
classe na Holanda. Somos uma sociedade igualitria". Eu no
acreditava.
       A elite mandava os filhos para Leiden, executivos e pessoas do
governo. Esses jovens tinham uma confraria prpria, de alta classe, a
Minerva, no interior da qual eles se dividiam em dinheiro velho -- a
antiga nobreza holandesa -- e nouveaux riches. Todos se reuniam na
casa estudantil Minerva, e a sua vida social se dava dentro do clube. A
maioria   deles   estudava   direito   ou   administrao.   Os    que   se
aventuravam nas cincias sociais preferiam administrao pblica. Ao
que tudo indicava, cincia poltica era considerada de esquerda.
       Havia todo tipo de confrarias. A Catena era a dos no con-
formistas, os filhos de intelectuais de Amsterd que no queriam passar
pela semana de trote. Ostentavam numerosos piercings nas orelhas,
usavam roupa encardida e organizavam manifestaes ambientalistas.
A Quintus reunia os que no podiam entrar na Minerva, mas sonhavam
poder. Nas minhas primeiras semanas, levaram-me a essas confrarias.
Quando me falaram na semana de trote, respondi que j passara por
isso. Tinha vinte e cinco anos; aquilo no era para mim. J tinha
enfrentado o trote da vida.
       No gostei do alojamento de estudantes quando o visitei ao
chegar a Leiden. Era imundo. Preferi alugar um quarto no casaro
suburbano de uma senhora adorvel, Chantal. Comprei uma bicicleta
nova em folha -- a qual ainda tenho uma dcada depois -- e passei a
pedalar toda manh at a faculdade.
       No fiz muitas amizades nos primeiros meses. Quando no
estava estudando, dedicava-me  atividade de intrprete somali. Agora
que estava registrada como tal, trabalhava muito. Pela manh, quando
no tinha aula, deixava o bipe ligado. Comprei um telefone s para mim
e passei a fazer tradues por telefone, para todo pas, at tarde da
noite. Era solicitada pela polcia, por hospitais, pelos tribunais, por todo
tipo de instituio de acolhida a estrangeiros.
       O pior era ter que dizer no a algum e explicar por que as
autoridades, senhor, no autorizavam sua esposa e seus filhos a virem
morar com o senhor na Holanda. No, no podemos deixar a senhora
voltar para a Somlia e recuperar seus filhos, mesmo sabendo que a
senhora foi estuprada e que assassinaram o seu marido e que
deceparam quatro dedos da mo dele. Ou, lamento inform-lo de que o
senhor  soropositivo, est com aids. s vezes, ao desligar o telefone no
meu quartinho, eu ficava tremendo sob o impacto do que acabara de
traduzir.
       Uma somali estava alojada em um centro de refugiados, como eu
estivera ao chegar e, tal como eu, tinha uma amiga etope. Entrou em
um carro com quatro homens, certa de que ia se encontrar com a amiga
em uma festa. Depois de estuprada vrias vezes, conseguiu fugir e foi
encontrada na cidadezinha. A polcia me telefonou. No meu quarto, no
sto da encantadora casa de Chantal, tentei traduzir o que lhe diziam.
Expliquei-lhe que no devia se lavar, pois o esperma e o sangue que
ainda escorriam entre as suas pernas serviam de prova. No pude
perguntar se ela tinha sido infibulada, pois as normas me proibiam de
fazer perguntas prprias ou dar opinio, eu era apenas uma mquina.
O mximo que pude fazer foi tentar acalm-la.
       A moa estava completamente histrica, desesperada, porque
todos no centro de refugiados certamente iam marginaliz-la por ter
sido deflorada. A policial para a qual eu estava traduzindo me disse
para fazer com que ela contasse a histria toda e fornecesse provas. Ela
disse que, dali a seis meses, a vtima teria oportunidade de fazer um
teste de HIV se quisesse. Perguntei  policial se era possvel transferi-la
a outro campo, para evitar a vergonha. Ela concordou. A moa se
acalmou um pouco.
       Desliguei o telefone, arrasada com os horrores do mundo, ento
desci para jantar com Chantal. Nada podia contrastar mais com a sua
vidinha asseada, branda, agradvel. s vezes, era difcil para mim at
mesmo falar do meu trabalho. Quando lhe contava as minhas histrias,
Chantal ficava horrorizada. Dizia que tais coisas no aconteciam na
Holanda.
       Na poca no me ocorreu, mas "essas coisas" tambm se deviam
a outro tipo de educao -- educao no sofrimento, no abuso, na dor,
na misria e nos males da ignorncia.
       Eu traduzia para clnicas de aborto. Quando trabalhava pelo
telefone, quase sempre era obrigada a explicar  paciente o que era
aborto e a traduzir algumas perguntas: O pai sabe? Voc pensou em
ficar com a criana? Eu sabia aquilo de cor. Ento, quando desligava,
tambm sabia que a garota ia fazer aborto e que eu havia colaborado
com mais um ato pecaminoso. Escondia tudo no alapo do meu
crebro e ia assistir  aula seguinte ou seguia para algum compromisso.
       s vezes, precisava ir  clnica de aborto explicar  paciente que,
como a sua cicatriz ainda estava completamente fechada, era preciso
lhe dar anestesia geral para fazer a inciso e retirar o feto. Ela quase
sempre ficava apavorada e pedia: "Mas depois vocs costuram tudo
outra vez?". Os mdicos quase sempre diziam que sim, mas no o
faziam. Um deles, jovem ainda, pediu-me que explicasse: "No h
necessidade e, alm disso,  perigoso, no se fazem essas coisas na
Holanda". Traduzi. A moa se limitou a chorar, desamparada.
       Quando ia a lugares srdidos -- a delegacias de polcia, prises,
clnicas de aborto e tribunais penais, departamento de assistncia a
desempregados e abrigos para mulheres maltratadas --, eu reparava
nas muitas caras pretas olhando para mim. Para quem estava chegando
da loirssima Leiden, era impossvel no not-las. Comecei a me
perguntar por que havia tantos imigrantes ali -- tantos muulmanos.
       Particularmente chocantes eram as minhas visitas aos abrigos
de mulheres -- lugares terrveis, deprimentes. Os endereos eram
supostamente secretos. Em cada um deles moravam trinta mulheres, se
bem que s vezes chegassem a cem, e uma multido de crianas a
correr de um lado para outro. Raramente se via uma branca: s gente
do Marrocos, da Turquia, do Afeganisto -- pases muulmanos --,
assim como indianas e surinamesas.
       Os    casos    somalis       eram   quase   sempre   os   mesmos,
reiteradamente. O marido ficava com todo dinheiro do auxlio social,
gastava-o em qat e, quando a esposa escondia um pouco, ele a
espancava at a polcia intervir.
       Conheci uma somali mais ou menos da minha idade, vinha da
rea rural. No sabia ler nem escrever na sua lngua e no falava uma
palavra de holands. Tinha casado com um homem que visitara a
Somlia,  procura de esposa, e a levara diretamente para a Holanda.
Quase no saa sozinha do apartamento: tinha medo das ruas
estrangeiras. O marido a tratava com muita violncia; por fim, a polcia
a levou ao abrigo de mulheres. Estava coberta de hematomas e feridas.
Essa mulher no s era sem-teto na Holanda como no podia voltar
para a famlia na Somlia. E dizia que aquela era a vontade de Al. "Al
me deu esta situao e, se eu tiver pacincia, Ele acabar com esta
misria."
       Essas mulheres nunca recorriam  Justia. A idia de abrir
caminho na vida, por conta prpria, lhes era absurda. Estavam
convencidas de que aceitar o abuso sistemtico e inclemente era servir
a Al e fazer jus a um lugar no paraso. Sempre acabavam voltando
para o marido.J
       Embora eu no passasse de uma intrprete, absorvia essas
histrias e no me conformava com a iniqidade nelas contida. As
assistentes sociais perguntavam quelas mulheres: "Voc tem parentes
aqui? No podem ajud-la?". Elas me diziam: "Mas  claro que eles vo
dar razo ao meu marido!". A muulmana tinha que obedecer ao
esposo. Se se recusasse a dormir com o marido e ele a estuprasse, a
culpa era dela. Al dizia que o marido podia bater na mulher que se
comportasse mal; era o Alcoro.
       Essa atitude me irritava. Eu sabia que muitas holandesas eram
vtimas de violncia. Mas a sua comunidade e a sua famlia no
aprovavam tal coisa. Ningum as culpava pelos maus-tratos sofridos
nem as mandava serem mais obedientes.
       Eu ia a prises, s penitencirias de Roterd e de Haia. Quase
sempre eram casos de agresso; os somalis raramente se envolviam
com roubo ou trfico de drogas. Mas, quando surgia uma divergncia,
perder a cabea e sacar a arma era uma atitude quase natural. Um
homem deu uma martelada na cabea do senhorio que lhe cobrou o
aluguel atrasado. A assistncia social o encaminhou  terapia, mas
duvido que a pena fosse longa o suficiente.
       Ia a escolas especiais, escolas para crianas com dificuldade de
aprendizado, escolas para deficientes mentais e surdos-mudos.
       Certa vez, fui chamada a um colgio para ajudar a professora a
explicar a um casal que o filho deles de sete anos era extremamente
agressivo. Se ele voltasse a bater nos colegas, seria transferido para
uma escola especializada no tratamento da violncia. Tive dificuldade
at para encontrar palavras, em somali, para explicar o que 
tratamento da violncia.
       O garoto deu a sua verso da histria: um menino tinha lhe
mostrado   a   lngua   e   xingara,   por    isso   ele   o   surrara.   Esse
comportamento era absolutamente coerente com a sua educao. Na
Somlia, o certo era atacar. Ser o primeiro a bater. Esperar at ser
agredido era o mesmo que pedir para ser saco de pancada. Tambm fui
educada assim.
       Ao ouvir a verso do filho, os pais disseram: "Olhe aqui: foi o
outro que comeou!" A professora, que era jovem, respondeu: "Mas o
outro menino no bateu nele". E o casal exclamou em coro: "Ningum
espera at apanhar!"
       Precisei pedir para extrapolar o meu papel de mera intrprete e
explicar as coisas. Disse  professora: "No nosso pas, a agresso  uma
ttica de sobrevivncia: ensinamos as crianas a ser a primeira a bater.
A senhora vai ter que explicar muita coisa".
       A moa me olhou como se eu fosse maluca. Explicou que, se
todas as crianas tivessem liberdade de espancar as demais, seria a lei
da selva: o mais forte oprimiria os demais. E os pais concordaram.
Estavam satisfeitssimos porque o filho era o mais forte.
       Por fim, eu lhes disse: "Olhem, aqui na Holanda, se vocs
baterem em algum, as pessoas pensam que esto com algum problema
srio. Aqui as divergncias se resolvem com o dilogo. Se o seu filho
continuar agredindo os colegas, vai acabar num lugar de crianas com
problemas mentais, vai ser tratado como doente".
       Ento eles se dispuseram a ouvir. Fizeram todo tipo de acordo e
se comprometeram a um novo encontro. No fim, os trs disseram que a
reunio tinha sido muito esclarecedora, pois no sabiam que existia
uma cultura to diferente.
       Voltei para casa pensando: " por isso que a Somlia est
mergulhada na guerra civil e a Holanda no". Nada mais bvio. Os
holandeses sabiam que a violncia era ruim. Empenhavam-se muito em
ensinar as crianas a canalizar a agresso e a resolver as diferenas
verbalmente. Tinham analisado o conflito e criado instituies para
regul-los. Esse era o significado de ser cidado.
       Na poca, eu ainda no conseguia formular tudo isso. No
estava pronta para recuar e me perguntar por que tantos imigrantes --
tantos imigrantes muulmanos -- eram violentos, pobres, dependiam
do auxlio financeiro do Estado. Apenas absorvia os fatos. Mas
comeava a me dar conta de que estava se dando aos muulmanos a
possibilidade de construir o seu pilar na sociedade holandesa, com
escolas e estilo de vida prprios, tal como os catlicos e os judeus. Eles
estavam sendo polidamente abandonados para que pudessem viver no
seu mundo prprio. A idia era que os imigrantes precisavam de auto-
respeito, o que provinha de um forte sentimento de participao na
comunidade. Seria permitido a eles criar escolas alcornicas em solo
holands. O governo ia subsidiar grupos comunitrios islmicos.
Obrig-los a adotar os valores holandeses era considerado contrrio a
esses mesmos valores; as pessoas precisam se sentir livres para
acreditar no que quiserem e se comportar como bem entenderem.
       Os holandeses adotavam tais polticas porque queriam ser bons.
Aquele pas teve um comportamento abominvel na Indonsia e no
ops (muita) resistncia a Hitler; na Segunda Guerra Mundial, a
porcentagem de judeus holandeses deportados foi superior  de
qualquer outro pas da Europa ocidental. O povo se sentia muito
culpado pelo passado recente. Quando se iniciou a imigrao massiva
para a Holanda, o que s ocorreu na dcada de 80, surgiu um consenso
de que a sociedade devia se comportar com decncia e compreenso
para com aquela gente e aceitar suas diferenas e crenas.
       Mas o resultado foi que os imigrantes viveram  parte,
estudaram  parte, socializaram-se  parte. Freqentaram escolas
diferentes -- as escolas especiais maometanas ou as escolas pblicas
do centro da cidade, que as outras famlias preferiam evitar.
       As instituies de ensino muulmanas no tinham alunos de
famlia holandesa. As meninas usavam vu e geralmente ficavam
separadas dos meninos -- na sala de aula, durante as oraes, na
prtica de esportes. Ensinavam geografia e fsica como em qualquer
outra escola holandesa, mas evitavam temas capazes de contrariar a
doutrina islmica. As crianas no eram incentivadas a contestar, no
se estimulava a criatividade. Aprendiam a se afastar dos infiis e a
obedecer.
       Essa transigncia com os imigrantes e as suas lutas em um
novo pas resultava em atitudes e polticas que s perpetuavam a
crueldade. Na Holanda, milhares de mulheres e crianas muulmanas
eram vtimas de uma violncia sistemtica, e no havia como escapar
disso. Crianas pequenas sofriam exciso na mesa da cozinha -- eu
soube disso pelas somalis para as quais servia de intrprete. As moas
que se atrevessem a escolher namorado ou amante eram espancadas
quase at a morte ou mesmo assassinadas; grande parte delas
apanhava regularmente. O sofrimento dessas mulheres era horrvel. E,
embora    os   holandeses   contribussem    generosamente     para   as
organizaes internacionais de amparo, continuavam ignorando o
silencioso padecimento das mulheres e crianas maometanas no seu
prprio quintal.
       O multiculturalismo holands -- o respeito pelo modo islmico
de fazer as coisas -- no dava certo. Deixava muitas mulheres e
crianas despojadas de direitos. O pas tentava ser tolerante em nome
do consenso, mas esse consenso era oco. Preservava-se a cultura dos
imigrantes  custa das mulheres e das crianas e em detrimento da
integrao dos prprios imigrantes. Muitos maometanos se recusavam a
aprender holands e rejeitavam os valores de tolerncia e liberdade
pessoal. Casavam com parentes da aldeia natal e, ainda que vivessem
na Holanda, insistiam em ficar encerrados na sua pequena bolha de
Marrocos ou Mogadscio.
       Eu trabalhava diariamente antes da aula, depois da aula e nos
fins de semana.  noite, traduzia documentos, geralmente relatrios
sobre crianas suspeitas de deficincia de aprendizagem. O menino
tinha trs anos, no falava, no conseguia brincar com brinquedos
educativos como blocos e quebra-cabeas, era incapaz de reconhecer
uma caneta. A me, jovem e analfabeta, mal falava holands. Havia
laudos mdicos sobre mulheres espancadas ou recomendaes de
assistentes sociais para que os filhos fossem retirados da casa dos pais.
Vinte e cinco centavos por palavra rendiam setenta e cinco florins por
pgina. Eu podia abandonar a faculdade e passar muito bem o resto da
vida trabalhando de intrprete, mas isso nunca me passou pela cabea.
        Andava preocupada com Haweya. Enquanto eu enfrentava os
meus compndios em Leiden, dicionrio  mo, ela parecia estar
perdendo a razo. Chegava a ser encantadora s vezes, mas suas
oscilaes de humor haviam se tornado muito mais intensas. Ela se
mostrava grosseira e hostil, e muita gente tinha medo dela.
        No comeo, seu sentimento de culpa pelo aborto me pareceu
natural. Ela dizia que Al jamais a perdoaria: tinha matado, no uma
vez, mas duas. Entretanto, num dia em que samos juntas, fez questo
de pr o turbante. Disse: "Preciso tomar muito cuidado neste pas. Ele 
mpio. Vai acabar nos transformando em infiis".
        Estranhei:   "Mas,   Haweya,     voc    nunca     foi    religiosa".   Ela
respondeu: " verdade, mas agora preciso ser, do contrrio me arrisco a
perder totalmente a minha religio".
        Estava convencida de que ia para o inferno. Talvez o contraste
entre o que ela via e aquilo em que achava que devia crer fosse to forte
que lhe era insuportvel. Talvez no conseguisse lidar com a liberdade
individual. Talvez se tratasse de uma mera reao ao aborto. No incio,
no suspeitei do que estava acontecendo; achei que era apenas uma
fase.
        Haweya comeou a rezar todos os dias. Tinha exatamente as
mesmas dvidas que eu: por que a Holanda proporcionava ao povo uma
vida muito melhor do que os pases muulmanos que conhecamos?
Mas ela respondia a essas perguntas retornando  religio. Comeou a
ler Hasan al-Banna e Sayyid Qutb, pensadores islmicos que outrora eu
devorava em Nairbi. Haweya, que no participara da Fraternidade
Muulmana     como    eu     e   no   via   a   misria    que     eu   traduzia
cotidianamente, foi procurar respostas no Alcoro.
        Para mim, procurar respostas no Alcoro apenas levava a mais
perguntas. Uma vez eu lhe disse: "Duvido que voc encontre a resposta
s suas dvidas a". Ela me encarou: "Est dizendo que Al no tem
resposta, e voc tem?". Isso me deixou confusa. No tinha a menor
inteno de desafiar a Al, no era capaz disso.
       Respondi: "Veja a Holanda: no  perfeita, e os holandeses vivem
se queixando, mas  um pas organizado, humano e prspero, todo
mundo parece ser basicamente feliz. E ns, dos pases muulmanos,
estamos migrando em massa para pases como este, de modo que voc
tem que reconhecer que eles fazem as coisas direito. Se o certo  fazer
as coisas tal como Al manda, veja o Ir. Voc queria morar l?".
       "O Ir  xiita", ela retrucou.
       "Ento prefere a Arbia Saudita?" Acrescentei que o Alcoro
podia ser a verdade divina, como guia espiritual, mas me parecia que,
em termos de construo de governos, eram as teorias infiis do
Ocidente que davam as melhores respostas.
       Haweya me acusou de ter me tornado kufr. Comeara com o
idioma e o meu modo de vestir, e agora havia me afetado o crebro. Eu
era uma renegada. Fez com que me sentisse terrivelmente maJ por ter
abandonado a orao e a obedincia a Al. Classificou as minhas idias
ocidentais como uma espcie de vrus que estava destruindo lentamente
os meus valores morais.
       Entretanto, quanto mais livros ocidentais eu lia, mais queria ler.
Quanto   mais    aprendia    acerca     do   governo,   do   desenvolvimento
individual, dos sistemas de pensamento como a democracia social e o
liberalismo, sendo um produto do outro, mais preferia as coisas assim.
O conceito de escolha individual melhorava visivelmente a vida das
pessoas, assim como a igualdade entre homem e mulher. Eu estava
apaixonada pela idia de pensar com preciso, questionar tudo e
elaborar teorias prprias.
       No era cega para as desvantagens dessas liberdades. Sentia a
solido e, ocasionalmente, at mesmo o vazio da nossa vida. s vezes
era cansativo ter que descobrir tudo por mim em vez de confiar nas
linhas confortveis e ntidas da doutrina e nas regras minuciosas. s
vezes eu tambm receava as liberdades ilimitadas da Holanda.
       Assim, entendia por que a minha irm preferia se refugiar na
religio. Mas tambm via a alegria de viver do Ocidente. Aqui eu tinha a
possibilidade de satisfazer a minha curiosidade. Quando sentia
interesse por alguma coisa, podia experiment-la, e ficava mais sbia
com isso. Tirava as minhas concluses.
       Haweya gostava da eficincia da Holanda e tambm de no
precisar subornar ningum. Achava maravilhoso poder dizer no: "No,
obrigada, no quero ir". "No, no vou estar em casa hoje  noite." E
costumava dizer: "Esta  a melhor coisa daqui. Eles so francos, so
sinceros".
       Mas ela vivia principalmente do auxlio financeiro do Estado.
No estava bem. No tinha disciplina. Queria coisas contraditrias: ser
uma boa muulmana praticante e ncora do telejornal da CNN, mas
no saa da cama. Fazia meses que dava a impresso de no lavar a
roupa nem a loua que usava. Engordava muito e, a seguir, emagrecia a
ponto de assustar. Tomar um banho por dia lhe exauria toda energia.
s vezes passava trs dias seguidos na cama, sem se levantar. E, ento,
vivia vrios meses bons, durante os quais se mostrava generosa,
interessante,   engraada.   Esbanjava     energia,   assistia      aula,
impressionava os professores. E, de repente, tornava-se novamente
rude, cruel, vulgar, e mergulhava na letargia e tinha crises de choro.
       Nos primeiros meses de 1996, Haweya comeou a dizer coisas
sem nexo: "Por favor, vire o espelho para a parede". Eu perguntava por
qu, e ela respondia: "Vejo coisas l dentro quando me olho nele". Eu
gritava: "Pare de bancar a louca, tente se controlar", mas era intil. Ela
comeou a dormir de luz acesa. Telefonava me pedindo que fosse  sua
casa -- precisava de mim naquele instante, urgentemente --, mas,
quando eu chegava, depois de horas de viagem, mandava-me embora,
dizendo: "No suporto a companhia de ningum, v embora".
       Eu no era uma eremita em Leiden. Encontrava minhas amigas
de Ede com muita regularidade, e pouco a pouco fiz novas amizades.
Geeske era uma primeiranista de cincia poltica, como eu, e tinha
muita energia, muita vivacidade. Levava-me ao cinema e aos cafs de
estudantes, bem mais relaxados que os pubs de Ede, embora no
menos lotados e enfumaados, mas, agora que eu entendia os
holandeses, achava-os bem mais divertidos. As pessoas ficavam do lado
de fora, comendo e escutando msica.
       O fato de eu no tomar lcool virou uma espcie de piada
pronta. A primeira vez em que finalmente provei uma bebida, fiquei
tonta, a sala comeou a girar. Nenhum raio me fulminou, mas estava
muito tarde para eu voltar para casa de bicicleta, de modo que passei a
noite com outra amiga, Evelien. Na manh seguinte, ao acordar, senti
que tinha transposto uma linha horrvel, deixara de contornar as leis de
Al para transgredi-las de vez.
       Achava que Chantal no ia gostar se eu passasse a chegar tarde
 casa dela e me sentia sem jeito para convidar os amigos. Geeske, por
sua vez, morava com dezesseis outros estudantes em um casaro
enorme, muito velho,  beira do canal, e vivia contando que era
divertidssimo morar l. Quando um quarto ficou desocupado, ela
props que me inscrevesse. Alegava que eu nunca chegaria a entender a
Holanda se no tivesse vivido adequadamente a vida de estudante.
       O procedimento de seleo era rigoroso. Os moradores da casa
se reuniam para entrevistar os candidatos, tudo isso regado a garrafas
de vinho. Perguntavam que tipo de msica preferamos, o que
gostvamos de fazer nas frias, qual era o nosso hobby, que tipo de
trabalho fazamos nas frias. Eu disse que meu passatempo era a
leitura e que nunca tinha viajado de frias. Todos eles eram garotos
muito jovens, muito brancos, e a maioria tinha passado a vida morando
na mesma casa. Quiseram saber onde eu tinha vivido, e, ao enumerar
os pases -- Somlia, Arbia Saudita, Etipia, Qunia --, vi seus olhos
se arregalarem. Quando contei que era intrprete, um rapaz exclamou:
"Uau, voc deve ganhar uma tonelada de dinheiro!" Eu disse que sim,
ganhava mesmo.
       Geeske receava que os colegas me achassem chata ou esquisita
-- ou, pior do que isso: velha --, mas fez uma campanha to intensa a
meu favor que eles acabaram me escolhendo. Assim, eu me mudei para
um quartinho em uma repblica de estudantes holandeses, lugar em
que conviveria com rapazes, em que no faltava lcool, talvez nem
mesmo drogas. Tratei de me armar de coragem.
       Mudei-me para a repblica de Geeske em maro de 1996. Antes
mesmo da minha primeira noite, consegui colocar toda moblia no
quarto novo, com exceo da escrivaninha que Chantal havia me dado.
Era grande, antiga e linda, mas no passava pela porta. Na manh
seguinte, acordei cedo para tentar desmont-la com uma chave de
fenda. Estava s voltas com esse trabalho, ainda de pijama amarelo,
quando todos comearam a sair para ir  aula. Ao passar por mim, um
rapaz mais velho, chamado Marco, enfiou a cabea debaixo da
escrivaninha e se apresentou.
       Na hora do almoo, quando ele reapareceu, eu continuava no
mesmo lugar, ainda de pijama. Entrementes, havia feito trs tradues
telefnicas, mas  bvio que ele no sabia disso. E disse: "No acredito!
Isso  impossvel. Saia da". E desmontou a escrivaninha em quinze
minutos. Depois de coloc-la no quarto, tornou a mont-la e ficou
admirando o meu computador. Ento o telefone tocou: mais uma
traduo.
       Ao sair, Marco me convidou para jantar na cozinha aquela noite.
Explicou que os moradores da repblica costumavam fazer compras e
cozinhar juntos para economizar. "Pelo menos agora apareceu uma
pessoa interessante", sorriu. "Eu j estava farto desses fedelhos de
dezoito anos metidos a besta."
       Um ano mais velho do que eu, Marco j trabalhava; era reprter
de uma revista cientfica. Tinha morado na repblica na poca em que
estudava biologia; depois de formado e j empregado, continuou l,
embora no tivesse esse direito. Em Leiden, os aluguis eram
carssimos. Como muitos holandeses, ele adorava viajar e gastava todas
as economias em longas excurses a pases exticos como o Egito e a
Sria. Passamos a jantar juntos vrias vezes por semana.
       Eu continuava trabalhando, mas agora, cercada de jovens,
achava tudo muito mais divertido. No entanto, sabia que era uma
estranha no ninho. Saa do quarto, contava aos meus companheiros o
que acabara de traduzir -- tinha informado que algum estava com
aids, orientara uma mulher espancada --, e notava o assombro deles.
Para eles, as vidas com as quais eu tinha contato eram de outro
planeta. Quase todos haviam sido criados na aldeia dos avs, s vezes
na mesma casa. No tinham nenhuma experincia com a misria do
mundo.
       Outra coisa que me fascinava naqueles garotos: tudo girava em
torno do eu -- as coisas de que gostavam, a expresso do seu estilo, a
busca de algo que eles sentiam que mereciam. Tratava-se de uma
cultura do ego que me era totalmente desconhecida na frica. Na minha
infncia, o eu era desprezado. A gente fingia ser obediente, boa e devota
para receber a aprovao dos outros; ningum tentava se exprimir. Na
Holanda, as pessoas procuravam o prazer simplesmente porque
queriam.
       Marco era bonito, tinha cabelo castanho-claro e olhos muito
azuis, grandes e inocentes; sempre trazia um sorriso no canto da boca.
Ficamos interessados um pelo outro -- no s como amigos --, mas
nenhum dos dois tomou a iniciativa.
       Numa tarde de vero, minha amiga Tamara foi me visitar com a
me, que morava no Canad. O tempo estava to surpreendentemente
bom que eu as convidei para subir ao terrao do telhado e propus
comermos l em cima. Por coincidncia, Marco tambm estava com um
amigo e tambm teve a idia de fazer piquenique no telhado. (Esses
piqueniques eram proibidos, mas ningum ligava para isso.)
       Acabamos comendo todos juntos, foi uma espcie de festa ntima
improvisada. Com o avanar da noite, Marco e eu comeamos a ficar
mais perto um do outro. A atrao que sentamos, latente havia meses,
inflamou-se e lanou uma espcie de energia que contagiou os outros. A
me de Tamara pegou a cmera para nos fotografar. Posamos: Marco
me envolveu os ombros e me atraiu para junto de si. Ainda tenho essa
foto: parece to natural, como se j estivssemos juntos havia milhares
de anos. E foi uma sensao to maravilhosa -- surpreendente e boa.
       No nos beijamos nem nada. Simplesmente ficamos um
momento de mos dadas e permanecemos juntos a noite toda,
conversando enquanto outros amigos dele iam chegando: Giovanni,
Olivier e Mareei. Mas, no dia seguinte, Marco me convidou para ir 
casa de um amigo na mesma rua: estava cuidando do gato do tal amigo,
que viajara. Fizemos compras e cozinhamos l. Os dois sabamos que
algo ia acontecer.
       Marco foi delicado e paciente. No comeo, confesso que fiquei
petrificada. Senti a presena de Al e dos dois anjos na cama conosco,
julgando-me. Eu estava pecando. Mas a sensao que experimentava
no era de pecado. Com o passar dos meses, tive certeza de que queria
ficar o resto da vida com aquele homem; confiava nele. Enfim, consegui
sacudir os anjos dos ombros e expuls-los da cama.
       Durante cinco anos, Marco e eu passamos juntos praticamente
todas as noites. Tornamo-nos inseparveis. ramos iguais, achvamos
graa nas mesmas coisas, um representava tudo que o outro queria. Na
metade de 1996, solicitei um imvel ao departamento de habitao e,
em seis meses, recebi uma carta informando que tinha direito a um
apartamento em Langegracht, no centro de Leiden, cujo aluguel era de
apenas oitocentos florins. Marco e eu resolvemos morar juntos. A chave
nos seria entregue no dia 1 de janeiro.
       Comemoramos com Haweya a chegada de 1997. Ela acabara de
se mudar para uma repblica de Nijmegen, a duas horas e meia de
Leiden, onde estava comeando a estudar administrao pblica.
Juntamos uma turma grande para alugar uma casa em uma ilha, no
norte da Holanda, na qual passamos alguns dias. Haweya ficava tensa
na presena dos amigos de Marco, mas gostava das longas caminhadas
quando fazia bom tempo. Lembro-me dela correndo na praia uma tarde,
perseguindo as gaivotas, agitando os braos de alegria. Achei que estava
muito bem.
       No entanto, alguns dias depois que Marco e eu nos instalamos
no apartamento novo, recebi um telefonema de Tamara. Ela e Haweya
se davam bem e juntas costumavam ir ao cinema ou jantar. Tamara me
contou que havia telefonado para a repblica de Haweya a fim de
cancelar um passeio, e uma das companheiras contou que ela estava no
hospital.
       Tinha comeado a gritar em rabe no quarto, atirando-se nas
paredes e no cho; a polcia havia precisado arrombar a porta. Haweya
tinha sido levada em camisa-de-fora.
       Fui com Marco  enfermaria psiquitrica de Nijmegen. Minha
irm estava pavorosa. Totalmente desgrenhada, de cabelo eriado;
passara a noite arrancando mechas. Sua fisionomia era quase
irreconhecvel, e ela apresentava uma ferida enorme na testa de tanto
bater a cabea na parede. Tinha hematomas nas pernas e estava muito
sedada. Perguntei: "Bateram em voc?" Ela respondeu: "No. Eu me
joguei no cho e me machuquei".
       Quando cheguei, Haweya parecia calma, mas, ao me contar o
que tinha acontecido, comeou a ver coisas, coisas inexistentes. Disse
que ouvia vozes. Foi ficando cada vez mais confusa e comeou a falar
em Jesus,  merc de uma espcie de loucura mstica. Quando me
sentei, comeou a falar mais alto. Levantou-se e, andando de um lado
para outro -- depressa, cada vez mais depressa --, recitava Allah
Akbar, Allah Akbar, Allah Akbar aos berros, atropeladamente, no ritmo
de cada passo. No consegui segur-la, ela simplesmente me jogou na
cama com um safano. Tinha uma fora enorme.
       Duas enfermeiras intervieram, sujeitaram-na, aplicaram-lhe
uma injeo e me mandaram embora. Que fosse para casa. Podia voltar
no dia seguinte para conversar com o mdico.
       O psiquiatra disse que Haweya estava em pleno surto psictico,
mas reagira bem  medicao. Teria de ficar uma semana internada, em
observao. Tudo ia dar certo.
       Eu ia visit-la diariamente. As aulas, as tradues -- nada mais
importava. E, passados alguns dias, minha irm comeou a melhorar.
Voltou a usar o turbante e parecia no se lembrar do acontecido.
Limitava-se a dizer: "Fiquei um pouco desequilibrada. A Holanda me
afeta muito". Acrescentou que j no queria tomar remdio; estava
perfeitamente bem.
       Uma semana depois, um juiz foi  enfermaria averiguar se ela
devia continuar hospitalizada a contragosto. Haweya o convenceu de
que no tinha nenhum problema grave. Eu a levei de volta a seu
apartamento e a acomodei. Mas, trs dias depois, quando fui visit-la,
percebi logo que ela no estava nada bem. Resmungava sem parar, s
vezes gritava feito um pregador. Pegou o livro de Sayyid Qutb e disse:
"Ayaan, voc precisa se arrepender e voltar para Al". De repente,
comeou a se despir.
       Comecei a gritar, mandando que ela parasse com aquilo, e
Haweya, subitamente constrangida, obedeceu. Eu disse: "Voc no
percebe que estava falando sozinha?". Ela retrucou: "Sozinha, no. H
uma voz na minha cabea. Uma voz que quer que eu me comporte como
criana, e eu estava lhe dizendo: 'Agora no. Quando Ayaan for embora,
fao o que voc quiser'".
       Na manh seguinte, fui diretamente  biblioteca de Leiden.
Queria entender o que estava acontecendo. No decorrer das semanas
seguintes, percebi que a voz era a da Haweya pequena. Suas
lembranas, seus sentimentos religiosos de menina, as recordaes do
colgio e dos nossos pais, tudo rodopiava dentro dela, misturando-se
com sua vida adulta como se fossem coisas reais.
       Compreendi que minha irm estava com problemas mentais. 
fcil entender os males fsicos: a gente adoece, toma remdio. Mas a
doena mental assusta: no se enxerga a ferida. Marco era bilogo e me
ajudou a entender a qumica do crebro. Consultei um psiquiatra.
Racionalmente, entendia tudo. E dizia comigo: "O que h  um
desequilbrio qumico dentro dela. No uma maldio. Isso no est
acontecendo porque ela desobedeceu a Al ou  minha me".
Emocionalmente,      porm,   fiquei   arrasada.   Haweya   estava   se
desintegrando diante dos meus olhos, e a nica coisa que eu podia fazer
era observar. Sentia-me desamparada, culpada por no ter percebido os
sinais e evitado a doena, oferecendo-lhe um ambiente mais estvel e
seguro.
       Ela no adoeceu por causa do isl. Suas alucinaes tinham
carter religioso, mas seria injusto dizer que a culpa foi do isl. Haweya
recorreu ao Alcoro em busca de paz de esprito, mas sua agitao
interior era qumica.  possvel que tudo tivesse a ver com a falta de
limite da Holanda; ela dizia que era como ficar em um quarto sem
paredes. Uma vez confessou: "Eu estava to acostumada a lutar por
cada coisinha, e, de uma hora para outra, no h nada por que lutar --
tudo  possvel". Minha irm ficou desnorteada na Europa, e a falta de
rumo se tornou intolervel.
       Haweya escondia os remdios. Passou a delirar, a falar demais.
Achava-se amaldioada. Uma noite, j era tarde, tomou um txi em
Nijmegen e foi visitar Hasna, a somali refugiada em Ede. Hasni pagou a
corrida e a deitou na cama, mas, na manh seguinte, Haweya agarrou
sua filhinha e se recusou a solt-la. Tentou amament-la, dizendo-se
Maria, a me de Jesus. Hasna no teve alternativa seno chamar a
polcia. Com muita delicadeza, eles tiraram o beb de seus braos e a
levaram ao hospital.
       Minha irm ficou trancada em uma cela acolchoada, na qual
tudo era cinzento, macio e pouco iluminado. No me deixaram visit-la.
Tornaram a medic-la. As drogas a acalmaram, mas apresentaram
efeitos colaterais. Ela comeou a caminhar de modo espasmdico,
sacudindo muito os braos. Ministraram-lhe mais medicamentos; isso a
deixou letrgica, entregue  depresso.
       Haweya passou seis meses internada. Eu ia visit-la com
freqncia. Numa dessas ocasies, dei com outro visitante, Yassin
Moussa Boqor, o filho caula do Boqor que presidira a reunio clnica
no centro de refugiados de Ede. Aquele homem, que era prncipe dos
osman mahamud, cumprimentou-me com muita cortesia. Tinha ido ver
Haweya a pedido do meu pai e do cl: a notcia j se espalhara.
       Algumas semanas depois, o telefone tocou e Marco atendeu. Ele
se voltou para mim, e vi que estava com lgrimas nos olhos. Disse:
"Ayaan,  um telefonema muito especial". Peguei o aparelho e ouvi o
meu pai dizer: "Abeh, abeh", com voz de menininha, como eu
costumava fazer.
       No pude conter um grito: "Abeh!Voc me perdoou!". Joguei
longe o telefone. E me pus a gritar, a saltar, cheguei at a danar na
sala antes de tornar a pegar o telefone.
       Papai disse que Yassin Moussa Boqor lhe contara que eu estava
cuidando da minha irm com muita dedicao. E acrescentou que
qualquer homem devia se sentir abenoado por ter uma filha assim.
Naquele pas to cinzento, nebuloso e deprimente, havia uma jovem
somali esforada, que trabalhava e estudava muito. O prncipe lhe
pedira respeitosamente que me perdoasse.
       Havia meiguice na voz de abeh. Quase morri de alegria; foi um
dos momentos mais felizes da minha vida. No discutimos a questo do
meu casamento e da minha fuga; s queramos dizer coisas boas. Papai
contou que estava morando na Somlia novamente, com a terceira
mulher e a filhinha. Disse que tinha tudo de que precisava, mas,
obviamente, no tinha telefone. Propus: "Quero ligar para voc e quero
que voc atenda", e lhe mandei dinheiro para que instalasse um. Depois
disso, passei a telefonar pelo menos uma vez por ms. Ele disse que
precisvamos rezar, pedir a Al que curasse a minha irm, mas
tambm lhe recomendou tomar o remdio.
       Haweya      estava   melhor.   Foi   transferida   para   o   setor de
internao prolongada, e podia sair do hospital durante o dia. Ameacei
intern-la novamente se ela no voltasse  noite como devia. Nas
semanas que se seguiram, deu mostras de reconhecer que estava
doente. Disse uma vez: "O sofrimento  uma coisa to solitria.
Ningum entende o que me passa pela cabea". Foi duro ouvir essas
palavras. Mas minha irm insistia que era a Holanda que lhe fazia mal.
Se partisse, tudo se resolveria. Eu sabia que aquilo era um
despropsito. Se ela voltasse para casa, em Nairbi, deixaria de receber
a medicao que impedia os terrveis surtos psicticos.
          Em junho, Haweya teve alta, e eu a instalei no apartamento que
dividia com Marco em Langegracht. No deu certo. Ela andava
extremamente imprevisvel, e eu passava o tempo todo procurando
convenc-la a tomar o remdio. Embora Marco fosse prestativo, os dois
brigavam o tempo todo; tanto um quanto outro eram muito teimosos.
Fiquei dividida entre o trabalho de traduo, a faculdade e a irm de
que cuidava em casa: mal sobrava espao para Marco na minha vida,
muito menos para os amigos.
          Haweya estava decidida a voltar para o Qunia. Conversou com
mame, que concordou imediatamente. " claro que ela s podia ter
enlouquecido nesse pas kfur" disse. "Ayaan, voc precisa voltar
tambm, antes que acabe enlouquecendo."
          Meu pai, Johanna e todos os demais diziam que eu no tinha o
direito de impedi-la de retornar se quisesse. Em julho, minha irm
viajou.
          Foi um alvio poder voltar a me concentrar nos estudos, embora
me sentisse culpada em admiti-lo. Estava atrasada; as viagens
constantes a Nijmegen me tomavam muito tempo, assim como o
trabalho de intrprete, do qual eu precisava para pagar o tratamento de
Haweya e enviar dinheiro a mame.
          Em Leiden, as turmas eram pequenas; e os cursos, muito
intensivos. Os professores apresentavam trs ou quatro teorias
referentes a um assunto abstrato qualquer -- a liderana carismtica, a
adeso da classe mdia  revoluo, a convenincia da representao
proporcional -- e, a seguir, queriam que conferssemos se os dados
corroboravam a argumentao, se no havia falhas, para ento
formarmos teorias prprias. Quando no conseguamos desenvolver
uma teoria alternativa, diziam que ramos desinteressados, que nos
faltava aptido para a cincia. Obrigavam-nos a conceber uma teoria
prpria, com metodologia prpria; do contrrio, qualquer coisa que
dissssemos era classificada como conversa de botequim, no como
cincia. E nos estimulavam a ler muito, independentemente do
currculo. Eu gostava disso, mas achava difcil acompanhar aquele
ritmo.
         Em setembro de 1997, obtive o direito de optar pela cidadania
holandesa. Fazia cinco anos que estava no pas. Mal podia esperar;
alis, havia feito a solicitao meses antes. Em termos prticos, queria
o passaporte holands para viajar com mais facilidade; era dificlimo
transitar na qualidade de asilada. Mas ainda receava que as
autoridades descobrissem que eu mentira e cassassem o meu status de
asilada. Achava que, uma vez naturalizada, ficaria livre desse perigo.
Tinha sido refugiada a vida toda, desde que sara de Mogadscio aos oito
anos. Agora queria ser um membro real e participante de uma
democracia viva. Queria ter o meu lugar.
         No dia 21 de agosto de 1997, recebi uma carta: quase
exatamente cinco anos depois de haver recebido o status de asilada em
Lunteren, a rainha da Holanda aceitava o meu pedido de naturalizao.
Dali a quinze dias, poderia ir buscar o passaporte no Conselho
Municipal de Leiden.
         Quando cheguei  frente da fila, meu corao disparou. "Vim por
causa da naturalizao", expliquei  loira  escrivaninha, mostrando-lhe
a carta que recebera. Ela me encarou e disse: "Ok. Pode pagar ali". A
caixa pegou o dinheiro e me entregou uma coisa: um passaporte
holands. Trazia a minha fotografia, o meu nome, Ayaan Hirsi Ali, que
agora me parecia absolutamente normal. No houve discurso nem a
leitura dos meus direitos e deveres. O momento da entrega do
documento foi o menos solene do mundo.
         Marco e eu demos uma festa para comemorar, e eu dizia a todo
mundo: "Sou holandesa!" Ningum chegou a rir de mim, mas todos me
olhavam com estranheza. No pelo fato de ser negra e me pretender
holandesa; isso no era problema. Acontece que ser holands no
significava absolutamente nada para aquela gente. Mesmo porque meus
amigos no gostavam dos smbolos da nacionalidade: a bandeira e a
monarquia. Para eles, essas coisas remontavam aos prfidos tempos da
Segunda Guerra Mundial. Viam o nacionalismo quase como sinnimo
de racismo. Ningum se dizia orgulhoso de ser holands.
        No incio, Haweya deu a impresso de estar bem no Qunia.
Conversvamos pelo telefone mais ou menos de dez em dez dias, e ela
parecia feliz; falava at em arranjar emprego. Mas, em outubro, voltou a
adoecer. Passou a dizer coisas incoerentes, mesclando a conversa com
desvarios religiosos. Andava ouvindo vozes.
        Eu lhe propus voltar a Leiden, mas ela respondeu que tinha
medo da Holanda. No telefonema seguinte, disse que queria retornar,
mas perdera o passaporte. Pediu-me que desse um jeito de tir-la de l
sem documento mesmo. Contou que mame s vezes a amarrava, que
Mahad       batia   nela.   E   se   lamentou:   "Estou   perdendo   tempo,
envelhecendo, minha vida  uma confuso, e estou grvida".
        Depois disso, Haweya nunca mais atendeu ao telefone. Eu s
conversava com mame, que me contou que ela estava se tornando
mais violenta. Mame sabia da gravidez. Quando toquei no assunto,
limitou-se a dizer: "Al quis assim" com amarga resignao. Enviei
dinheiro.
        No incio de dezembro, voltei a telefonar, e mame contou que
Haweya estava muito mal. Disse: "Se voc quiser ver sua irm viva,
venha j". Eu estava em poca de provas em Leiden e no a levei a
srio. Pensei em ir a Nairbi no fim do ano. Mas estava atrasadssima
nos estudos devido aos meses que passara cuidando de Haweya. Acabei
decidindo aproveitar os feriados para escrever vrios trabalhos.
        Poucos dias depois do ano novo, em 8 de janeiro de 1998, meu
pai telefonou para me dar a pior notcia que recebi na vida: "Al levou
Haweya para o seu destino derradeiro".
        Ela tinha ficado doente durante uma semana e ento morrera.
Eu no conseguia acreditar. Foi como se tivessem sugado todo o ar da
sala. Comecei a chorar, e papai disse: "No, Ayaan. No devemos chorar
por Haweya. De Al viemos e a Al retornaremos. Ela est com Deus.
Ns ainda precisamos continuar lutando pela vida afora para obter o
que ela j obteve. Est descansando em paz".
       Continuei chorando. Tomei o primeiro avio. A caminho do
aeroporto, pus o casaco preto e o turbante -- a mesma roupa com que
tinha chegado  Europa.
       Minha irm foi sepultada cerca de uma hora antes que eu
desembarcasse em Nairbi. No tive tempo de ver seu corpo, no tive
tempo de me despedir. Os muulmanos enterram os mortos em vinte e
quatro horas. Por vezes abrem uma exceo para o pai ou o marido.
Mas meu pai no foi ao enterro -- estava na Somlia --, e ningum
pensou em abrir exceo por minha causa.
       De modo que, quando cheguei, Haweya j estava no tmulo.
Limitei-me a ficar no quartinho miservel em que a minha me agora
morava, em uma rua suja de Eastleigh, e a ouvir como tinha sido
conviver com minha irm nos ltimos seis meses. Olhei para as grades
da janela, amassadas desde que Haweya tinha se atirado nelas, e para a
vidraa que ela havia quebrado e no fora reparada.
       Mame e Haweya moravam naquele lugar horrvel. L dormiam,
cozinhavam e lavavam a roupa. Era o quarto mais deprimente que se
pode imaginar. Dcadas de braseiro aceso enegreciam as paredes
descascadas.
       Mame me contou como foi a morte da minha irm. Os surtos
psicticos pioraram muito. s vezes era preciso chamar vrios homens
para amarr-la; mame no podia nem se aproximar dela. Um mdico
chegava para lhe dar injeo, e ela se acalmava. Uma noite, houve um
temporal. Haweya estava  janela, observando o dilvio. Sbito, disse
que tinha visto Al no relmpago e correu para a porta. Saiu  rua,
descala na escurido, chapinhando nas poas de gua, e, quando
mame pediu socorro, dois somalis foram no seu encalo. Levaram-na
de volta, seus joelhos e seu sexo sangravam.
       Ela morreu uma semana depois do aborto. Imagino que tenha
sido uma infeco. No sei se chegou a ser atendida.
       Fiquei muda, horrorizada, mas tambm com medo da minha
me. Ocorreu-me que ela era capaz de tentar me tomar o passaporte e
me obrigar a ficar em Nairbi. Naquela noite, dormi no colcho de
Haweya com o documento atado  cintura.
       Quando minha irm morreu, rezei. Eu me vesti e me curvei para
orar, como mame queria, em nome da paz domstica, mas as minhas
oraes eram vazias de contedo. O mais importante: estando a ss,
roguei a Al que desse paz a Haweya, pois ela j tinha vivido o inferno
na terra. Pensar que minha irm deixara de sofrer, que estava
descansando, foi surpreendentemente reconfortante.
       Minha me era a amargura em pessoa, uma fora exaurida.
Nada restava da moa orgulhosa que abandonara a famlia no miy e
fora para Aden, que casara com o homem da sua escolha e lutara para
salvar a famlia em plena ditadura. Os seus sonhos tinham se
transformado em pesadelos. Minha av partira, estava morando com a
filha caula na Somlia. Mame morava em Eastleigh, o bairro que ela
desprezava, no pas e na cidade que sempre havia detestado, e no
falava com praticamente ningum da comunidade. Sua famlia j no
existia: Mahad era uma decepo; uma filha a abandonara; a outra
tinha enlouquecido, depois engravidara. Era a concretizao do seu pior
pesadelo. Pior do que a prpria morte de Haweya.
       Na tarde seguinte, ela comeou a imprecar: "Por que Al fez isso
comigo? Como sua irm pde fazer o que fez?" Era insuportvel ouvir
tal coisa, ouvir Haweya ser acusada de t-la magoado. Pensei na
violncia, nas surras que ela levara na infncia.  minha me no
ocorria que talvez tivesse uma parcela de responsabilidade pelas coisas
que saram erradas. Lembrei-me de que ela mesma persuadira Haweya
a deixar os mdicos e os remdios na Holanda e a retornar a Nairbi
para viver naquele cubculo horrendo, naquela sordidez extrema.
       Tentei falar, dizer-lhe tudo isso. Queria ter uma verdadeira
conversa com ela, talvez pela primeira vez na vida. Mas no restava
nada da me poderosa que eu recordava. Ela no estava apenas fraca,
estava acabada, e fiquei com pena. Era carne e osso, as suas pernas,
duas feridas abertas de psorase, e ela, a desgraa em pessoa.
       Dei-lhe os mil dlares que tinha comigo. Disse: "Quero que voc
saia imediatamente deste quarto. Vou continuar mandando dinheiro.
Voc vai para a Somlia. Fique com seus irmos, com seu cl. No h
mais nada em Nairbi. Haweya morreu, Mahad no vale nada, e eu no
volto mais para c. Voc no tem amigos, est brigada com todo
mundo. V embora daqui".
       Senti que agora a autoridade na famlia era eu. E disse: "Daqui
por diante, voc vai sozinha fazer compras e pegar o dinheiro que eu
mandar. No quero saber de Mahad metido nisso". Falei no dinheiro
que lhe enviara pelo meu irmo -- decerto mais de dez mil dlares, com
os quais ele dizia que pagava o aluguel de uma casa em Westlands --, e
isso a animou um pouco: de raiva.
       Fui visitar Halwa, que continuava morando na casa do pai,
dormindo no mesmo quarto, mas parecia que um fantasma tinha lhe
roubado a alma. Em 1992, alguns meses antes de eu sair de Nairbi
para ir morar com Osman Moussa, Halwa finalmente casara com um
primo do Imen. O sujeito era mando e achava que ela tinha obrigao
de servi-lo, embora fosse tosco e analfabeto. Halwa o detestava, mas
engravidou. Quando a filha nasceu, ela pediu ao pai que a autorizasse a
se divorciar. Ainda que com relutncia, ele pagou uma indenizao e o
marido de Halwa retornou ao Imen. Agora ela raramente saa da casa
do pai. A filha tinha quatro anos; era sua nica alegria na vida.
       No dia seguinte, fui conhecer o filho recm-nascido de Mahad.
Gostei muito de Sha'a, a sua jovem esposa. Parecia abandonada, era
evidente que Mahad no lhe fazia companhia. Quando o questionei, ele
alegou que estava zangado com Sha'a por ter engravidado. Perguntei se
acaso ele usava algum contraceptivo, e a resposta foi no, Sha'a tinha
obrigao de contar os dias. No agentei: disse-lhe que era muito
cmodo para ele ser homem e culpar as mulheres por todos os seus
problemas. Mas vi o quanto isso o irritou e procurei rilhar os dentes a
fim de evitar mais uma crise: no era uma ocasio propcia.
       Ento perguntei do dinheiro que lhe tinha enviado. Mahad
respondeu que o aplicara em um negcio, mas o homem fugira para
Om. Como sempre, ele era a vtima.
       Fui dar umas voltas. Nairbi era uma sombra da cidade que eu
conhecia. As ruas estavam esburacadas, quase nenhum telefone
funcionava. A economia ia de mal a pior; o aumento da pobreza em to
pouco tempo chegava a ser obsceno. A violncia nas ruas tornara-se
rotineira. No governo de Daniel Arap Moi, a roubalheira e a corrupo
em escala verdadeiramente massiva estavam retirando do pas toda
sensao de energia e esperana. Tudo se convertera em um caos e
ningum dava mostras de esperar melhora. Era o fundo do poo.
       No consegui dormir na noite anterior  minha viagem de volta 
Holanda. Ao amanhecer, ouvindo os carros sacolejarem na rua, percebi
que nunca mais voltaria para l. Minha vida, ou o que eu dela fizesse,
seria na Holanda, talvez para sempre.
       Quando cheguei a Leiden, depois da morte de Haweya, eu estava
no piloto automtico. No sentia nada. Limitei-me a fazer as tarefas
cotidianas e, no sei bem como, consegui. Pouco a pouco, a vida foi
tomando forma. Perdera vrias provas e trabalhos, de modo que no me
faltava o que fazer. Marco foi muito bom para mim: isso ajudou.
       Meu ex-namorado Abshir Abdi Aynab, o imame da Somlia,
telefonou para dar os psames. Disse que estava morando na Sua e
pretendia me visitar. Eu o dispensei. No queria mais nada com a
minha vida de outrora.


       14. Sem Deus


       Eu estava comeando a me integrar  sociedade estudantil, que
no se mostrava previsvel nem serena como o meu crculo de Ede.
Geeske e os outros companheiros de Leiden eram agnsticos ou ateus;
Elroy, o melhor amigo de Marco, homossexual.
       Por exemplo, Giovanni, um amigo de Marco, brigou com a
namorada Mirjam depois de passar trs meses fazendo pesquisa
biolgica em Israel. Na sua ausncia, Mirjam se apaixonou por Olivier,
um amigo de Giovanni. Giovanni ficou chateado ao retornar -- fazia
anos que os dois estavam juntos --, mas no houve nenhum homicdio
nem ameaa de violncia. Mirjam tinha todo direito de se apaixonar por
outro. At a me dela era dessa opinio, embora adorasse Giovanni. Eu
ficava fascinada com aquele sistema moral completamente diferente.
       Em maio de 1998, houve eleies. Agora, sendo holandesa, eu
podia votar. Pensei muito nisso. Alis, ter a possibilidade de escolher o
governo da Holanda era uma grande responsabilidade para mim. Como
a maioria dos nossos amigos, votei em Wim Kok, um socialdemocrata
do Partido Trabalhista. Meu corao era de esquerda. Preferia Kok
devido  sua lealdade e honestidade, porque prometia criar empregos, e
eu acreditava nele; era um poltico experiente, e a sua trajetria me
agradava. Embora fosse estudante de cincia poltica e intrprete, ainda
no tinha me ocorrido analisar a posio dos partidos polticos no que
se refere  imigrao e  integrao. Tampouco chegara a questionar o
papel do governo em relao ao fato de tantos imigrantes figurarem nas
estatsticas de criminalidade, desemprego e outros problemas sociais.
       Em janeiro de 2000, o comentarista poltico Paul Scheffer
publicou o artigo "O drama multicultural" no NRC Handelsblad, um
prestigioso jornal vespertino. Tornou-se imediatamente o assunto do
dia. No havia quem no tivesse opinio sobre ele. Scheffer dizia que
havia se formado uma subclasse tnica de imigrantes, a qual era
excessivamente insular e, por rejeitar os valores que mantinham a
coeso da sociedade holandesa, criava novas e nocivas divises sociais.
Ningum dava importncia  adaptao dos imigrantes; os professores
chegavam a questionar a relevncia do ensino da histria da Holanda
para os filhos dos imigrantes, e toda uma gerao dessas crianas
estava sendo negligenciada em nome da tolerncia. Na opinio de
Scheffer, a Holanda no tinha espao para uma cultura que rejeitava a
separao entre Estado e Igreja e no reconhecia os direitos das
mulheres e dos homossexuais. Ele previa agitao social.
       Na poca, no dei a menor importncia a essas consideraes.
Para mim, os holandeses viviam num verdadeiro paraso e tendiam a
ver crise nos mnimos problemas. Eu encarava a Holanda da dcada de
90 como o "desconforto da riqueza" da idade de ouro do sculo xvi: um
lindo paisinho em que tudo era perfeito. A economia vivia um boom. Os
trens chegavam no horrio, se bem que menos depois de terem sido
privatizados. A poltica era cordial e at amigvel. Havia mulheres e
homossexuais no ministrio, e todo mundo os respeitava muito. Eu no
acreditava que aquele pas tivesse problemas de fato. Para mim, as
palavras empregadas por Scheffer -- crise, convulso social -- no
passavam de blablabl jornalstico.
       No ltimo ano da faculdade, eu precisava era procurar concluir
a minha tese. Tinha optado por examinar a tendncia de legislar nos
tribunais, no no Parlamento. Os polticos holandeses no assumiam a
responsabilidade nem agiam decisivamente; no mpeto de buscar o
consenso e as vantagens eleitorais, deixavam para os juizes a tarefa de
lidar com as questes que lhes pareciam controversas. Eu achava que,
depois de formada, deveria prosseguir, fazer doutorado e talvez me
dedicar ao magistrio.
       Na primavera de 2000, o meu pai, j quase cego devido 
catarata, conseguiu visto para operar os olhos na Alemanha, e eu tive o
prazer de ajud-lo a pagar. Fui visit-lo em Dsseldorf, dirigindo o meu
Peugeot 206 com Mirjam. Marco e Ellen chegaram um dia depois. Ele
queria muito conhecer meu pai, e, como ficou combinado, os dois
fingiram ser um casal, pois eu no estava disposta a discutir com abeh
o fato de viver em pecado. Ainda no.
       Ele me abraou. Estava bastante envelhecido, mas continuava
exatamente com o mesmo cheiro. Eu me senti maravilhosamente bem
quando ele me envolveu nos braos outra vez. No comeo, s
conversamos sobre generalidades: meus estudos, um pouco de poltica.
Papai s queria falar na Somlia, no grande Estado que um dia nosso
pas poderia ser. E deixou claro que sonhava com um governo islmico,
fundamentado nas leis de Al. Todos os sistemas polticos concebidos
pelo homem eram inevitavelmente errados.
       Eu me opus. At me surpreendi com meu discurso incisivo:
disse que no era justo aplicar a Lei Divina aos no-muulmanos.
Mesmo no isl, nem todos pensavam do mesmo modo. Quem haveria de
legislar?, perguntei. "O governo do clero  totalitrio.
       Significa que as pessoas no podem escolher. A humanidade 
diversificada, e isso devemos comemorar, no suprimir."
       Ele se limitou a dizer: "Temos que trabalhar muito para
converter todo mundo ao islamismo". Confesso que fiquei decepcionada
com sua lgica simplria e sua deprimente falta de realismo.
       Abeh decidira providenciar o meu divrcio. Eu estava longe de
me sentir casada; Osman Moussa no passava de uma vaga lembrana
para mim. Mas isso era vital para meu pai. Disse que se arrependia de
haver me obrigado a casar a contragosto. Eu devia ter a liberdade de
escolher marido. Tenho a impresso de que queria se imaginar aquele
que outorgava liberdade; afinal de contas, ainda havia um democrata
enterrado dentro dele.
       Papai lamentou as mudanas que notou em mim. Achou-me
demasiado mundana, pouco espiritual. "No estou lhe pedindo para
usar turbante, mas, por favor, deixe o cabelo crescer." Prometi faz-lo, e
cumpri a promessa. Quando ele me perguntou se eu continuava
rezando, respondi que sim, claro. De certo modo, no deixava de ser
verdade. Eu tinha todo tipo de idias no muulmanas, porm, mesmo
assim, ainda me considerava uma crente, se bem que de um modo mais
amplo e mais srio.
       Quando me formei em Leiden, em setembro de 2000, eu tinha
quase trinta anos. Tardei mais um ano para fazer o mestrado, mas fiz.
Disse a mim mesma que devia me orgulhar. Tinha qualificaes slidas,
um relacionamento difcil, mas ntimo, e boas amizades. Ganhava a
vida sozinha. Com as minhas prprias mos tinha criado um lugar para
mim na Holanda.
       Foi emocionante receber o diploma depois de tantos anos. Tentei
obter visto para que meu pai fosse assistir  colao de grau, mas
recusaram. Telefonei para minha me a fim de contar que agora eu
tinha grau de mestre em cincia. Ela observou canhestramente que
achava estranho justo eu ter diploma universitrio.
       Provavelmente no o disse por mal. A seus olhos, eu continuava
sendo a mais tola dos trs filhos.
       Dei uma festa com Marco no Caf Einstein, freqentado pelos
estudantes de Leiden. Johanna e Maarten foram de Ede com os filhos
Irene e Jan, que eu estimava como irmos menores. Maarten subiu
numa cadeira e comeou a contar coisas engraadas dos meus tempos
de recm-chegada. Geeske foi a mestre-de-cerim-nias, e os pais de
Mirjam prepararam uma grande quantidade de hors-d'oeuvres, o que
muito me comoveu. Quando Mirjam e Olivier chegaram, fiquei tensa,
receando um entrevero com Albertine, a nova namorada de Giovanni.
       Todos me desejaram sorte, mas eu tambm precisava pensar no
que fazer dali por diante. Queria um bom emprego e ganhar bem para
que Marco e eu tivssemos um apartamento melhor. Detestava o nosso
desagradvel centro habitacional de Langegracht, que me deixava com
alergia. Na vspera do festival de Eid, nossos vizinhos marroquinos ou
turcos abatiam carneiros no poro, onde guardvamos as bicicletas. As
vsceras ficavam dias e dias a espera de que o lixeiro as levasse embora;
era quase como morar em Eastleigh. Faziam barulho em todos os
horrios. Eu queria sair de l, embora Marco dissesse que ainda no
podia pagar coisa melhor. Ele era to frugal, eu me queixava. Era
absurdo esperar mais do que o necessrio.
       Resolvi parar de estudar. Podia fazer doutorado e conseguir uma
bolsa de professora assistente, mas isso significava ganhar pouco mais
do que o salrio mnimo, ou seja, no nos tiraria de Langegracht nem
me permitiria sustentar minha famlia na frica. Eu precisava
trabalhar. Mas no queria simplesmente continuar sendo intrprete,
coisa que encarava como um bico de estudante, no como carreira
profissional. Tambm queria adquirir mais experincia antes de passar
de estudante a pesquisadora e professora. Ainda tinha muito que
aprender, mas temia que o setor privado me achasse velha para
comear. Estava to nervosa com isso que aceitei a primeira colocao
que me ofereceram, na Glaxo, uma empresa farmacutica.
       Eu me candidatei porque a Glaxo ajudava as pessoas. Gastava
milhes em pesquisa sobre aids e malria: trabalhando l, eu teria uma
participao. Era uma grande empresa; a gente entrava no setor de
vendas, mas tinha a perspectiva de ser promovida e fazer carreira. O
emprego oferecia um bom salrio inicial, carro da empresa e duas
semanas de treinamento, que eram quase um curso intensivo de
medicina, com nfase em dor de cabea e no aparelho respiratrio.
Tambm ensinavam a vender, o que foi uma verdadeira revelao.
       Incumbiram-me     de   vender   Imigran,   um   remdio   contra
enxaqueca, a mdicos. O pessoal da Glaxo nos ensinava tcnicas para
embromar as secretrias dos mdicos e conseguir uma entrevista.
Ensinava-nos a avaliar o tipo de personalidade da pessoa e a aplicar a
tcnica de venda adequada, de modo que cada entrevista resultasse em
uma venda. Se a gente sentisse que o mdico era um tipo autoritrio,
devia ser breve e mostrar que o achava inteligentssimo. Era deix-lo
falar muito e, ento, ao lhe empurrar o remdio, usar exatamente as
palavras dele. Com personalidades analticas, convinha no falar no
medicamento no comeo; tratava-se de entrar em uma longa discusso
sobre os diversos tipos de enxaqueca. Era uma manipulao e, a meu
ver, uma perda do precioso tempo do mdico, de modo que, algumas
semanas depois, devolvi o carro, o telefone e o laptop. Foi o fim da
minha incurso pelo mundo dos negcios.
       A seguir, eu me inscrevi em uma agncia de empregos que me
arranjou colocao como gerente de servios em um departamento de
habitao do Conselho Municipal de Oegstgeest, a mesma simptica
comunidade residencial da periferia de Leiden, onde eu tinha morado
com Chantal. Trabalhei l dois ou trs meses; achava que teria
oportunidade de ver o governo por dentro.
        A cada solicitao de autorizao para construir um sto ou
mudar algumas janelas, vrias pessoas precisavam trabalhar juntas,
mas    elas   pareciam        no   gostar     umas   das    outras.    Havia   mais
funcionrios do que tarefas a executar, e todos passavam o dia fazendo
fofoca. As autorizaes tinham que ser assinadas pelos diretores e pelos
diretores     dos   diretores,      e   tudo    tramitava    com    uma      lentido
inacreditvel. Um ano antes, eu havia me candidatado a um emprego
no Ministrio do Interior, e foram necessrios seis meses para que
processassem minha inscrio: agora os amigos que trabalhavam nos
ministrios confirmavam que o trabalho era vagaroso, sem imaginao
nem satisfao. Portanto, exclu o Estado do meu horizonte. No queria
ser funcionria pblica o resto da vida.
        Em meio a um pnico cada vez maior, comecei a procurar o que
fazer. Certa manh de maro, Marco ergueu os olhos do jornal e disse,
entusiasmado: " o emprego perfeito para voc: s faltou escreverem o
seu nome". Mostrou-me o anncio. O Instituto Wiardi Beckman, o
escritrio poltico do Partido Trabalhista de Wim Kok, estava  procura
de um pesquisador jnior.
        Pagava menos do que a Glaxo, mas eram s quatro dias por
semana, de modo que eu podia dedicar o resto do tempo  atividade de
intrprete para aumentar a minha renda. Mais importante: o trabalho
parecia     realmente     interessante:        pesquisar    questes     polticas   e
socialmente relevantes para o partido ao qual eu j pertencia. Um think
tank   no     podia    ter    nada     de   burocrtico.   Devia      ser   pequeno,
intelectualmente gil, estimulante.
        O Instituto Wiardi Beckman me ofereceu o emprego em junho de
2001. Fiquei empolgada. Ia comear a trabalhar no dia 1 de setembro.
Demiti-me imediatamente do conselho municipal e voltei a traduzir; isso
me rendia muito mais dinheiro, do qual Marco e eu precisvamos para
comprar uma casa.
        Estava decidida a morar em outro lugar, e no comeo ele at que
concordou comigo. Mas bastava encontrarmos uma casa que nie
agradasse para que Marco vacilasse, alegando que era muito cara ou
que ficava muito longe do centro. No queria se mudar, no queria ficar
enroscado em um grande emprstimo bancrio. Queria gastar o
dinheiro que tinha em viagens pelo mundo. Eu o achava imaturo.
Marco me acusava de ser excessivamente impaciente e perdulria.
       Nosso relacionamento comeou a deteriorar. Fazia anos que
brigvamos por coisinhas insignificantes: a administrao do tempo e
as despesas domsticas. Ele tinha necessidade de planejar tudo; eu
detestava aquela presso. Ele era explosivo; eu no gostava de gritar
nem de que gritassem comigo. J andava pensando em me separar
desde que vira uma casa perfeita, ainda que em mau estado, em uma
rua arborizada, perto da estao ferroviria, com piso de tbua corrida e
lareira. Marco achou que a reforma sairia excessivamente cara.
       Decidi comprar a casa assim mesmo, sem ele. Podamos
continuar amigos -- talvez continussemos namorando --, mas tinha
chegado a hora de eu sair de l, antes que as coisas entre ns
piorassem. Ellen acabara de se separar do marido, Badal Zadeh, e, aps
um bocado de reflexo, concordou em ir morar em Leiden e dividir a
casa e a hipoteca comigo. Fomos ao banco: as duas ganhvamos bem.
Em abril nos mudamos.
       Uma noite, estvamos assistindo televiso quando comentaram
o fato de uns garotos marroquinos hostilizarem os professores
homossexuais. Na poca, essas coisas eram noticiadas com muita
freqncia; a gente abria o jornal e pensava: "Puxa vida, marroquinos
de novo. Qual  o problema deles afinal?". De modo que, quando
apareceu um imame de roupa tradicional e pose de ministro religioso,
falando rabe, aumentei o volume. Ele olhou para a cmera e, exalando
autoridade,   explicou   que   a   homossexualidade   era   uma   doena
contagiosa capaz de infectar os alunos. Uma verdadeira ameaa 
humanidade.
       Lembro que me levantei e disse: aQue coisa mais arcaica. Esse
sujeito  um idiota!" Para a somali em mim, aquela atitude era
conhecida; mas a holandesa em mim ficou chocada. A entrevista
causou comoo, e me sentei, escrevi um artigo e o enviei ao NRC
Handelsblad. Dizia que aquela atitude era muito mais relevante do que
a mera opinio de um imame: era sistmica no islamismo, religio que
jamais passara por um processo de Esclarecimento que levasse as
pessoas a questionar essa rgida abordagem da liberdade individual.
Alm disso, acrescentava, o isl no se opunha unicamente ao direito
dos homossexuais de viverem em paz. Qualquer um que fosse a uma
clnica de aborto ou a um centro de mulheres podia ver que a moral
sexual muulmana s podia levar ao sofrimento.
       Foi uma indignao espontnea: descobri a minha opinio 
medida que ia digitando o texto. Editado em forma de carta breve,
formulada numa bela linguagem politicamente correta, o artigo foi
publicado em maio. E essa foi a minha estria na poltica.
       Ellen e eu passamos dois meses reformando a casa. Ento voltei
a aproveitar a vida. Dvamos jantares. Ellen estava passando por uma
fase de ansiedade religiosa, em busca de rumo, sem saber a que Igreja
aderir. At Marco e eu estvamos nos entendendo bem; j andvamos
pensando em voltar. Foi um vero com muita gente comendo na nossa
casa, com independncia, um perodo feliz.
       Comecei a trabalhar no dia 3 de setembro. O think tank do
Partido Trabalhista era um pequeno escritrio, e entrei como mera
pesquisadora jnior. Minha primeira incumbncia foi estudar a
imigrao, que eu comeava a encarar como o problema mais
importante que a Holanda enfrentava no sculo XXI. Ainda no via o
islamismo como uma questo central, apenas estudava a imigrao,
suas causas e implicaes, para o Estado de Bem-estar Social, de
absorver tantos recm-chegados. Acaso o Partido Trabalhista devia
apoiar polticas de imigrao mais restritivas?
       A Holanda queria conservar o Estado de Bem-estar Social, mas
obviamente no tinha como oferecer seus benefcios ao mundo inteiro.
Era preciso estabelecer restries  entrada de estrangeiros; a questo
era quais restries. Eu me propus a organizar uma discusso de
especialistas e reunir suas contribuies em livro. No me cabia
conceber uma poltica, a minha incumbncia era alimentar e expandir a
rede de especialistas do think tank e fazer as pesquisas que me
pedissem; eles se encarregariam de traar o roteiro para lidar com o
problema. Como os outros pases administravam a imigrao e quantos
imigrantes o Estado de Bem-estar Social era capaz de absorver sem
deixar de ser Estado de Bem-estar Social?
       Uma tarde, na minha segunda semana de trabalho no Partido
Trabalhista, eu estava lendo velhos relatrios quando irrompeu uma
comoo l embaixo. Desci para ver qual era a origem de tanto barulho,
decidida a mandar aquela gente calar a boca.
       Um grupo estava aglomerado diante do televisor sintonizado na
CNN. Eu me irritei. Na poca, tinha certa averso aos Estados Unidos e
 mdia americana. Em Leiden, chegara a fazer uma dissertao sobre o
sensacionalismo da imprensa, usando como exemplo o caso Monica
Lewinsky. Durante a discusso acerca do impeachment de Bill Clinton,
a CNN divulgava constantemente NOTCIAS DE LTIMA HORA, ao vivo,
sobre os aspectos mais triviais da vida sexual do presidente da
Repblica; a atitude santarrona de Kenneth Starr, a nmesis de
Clinton, sempre me lembrava a desagradvel Ijaabo. Justamente por
dar tanta ateno ao assunto foi que a mdia o fez parecer importante, e
o episdio me convenceu de que os americanos eram histricos.
       De modo que, naquela tarde, ao ver a chamada da NOTCIA DA
LTIMA HORA, imaginei que a CNN acabara de desenterrar mais um
fato corriqueiro para alardear. Mas foi naquele momento que o segundo
avio atingiu o World Trade Center. A ncora dizia que no podia ser
um acidente -- duas colises seguidas tinham tudo para ser um ataque
deliberado. Vimos vrias vezes as horrendas imagens dos avies se
chocando com as torres. Fechei os olhos e pensei em somali: "Oh, Al,
que no sejam muulmanos os que fizeram isso".
       Sabia que aquilo podia provocar um grave conflito mundial. Ao
chegar em casa, disse a Ellen: "Haver retaliao. Os americanos no
so como os holandeses -- no diro: 'Vamos conversar'.  a terceira
guerra mundial". Ellen me disse para no ficar to nervosa.
          Naquela noite, porm, vimos outras imagens que me chocaram
mais ainda. Na Holanda mesmo -- em Ede, na cidade em que havia
morado -- a cmera exibia o que acontecia nas ruas logo aps as torres
terem sido destrudas: mostrava um grupo de crianas muulmanas
exultantes. Toda Holanda ficou abalada, mas eu certamente estava
mais chocada do que a maioria. Ellen continuou me dizendo: "So
apenas crianas, isso  exagero, se as cmeras no estivessem l isso
no teria acontecido". Mas, c comigo, eu sabia que as cmeras s
haviam captado uma parte da coisa. Se houvesse outras cmeras em
outros bairros, tambm teriam visto aquilo.
          Na manh seguinte aos ataques de Onze de Setembro, ao descer
do trem para ir ao trabalho, encontrei Ruud Koole, o presidente do
Partido    Trabalhista.   Ele   tinha   sido   meu   professor   em   Leiden.
Cumprimentou-me chamando-me pelo prenome -- no h muita
hierarquia na Holanda --, e, como o resto do mundo, ns nos pusemos
a comentar o ataque s Torres Gmeas. Ruud balanou a cabea com
tristeza: " estranho, no? Todo mundo est convencido de que foram
os muulmanos".
          No pude me conter. Pouco antes de chegarmos ao escritrio,
explodi: "Mas  claro que foram os muulmanos. Questo de f. Isso  o
isl".
          Ele disse: "Ayaan, mesmo que tenham sido muulmanos, trata-
se de uma faco de lunticos. No faltam cristos extremistas que
interpretam a Bblia ao p da letra. A maioria dos maometanos no
acredita nessas coisas. Dizer isso  difamar a segunda religio do
mundo, uma religio civilizada e pacfica".
          Entrei no escritrio pensando: "Essa gente precisa acordar". No
era s Koole. A Holanda, aquele pas bem-aventurado em que nada
acontecia, estava, uma vez mais, tentando fingir que nada tinha
acontecido. Os holandeses se esqueciam de que as pessoas podiam
perfeitamente se erguer para travar uma guerra, destruir uma
propriedade, prender, matar, impor leis de virtude em nome de Deus.
Fazia sculos que no havia esse tipo de religio na Holanda.
         No se tratava de uma faco de lunticos movidos pelo dio aos
Estados Unidos e ao Ocidente. Eu sabia que uma vasta massa de
maometanos veria nos ataques uma justa retaliao contra os infiis
inimigos do isl. Haviam declarado guerra em nome do islamismo, a
minha religio, e agora eu tinha que escolher. De que lado ficar? Era
impossvel fugir a esse dilema. Isso  que era o isl? Ele permitia e at
preconizava semelhante carnificina? Eu, na qualidade de muulmana,
aprovava o ataque? E, caso no o aprovasse, o que pensar do isl?
         Passei semanas s voltas com essas questes; no conseguia
tir-las da cabea. Estava fixada nos ataques de Onze de Setembro.
Esquadrinhava     os   jornais,   pesquisava   na   internet.   Vi    quantas
manifestaes se realizavam no mundo todo em apoio ativo e explcito a
Osama Bin Laden. No norte da Nigria, centenas de pessoas foram
mortas     em   sublevaes   comunitrias.    As   lideranas       mundiais
acorreram aos canais de televiso para exortar os muulmanos a
condenarem os ataques. Era um gigantesco apelo moral ao isl. Toda
sorte de artigos os convocava a declarar que o isl no autorizava
semelhante chacina de civis. Quando eu os lia, era como se aquelas
matrias se endereassem a mim.
         Mohamed Atta, o chefe dos seqestradores, os havia instrudo
para "morrer como bons muulmanos". Usara a orao que todo
maometano murmura na hora da morte, pedindo amparo a Al no
momento em que ele vai ao Seu encontro. Eu a li e a reconheci. O tom e
a substncia daquela carta me eram muito familiares. No se tratava
meramente do isl, tratava-se do prprio mago do isl. Aquele homem
acreditava piamente que estava dando a vida por Al.
         Mohamed Atta tinha exatamente a minha idade. Era como se eu
o conhecesse de fato, pois conhecia muita gente como ele. Por exemplo,
o pessoal do centro de discusses de Nairbi: qualquer um deles era
capaz de escrever tal carta se tivesse a coragem de fazer o que Atta
fizera. Se eu houvesse ficado com eles, talvez fizesse coisa semelhante,
ou quem sabe Ijaabo fizesse. Na frica, no Oriente Mdio -- at na
Holanda --, havia dezenas de milhares de pessoas que pensavam
assim. Todo muulmano devoto que aspirava  prtica do islamismo
genuno -- a Fraternidade Muulmana do Isl, o isl das Escolas do
Alcoro de Medina --, mesmo que no apoiasse ativamente os ataques,
devia pelo menos aprov-los. No se tratava de um mero bando de
arquitetos egpcios frustrados em Hamburgo. Tratava-se de algo muito
maior, e nada tinha a ver com frustrao. Tinha a ver com f.
       Analistas irritantemente idiotas -- sobretudo gente que se dizia
arabista, embora parecesse nada conhecer da realidade do mundo
islmico -- escreveram resmas de comentrios. Seus artigos falavam do
isl que salvara Aristteles e descobrira o zero,
       o que os estudiosos medievais tinham feito mais de oitocentos
anos
       antes; falavam no islamismo como religio da paz e da tolern
       cia, sem um pingo de violncia. Aquilo no passava de balela,
       no tinha nada a ver com o mundo real que eu conhecia.
            Nos jornais, tudo era "Sim... mas": sim,  terrvel matar gen
        te, mas. Muitos teorizavam candidamente, asseverando que a
pobreza  que levava as pessoas ao terrorismo; que o colonialismo e o
consumismo, a cultura pop e a decadncia ocidental devoravam a
cultura das pessoas e, assim, provocavam as carnificinas. Mas a frica
era o continente mais pobre, eu sabia, e a pobreza no gerava
terrorismo; as pessoas verdadeiramente pobres no pensavam seno na
refeio seguinte, e as mais intelectualizadas geralmente se revoltavam
contra seus prprios governos; migravam para o Ocidente. Eu lia textos
bombsticos de grupos anti-racistas afirmando que uma onda terrvel
de islamofobia se abatera sobre a Holanda, que agora a atitude
intimamente racista dos holandeses estava aflorando. Nenhuma dessas
pseudo-intelectualizaes tinha relao com a realidade.
       Outros artigos punham a culpa no apoio "cego" dos ameri
canos a Israel e opinavam que, enquanto no se resolvesse o conflito
israel-palestino, haveria muitos outros Onze de Setembro. Eu tampouco
acreditava nisso. Na adolescncia, em Nairbi, eu           mesma teria
festejado os ataques ao World Trade Center e ao Pentgono, mas a
disputa palestina era completamente abstrata para          mim. Se os
seqestradores fossem palestinos, eu teria dado mais peso a esse
argumento, mas no eram. E nenhum deles era pobre. Nenhum deixara
carta dizendo que os ataques se repetiriam at que a Palestina fosse
libertada. Era f, pensava eu. No frustrao, pobreza, colonialismo ou
Israel: tratava-se de f religiosa, tratava-se de uma passagem de ida
para o cu.
       A maioria dos artigos que analisavam Bin Laden e o seu
movimento apenas examinavam o sintoma: mais ou menos como
estudar Lnin e Stlin sem levar em conta a obra de Karl Marx. O
profeta Maom era o guia moral de Bin Laden, e o que se devia avaliar
era a orientao do profeta. Mas que fazer se eu no gostasse do
resultado dessa anlise?
       A CNN e a Al-Jazira divulgaram antigas entrevistas de Osama
Bin Laden. Todas abundavam em justificativas para a guerra total aos
Estados Unidos, que, segundo ele, haviam se unido aos judeus para
empreender uma nova cruzada contra o isl. Instalada em uma casa
confortvel na pitoresca Leiden, achei aquilo forado, o discurso de um
louco, mas as citaes que Bin Laden fazia do Alcoro encontraram eco
no meu crebro: "Quando enfrentardes os que descrem, golpeva-os no
pescoo". "Se no sairdes para lutar, Deus vos castigar severamente e
outros por no vosso lugar." "Onde quer que encontreis politestas,
matai-os, sujeitai-os, vencei-os, emboscai-os." " fiis, no tomeis por
amigos os judeus nem os cristos; que sejam aliados entre si. Mas
aquele, dentre vs, que os tomar por amigos certamente ser um deles."
Bin Laden citava o hadith: "A Hora [do Juzo Final] no vir enquanto
os muulmanos no combaterem e matarem os judeus".
       Eu no queria, mas tive de faz-lo: peguei o Alcoro e o hadith e
comecei a folhe-los para ver. Foi horrvel, pois sabia que ia encontrar
as citaes de Bin Laden e no queria questionar a palavra de Deus.
Mas precisava perguntar: os ataques de Onze de Setembro provinham
da verdadeira f no verdadeiro isl?
       Osama Bin Laden disse: "Ou voc fica com os cruzados, ou fica
com o isl", e eu sentia que, em todo mundo, o isl se achava em uma
crise verdadeiramente terrvel. Por certo, nenhum maometano podia
continuar desprezando o conflito entre a razo e a religio. Durante
sculos nos comportamos como se todo conhecimento estivesse no
Alcoro, recusando-nos a contestar o que quer que fosse, rejeitando o
progresso. Passamos todo esse tempo divorciados da razo porque
ramos incapazes de lidar com a necessidade de integr-la  nossa f. E
no deu certo; isso nos levou a um sofrimento horrendo e a um
comportamento monstruoso.
       Ns, muulmanos, aprendemos a definir a vida terrena como
uma passagem, um teste, que precedia a vida real no alm. Nesse teste,
o ideal era todos viverem da maneira mais parecida possvel com os
seguidores do profeta. Isso no inibia o investimento no aprimoramento
da existncia cotidiana? E, por conseguinte, a inovao no era proibida
aos muulmanos? Os direitos humanos, o progresso, o direito das
mulheres, tudo isso no era estranho ao islamismo?
       Ao declarar o profeta infalvel e proibir question-lo, ns,
maometanos, institumos uma tirania esttica. O profeta Maom
procurou legislar cada aspecto da vida. Ao aderir  sua noo do
permitido e do proibido, ns muulmanos renunciamos  liberdade de
pensar e de agir por livre escolha. Fixamos a viso moral de bilhes de
seres humanos na mentalidade do deserto rabe do sculo VII No
ramos apenas servos de Al, ramos escravos.
       O pequeno alapo na minha mente no qual eu escondia todas
as idias dissonantes se escancarou a partir dos ataques de Onze de
Setembro e no voltou a se fechar. Comecei a desconfiar que o Alcoro
no era um documento sagrado. No passava de um registro histrico,
escrito por seres humanos. Uma verso dos fatos, tal como perceberam
os homens que o redigiram cento e cinqenta anos aps a morte do
profeta Maom. E era uma verso muito tribal e muito rabe dos fatos.
Disseminava uma cultura brutal, hipcrita, empenhada em controlar a
mulher, e cruel na guerra.
       Sem dvida, o profeta nos ensinou muitas coisas boas. Eu
achava espiritualmente atraente acreditar no alm. Minha vida se
enriqueceu com as injunes alcornicas de ser compassivo e caridoso.
Houve perodos em que eu, assim como muitos outros maometanos,
achava demasiado complicado lidar com a questo da guerra aos infiis.
A maioria dos muulmanos no era versada em teologia e raramente lia
o Alcoro; este era recitado em rabe, lngua que a maioria dos fiis no
falava. Em conseqncia, quase todos pensavam que o isl era pacfico.
Foi dessa gente sincera e boa que surgiu a falcia segundo a qual o isl
era pacato e tolerante.
       Mas eu j no podia deixar de ver o totalitarismo, o arcabouo
puramente moral que constitua a minha religio. Ela regulava cada
detalhe da vida e sujeitava o livre-arbtrio. O verdadeiro islamismo,
como um rgido sistema de f e estrutura moral, levava  crueldade. O
ato desumano daqueles dezenove seqestradores era o resultado lgico
desse minucioso sistema de regulao do comportamento humano. Seu
mundo se dividia em "ns" e "eles" -- quem no aceitasse o isl tinha
que perecer.
       Eu no era obrigada a ser assim. O Ocidente passara por um
perodo de guerra e perseguies religiosas, mas depois a sociedade se
libertara da religio organizada com violncia. Eu presumia -- e ainda
presumo -- que o mesmo processo poderia ocorrer entre os milhes de
maometanos. Podamos nos desfazer do apego queles dogmas que,
obviamente, levavam  ignorncia e  opresso. Alis, pensava eu,
tnhamos sorte: agora contvamos com tantos livros que at podamos
queimar a etapa do Iluminismo, tal como fizeram os japoneses.
Tnhamos a possibilidade de expor os nossos dogmas  luz, de examin-
los e infundir valores de progresso e modernidade nas tradies rgidas
e desumanas. Tnhamos a possibilidade de nos entender pela expresso
individual.
       Logicamente, para pensar assim, precisei dar um grande salto e
passar a acreditar que o Alcoro era relativo -- no absoluto, no as
palavras literais proferidas por Deus, e sim um livro, um livro a mais.
Tambm precisei rejeitar a idia de inferno, cuja imagem pavorosa
sempre me impediu de criticar o isl. Uma noite, pensei: "Mas, sendo
assim, em que Deus acredito afinal?"
       Mais ou menos nessa poca, Abshir, o jovem imame da Somlia,
voltou a me procurar. Fazia alguns anos que morava na Sua e
acabara de passar por uma cirurgia cardaca.
       Evidentemente, comentamos o Onze de Setembro. Eu lhe disse:
"As afirmaes de Bin Laden e sua gente, citando o Alcoro para
justificar os ataques, esto mesmo escritas. Se o Alcoro  atemporal,
tambm se aplica aos muulmanos de hoje. Por isso se comportam
como quem est em guerra com os infiis. No se trata apenas das
batalhas de Uhud e de Badr no sculo vil".
       "Tem razo", concordou ele, "e estou to confuso quanto voc.
Fui operado do corao, mas o que mais me di  a cabea." Contou-me
que comeara a assistir s palestras sobre o isl do filsofo islmico
francs Tarek Ramadan, neto de Hasan al-Banna, o fundador da
Fraternidade Muulmana. "Depois das palestras, acho que fiquei mais
confuso ainda. Ele tem um discurso ambguo. Diz coisas como: cO
profeta declarou que o isl  a paz, portanto  a paz'."
       Eu disse: "Sim, mas os versculos do Alcoro que falam em paz
se aplicam unicamente  vida entre os muulmanos. O profeta tambm
disse: 'Levai a guerra aos infiis'. Quem so os infiis e quem d o sinal
para empreender essa guerra?"
       "Com certeza, a autoridade no h de ser Bin Laden", disse
Abshir. " impossvel guerrear contra todo hemisfrio no controlado
pelos muulmanos."
       Disparei: "Abshir, afirmar que o Alcoro no  atemporal, 
afirmar que ele no  sagrado, certo?".
       "O que voc quer dizer com isso?"
       "Desculpe, mas acho que estou virando apstata", confessei.
"Acho cada vez mais difcil ter f."
       Abshir demorou a responder. "Essa coisa nos deixou a todos
confusos. Voc est muito estressada.  sempre difcil conservar a f no
contexto de um pas no islmico. Procure relaxar, descanse um pouco.
Voc precisa retomar o contato com a sua famlia, com os nossos
parentes. Est muito isolada do osman mahamud. Ayaan, se voc
continuar pensando assim, corre o perigo de ir para o inferno."
       Eu disse: "Mas, se questiono o carter sagrado do Alcoro, 
bvio que tambm questiono a existncia do cu e do inferno".
       "No pode ser."
       "E mais: talvez eu seja muito subdesenvolvida na compreenso
das cincias exatas, mas continuo no vendo nenhuma prova da
existncia de anjos e djins. Alis, Abshir, vendo as pinturas aqui no
Ocidente, esses anjos so mesmo bochechudos e de roupa branca?"
       "No",   disse    ele,   "os    anjos   muulmanos   so   totalmente
diferentes. No tm asas."
       "Voc sabe muito bem que agora vou perguntar como eles so, e
voc vai dizer que no sabe, pois Al revela as coisas no Seu tempo."
       Abshir respondeu: "Adoro voc. Tambm estou confuso. O
ataque teve um impacto enorme em todos ns. Por favor, no faa essa
besteira, Ayaan. Tenha calma".
       Desejei-lhe muita sorte e fora moral para achar a sada desse
dilema. Ele era inteligente, compassivo e generoso, mas estava com
medo. Medo do anjo que ia visit-lo, na morte, para indagar sobre a sua
lealdade ao profeta e a Al. Medo de fracassar nessa prova e medo do
fogo eterno que o aguardava. Despedimo-nos um tanto sem jeito. Eu
sabia que no voltaramos a conversar.
       Em novembro de 2001, fui a um debate na De Balie, um centro
de discusses de Amsterd. Foi organizado pela seo de resenhas
"Letra e esprito" do jornal Trouw, a qual, sob a direo de Jaffe Vink e
Chris Rutenfrans, estava se tornando uma espcie de foro de discusso
das relaes entre o isl e o Ocidente. A "Letra e esprito" publicava todo
tipo   de   artigo,     mesmo     de     autores   que   no   concordavam
necessariamente com o ponto de vista dominante, segundo o qual o isl
era um pacfico movimento de resgate de Aristteles. Na De Balie, a
discusso se intitulava "Ocidente ou isl: quem precisa de um
Voltaire?".
       Um aps outro, os oradores aceitaram a premissa de que havia
necessidade de um novo Voltaire no Ocidente. Denunciaram tudo
quanto havia de errado no hemisfrio: a arrogncia de invadir outros
pases, o neocolonialismo, a decadncia de um sistema que criava
sociedades voltadas para o consumo etc. O de sempre, enfim. Ento
Afshin Ellian, um professor iraniano de direito penal da Universidade de
Amsterd, tomou a palavra e props, com eloqncia, que o isl
precisava de uma renovao crtica.
       Passou-se para a discusso geral na platia. A maioria dos
presentes parecia concordar com os debatedores que haviam criticado
um ou outro aspecto do Ocidente. Resolvi falar. Ergui a mo, pedindo o
microfone, e disse: "Vejam quantos Voltaire o Ocidente tem. No nos
recusem o direito de tambm termos um. Vejam as nossas mulheres e
vejam os nossos pases. Vejam que estamos todos fugindo e pedindo
asilo aqui, e que alguns, na sua loucura, agora resolveram jogar avies
nos edifcios. Concedam-nos um Voltaire, porque verdadeiramente
estamos vivendo nas trevas do obscurantismo".
       Quando conclu, a sala ficou repleta de mos erguidas, entre as
quais no faltavam as de muulmanos. Estvamos em Amsterd; muita
gente freqentava aqueles encontros, de modo que a presena deles no
debate era normal. Mas quase todos estavam enfurecidos comigo e com
Afshin Ellian. Falaram em Averris e na salvao de Aristteles, na
descoberta do zero pelo isl, e assim por diante. Foi irritante. Afinal, o
que acontecera com a civilizao islmica a partir de 1200? Mas no
tive mais acesso ao microfone; s me restou revirar os olhos e
comprimir os lbios.
       Terminada a discusso, Afshin se aproximou de mim e disse:
"Voc  uma pequena Voltaire. De onde ?"
       "Da Somlia", respondi, e ele disse: "Tenho certeza de que a
nossa civilizao muulmana ainda vai ser salva por uma mulher". Era
um homem muito gentil, asilado tambm.
       Estvamos conversando quando Chris Rutenfrans, um dos
editores do suplemento do Trouw, veio falar conosco. Tendo se
apresentado, disse-me: "Por que voc no escreve uma matria sobre
essas idias, assim como as expressou aqui?".
       Aceitei o convite com prazer e passei os dias subseqentes
trabalhando furiosamente. Mas no podia publicar nenhum texto sem
antes submet-lo ao meu chefe, pois o jornal me identificaria como
pesquisadora do escritrio Wiardi Beckman. Dias depois, mostrei o
esboo do meu artigo ao diretor Paul Kalma. Ele ficou contrariado.
ramos um think tank, ganhvamos para pensar, e evidentemente ele
era favorvel  liberdade de expresso; mas no podia me deixar
publicar tal coisa. Prejudicaria o Partido Trabalhista. Mesmo que eu
assinasse apenas o meu nome, sem nenhuma afiliao ao instituto, o
fato de uma muulmana manifestar semelhantes idias era botar gua
no moinho dos racistas e islamfobos.
       Contestei: "Isso no importa, pois o que  verdade  verdade".
Mas enfrentvamos um momento delicado na poltica holandesa. O
ilustre desconhecido Pim Fortuyn estava em plena e meterica
ascenso, em termos de popularidade, graas a sua observao precisa
de que as minorias tnicas no esposavam suficientemente os valores
holandeses. Fortuyn alertava que em breve os muulmanos seriam
maioria em muitas cidades importantes do pas; dizia que quase todos
rejeitavam os direitos das mulheres e dos homossexuais, assim como os
princpios bsicos da democracia. Em vez de lidar diretamente com as
questes levantadas por Fortuyn, o Partido Trabalhista decidiu
basicamente omiti-las.
       Paul Kalma era um homem bom e sincero; tnhamos muito afeto
um pelo outro. Ele estava procurando me proteger, impedir-me de
favorecer os racistas ao manifestar posies de direita. De modo que
editou o meu artigo at ter certeza de que os racistas potenciais no
tirariam proveito dele.
       Na poca, principalmente nos crculos ligados ao Partido
Trabalhista, as pessoas tinham uma viso positiva do isl. Se os
muulmanos queriam mesquitas, cemitrios e matadouros separados,
por que no constru-los? E se criavam centros comunitrios, nos quais
grassavam idias fiindamentalistas, o pessoal do Partido Trabalhista
geralmente as considerava uma reao natural. Os imigrantes haviam
se desarraigado, diziam, por isso se apegavam temporariamente a idias
tradicionais, as quais estavam fadadas a esvanecer aos poucos. Eles
esqueciam o quanto a Europa demorara a se livrar do obscurantismo e
da intolerncia, e do quanto essa luta tinha sido difcil.
       Quando os somalis me diziam que no queriam morar em
bairros gaalo, eu sabia que era para evitar o contato com a
irreligiosidade da Holanda. Porm, os funcionrios holandeses insistiam
em achar que era apenas o desejo natural de formar uma comunidade.
Quando os muulmanos faziam questo de ter escolas prprias, eu
sabia que era para obrigar as crianas a acatar as idias sem
question-las; mas os holandeses no viam mal algum em institu-las.
Quando, em todos os projetos habitacionais municipais, comearam a
aparecer antenas parablicas sintonizadas na televiso marroquina ou
turca, meus colegas do Partido Trabalhista acharam que se tratava
apenas do desejo natural de manter o contato com o pas de origem.
       Mas, com as antenas, chegavam a pregao e a doutrinao. Os
pregadores iam de porta em porta, distribuindo cassetes na maior parte
das cidades holandesas, tal como fazia Boqol Sawm em Eastleigh.
Quase todos os bairros de imigrantes contavam com lojas de vesturio
tradicional, tapetes, fitas, DVDS e livros que ensinavam como ser um
bom muulmano em territrio infiel. Quando, nas ruas, passou a ser
impossvel ignorar o nmero de mulheres de vu, os meus colegas do
Partido Trabalhista julgaram que se tratava apenas de imigrantes
recm-chegadas que em breve abandonariam essa prtica. No
percebiam que aquela j era a segunda gerao que,  merc da
lavagem cerebral dos jarges que eu conhecia to bem -- tawheed, kufr,
os malditos judeus --, estava redescobrindo suas "razes".
       Quando meu artigo foi publicado, recebi dezenas de cartas de
leitores me aplaudindo: "Que bom que existe gente como voc. J ouviu
falar em Spinoza?" Fui convidada a falar em um simpsio sobre Spinoza
no Instituto Thomas Mann. Retomei meus livros sobre o Iluminismo e,
lendo acerca desse filsofo, imaginei que as pessoas nos relacionavam
porque os dois ramos refugiados. (A famlia de Spinoza se refugiou na
Holanda, no sculo xvn, perseguida pela Inquisio portuguesa.)
       Recebi    diversos   convites    semelhantes,   um   dos    quais na
cidadezinha     de   Hengelo;   em     dezembro,   convidaram-me    para   o
qinquagsimo encontro anual em prol da liberdade e dos direitos
humanos. O tema daquela noite era "Devemos temer o isl?" Falei nisso
com Paul Kalma, e ele quis saber qual era a minha resposta. Eu disse:
"Bem, sim e no", e Paul me deixou ir.
       Eu estava nervosa. Nunca tinha escrito um discurso. Mostrei
meu texto a Chris Rutenfrans, do Trouw, e ele se disps a public-lo.
Pedi-lhe que primeiro me deixasse dar a palestra. Mas, quando pedi
autorizao a Paul e lhe mostrei o que tinha dito, ele ficou vermelho de
raiva. Disse que eu atacava pessoalmente o ministro de Integrao e
inclusive o prefeito de Amsterd, Job Cohen, figura importante no
Partido Trabalhista. (Na verdade, minha inteno era ironiz-los pela
ingenuidade de acreditarem que os imigrantes se integrariam mais
facilmente se os holandeses tolerassem todo tipo de auto-segregao
muulmana.) Paul declarou que tinha o dever de me proteger e de me
impedir de escrever textos direitistas.
       O fato  que as pessoas se mostravam muito mais sensveis a
tudo quanto eu escrevia sobre o isl do que a qualquer outro tema que
porventura tivesse escolhido. Alterei algumas expresses: comeava a
perceber que, naquele mundo extremamente civilizado, os conflitos
eram tratados com muita ornamentao e hipocrisia.
       Quando voltei com um novo rascunho, Chris Rutenfrans
compreendeu imediatamente que meu chefe havia me obrigado a baixar
o tom. E telefonou para Paul. Os dois tiveram uma discusso violenta.
No fim de semana seguinte, o Trouw publicou o artigo revisado. Mas,
uma semana depois, Jaffe Vink, o co-editor de Rutenfrans no
suplemento, escreveu uma matria sobre a polmica. Citou todo
material que Paul me obrigara a suprimir, inclusive a minha
comparao de Job Cohen com um aiatol.
       Dois dias depois, convocou-se uma reunio da direo do
Instituto Wiardi Beckman, com a presena do prprio Job Cohen, e o
meu artigo -- assim como a matria de Vink no Trouw-- estava na
pauta. Eu me fechei em copas. Paul Kalma disse aos demais: "Ayaan
est apenas comeando. Foi incisiva, mas no devia ter ido to longe".
Cohen lhe perguntou: "Essa descrio da sua briga no Trouw procede?"
Paul respondeu: " claro que eu no queria que ela se entregasse a esse
tipo de ataque pessoal. Somos do mesmo partido. Os conflitos de
opinio devem ser resolvidos a portas fechadas, no na imprensa".
       Cohen disparou: "Se ela quiser escrever isso, que escreva. Pouco
me importa que me chamem de aiatol; o que me importa  a censura".
Voltou-se para mim e disse: "Li o seu texto e quero aproveitar a
oportunidade para dizer que no concordo com voc. Isto aqui  um
instituto de pesquisa. Se tiver argumentos slidos, ningum pode lhe
negar o direito de escrever o que bem entender". Sua imparcialidade me
deixou embasbacada.
       Cohen acrescentou que o Partido Trabalhista precisava refletir
mais sobre o tema. Na qualidade de ex-vice-ministro de Poltica de
Imigrao, disse que a imigrao no era o problema: tratava-se agora
de investigar o alarmante dficit de integrao dos filhos e dos netos dos
imigrantes  sociedade holandesa. "Ayaan, por que voc no pesquisa
isso para ns?" Eu me senti na presena de um heri.
       Comecei a ler tudo que encontrava sobre imigrao e integrao.
Basicamente, achava paralelos com o problema dos miy -- as regies
rurais pobres -- em contato com a cidade. As sociedades europias --
com tecnologia avanada, dinheiro fcil e iluminao farta -- eram
decadentes, tentadoras e invulnerveis; os seus cdigos, indecifrveis.
O problema era se adaptar.
       Em fevereiro, fui a uma conferncia sobre o isl na Europa,
promovida em Granada, na Espanha, pelos partidos socialdemocratas
europeus. Todos os participantes estavam convencidos de que era fcil
criar as instituies de um isl europeu em paz e harmonia. Longe de
operar com uma anlise rigorosa, pareciam totalmente entregues ao
pensamento volitivo. Davam a impresso de que, havia dcadas, uma
comunidade minscula de supostos especialistas em emigrao na
Europa no fazia seno citar-se mutuamente, compartilhando uma
abordagem essencialmente socioeconmica. Eu achava que tambm
precisvamos de uma anlise cultural mais ampla da integrao do
imigrante. Outrora, a socialdemocracia holandesa acusava a Igreja
catlica de manter as pessoas na pobreza e na ignorncia. Embora eu
no passasse de uma pesquisadora jnior, pensei com meus botes:
"Quando ser que eles vo enxergar o isl?".
       Acaso o isl era uma espcie de influncia na mal representada
segregao de tantos imigrantes na Holanda?  medida que continuei
investigando, tornou-se dolorosamente bvio que, dentre todos os
imigrantes no ocidentais, os menos integrados eram os muulmanos.
Em meio aos estrangeiros, a maior quantidade de desempregados se
constitua de marroquinos e turcos, os mais numerosos grupos
maometanos,     muito    embora     sua   qualificao   mdia    fosse
aproximadamente a mesma das demais populaes imigrantes. Vistos
como    um     todo,    os   muulmanos        da   Holanda   recorriam
desproporcionalmente ao auxlio assistencial e aos benefcios por
incapacidade e se envolviam desproporcionalmente com o crime.
       Se eles se mostravam to atrasados em comparao at com os
outros grupos imigrantes, no era plausvel que o motivo fosse o
islamismo? O islamismo influenciava todos os aspectos da vida dos
crentes. Em nome do isl, negavam-se s mulheres direitos sociais e
econmicos, e mulheres ignorantes s podiam criar filhos ignorantes.
Os meninos que cresciam vendo a me ser espancada recorriam 
violncia. Por que era racismo fazer tais perguntas? Por que era anti-
racismo tolerar o apego das pessoas a antigas idias e perpetuar sua
misria? A passividade da atitude InsKAllah -- "queira Al" --, to
prevalecente no isl, tambm no servia para afetar a energia das
pessoas e a sua vontade de mudar e melhorar o mundo? No caso de
quem acredita que Al tudo predestina e que a vida terrena  apenas a
sala de espera do jalm, no  acertado atribuir a essa crena o
fatalismo que tanto refora a pobreza?
       Recomendei ao think tank organizar um grupo de especialistas
que averiguasse mais profundamente se as altas taxas de desemprego,
criminalidade e problemas sociais no eram causadas tambm por
fatores culturais -- inclusive o islamismo. Se detectssemos causas
culturais na misria dos imigrantes, tnhamos a possibilidade de tentar
modificar essa mentalidade atravs do debate aberto e de uma
educao efetiva.
       Na Holanda, a maioria das mulheres podia andar sozinha na
rua, vestir-se mais ou menos como queria, ganhar a vida trabalhando,
escolher um homem para casar. Podia cursar uma universidade, viajar,
adquirir propriedade. Mas a maioria das muulmanas simplesmente
no podia. Como supor que o isl nada tinha a ver com tal situao? E
como essa situao podia ser aceitvel?
       Quando me censuravam por apresentar semelhante argumento
-- dizendo que era ofensivo e inoportuno naquele momento particular --
, minha noo de justia elementar ficava ultrajada. Quando seria o
momento certo afinal? Os pais holandeses criavam as filhas para serem
autoconfiantes; muitos pais maometanos, talvez a maioria, criavam-nas
para que fossem dceis e submissas. Em conseqncia, os filhos e
netos dos imigrantes no tinham o desempenho dos jovens holandeses.
       Eu pensava em Johanna, no seu empenho em explicar as coisas
aos filhos, em lhes ensinar a tomar boas decises e a se defender. O seu
marido participava ativamente da criao dos meninos; Johanna era
uma mulher segura que havia escolhido seu parceiro e decidido
quantos filhos iam ter e quando. Evidentemente, era uma me muito
diferente de uma somali de vinte anos instalada em um conjunto
habitacional. Por que no nos era permitido enxergar o impacto de tais
fatores nas crianas?
       Na minha opinio, o governo holands precisava urgentemente
parar de financiar escolas inspiradas no Alcoro. Elas rejeitavam os
valores dos direitos humanos universais. Os homens no eram iguais
nessas escolas. Alm disso, nelas no podia haver liberdade de
expresso nem de conscincia. No desenvolviam a criatividade -- arte,
teatro, msica -- e reprimiam a habilidade crtica capaz de levar as
crianas a questionar suas crenas. Omitiam os temas que conflitam
com a doutrina islmica, como a evoluo e a sexualidade. Ensinavam a
decorar, no a questionar, e instilavam a subservincia nas meninas.
Tambm se recusavam a integrar os alunos  comunidade mais ampla.
       Isso criava um dilema. O artigo 23 da Constituio holandesa
autorizava as instituies de ensino confessionais. Fechar somente as
muulmanas, permitindo a existncia de outras escolas privadas, seria
discriminao por parte das autoridades. Eu achava que estava na hora
de iniciar um debate sobre o financiamento de todas as escolas
confessionais. A Holanda se transformara em uma sociedade de
imigrantes, com cidados das mais diversas origens no ocidentais:
hindustas, budistas, maometanos. Talvez todas as crianas, inclusive
as holandesas, precisassem aprender a compreender as que eram de
outra origem e a conviver com elas. Talvez fosse conveniente abolir o
artigo 23 da Constituio. As verbas pblicas seriam mais bem
empregadas em escolas ideologicamente neutras e em estimular os
alunos a questionarem e a respeitarem o pluralismo.
       Paul Kalma andava nervoso com a minha idia da educao.
Para ele, eu j no era direitista; positivamente tinha virado comunista.
"Ser que voc no percebe o que o artigo 23 significa para a Holanda e
para a sensibilidade do holands mdio?" perguntou-me. "No conhece
a histria do conflito que o precedeu? Imagina, francamente, que esse
artigo possa ser suprimido s por causa da questo da integrao?"
       Respondi: "Ah, quer dizer que j no somos um think tank? No
precisamos mais pensar? O afluxo de imigrantes est afetando o cerne
da sociedade holandesa, e est na hora de enfrentar o problema".
       Tenho    saudade   daquele    tempo    --   daquelas   discusses
acaloradas, mas sempre amistosas.
       Em maio de 2002, Ellen e eu resolvemos viajar. Talvez Abshir
tivesse razo, pensei: eu precisava espairecer. Fomos a Corfu, e levei
um livrinho marrom, O manifesto ateu, que Marco um dia me dera por
conta de uma discusso que havamos tido.
       Na ocasio, foi como se ele estivesse me empurrando o seu livro
sagrado, como se eu pretendesse obrig-lo a ler o Alcoro, e isso me
desagradou muito. Mas agora queria l-lo. Queria refletir sobre aquilo.
As minhas indagaes eram tabu. Segundo a minha formao, no ser
adepta de Deus era ser adepta de Satans. Mas eu no podia dar
respostas para os problemas da Holanda se ainda tivesse dvidas
quanto  minha f.
       Antes de viajar, disse a Ellen: "Tenho srias dvidas quanto 
existncia de Deus e do alm. Quero ler este livro nas frias e refletir.
Isso a ofende?". Ela pensou um pouco antes de responder: "No, no me
ofende. Entendo perfeitamente. Vou ficar  sua disposio, assim como
voc ficou quando eu estava s voltas com essas questes".
       A clareza e a postura transgressiva do autor me encantaram.
Mas, no fundo, aquele livro j no era necessrio. O mero fato de
examin-lo, de querer l-lo, denunciava as minhas dvidas, e eu sabia
disso. Antes mesmo de chegar  quarta pgina, sabia qual era a minha
resposta. Fazia anos que eu me separara de Deus. Era ateia.
       No tinha com quem conversar sobre isso. Uma noite, naquele
hotel grego, olhei-me no espelho e disse em voz alta: "No acredito em
Deus". Falei devagar, pronunciando as palavras com cuidado, em
somali. E senti um grande alvio.
       Foi bom. No houve dor, e sim uma clareza verdadeira. O longo
processo de detectar os defeitos estruturais da minha f e contornar, p
ante p, as suas bordas esgaradas enquanto partes dela iam se
rasgando, se espedaando -- tinha chegado ao fim.
       Os anjos que me observavam, trepados nos meus ombros; a
tenso mental de ter relaes sexuais fora do casamento, de beber
lcool, de no observar as obrigaes religiosas -- tinham chegado ao
fim. A eterna perspectiva do fogo ^ mferno desapareceu, e o meu
horizonte se dilatou. Deus, Satans e os anjos no passavam de
fragmentos da imaginao humana. Dali por diante, eu poderia pisar
com firmeza o cho sob os meus ps e avanar apoiada na minha
prpria razo e no auto-respeito. A minha bssola moral estava dentro
de mim, no nas pginas de um livro sagrado.
       Quando retornei de Corfu, comecei a freqentar museus.
Precisava ver runas, mmias e gente antiga e morta, olhar para a
realidade dos ossos e absorver a percepo de que, quando morresse,
eu ficaria reduzida quilo, a um feixe de ossos. Estava empreendendo a
misso psicolgica de aceitar viver sem Deus, o que significava aceitar
dar sentido prprio  minha vida. Estava em busca de uma noo mais
profunda de moralidade. No isl, a ordem era ser escrava de Al:
submeter-me e, assim, idealmente, despojar-me de vontade pessoal.
No ser um indivduo livre. Comportar-me bem por temor ao inferno;
no ter tica pessoal. Se Deus significava o que havia de bom, e
Satans, o que havia de ruim, ambos estavam em mim. Eu queria
desenvolver o meu lado bom -- a disciplina, a generosidade, o amor -- e
eliminar o mau: a raiva, a inveja, a preguia, a crueldade.
       Nunca mais ia aceitar guias a me dizerem o que fazer, mas
precisava acreditar que eu continuava sendo moral. Passei a ler a obra
dos grandes pensadores do Iluminismo -- Spinoza, Locke, Kant, Mill,
Voltaire --, assim como a dos modernos, Russell e Popper, com toda
ateno, no apenas como uma obrigao curricular. Viver era
solucionar problemas, dizia Popper. Nada era absoluto; o progresso
provinha do pensamento crtico. Ele admirava Kant e Spinoza, mas os
criticava quando sentia que seus argumentos eram fracos. Eu queria
ser como Popper: livre de peias, capaz de reconhecer a grandeza, mas
sem medo de detectar defeitos.
       Trezentos e cinqenta anos antes, quando a Europa ainda se
achava atolada no dogma religioso e os pensadores eram perseguidos --
tal como hoje no mundo muulmano --, Spinoza soube ser lcido e
destemido. Foi o primeiro europeu moderno a afirmar claramente que o
mundo no era ordenado por um deus  parte. A natureza criara a si
mesma, dizia. A razo, no a obedincia, deveria orientar a nossa vida.
Ainda que tenha demorado sculos a se esfacelar, a calcificada
estrutura da hierarquia social europia -- dos reis aos servos e entre
homens e mulheres, toda ela apoiada pela Igreja catlica -- foi
destruda por essa idia.
       Decerto agora tinha chegado a vez de o isl ser testado.
       Nos seres humanos se originam o bem e o mal, pensava eu.
Precisvamos raciocinar por ns; ramos os nicos responsveis pela
nossa moralidade. Cheguei  concluso de que no podia ser sincera
com os demais se no fosse comigo mesma. Queria agir de acordo com
as metas da religio, que eram ser uma pessoa melhor e mais generosa,
mas sem anular minha vontade e sem ser obrigada a acatar normas
desumanas. No voltaria a mentir para mim nem para os demais.
Estava farta de mentiras. J no tinha medo do alm.
       15. Ameaas


       Em maro de 2002, Pim Fortuyn obteve uma grande vitria
eleitoral em Roterd. Embora fosse pouco mais do que um estreante,
conseguiu, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, alijar o
Partido Trabalhista do poder na maior cidade da Holanda e maior porto
do mundo. Com as eleies nacionais marcadas para maio seguinte, os
trabalhistas entraram em pnico.
       Pessoalmente no me surpreendi nem me assustei com a
popularidade de Pim Fortuyn, que para mim representava o novo e dizia
coisas muito verdadeiras. Decerto, ele chegava a ser irritante s vezes,
mas eu no o considerava racista. Homossexual assumido, defendia o
direito de ser homossexual em um pas onde os homossexuais tinham
direitos. Era um provocador, caracterstica muito holandesa. As pessoas
o situavam na extrema direita, mas para mim muitas das suas posies
tendiam para um socialismo liberal. Embora no votasse nele, eu o via
como um homem comprometidssimo com os ideais de justia e
liberdade de uma sociedade secular.
       Pim Fortuyn foi um sintoma da incapacidade do Partido
Trabalhista, assim como das outras agremiaes polticas estabelecidas,
de enxergar claramente a situao social dos imigrantes. Embora nem
sempre concordasse com a sua viso, eu achava bom que fosse ele, e
no um racista de verdade, a discutir algumas dessas questes.
       Ainda no era evidente, mas estava se abrindo uma fissura na
esquerda     holandesa,   assim   como   em    toda   a   Europa.    Velhos
esquerdistas como Paul Sheffer, Arie van der Zwan e Pim Fortuyn
comearam a criticar o relativismo moral e cultural dos partidos de
esquerda. Paul Cliteur, meu professor em Leiden, leal adepto da razo e
polemista incisivo, j se atrevera a criticar o multiculturalismo e o isl.
Os   meios    de   comunicao    o   classificavam   injustamente    como
conservador direitista.
       A poltica holandesa estava degringolando para uma grande
mixrdia. Os cidados sentiam que os polticos estabelecidos no
davam ouvidos aos seus anseios reais: melhora do sistema de sade
pblica, menos burocracia e resposta aos problemas sociais dos
imigrantes. O governo holands enviara soldados  ex-Iugoslvia, com
as foras de paz da ONU, e esses soldados fecharam os olhos para os
massacres perpetrados pelos srvios em Srebrenitsa. Mas nenhum
poltico renunciou por causa disso. Que diabo de responsabilidade
poltica era aquela se ningum respondia por uma deciso que causara
milhares de mortes? Como os polticos podiam se surpreender com o
fato de as pessoas deixarem de votar em partidos que procediam assim?
       Em maio, Fortuyn se declarou disposto a autorizar os refugiados
que havia muito tempo estavam na Holanda a permanecerem no pas
mesmo que sua solicitao de asilo fosse recusada. Isso virou manchete
e me agradou muito. Paul Kalma e eu vnhamos pleiteando que o
Partido Trabalhista promovesse tal anistia.
       Em um caf de Berlim, aps um simpsio sobre a imigrao na
Europa, reclamei com Paul: "Por que o Partido Trabalhista no apoia
essa medida? Pim Fortuyn diz  direita aquilo que ela quer ouvir, ou
seja, que a situao atual no est conseguindo integrar os imigrantes,
e diz  esquerda aquilo que ela quer ouvir: que a anistia  inevitvel e
humana".
       Faltavam apenas nove dias para as eleies, e Fortuyn estava
to bem nas pesquisas que at tinha chance de chegar a primeiro-
ministro. Mas eu sentia que, mesmo que assumisse o governo, no
duraria muito; faltava-lhe experincia para se manter. Seu partido
poltico era quase inexistente -- nem nome decente tinha --, e eu
aprendera em Leiden que, nos sistemas partidrios, as candidaturas
personalistas no passavam de fogo de palha.
       Dois dias depois, Fortuyn foi assassinado no estacionamento do
maior estdio de rdio e televiso do pas. Todo mundo ficou chocado.
Tal coisa no acontecia na Holanda desde que os irmos Witt haviam
sido linchados nas ruas de Haia em 1672. Os polticos holandeses
costumam ir trabalhar de bicicleta, de trem ou dirigindo o prprio carro,
como qualquer um. O assassinato de um lder poltico devido s suas
opinies  simplesmente inconcebvel, e foi imensa a dimenso da
reao emocional do pas.
       Assim que recebi a notcia do assassinato de Fortuyn, dei comigo
pensando: "Oh, Al, que no sejam muulmanos os que fizeram isso".
No fui a nica. Era generalizada a impresso de que, se o assassino de
Fortuyn fosse maometano, a represlia seria terrvel: mortes e
incndios. Quando se soube que o provvel autor do crime era um
ativista do movimento de proteo aos animais, o pas inteiro exalou um
suspiro de alvio. Wim Kok decidiu manter a data das eleies
independentemente disso, e o partido de Pim Fortuyn obteve vinte e seis
vagas no Parlamento. Os trabalhistas perderam feio.
       Logo a seguir, Kok, o lder trabalhista que eu admirava e no qual
votara, abandonou a poltica. Havia transformado o trabalhismo, que
era perdulrio e de um dogmatismo digno dos comunistas, em um
partido da terceira via, comparvel ao de Tony Blair na Gr-Bretanha.
Foi um verdadeiro articulador de alianas: soube dar respostas s mais
diversas comunidades e teve a habilidade de manter satisfeitos todos
partidos oposicionistas. (Trata-se de uma coisa dificlima, na qual
fracassei muitas vezes.) Senti que a ausncia de Kok seria um duro
golpe para o pas e que, quando ele deixou a poltica holandesa,
juntamente com o lder liberal Frits Bolkestein, um tipo de liderana
natural e de sensata maturidade partiu com eles. A arena poltica ficou
povoada de gente de muito menos envergadura e se reduziu a disputas
pessoais e picuinhas at ento inusitadas.
         Semanas antes do assassinato de Fortuyn, a documentarista
Karin Schagen me convidou para fazer um curta-metragem sobre a
minha experincia de refugiada na Holanda. Naquele vero, levou-me ao
escritrio de Zeewolde, a localidade em que eu apresentara meu pedido
de asilo, e aos lugares em que eu tinha morado. Fazia dez anos que eu
desembarcara na Holanda, e foi com prazer que lhe mostrei tudo.
         Certa noite, Karin telefonou para o meu pai. Ele estava em
Londres, visitando a minha madrasta Maryan, que vivia l, exilada.
Papai contou a Karin que andavam me ameaando de morte. Somalis
da Itlia, da Escandinvia e da Holanda lhe telefonavam, dizendo:
"Hirsi, se voc no der um jeito na sua filha, ela vai morrer".
         Karin preferiu no me dizer nada no comeo. Quando ela enfim
me avisou, eu no a levei a srio. Quem iria se dar ao trabalho de me
matar?
         No incio de agosto, fui convidada a participar de um programa
da televiso sobre a mulher no isl. Citaram alguns exemplos de moas
que tinham fugido dos maus-tratos dos pais e de outras que insistiam
em circular de vu, muito embora morassem na Holanda.
         Quando pediram a minha opinio, expliquei que o isl era uma
espcie de gaiola mental. No comeo, quando a gente abria a porta, o
passarinho no saa: ficava com medo. J havia interiorizado a priso.
Demorava a fugir, mesmo com a porta aberta.
         Uma semana depois da transmisso do programa, meu telefone
tocou: era meu pai. "Que diabo est acontecendo, minha filha?"
perguntou. "No param de ligar para c. Em uma semana, vinte
pessoas me telefonaram. O que andam falando a seu respeito? O que foi
que voc disse contra o isl?"
       Respondi: "Abe/z, aqui h tantas muulmanas recolhidas em
abrigos por terem sido espancadas. Os homens que as espancam dizem
que elas tm de obedecer porque  assim que manda o isl. Tenho
mostrado essa relao entre a nossa f e o comportamento dos
homens".
       Meu pai disse: "O islamismo no manda ningum bater na
mulher.  uma religio de paz. Pode combater a opresso da mulher
quanto quiser, Ayaan, mas no ponha a culpa no isl".
       No tive coragem de dizer abertamente que j no lhe dava
razo. "No, no  isso", gaguejei, mas ele me interrompeu. Disse que
rezava por mim e me aconselhou a fazer o mesmo; e desligou.
       Um ms depois, no primeiro aniversrio dos ataques de Onze de
Setembro, fui convidada ao programa de entrevistas de maior audincia
na televiso holandesa na poca, um programa ao vivo que ia ao ar s
vinte e duas horas e quinze minutos. De manh cedo, a campainha
tocou, e dois brutamontes me disseram que o programa os tinha
enviado para me acompanhar ao trabalho e aonde quer que eu fosse
aquele dia. Tratava-se de uma cortesia rotineira, explicaram.
       Eu tinha apenas um compromisso em Amsterd. A estao
ferroviria ficava na rua ao lado; e a viagem era curtssima. Agradeci
aos dois, dizendo que dispensava a companhia deles, mas Karin, que
continuava me filmando, estava carregada de cmeras e achou melhor
aproveitar a carona, de modo que aceitamos.
       No carro, ao ver o sofisticado equipamento de comunicaes, as
pesadas portas e os ombros largussimos dos dois grandalhes, Karin
ficou calada. Depois disse baixinho: "Ayaan, este no  o procedimento
habitual. Olhe s o tamanho desses caras. So guarda-costas. Isso no
est me cheirando nada bem".
       Antes de irmos  estao de televiso, eles nos acompanharam
ao centro de discusses Felix Meritis, em Amsterd, que havia me
convidado a participar de um debate acerca da integrao da juventude
marroquina.  mesa, havia um membro do Partido Liberal e uma
vereadora de origem marroquina. Durante o debate, quando discutimos
a apatia e a hostilidade de muitos imigrantes, ficou claro que eu
discordava da marroquina em quase tudo e concordava com a essncia
do que dizia o liberal.
       Isso era muito comum. Principalmente em pblico, as lideranas
maometanas negavam em altos brados a verdade do que eu dizia; no
entanto, em particular, algumas muulmanas concordavam comigo.
Quanto     aos   holandeses,   os      trabalhistas   geralmente   ficavam
incomodados com minha crtica  sua tolerncia multi-culturalista s
prticas islmicas, ao passo que os liberais se entusiasmavam com a
nfase que eu dava aos direitos individuais.
       Aps o debate, meus dois acompanhantes nos levaram a
Utrecht, onde nos aguardava outra discusso sobre o isl e o mul-
ticulturalismo. Foi em um caf repleto de jovens marroquinos. Quando
cheguei, eles me receberam com uma vaia ensurdecedora. Fiquei
assombrada: ser que toda aquela gente me conhecia? Cada vez que eu
abria a boca, muitos gritavam e outros retrucavam. A sala parecia
dividida por uma fratura geolgica: de um lado os holandeses, que
aprovavam a minha posio, de outro os muulmanos. Um a um, os
marroquinos -- rapazes e moas -- se levantavam para dizer: "Voc 
uma traidora. Fala que nem Pim Fortuyn. No sabe nada do isl. Est
nos estigmatizando".
       A atmosfera ficou carregada de insultos pessoais e sentimentos
ruins, mas tive que ir para a televiso. No carro, perguntei: "O que est
acontecendo com essa gente, Karin?".
       Ela disse: "No percebe como este pas  minsculo e como so
explosivas as coisas que voc diz?".
       Explosivas? Num pas em que a prostituio e as drogas leves
so legais, a eutansia e o aborto so permitidos, os homens choram na
televiso, as pessoas ficam nuas na praia e o papa  satirizado na rede
de televiso nacional? Em que o famoso escritor Gerard Rev ficou
famoso por ter se imaginado fazendo amor com um jumento, animal
que lhe servia de metfora de Deus? Logicamente, nada que eu dissesse
poderia ser considerado "explosivo" em tal contexto.
       "Essa gente mora aqui h anos", argumentei. "Todas as moas
estavam de cala justa e camiseta -- todas ocidentalizadas. Participam
de debates. Esto acostumadas  crtica."
       "Voc est redondamente enganada", contraps Karin. "Se o seu
nome no figurasse no prospecto, ningum teria ido. Com voc, h o
que discutir. Eles no vo a esses eventos regularmente -- ouviram
falar em voc na televiso. Duvido que estejam habituados a esse tipo
de crtica -- muito menos partindo de uma maometana."
       Chegamos        pouco   antes   do   incio   do   programa.   Os
apresentadores Frits Barend e Henk van Dorp explicaram que haviam
recebido um telefonema ameaador devido  minha participao, e que
a polcia levara a srio. Fiquei surpresa, mas, naquele momento, no
tive tempo de processar a informao: o programa estava prestes a ir
para o ar.
       Aps uma breve apresentao, Frits Barend perguntou: "Quer
dizer que voc chegou  Holanda em 1992, como refugiada. Voc
mentiu como todos os outros?". Respondi que sim, que havia alterado o
meu nome e mentido quanto  minha histria, e expliquei por qu:
tinha medo de ser devolvida ao meu cl. Eles pareceram entender a
situao e, depois de mais algumas perguntas, fizeram a principal do
dia: "Voc concorda com a opinio de Pim Fortuyn, segundo a qual o
isl  anacrnico?".
       Embora surpresa, eu disse: "De acordo com o Relatrio de
Desenvolvimento Humano rabe da ONU, avaliando trs fatores -- a
liberdade poltica, a educao e o status da mulher --, v-se que o que
Pim Fortuyn diz no  uma opinio,  um fato." Achei que fui muito
habilidosa, no repeti as afirmaes to controversas de Fortuyn, mas
procurei ser clara e precisa. Certos aspectos do islamismo retardam o
desenvolvimento social  medida que tolhem o pensamento crtico e
reprimem as mulheres.
       A seguir, perguntaram: "Mas voc continua sendo muulmana?".
Eu me senti numa situao realmente difcil. Porm, uma vez mais,
preferi no repudiar o isl abertamente e respondi: "Eu me secularizei".
       No me sentia forte o suficiente para enfrentar o que viria se eu
dissesse alto e em bom som que j no tinha f. Para os muulmanos, o
pior que existe  ser apstata. Os cristos podem deixar de crer em
Deus;  uma questo pessoal que s lhes afeta a alma eterna. Mas, para
um maometano, deixar de crer em Al configura um crime letal. Os
apstatas merecem morrer: nisso o Alcoro e o hadith so clarssimos.
A pior desobedincia a Deus que um muulmano pode perpetrar 
abjurar a religio, pois isso provm do elemento mais baixo e impuro da
sociedade. E clama o castigo divino.
       Eu tinha sido convidada a outro debate dali a alguns dias.
Convencida de que havia, de fato, uma discusso pblica sobre o
assunto, aceitava todos os convites para falar; era como se o pas inteiro
estivesse interessado no debate. Este tambm foi televisionado, e os
presentes eram na maioria muulmanos. Finalmente, pensei, a
televiso holandesa resolveu convidar maometanos a participarem das
discusses.
       Fiquei ao lado de Naema Tahir, uma jovem e bela paquistanesa
que, tendo rejeitado o homem com quem o pai pretendia cas-la,
dedicou-se aos estudos e concluiu o mestrado em direito. As duas
estvamos de blusa azul-clara, como escolares, e nos identificamos
muito. Havia vrios homens presentes e, no decorrer do programa, eles
comearam a nos apupar e interromper com gritos e insultos. Um deles
bradou: "Voc no  muulmana! Voc mesma disse que no ! Disse
que o isl  anacrnico! Mentirosa!".
       Eu me levantei e disse: " a minha religio tambm e, se eu
quiser cham-la de anacrnica, chamo. Sim, o isl  anacrnico".
       Estabeleceu-se o caos. Com o adensamento da atmosfera do
debate, fui ficando mais tensa. Os homens me olhavam com dio; um
deles se retirou precipitadamente. Pensei no que Frits Barend havia me
dito na noite anterior. Ali no havia guarda-costas.
       Depois do programa, o moderador me aconselhou: " melhor
voc no sair daqui sozinha". Acrescentou que a televiso pagaria um
txi at Leiden. Quando cheguei em casa, o telefone estava tocando:
eram Johanna e Maarten. Tinham assistido ao programa e , estavam
preocupadssimos; temiam que tivesse me acontecido alguma coisa e
ficaram aliviados ao me encontrar a salvo. Porm Maarten estava
zangado. Recomendou-me mais cuidado. "O que voc anda fazendo 
errado", disse. "Est se expondo ao perigo. Procure outro tema para
discutir." O dia seguinte era uma sexta-feira, um dia de trabalho
normal. Levantei-me e, como de costume, fui de trem ao escritrio do
think tank. Estava de dia, na Holanda: no senti nenhum medo. Alis,
ia muito motivada a propor que o nosso instituto investisse na pesquisa
da situao das muulmanas na Holanda, at j estava comeando a
elaborar o esboo da proposta. Quando entrei no escritrio, Paul Kalma
me disse: "Assisti ao programa de ontem. Voc precisa tomar mais
cuidado, Ayaan. Aconselho-a a parar com isso. A televiso  muito
sensacionalista. Limite-se a manifestar suas opinies por escrito".
       Todos foram unnimes quanto  fatalidade iminente, eu
precisava ser muito burra para no perceber. Comecei a ficar um pouco
intimidada. Um amigo foi ao escritrio para me acompanhar naquela
tarde, e, enquanto conversvamos, eu olhava  minha volta, nervosa:
acaso algum havia me reconhecido7. Estavam me seguindo? Mas no,
tudo parecia normal: gente passando de bicicleta, falando no celular, e
ningum me dava grande ateno.
       Naquela noite, Ellen me disse, com toda franqueza, que eu devia
ter perdido o juzo. Catorze meses antes, havia comprado aquela casa
com ela e quase no parava l. Trabalhava o tempo todo, na tentativa
de ser a resposta feminina a Bin Laden e, em conseqncia, estava
arruinando a minha sade e a nossa amizade.
       No dia seguinte, sbado, Karin foi me visitar. Voltamos a
telefonar para o meu pai. E, uma vez mais, ele contou que as ameaas
continuavam, que receava seriamente que estivessem com planos de me
matar. Karin tomou nota de tudo. Mas papai no tocou no assunto ao
falar comigo: creio que no queria me atemorizar. Restringiu-se a dizer:
"Tenha cuidado". Perguntei: "Cuidado com o qu?" Ele repetiu: "Ando
recebendo ameaas de toda parte. Pare de falar mal do isl".
       Quando desligamos, Karin disse: "Seu pai quer que eu cuide de
voc. Acha que pode ser assassinada".
       "Pelo amor de Deus! Meu pai foi criado muito longe daqui e h
muito tempo. Ora essa, o que foi que eu fiz? No passo de uma pobre
coitada que ganha mil e seiscentos euros por ms. No fao mal a
ningum por erguer minha pequena voz em um pas pequeno."
       Pouco depois, Marco telefonou. Disse que queria falar comigo
pessoalmente. Concordei, prontifiquei-me a ir para l de bicicleta, mas
ele pediu: "No faa isso -- voc no pode sair sozinha". Eu lhe disse
que aquilo era absurdo, mas ele fez questo de me buscar de carro e de
me levar a um vilarejo adorvel chamado Roelofsarendsveen, no qual a
chance de topar com um muulmano radical era praticamente nula. E
me alertou: "Ayaan, pode lhe acontecer alguma coisa. Voc precisa
tomar cuidado".
       Enquanto ele falava, meu telefone tocou. Era Leon de Winter,
um famoso escritor holands. Perguntei: "Oh, voc tambm ligou para
me mandar tomar cuidado?" pois os sermes dos amigos e colegas
estavam comeando a dar nos nervos. Mas Winter disse: "No, s queria
dizer que a admiro muito. Eu a vi na televiso ontem e anteontem e
sinceramente    acho      que   o   que   voc   est   fazendo   por   ns   
verdadeiramente maravilhoso". Convidou-me a jantar na semana
seguinte, o que eqivalia a uma americana ser convidada por Philip
Roth, com a diferena de que todo mundo na Holanda conhecia Leon de
Winter. Aceitei, evidentemente, mas disse: "Estou um pouco inibida
porque no li nenhum dos seus livros". Ele retrucou: "No faz mal. Leio
todos os seus artigos".
       O telefone tornou a tocar: agora era Jaffe Vink, do Trouw,
dizendo: "Quero que voc converse com um policial especial que
trabalha no Servio Secreto Holands, porque uma coisa muito ruim
est sendo armada. Acho que as ameaas so verdadeiras. Voc pode se
encontrar com ele segunda-feira". Concordei.
       Passei o fim de semana em casa com Ellen, fazendo o servio
domstico e tentando salvar o que restava da nossa amizade.
       Na manh de segunda-feira, fui falar com o tal policial especial.
Seu escritrio parecia uma priso: grades e mais grades, portas com
fechadura sofisticada e cmeras em toda parte. Eu disse: "No sei o que
andei fazendo ou dizendo, mas meu pai teme que me matem, e todos os
conhecidos esto preocupados comigo. No recebi nenhuma ameaa
direta, de modo que me sinto meio perdida, mas estou comeando a
ficar com medo".
       "Voc est perdida mesmo, pois essas ameaas so muito reais.
Estamos informados de algumas delas. Voc precisa de proteo. V 
chefatura de polcia de Leiden e apresente queixa. E no se esquea de
falar da histria da internet."
       "H alguma coisa a meu respeito na internet?"
       O homem suspirou. "Muita coisa. Cada vez mais. Ns estamos
monitorando." Era uma atitude muito holandesa, muito paternalista e
protetora, e ele me mandou parar de me julgar uma pessoa annima e
invisvel. Eu havia desencadeado uma coisa que podia ser muito grande
e muito perigosa.
       Fui  delegacia de Leiden, que conhecia bem devido  minha
atividade de intrprete. Um policial que j tinha ouvido falar de mim --
e, alis, parecia mais informado do que eu acerca da minha situao --
disse que eles iam avaliar a segurana da minha casa e me recomendou
trocar todas as fechaduras.
       "Quanta gente sabe o seu endereo?", perguntou. Mostrei-lhe o
carto de visita com o meu endereo residencial: eu o havia distribudo
nos debates em todo pas. A troca de informaes e contatos fazia parte
do meu trabalho. Alm disso, Ellen e eu constvamos da lista telefnica.
Ele grunhiu.
       Naquela noite, entrei uma vez mais na pauta da reunio da
diretoria do Instituto Wiardi Beckman, mas ningum me acusou de
nada. Como de costume, Job Cohen foi magnfico. Disse: "O fato de eu
concordar ou discordar de Ayaan  irrelevante. Qualquer ameaa pelo
fato de ela simplesmente expressar a sua opinio  absolutamente
inaceitvel para todos ns".
       Pensei: "Afinal, por que Cohen no  o lder do Partido
Trabalhista?". Era um pensador to lcido; tinha autoridade; entendia o
Estado de direito mais do que qualquer um que eu conhecia. Arrependi-
me de t-lo insultado em um artigo. Depois da reunio, Cohen se
aproximou e disse: "Ayaan, voc est com ar cansado. Quero que pense
muito antes de aceitar esse desafio. Pode durar muito tempo. Voc quer
viver assim? V comer alguma coisa e procure dormir. E pense bem".
       Aparentemente, todos estavam convencidos de que eu j no
devia ir ao trabalho de trem. No ficou claro para mim de quem eles
achavam    que   eu   deveria   me   proteger,   mas   todos   acreditavam
firmemente que um encontro casual podia desencadear um episdio de
violncia. De modo que Karin me levou para casa naquela noite e, na
manh seguinte, foi me buscar com a sua equipe. No outro dia, Paul
Kalma telefonou para os apresentadores do programa de televiso e
pediu o nome da empresa de segurana que havia me escoltado.
Decidiu contrat-la para me acompanhar na ida e na volta do trabalho.
       Minha vida cotidiana ficou incrivelmente complicada. Quando eu
ia trabalhar em Amsterd, a polcia de l assumia a responsabilidade
pela minha segurana. Mas, ao chegar a Leiden, a cinqenta
quilmetros de distncia, era obrigada a telefonar para a polcia local e
avisar que estava em casa, pois agora era ela a responsvel por mim.
Alm disso, o servio de guarda-costas era caro, e o Partido Trabalhista,
tendo perdido votos, acabara de cortar o financiamento do nosso think
tank. Paul Kalma me recomendou arranjar um endereo provisrio em
Amsterd, assim a polcia de l me levaria para casa toda noite.
       Uma jornalista me telefonou. Eu disse: "No posso. Acabo de dar
parte na polcia e no vou mais falar com a imprensa". Ela publicou
minhas palavras no jornal; a manchete dizia que eu era obrigada a me
esconder. Recebi montanhas de cartas e muitas ofertas de gente
disposta a me acolher em casa. Um deles foi o meu ex-professor de
mtodos de pesquisa social. Morava perto da sede do Partido
Trabalhista, e seu dplex tinha uma quitinete anexa que estava
desocupada.
       Decidimos    que,    na   semana   seguinte,   eu   me   mudaria
provisoriamente para l. Ao informar Ellen, senti no ar a tenso da sua
desaprovao. Discutimos; ela me acusou de abandonar a minha parte
no trabalho domstico e a nossa amizade. Retruquei que ela me negava
apoio quando eu mais precisava. Foi desagradvel, e os guarda-costas
estavam buzinando com impacincia. Parti.
       Naquela noite fui jantar no Hilton, de Amsterd, com Jaffe Vink,
Leon de Winter e sua esposa. Ainda estvamos no horsd'oeuvre quando,
de sbito, os dois guarda-costas se aproximaram, agarraram minhas
mos e me cercaram, dizendo: "Vamos embora". Mal tive tempo de
colocar o garfo no prato.
       Eles me fizeram sair pela porta dos fundos. No vi nada, mas no
caminho, viajando em alta velocidade, contaram-me que estavam
chegando vrios carros lotados de homens de aparncia norte-africana.
Um a um, eles deixavam os passageiros no estacionamento do hotel e
iam buscar outros. Provavelmente algum tinha me visto chegar e
telefonara para os amigos. Os seguranas alegaram que no tinham
condies de enfrentar tanta gente. No vi nada, mas fiquei com medo.
       Fomos  delegacia de polcia de Leiden. L disseram que tinham
feito algumas investigaes e achavam altamente desaconselhvel eu
continuar dormindo em casa. Para eles, era impossvel me proteger em
um endereo to conhecido. Perguntei: "Quer dizer que devo vender a
casa?" O policial respondeu: "No podemos mand-la fazer isso, mas
garantimos que l a senhora no est em segurana".
       Telefonei para o meu pai. Quando ele atendeu, eu disse: "Al,
abehy aqui  Ayaan". Ouvi um chiado e um clique. Isso se repetiu vrias
vezes. Eu insultara o que lhe era mais sagrado. Nunca mais haveria
reconciliao entre ns.
       Quando ficou claro que a minha situao era insustentvel,
Leon de Winter props que eu fosse descansar na casa de campo de um
escritor na Califrnia. Voltaria quando as coisas se acalmassem na
Holanda. Eu no tinha dinheiro para semelhante viagem, mas Paul
Scheffer sugeriu que o instituto criasse uma fundao sem fins
lucrativos para arrecadar fundos.
       Passei a encarnar uma situao que a Holanda comeava a
perceber e a deixava chocada. Aquele pas tranqilo, convencido de que
chegara ao auge da civilizao e que j no tinha com que se preocupar,
a no ser, talvez, com a possibilidade de os diques se romperem um dia,
estava despertando para um pesadelo de cidados totalmente avessos a
valores fundamentais como a liberdade de expresso -- para uma
realidade de ataques com avies, assassinatos de polticos e ameaas de
morte. A idia de que a vida de uma moa podia correr perigo
simplesmente por ela ter dito, na televiso, a verdade tal como a via
tornou-se um smbolo importante para muita gente.
       As pessoas encaminhavam solicitaes para que eu tivesse
liberdade de expresso. Mandavam-me flores. Meus pontos de vista
passaram a ser objeto de discusso. Alguns afirmavam que as ameaas
a mim no passavam de uma grande mentira, de um golpe publicitrio,
porm muitos outros, que eu nem conhecia, comearam a trabalhar
para angariar apoio. Leon de Winter, Geert Mak, Harry van den Berg e
Paul Scheffer, os escritores holandeses mais conhecidos; Job Cohen;
Felix Rottenberg, ex-lder do Partido Trabalhista, e Paul Kalma, o meu
chefe; Tilly Hermans, agora meu editor holands, e Cisca Dresselhuys,
uma famosa feminista -- todas essas figuras extremamente clebres e
importantes se envolveram com o meu caso. Queriam que eu tivesse
condies de voltar para a Holanda em segurana e sob a guarda da
tropa de elite encarregada de proteger os polticos conhecidos e a famlia
real, no apenas sob a vigilncia da polcia local.
       Em outubro de 2002, viajei para a Califrnia. Nos Estados
Unidos pela primeira vez, eu me dei conta, quase imediatamente, de
que meus preconceitos contra aquele pas eram totalmente desprovidos
de fundamento. Esperava topar unicamente com caipiras reacionrios e
gente obesa, todos armados, com uma polcia agressiva e com o racismo
mais descarado -- a caricatura da caricatura. Na realidade, vi gente
levando    uma    vida   perfeitamente   ordenada,     praticando   esportes,
tomando caf.
         Adorei as livrarias enormes e passei horas na Barnes & Noble,
em Santa Monica, onde eu estava hospedada, comprando montes de
livros. Foi um alvio voltar a ter tempo para pensar e ler.
         No dia 16 de outubro de 2002, o gabinete caiu -- menos de trs
meses depois de tomar posse. O grupo de Pim Fortuyn, no Parlamento,
no conseguiu fazer coligao com os liberais nem com os democratas
cristos. O pequenino universo da poltica holandesa se agitou: o pas
se viu diante da perspectiva de novas eleies, marcadas para janeiro de
2003.
         Neelie Kroes, uma destacada poltica do Partido Liberal,
conhecido na Holanda como o WD, era uma mulher forte, muito digna e
determinada. Embora no nos conhecssemos pessoalmente, Neelie
ficou indignada com o fato de uma pessoa na minha situao ser
obrigada a sair do pas em busca de segurana. Organizou as mulheres
dos principais partidos da Holanda para divulgar um abaixo-assinado
em apoio ao meu direito de falar livremente e em segurana.
         Acreditava que o Parlamento holands precisava de mais
mulheres fortes e inteligentes. Quando o gabinete caiu e se convocaram
novas eleies, Neelie pensou em mim, embora eu no passasse de uma
pesquisadora jnior do Partido Trabalhista, e ela militasse no direitista
WD. Telefonou para Leon de Winter, propondo minha candidatura a
deputada pelo seu partido.
         Na distante Amrica do Norte, comecei a pensar. A idia de ser
chamada de direitista no me assustava como acontecia com certas
pessoas. Na Holanda, todos os partidos polticos eram favorveis a um
grau ativo, quase invasivo, de interveno do Estado nos negcios de
compra e venda, com elevados impostos e redis-tribuio da riqueza.
Em      termos   econmicos,   o   Partido   Liberal    preconizava   menos
interveno estatal e menos impostos; eu concordava com isso. Em
termos de princpios, os liberais eram seculares, faziam questo de ser
neutros em matria religiosa. Defendiam o direito ao aborto, o dos
homossexuais -- a emancipao do indivduo.
       Ademais, eu estava decepcionada com o Partido Trabalhista.
Inicialmente eu me unira a eles por acreditar que os socialde-mocratas
fossem pela reforma, procurassem melhorar a vida das pessoas e se
preocupassem com o sofrimento, o que imaginei que implicasse se
preocuparem com o sofrimento das muulmanas. Mas, na realidade, o
Partido Trabalhista parecia ofuscado pelo mul-ticulturalismo, dominado
pelo imperativo de ser sensvel e respeitoso com a cultura dos
imigrantes, defendendo o relativismo moral. Quando eu dizia que a
situao das muulmanas precisava mudar -- e mudar depressa --,
diziam-me para esperar ou me chamavam de direitista. Acaso era isso
que eles diziam aos mineiros do sculo xix que lutavam pelos direitos do
trabalhador?
       Neelie estava de viagem marcada para visitar o filho, que morava
em San Francisco, e foi assim que ns nos conhecemos. Eu lhe contei
que estava pensando em me fixar nos Estados Unidos para fazer PhD.
Discutimos poltica. Ela ouviu o que eu tinha a dizer sobre o Iluminismo
e John Stuart Mill, sobre a gaiola da represso da mulher e, ento,
olhando-me diretamente nos olhos, com ar decidido, disse: "Voc no
tem nada de socialista.  uma de ns".
       Neelie disse que os meus sonhos acadmicos eram inteis; no
levavam a nada. Por melhor que fosse, minha tese de PhD estava fadada
a desaparecer numa gaveta de arquivo. No alteraria um milmetro a
vida das muulmanas. O mais importante que eu poderia fazer era
expor a realidade daquelas mulheres s pessoas no poder e lutar para
que as leis existentes de igualdade dos sexos fossem cumpridas. A
minha luta era de ao, no de idias. Eu deveria me candidatar ao
Parlamento, onde realmente poderia agir em prol da emancipao das
maometanas e da integrao dos imigrantes.
       Passei aquela noite pensando nas palavras de Neelie. O que eu
pretendia   afinal?   Trs   coisas:   primeiro,   queria   que   a   Holanda
despertasse e parasse de tolerar a opresso das muulmanas no seu
territrio; o governo tinha de agir para proteg-las e punir seus
opressores. Segundo, queria provocar um debate entre os maometanos
sobre a reforma de certos aspectos do isl de modo que eles
comeassem a questionar e a criticar sua prpria f. Isso s era possvel
no Ocidente, onde os muulmanos podiam manifestar abertamente
suas opinies; em nenhum pas islmico havia possibilidade de discutir
esses temas livremente. Terceiro, queria que as maometanas tomassem
mais conscincia do quanto seu sofrimento era ruim e inaceitvel.
Queria ajud-las a desenvolver o vocabulrio da resistncia. Inspirava-
me em Mary Wollstone-craft, a pioneira pensadora feminista que dizia
que as mulheres tinham a mesma capacidade de raciocnio que os
homens e mereciam os mesmos direitos. Mesmo depois de ela publicar
A vin-dication ofthe rights ofwomen, tardou mais de um sculo para que
as sufragistas fizessem passeata pelo direito de votar. Eu sabia que
tambm demoraria muito para libertar as muulmanas da gaiola
mental. No esperava ondas imediatas de apoio entre elas. Infelizmente,
as pessoas condicionadas pela humildade a ponto de j quase no
terem mente prpria no so capazes de se organizar nem tm vontade
de expressar a sua opinio.
       Quando eu trabalhava no think tank do Partido Trabalhista e
falava nessas coisas, sempre me acusavam de no apoiar meus
argumentos em dados. Mas o acesso aos nmeros era totalmente
impossvel. Por exemplo, quando tentei pesquisar os assassinatos em
defesa da honra -- quantas moas, na Holanda, eram mortas
anualmente pelos pais e irmos em nome da sagrada honra da famlia
--, os funcionrios do Ministrio da Justia responderam: "No
registramos os homicdios com base nessa categoria de motivao. Isso
pode levar a estigmatizar um grupo na sociedade". Todo ano o governo
holands registrava o nmero de mortes associadas ao uso de drogas
ou a acidentes de trnsito, mas no o nmero de assassinatos em nome
da honra, porque nenhum funcionrio pblico queria reconhecer que
aquele tipo de homicdio ocorria regularmente.
         Nem mesmo a Anistia Internacional contava com estatsticas a
respeito do nmero de mulheres vtimas de assassinato em nome da
honra no mundo. Sabia quantos homens estavam presos e eram
torturados, mas no tinha idia do nmero de mulheres aoitadas em
pblico por fornicao ou executadas por adultrio. No era da alada
dela.
         Decidi que, se eu chegasse a ser membro do Parlamento
holands, a minha misso sagrada seria registrar esses dados. Queria
que algum, em algum lugar, se encarregasse de anotar toda vez que
um      homem   matasse   a   filha   simplesmente   porque   ela   estava
namorando. Queria que algum se encarregasse de registrar a violncia
domstica -- e o abuso sexual, e o incesto -- por grupo tnico, e
tambm que investigasse o nmero anual de meninas submetidas 
clitorectomia em uma mesa de cozinha holandesa. Quando se
levantassem esses nmeros, os fatos por si ss chocariam o pas. De
um s golpe, eliminariam a atitude complacente dos relativistas morais
que afirmavam que todas as culturas eram iguais. J no haveria a
desculpa do ningum sabia.
         Se entrasse para o Parlamento, eu poderia agir de acordo com as
minhas convices, e no apenas proclam-las. E Neelie tinha razo:
ainda que o Partido Trabalhista fosse o melhor para mim e ainda que eu
fosse verdadeiramente leal a Paul Kalma e a Job Cohen, muitas das
minhas idias no coincidiam com as do partido. A socialdemocracia se
fundamentava nos direitos de grupos de pessoas, no de indivduos. O
Partido Liberal podia no ser to agradvel quanto o Trabalhista, mas
sua filosofia se enraizava nos valores da liberdade pessoal. Minhas
idias se sentiam bem dentro dele.
         Eu seria uma poltica monotemtica, decidi. Continuo sendo.
Tambm estou convencida de que este tema  o maior e mais
importante que a nossa sociedade e o planeta enfrentaro neste sculo.
Todas as sociedades que ainda se acham nas rgidas garras do isl
oprimem a mulher e esto atrasadas em termos de desenvolvimento. A
maioria delas  pobre; muitas esto mergulhadas no conflito e na
guerra. As sociedades que respeitam os direitos e a liberdade da mulher
so ricas e pacficas.
        Resolvi ir aonde eu tivesse o mximo de possibilidade de
promover a mudana. J que o Partido Liberal me oferecia um cho que
pisar, seria ele.
        Telefonei para Paul Kalma e comuniquei que ia deixar o partido e
o emprego. Ele disse que achava uma pena eu mudar de partido, mas
acrescentou: "Voc est lutando pelos seus ideais, e eu a apoio".
Desejou-me sorte.
        Neelie Kroes e os chefes liberais Frits Bolkestein e Gerrit Zalm
queriam me colocar no topo da lista de candidatos liberais. A poltica
holandesa no se baseia em eleitorados locais. Todos votam em uma
lista de candidatos de amplitude nacional, e as vagas no Parlamento se
repartem entre os primeiros nomes de cada uma delas, dependendo da
proporo de votos recebidos. Todos os partidos polticos se arrimam
em poderosos grupos locais que disputam os lugares elegveis na lista.
        Eu era um azaro. Para ser eleita, teria que cair nas graas dos
bares do partido. Mas at o congresso do Partido Liberal, em 30 de
novembro, Neelie e Zalm preferiram manter em sigilo a minha
participao na eleio. Passei uma semana percorrendo a Holanda, o
mais discretamente possvel, para visitar os potentados liberais locais.
        No comeo, a maioria dos chefes polticos pareceu hostil, embora
eu tenha despertado a curiosidade de alguns. Um senhor j idoso me
disse: "Voc  africana e foi ameaada por causa dos comentrios que
fez sobre o isl, e  mulher, e membro do Partido Trabalhista -- e agora
quer se passar para os liberais. Ns somos empresrios. Por acaso voc
entende de empresas? Est minimamente interessada em ns?"
        Respondi: "Depende de quem for esse cns"'. Acrescentei que
pretendia   tratar   da   questo   das   imigrantes,   especialmente   das
muulmanas, e expliquei como isso afetava os negcios, na minha
opinio. Os empresrios tinham um forte motivo para libertar as
maometanas de modo que elas participassem plenamente da sociedade.
Se as meninas e as mulheres fossem ignorantes, oprimidas e
psicologicamente humilhadas, seus filhos tambm seriam afetados por
essa ignorncia. Se elas fossem instrudas e bem alimentadas, seus
filhos estruturariam uma cidadania autoconfiante, responsvel, e uma
fora de trabalho produtiva. Tambm falei na integrao e no bem-estar
social. "O senhor conhece a histria das idias liberais. Na Holanda, a
opresso da mulher se ope  filosofia do seu partido. Para defender os
valores do seu partido, o senhor deve apoiar a minha filiao, pois eu os
represento."
       Essas reunies eram verdadeiros interrogatrios. Algumas
lideranas     me   achavam   atrevida;   uns   poucos    se   mostraram
francamente belicosos. A maioria me dizia: UA sua causa  legtima e
justa, mas voc no  do nosso partido". Uma mulher, a chefe dos
liberais de Leiden, passou uma hora me interrogando, ento disse:
"Acho que vou gostar muito de voc. H autenticidade em voc, e isso 
parte integrante do nosso partido".
       A quem me perguntava, eu deixava claro que, ao chegar 
Holanda, havia alterado a minha histria para solicitar asilo: eu dera
nome falso e no contara toda a verdade. Disse isso em entrevistas na
televiso, na rdio e nos jornais, e no omiti quando a liderana do WD
me perguntou se havia alguma coisa, no meu passado, que pudesse
atrapalhar a minha atuao poltica. Isso nunca chegou a ser um
problema.
       No fim, Gerrit Zalm angariou apoio suficiente dos chefes do
partido para colocar o meu nome no dcimo sexto lugar da lista.
Significava que eu estava quase eleita.
       Naquela semana, ouvi na BBC a notcia dos conflitos na Nigria.
Uma jovem jornalista encarregada de fazer a cobertura do concurso de
Miss Mundo escreveu: "Os muulmanos acham imoral reunir noventa e
duas mulheres na Nigria que se deleitam com a prpria vaidade. Que
pensaria o profeta Maom?... Provavelmente escolheria uma delas para
esposa".
       Mais de duzentas pessoas morreram na onda de violncia que se
instaurou. A sede do jornal foi incendiada, e a reprter precisou fugir do
pas. A seguir, ouvi o comentrio da inglesa arrogante que organizara o
evento. Em vez de condenar os homens que praticaram a violncia,
incendiando casas e assassinando, ela culpou as "observaes infelizes"
da jovem jornalista.
       Fiquei indignada com semelhante defesa do fanatismo. A moa
no tinha escrito nada errado. Estava coberta de razo: o profeta casara
com a maioria das suas mulheres porque, de um ou de outro modo,
elas lhe agradavam os olhos. Num gesto de solidariedade com a
reprter, decidi que, quando tivesse oportunidade, diria publicamente o
que eu realmente pensava do profeta Maom.
       A oportunidade surgiu poucos dias depois, quando Arjan Visser,
um jornalista holands do Trouw, me convidou para participar de uma
srie de entrevistas que ele estava fazendo, ancorado nos Dez
Mandamentos para falar do papel da religio na vida das pessoas. Na
entrevista, eu disse qual era, na minha opinio, a verdadeira natureza
do profeta. A entrevista no foi divulgada nas semanas subseqentes, e
acabei me esquecendo dela.
       Em 30 de novembro, o dia do congresso do Partido Liberal,
entrei em um salo enorme lotado de seguranas. Uma infinidade de
cmeras me cegou com os flashes. Assim como os demais candidatos, ia
me apresentar em uma plataforma com microfone. Mas fiquei trmula e
paralisada  entrada. No consegui avanar.  minha frente, todas
aquelas cmeras; atrs de mim, os guarda-costas. Senti-me acossada,
aprisionada. No parava de tremer. Com muita delicadeza, Gerrit Zalm
me recomendou que tivesse calma, respirasse fundo e no me
preocupasse.
       Um aps outro, os candidatos foram tomando a palavra sem
despertar grande interesse na platia. Candidato catorze, candidato
quinze. Chegou a minha vez. Eu havia preparado um breve discurso
com a ajuda de Neelie e seu marido, o poltico Bram Peper, mas fiquei
com medo outra vez, pois, quando me levantei, todos os presentes
pararam de falar. Centenas de pessoas em silncio, todas as objetivas
voltadas para mim. Fiquei petrificada na escada da plataforma. Vendo
que eu estava tremendo, Frits Huffnagel, o encarregado de apresentar
os candidatos, me deu a mo, dizendo: "Calma".
       No sei como consegui me controlar e ler o discurso. Depois, ao
descer, fui cercada pela imprensa. Os fotgrafos me seguiram at o
banheiro. Uma parlamentar liberal, a ex-nadadora olmpica Erika
Terpstra, tomou a minha defesa, tratando de afastar a multido.
       Dali por diante, deixei de ter uma relao normal com os
jornalistas. J no podia dizer simplesmente o que pensava, como uma
pessoa comum. Agora eu era poltica: a mdia, mais do que uma fonte
de informao, passou a ser um instrumento que eu precisava aprender
a usar. Os profissionais de relaes pblicas que lidam com a imprensa
para o Partido Liberal comearam a selecionar meus telefonemas e os
pedidos de entrevista dos jornalistas. Forneciam-me uma biografia
breve de cada um e me diziam o que era provvel que perguntassem.
Fui rapidamente instruda sobre as prioridades do Partido Liberal: o
programa eleitoral, a agricultura, o imposto predial etc. Sendo
candidata liberal, era de se esperar que o que eu dissesse  mdia
grosso modo correspondesse  plataforma do partido.
       Grande parte da imprensa, convencida de que minha troca de
partido no passava de uma manobra oportunista, vigiava-me para ver
se eu no metia os ps pelas mos. Minha primeira entrevista devia ser
uma reportagem de interesse humano, mas no tardaram a me
perguntar se eu continuava querendo suprimir as escolas confessionais,
religiosas. Esse era um dos temas mais delicados na Holanda de ento.
Se ganhassem as eleies, os liberais pretendiam governar com o
Partido Democrata Cristo, para o qual as escolas confessionais eram
uma vaca sagrada. Respondi que me opunha a essa forma de
escolarizao. Expliquei que as instituies de ensino muulmanas
eram pssimas para a educao. Isso desencadeou uma pequena
tempestade porque eu no acatava a linha do Partido Liberal e,
portanto, no conseguiria me eleger.
       Gerrit Zalm, o lder do partido, foi firme durante toda minha
candidatura e carreira parlamentar. Poltico profissional, era tarimbado
e competente, um verdadeiro exemplo e, no plano humano, mostrava-se
lcido e direto. No me apoiava apenas porque eu podia favorecer a
propaganda liberal e ajud-los a se elegerem; nunca deu sinal de querer
me guardar em um canto depois das eleies, feito um bibel, e me
defendeu muitas e muitas vezes. Ao longo da minha carreira poltica,
Zalm batalhou coerentemente em apoio s minhas causas, da violncia
domstica  clitorectomia.
       Depois   dessa   primeira   interveno,   ele   no   hesitou   um
momento. No disse: "Essa moa acaba de chegar  Holanda e no
entende a importncia dessas instituies para a nossa sociedade".
Disse: "Sou liberal, e h bons argumentos a favor da abolio das
escolas confessionais. Mas no podemos fazer isso agora, pois vamos
formar um governo com os democratas cristos".
       Para mim, a questo mais importante era a anistia geral aos
refugiados cujo visto de permanncia estava vencido. Queria essa
anistia. No tempo em que eu trabalhava no think tank dos trabalhistas,
a bancada do partido no Parlamento se opusera a ela -- mas os liberais
foram ainda mais contrrios. Quando os entrevistadores indagavam
acerca disso, eu marcava claramente a mi-jiha posio. Disse a Gerrit
Zalm: "Sabe, no concordo com tudo quanto os liberais dizem". Ele no
fez a menor restrio. Eu que fosse eu mesma. Contanto que me
limitasse  minha plataforma, que era a integrao, e votasse com o
partido quando eleita, podia dizer o que pensava.
       Nos dois meses de campanha, eu ia de um estdio de televiso a
outro, de um comcio a outro. Vendia tangerinas no mercado de Leiden;
apertava a mo dos transeuntes nas esquinas. Conheci muita gente que
me surpreendeu com um apoio aparentemente incondicional s minhas
idias, e muitos eleitores do Partido Trabalhista diziam: "Lamento a sua
escolha de partido, mas a sua plataforma  to importante que vou
votar em voc seja qual for a sua afiliao". Estive com Frits Bolkestein,
o velho leo do Partido Liberal; ele era formal, mas, ao mesmo tempo,
muito gentil, paternal e genuno. Levou a srio as minhas idias e me
deu bons conselhos, frisando que eu deveria procur-lo sempre que
precisasse de auxlio. Passei a ter grande respeito por ele.
       Evidentemente, tambm enfrentei reaes hostis durante a
campanha. No faltou quem me xingasse e at cuspisse em mim; recebi
novas ameaas. Para mim, o mais assombroso eram as pessoas que
aparentemente concordavam com tudo que eu dizia, porm, mesmo
assim, jamais votariam no Partido Liberal. Isso me lembrou a Somlia:
ningum votava fora do cl.
       Agora que eu era uma poltica nacional recebendo ameaas de
morte, fiquei sob a custdia do Servio de Proteo Real e Diplomtica,
o DKDB. A todos os lugares eu ia acompanhada de um pesado esquema
de segurana, numa verdadeira caravana de carros e homens armados
at os dentes. No incio, aqueles sujeitos estranhos, equipados de rdios
e pistolas, me assustavam um pouco. Alguns ficavam muito perto e
queriam saber, com um dia de antecedncia, todos os detalhes do que
eu pretendia fazer. No podia me desviar do agendado; cada lugar
precisava ser previamente examinado. Era difcil levar a minha vida
cotidiana debaixo de tanta vigilncia. Os seguranas me cercavam at
nos corredores dos supermercados quando eu ia fazer compras. Numa
tarde, tentando comprar panelas e frigideiras, me senti uma idiota,
como se estivesse querendo impressionar aqueles homens com a minha
escolha.
       s vezes, o DKDB me informava de uma ameaa em especial 
minha vida. Mas em geral no o fazia. Eles sentiam que no me
convinha ficar obcecada pelo perigo que corria. Estavam l justamente
para me proteger; essa era a nica coisa que me convinha saber. At
certo ponto, eu concordava. No valia a pena viver pensando o tempo
todo nas ameaas de morte.
       Neelie Kroes conseguiu um lugar para mim em Haia, um lindo
apartamento de uma amiga dela. Mas, quinze dias depois da mudana,
o jornal local soube da minha presena, pelos vizinhos, e publicou meu
endereo. Naquele dia, na hora do almoo, um dos meus guarda-costas
disse: "Lamento, mas a senhora no pode voltar ao apartamento. Hoje
vai pernoitar num hotel, mas precisa procurar outro lugar para morar".
No voltei sequer para fazer as malas, eles mesmos se encarregaram de
mandar a polcia vasculhar minhas gavetas e encaminhar minha roupa
e meus livros.
       Consultando    seu   inesgotvel   arquivo   mental,   Neelie   me
arranjou, durante algumas semanas, um apartamento no alto do prdio
da companhia telefnica de Haia, no qual o diretor da empresa
pernoitava quando ficava trabalhando at mais tarde. Isso no durou
muito. Dois meses depois, permitiram-me alugar por um ano uma casa
no terreno da companhia telefnica, at que eu encontrasse residncia
prpria. Era uma maravilha: lareira, jardim, quintal e um aluguel bem
razovel; achei que finalmente podia me fixar outra vez. Marquei a
mudana para a ltima semana de janeiro.
       As eleies foram no dia 22 de janeiro. O Partido Liberal alugou
um salo com telo em Utrecht; todos se felicitaram diante das cmeras
quando saiu o resultado. A verdade, porm,  que os ganhos do partido
resultaram mais do que modestos. Os democratas cristos e os
trabalhistas foram os grandes vencedores e pareciam inclinados a
formar um governo de coalizo. (Na Holanda, os governos so sempre de
coalizo.) Os liberais obtiveram apenas 18% dos votos -- insuficientes, a
princpio, para reivindicar o direito de governar. Mesmo assim, ficamos
com vinte e sete vagas no Parlamento, o que significava que eu, sendo o
nmero dezesseis, estava eleita.
       Na Holanda, o eleitor tem a possibilidade de indicar sua
preferncia por determinados candidatos, se quiser. Isso impe um
clculo complicado, pois, se contar com o apoio de muitos eleitores, um
candidato pode subir na lista eleitoral. Eu era a dcima sexta na lista,
mas fui a sexta em termos de preferncia individual -- grande proeza
para uma novata. Senti muita fora diante de tamanho apoio s minhas
idias. O meu combate era legtimo. Eu podia fazer diferena. Senti o
peso da verdadeira responsabilidade.
         16. Poltica


         No ltimo sbado de janeiro de 2003, Johanna e Maarten foram
me ajudar na mudana para a casa nova. O Parlamento recm-eleito
tomaria posse no dia 30, e eu queria j estar mais ou menos instalada
quando da cerimnia de abertura. Naquela manh, nem cheguei a ligar
o rdio, ocupei-me exclusivamente de encaixotar as coisas.
         No entanto, Johanna e Maarten tinham acordado com o
noticirio: "Hirsi Ali classifica o profeta de pervertido". O Trouw acabara
de publicar a entrevista sobre religio que eu dera semanas antes.
Falava nos Dez Mandamentos no Alcoro, ou seja, na verso dos Dez
Mandamentos deixada aos muulmanos pelo profeta Maom. Eu o
descrevia como um homem cruel que aspirava ao poder absoluto e
tolhia a criatividade, restringindo a imaginao unicamente ao que era
permitido. Discutia aspectos da sua vida. De acordo com a conveno,
Al havia mandado Maom casar com a mulher do seu filho adotivo,
Zayd. Tambm o autorizara a casar com a filha de seis anos do seu
amigo Abu Bakr e a consumar o matrimnio quando a menina Aisha
tivesse apenas nove anos. A descrio que Aisha fazia da cena era
realmente pattica; a pobrezinha estava brincando no balano do jardim
quando a me a chamou e a ps no colo do profeta de cinqenta e cinco
anos. Eu disse: "Pelos padres ocidentais, Maom era um pedfilo, um
tirano".
         Sem dvida, fui custica nessa entrevista. Agora, semanas
depois, ela era divulgada deixando Maarten e Johanna embasbacados.
Eu ainda no sabia, mas j havia centenas de pessoas nas delegacias
de polcia de todo o pas, exigindo que me punissem pelo que havia dito.
Instaurara-se uma comoo na Holanda, e eu ainda nem tinha tomado
posse.
         Ellen telefonou para contar que havia uma mensagem feroz na
secretria eletrnica. Um homem com sotaque dizendo: "Essa foi a
ltima gota", e ameaando explodir a casa. A polcia de Lei-den aceitou
a queixa dela e tomou as providncias cabveis. Todo mundo estava
nervoso.
       Depois da mudana, convidei Johanna e Maarten a jantar,
queria agradecer a ajuda. Quando estvamos comendo, um dos guarda-
costas disse: "A situao est muito perigosa. Vamos tirar Ayaan
daqui". Disseram a Johanna e Maarten que voltassem para casa
sozinhos, fizeram-me sair pela porta da cozinha e me levaram em alta
velocidade ao apartamento da companhia telefnica. Ao chegar, dei com
o prdio cercado de seguranas, pelo menos uma dzia de policiais
fardados e  paisana. Percebi que a situao era gravssima.
       Dormi no apartamento ento quase vazio. No dia seguinte,
chegou um grupo enorme de guarda-costas, homens mais graduados na
hierarquia das trs polcias e do departamento de segurana dos
Ministrios da Justia e do Interior, alm de membros da Diviso de
Segurana do Parlamento. Fomos  casa para a qual eu pretendia me
mudar. O funcionrio do ABB, setor encarregado de avaliar o grau de
perigo, anunciou que o meu nvel de risco era "mximo". (Havia trs:
mximo, mdio e mnimo.) O sujeito do rgo incumbido da proteo
propriamente, o DKDB, olhou  sua volta e fez uma lista das
modificaes e reforos necessrios para que a casa preenchesse os
requisitos de segurana mxima. Vidros  prova de bala, cmeras --
segundo ele, ia custar mais de um milho de euros.
       Eu era deputada, de modo que o Parlamento tinha que pagar a
conta: assim rezava o regulamento. O representante da Diviso de
Segurana do Parlamento virou-se para mim e perguntou: "Quanto
tempo a senhora pretende morar nesta casa?". Respondi que tinha
contrato de um ano. Ele disse: "Sinto muito, mas isso no podemos
fazer. O Parlamento no vai investir um milho de euros s para um
ano. A senhora precisa arranjar outro lugar".
       Quando chegou a hora da posse dos membros do novo
Parlamento, em 30 de janeiro, eu estava morando num hotel. Por
semanas continuei me mudando. Depois de alguns dias, as pessoas do
hotel j sabiam quem eu era, e o pessoal da segurana me mudava de
novo. Eu continuava em busca de uma casa, mas, quando encontrei a
casa dos meus sonhos, ela no era aceitvel para os responsveis pela
minha segurana: era uma casa geminada, com um jardim que dava
numa rua com outros jardins. Havia uma outra casa que eles
consideraram aceitvel, mas eu no podia pagar o aluguel. Eu vivia me
deslocando, era uma turbulncia contnua.
        Fiquei nervosa na cerimnia,  claro, lamentando muito que
meu pai no estivesse presente. Abeh ficaria to orgulhoso. Muito
embora me considerasse uma apstata, sabia que eu estava seguindo
seus passos, empenhada em trabalhar pelo bem-estar dos outros,
exatamente como ele sempre tinha feito. Era duro ligar para ele e ouvi-
lo bater o telefone. Mas agora eu tinha tanta esperana. Cabia-me
cumprir uma misso: pr o sofrimento das muulmanas na agenda do
pas.
        Na primeira reunio da bancada liberal, todos tinham lido o
artigo do Trouw e estavam furiosos. Naquela manh, Frank de Grave,
um homem finssimo que me tinha debaixo da asa, entrou no gabinete
que fora atribudo a mim na antiga sede do Parlamento e disse: "Voc
vai ver, quando a reunio comear, as pessoas vo atacar voc. Por
favor, fique quieta. Quando chegar a sua vez de falar, diga: 'Dei essa
entrevista h muito tempo, bem antes de ser eleita. Vejo que no 
assim que as coisas funcionam e peo desculpas pela comoo que
causei. Daqui por diante, vou consultar o partido antes de fazer tais
declaraes'".
        Quando alguns colegas liberais no Parlamento comearam a
dizer coisas desagradveis -- e no foram todos --, permaneci calada.
Mas ento um homem se voltou para Gerrit Zalm e perguntou: "Voc
no acha que precisamos proteg-la dela mesma?". Enfurecida, eu
disse: "O que me surpreende  que at agora ningum aqui perguntou:
Isso  verdade?'. Se o profeta Maom foi para a cama com uma menina
de nove anos, era mesmo um pedfilo pela lei holandesa. Se vocs
examinarem como ele governou, vo concluir que foi um ditador, um
autocrata, e isso  tirania. Quanto a me protegerem de mim mesma,
isso  de uma arrogncia imperdovel".
       Zalm conseguiu controlar o tumulto que se seguiu. Ele, Johan
Remkes, Mark Rutte e Henk Kamp me apoiaram, invocando a liberdade
de expresso. Acrescentaram que as ameaas contra mim eram
intolerveis; ser obrigada a viver cercada de guarda-costas era inusitado
na Holanda. Aps a reunio, Frank Grave se aproximou, dizendo: "O
que voc fez! Para que dizer uma coisa dessas?". Respondi: "Porque 
verdade. No vou pedir desculpas por ter dito a verdade".
       As atividades parlamentares demoraram a comear; os partidos
vencedores ainda no tinham decidido constituir um governo. Os
democratas cristos estavam enrolados nas negociaes com os
trabalhistas para formar uma coligao. As semanas foram passando. O
novo Parlamento estava empossado, mas o antigo governo continuava
nas mos daqueles que o dirigiam desde antes da eleio -- sem
implementar poltica nova, apenas conservando o pas minimamente
governvel enquanto se aguardava a nomeao do novo gabinete.
       Era uma situao surreal. Os ministros de Pim Fortuyn, alguns
dos quais os eleitores tinham enxotado do Parlamento, continuavam
dirigindo a nao. O pobre Zalm, quando no estava presidindo as
reunies da bancada liberal, tinha que pajear os ministros de Pim
Fortuyn, que se comportavam como se ainda estivessem no jardim-de-
infncia. Prometi a mim mesma procurar no lhe causar mais
preocupaes.
       Tudo indicava que os liberais iam ficar fora do poder. Isso me
dava oportunidade de tentar alterar a posio do partido quanto aos
temas da minha plataforma, j que no tinha necessidade de formar
coalizes e conquistar o apoio dos outros partidos. Em primeiro lugar,
queria que os liberais apoiassem a proposta dos trabalhistas de
autorizar residncia independente s mulheres que haviam chegado 
Holanda para casar com imigrantes legais.
       Isso eu acabei conseguindo com o auxlio do Partido Trabalhista.
Frank de Grave e Gerrit Zalm me ajudaram a convencer os liberais, o
que no foi nada fcil, pois eles queriam restringir o afluxo de novos
imigrantes e achavam insensato dar mais autorizaes de residncia.
Mas falei na situao das prprias mulheres, levadas  Holanda por
homens que elas mal conheciam, por causa de casamentos arranjados,
espancadas at irem parar no hospital, mas que no podiam pedir
divrcio porque, se o fizessem, seriam obrigadas a sair da Holanda e
retornar a suas famlias, onde seriam castigadas. A moo foi aprovada
pela maioria dos partidos no Parlamento, embora sem o voto da
Democracia Crist. (Esse era o "amai-vos uns aos outros" deles.)
       Necessitava-se de mais verbas para os abrigos de mulheres.
Zalm era um dos membros do gabinete demissionrio que continuavam
governando o pas. Logo depois que falei com ele sobre isso, o ministro
da Fazenda, Hans Hoogervorst, se comprometeu a liberar trinta milhes
de euros iniciais, quantia insuficiente, mas melhor do que nada.
       Em maio, o Partido Trabalhista anunciou subitamente que no
ia participar do governo. Depois de quatro meses de negociaes,
afastou-se dos democratas cristos. Agora estes eram obrigados a
recorrer aos liberais para governar em uma coalizo montada s
pressas.   Outro   partido,   o   minsculo   D-66,   que   havia   sido
fragorosamente derrotado em trs eleies seguidas, tambm concordou
em participar. Isso dava ao novo governo uma escassa maioria de
apenas trs parlamentares.
       No fim de fevereiro, encontrei moradia permanentemente em
Haia: uma casinha de alvenaria em um terreno bem atrs da embaixada
israelense, em frente  praa pblica de Binnenhof, onde ficava o
Parlamento. Embora o aluguel fosse caro, a regio era muito bem
protegida, convinha ao Parlamento e foi aprovada pelo pessoal da
segurana.
       Que alegria ter onde morar. Quando me mudei, fiquei livre de
guarda-costas instalando cmeras portteis e alarmes nos corredores
dos hotis, atentos a cada movimento ao meu redor. Podia me despedir
deles, fechar a porta e me jogar no sof, vestindo uma camiseta
horrvel, lendo e comendo.
       Uma noite daquele ms de maro, Neelie me convidou para
jantar ao ar livre na sua casa, e nos pusemos a conversar sobre o
sucesso e o poder de persuaso do novo fundamentalismo islmico. Eu
achava que era, em parte, porque os pregadores se valiam de diversos
meios de comunicao: videoteipes dos mrtires, cassetes de sermes
veementes, websites para reforar a mensagem. O novo isl se
manifestava em imagens, e a sua tecnologia era muito simples e
comum.
       Quem quisesse reformar o isl precisaria se valer dos mesmos
recursos. O discurso poltico era timo, mas estava na hora de tambm
recorrer  stira,  arte, a filmes e livros. As pessoas criativas, com uma
mensagem dissidente, precisavam superar o bloqueio mental que as
impedia de tratar a religio como outro tema qualquer -- e de tratar o
islamismo como outra religio qualquer. Tinham que transmitir sua
mensagem com imagens, no s com palavras, s pessoas que literal ou
metaforicamente no falavam a sua lngua.
       Contei a Neelie que estava pensando em organizar uma espcie
de exposio de arte a fim de provocar uma discusso sobre a situao
da mulher no isl, talvez uma galeria repleta de manequins femininos
de gesso ou cera. Haveria uma mulher aoitada por adultrio, outra
espancada reiteradamente, outra presa dentro de casa. Uma delas
usaria um hijab transparente, e todas teriam versculos do Alcoro
escritos na pele. Ao lado de cada escultura, colocaramos uma nota
traduzindo os versculos e estimando quantas mulheres, no mundo,
sofriam em virtude daquele veredicto alcornico. A mostra ilustraria
com imagens simples o sofrimento infligido s mulheres em nome de
Al.
       Muitos holandeses bem-intencionados diziam-me seriamente
que nada na cultura islmica incitava  violncia contra as mulheres,
tratava-se de um terrvel mal-entendido. Em qualquer lugar do mundo
havia homens que batiam na esposa, informavam-me constantemente.
Na realidade, esses eram os ocidentais que no entendiam o isl. O
Alcoro autorizava tais castigos. Oferecia uma base legtima  violncia,
de modo que os que a perpetravam no se envergonhassem nem fossem
perseguidos pela conscincia ou pela comunidade. Eu queria que a
minha exposio de arte tornasse difcil para as pessoas deixar o
problema de lado. Queria que os seculares, os no-muulmanos,
parassem de se enganar dizendo: "O isl  paz e tolerncia".
       Sabia que muitos muulmanos iam achar difcil lidar com tal
exposio. Quem tinha sido educado para acreditar que uma religio e
um livro sagrado eram absolutos dificilmente aceitava que nem todos
pensassem assim e que nenhum livro fosse totalmente sagrado. Mas eu
estava interessada justamente nisto: os maometanos precisavam refletir
sobre a sua f e sobre o que essa f realmente fazia com os seres
humanos.
       Neelie me ps em contato com Wim van der Krimpen, o diretor
do Museu Municipal de Haia, que se mostrou aberto  minha idia de
uma mostra intitulada Submisso. Garantiu que no teria os problemas
de segurana que eu temia, uma vez que o museu era muito seguro.
Mas observou que comprar manequins sairia muito caro. Pediu-me que
entregasse a proposta por escrito a fim de discuti-la com o conselho
diretor.
       Achei que aquilo no ia dar em nada. Um membro do
Parlamento tatuando manequins com versculos do Alcoro? A idia s
podia estar condenada, por isso a arquivei.
       Jozias van Aartsen pediu-me que redigisse uma declarao
poltica, sintetizando minhas idias e propostas especficas para a
integrao e a emancipao das muulmanas. Ela seria discutida no
Partido Liberal em setembro, na reunio anual de planejamento poltico.
Agora estvamos no poder, de modo que as apostas eram altas. Tudo
quanto eu quisesse dizer precisava figurar naquela declarao. Procurei
envolver Arie van der Zvvan, uni economista cujo trabalho eu admirava,
assim como o crtico Paul Scheffer. Passamos o vero trabalhando nisso
e chegamos a uma proposta de doze pginas que era muito abrangente.
       Em setembro, quando o Partido Liberal se reuniu para discutir o
planejamento poltico, fiquei apreensiva. Minha declarao propunha
que os liberais se posicionassem a favor do fechamento das escolas
muulmanas existentes, recusando-se a financiar novas, e que
trabalhassem no sentido de abolir o artigo 23 da Constituio
holandesa, que permitia aos pais criarem escolas prprias, baseadas na
religio. Seria uma atitude politicamente corajosa, sobretudo para um
partido que, pelo menos em termos holandeses, era de direita. Tambm
propus uma acentuada reduo dos benefcios aos desempregados e o
fim do salrio mnimo. Graas  minha experincia de intrprete de
dependentes do Estado de Bem-estar Social, eu sabia que o acesso fcil
ao generoso auxlio-desemprego criava uma verdadeira armadilha da
pobreza: muitas vezes, as pessoas ganhavam mais do Estado do que
receberiam se trabalhassem. Todos me disseram que essas idias eram
excessivamente direitistas -- ou seja, que levariam a uma sociedade
polarizada entre ricos e pobres, povoada de mendigos e ricaos, com
muita violncia e explorao.
       Na reunio, muitos atacaram com veemncia certos aspectos da
minha proposta, mas os machos e as fmeas alfas me apoiaram, de
modo que, aos machos e s fmeas betas, s restou resmungar. Van
Aartsen encerrou a discusso propondo que o tema da integrao fosse
rediscutido na reunio da bancada, da qual meus aliados sniores no
participariam.
       Em maro, quando se divulgou a muito revisada declarao, j
estavam acontecendo coisas no pas. A questo de abolir o apoio s
escolas confessionais vinha sendo muito debatida, e j se prestava bem
mais ateno s muulmanas. Com base no depoimento de professoras
e assistentes sociais, os jornais publicavam artigos sobre as meninas
dos jardins-de-infncia que tinham sido submetidas  clitorectomia,
intelectuais seculares e livre-pensa-dores polemizavam na imprensa
acerca das virtudes e dos vcios do profeta Maom. Deixei vazarem
trechos do meu documento poltico e usei certos aspectos dele em
outros debates, construindo gradualmente uma coalizo. Dei partes
dele a Gerrit Zalm, agora ministro da Fazenda, e a Rita Verdonk, a
ministra da Integrao, para que as usassem em seus prprios projetos.
Polticos de outros partidos comearam a se interessar pelo tema.
       Eu queria que o Parlamento aprovasse uma moo exigindo que
a polcia registrasse o nmero de assassinatos em nome da honra
ocorridos anualmente na Holanda. Depois de uma semana de
discusses e negociaes nos corredores, o ministro da Justia, Piet
Donner, acabou concordando com a moo que eu havia conchavado
com o Partido Trabalhista, mas disse que primeiro ia experiment-la,
como "projeto piloto", em apenas dois distritos policiais. Meses depois,
divulgou-se o resultado. O Parlamento ficou chocado, e senti uma
gigantesca onda de apoio no pas. Entre outubro de 2004 e maio de
2005, onze jovens muulmanas foram assassinadas pelos familiares
somente naquelas duas regies (havia vinte e cinco distritos policiais no
pas). Depois disso, pararam de me dizer que eu exagerava.
       A maior parte das cartas de apoio que recebia era de holandeses
brancos. Tambm chegavam algumas de maometanas. J eram muitas
as que pelo menos ouviam as minhas palavras. Como sei muito bem,
por experincia prpria, as grades da gaiola mental demoram muito a se
romper. Quase toda correspondncia hostil que me chegava era de
muulmanos. Chamavam-me de Pai Toms, de branca por dentro, de
traidora do meu povo. Basicamente, esses ataques ad hominem no
passavam de desvios da questo real, que no era eu -- pouco
importava a minha pessoa. O que importava era o abuso e o quanto ele
se ancorava na religio que negava direitos humanos  mulher. O que
importava eram as atrocidades perpetradas contra mulheres e crianas
na Europa. O que importava era a necessidade de o governo e a
sociedade pararem de se esconder atrs de uma simulao vazia de
tolerncia, e reconhecerem e lidarem com o problema.
       Ao ler aquelas cartas furibundas, para mim no era difcil
entender os remetentes. Houve uma poca em que eu tambm teria sido
capaz de escrev-las. Quem cr que uma coisa  sagrada e especial e
ouve dizerem o contrrio, se no estiver preparado para receber essa
informao -- e especialmente se for herdeiro de uma cultura de honra
-- fica ofendido. Eu compreendia esses indivduos, mas me encolerizava
com a gritaria das organizaes muulmanas financiadas pelo Estado
para cuidar da comunidade.
       Na Holanda, tais organizaes deviam atuar como vnculo entre
os maometanos e os governos local e nacional. Mas suas lideranas no
representavam      ningum.   No   eram   eleitas.   Mamavam   subsdios
confortavelmente e no produziam praticamente nenhum programa
real. Os homens que dirigiam esses grupos deviam representar os
maometanos. Conheciam os problemas, mas simplesmente os omitiam.
Chamavam-me de traidora, mas eram eles que traam os muulmanos
-- as mulheres e crianas muulmanas.
       Numa noite de maio de 2004, meu pai me telefonou. Haviam lhe
dado o nmero do meu telefone, e foi como se nada tivesse acontecido
entre ns. Exclamei: "Abeh> que bom que voc ligou, estou to
contente!".
       "Ayaan, andam dizendo coisas horrveis a seu respeito", disse ele
com voz envelhecida e cansada. "Rezo muito por voc. Voc reza?"
       Eu lhe perguntei se recordava o caso que ele sempre nos
contava, guando morvamos na Etipia, ocorrido no quartel-general da
fora de oposio somali, de um camarada a quem papai convidara para
orar. O homem respondera: "Hirsi, voc est vendo uma enorme cabea
de touro pendurada no centro do quarto?" e o meu pai dissera que no.
O camarada explicou que, na sua opinio, Deus era como a tal cabea
de touro invisvel: ele no conseguia v-la.
       "Abehy sou como esse homem. Voc me manda rezar, mas,
quando piso no tapete, o quarto est vazio."
       "Esse homem se arrependeu", retrucou ele. "Acaba de chegar de
uma peregrinao a Meca. Rezei por ele e vou rezar por voc. Voc
tambm h de voltar ao bom caminho."
       "Abeh, nunca mais vou voltar  f, voc  a primeira pessoa a
quem digo isso."
       Papai ficou calado. Depois disse: "Em todo caso, Ayaan, se
algum lhe perguntar se voc acredita em Deus, no responda. Diga
que  uma pergunta muito grosseira".
       Ns nos despedimos depois de uma hora de conversa. E nunca
mais voltamos a nos falar.
       Em fevereiro de 2003, conheci Theo van Gogh. Eu estava na
casa do jornalista Theodor Holman quando a campainha tocou; um
sujeito ruidoso, descabelado, entrou, precipitou-se sobre mim e me
esmagou num abrao de urso. Disse: "Sou Theo van Gogh, votei em
voc", e comeou a me dar instrues para sobreviver na poltica. Ficou
l algum tempo, conversando, e ento se foi to abruptamente quanto
havia chegado.
       Eu j ouvira falar nele, uma daquelas personalidades de
Amsterd que vivem aparecendo na televiso ou nos jornais. Loiro e
sempre desgrenhado, era gordo, fumava muito e falava sem parar.
Cineasta conhecido, tinha uma espcie de compulso a insultar at os
melhores amigos, de preferncia ao vivo na televiso. Parece que era
detestado por muita gente.
       Passei mais de um ano sem voltar a me encontrar com ele; no
tinha por qu. Mas, em uma tarde de maio de 2004, eu estava na
cerimnia de casamento de um amigo, nos Estados Unidos, quando
Theo ligou para o meu celular. Embora no tivssemos tido contato
desde aquele primeiro encontro, ele conseguira o nmero do meu
celular por intermdio de um conhecido. No perguntou como eu estava
nem nada -- disse de chofre: "Aqui  Van Gogh", e, indignado, comeou
a falar na briga que tivera com um libans que se denominava Abu
Jahjah.
       Abu Jahjah comandava um grupo de jovens rabes, na Blgica,
a chamada Liga rabe-europia, e fora convidado a participar de uma
grande discusso em Amsterd, no Clube de Debates Caos Feliz. Theo
era o encarregado de dirigir a discusso, mas Abu Jahjah se recusara a
participar se Theo fosse o moderador. Quando os asseclas do libans o
ameaaram, Theo o chamou de "cafeto do profeta", o que gerou um
pandemnio dos infernos.
       Confesso que no consegui entender que diabo eu tinha a ver
com a histria toda. Estava no banco traseiro de um txi, em Nova
York, com um motorista evidentemente muulmano e sem guarda-
costas; no era o momento mais oportuno para aprofundar a conversa.
E disse: "Theo, no posso falar agora. Quando voltar, na semana que
vem, eu o procuro".
       Na poca, eu estava hospedando uma marroquina chamada
Rashida. Tinha entrado em contato comigo no vero de 2003; precisava
de ajuda para fugir do pai e dos irmos, que a agrediram porque ela
estava namorando um holands. Aos vinte e dois anos, queria ser atriz,
e vi nela um no-sei-qu pungente -- talvez um eco de mim mesma.
Queria ajud-la, mas no sabia que passos uma pessoa precisa dar
para iniciar a carreira artstica; ento me ocorreu que talvez valesse a
pena lev-la ao encontro com Theo van Gogh, o famoso cineasta de
Amsterd.
       Seu   filme    mais   recente   era   Najib   en   Julia,   sobre   o
relacionamento de uma holandesa com um marroquino. Theo tinha
muita sensibilidade, uma antena ligada para os sinais de sofrimento, ao
passo que a maioria dos holandeses insistia em acreditar que tudo era
bom e agradvel. Ele achava que as pessoas no se atreviam a dizer
muita coisa por medo de ofender. Via-se como um personagem de
Fassbinder: o bobo da corte. Sua casa era uma desordem sem fim, mas
ele se concentrava intensamente no trabalho. Era um poo de
contradies, um homem impossvel e, em certos aspectos, um gnio.
       Esse encontro, com a presena de Rashida, durou uma hora.
Theo prometeu submet-la a um bom teste de atuao quando ela
conclusse o curso de arte dramtica. Discutimos sua alterca-o com
Abu Jahjah. Eu disse: "Para que se aborrecer? Voc no  cineasta?
Faa um filme sobre isso".
       Acabamos falando na minha idia da exposio sobre a mulher
muulmana. Theo props: "Faa isso em vdeo. Escreva um roteiro.
Qualquer idiota escreve um roteiro. As nicas coisas que voc precisa
acrescentar  'Exterior, Dia' e Interior, Noite'".
       Era verdade. Theo estava se oferecendo para fazer Submisso
como um curta-metragem. No comeo no o levei a srio, mas ele
continuou me telefonando, nas semanas seguintes, para cobrar o
roteiro. Eu podia faz-lo durante o recesso parlamentar. Props que
filmssemos no vero. Prometi tentar.
       Dias depois, tive uma reunio com a equipe de produo de um
programa de televiso tipicamente holands, o Convidados do vero,
que queria que eu aparecesse em agosto. Nesse programa, as pessoas
passavam trs horas falando de si e escolhendo os clipes que lhe
tinham sido pessoalmente significativos. Alguns mostravam comdias
antigas; outros, eventos esportivos memorveis, um fragmento de
documentrio ou de programa infantil. Os espectadores eram atrados
pelo prazer de relembrar aquela experincia holandesa comum 
medida que as imagens eram exibidas. No tendo nenhuma experincia
em comum com os holandeses, perguntei se o pessoal da produo
concordava em apresentar o curta em que Theo van Gogh e eu
estvamos trabalhando. Disse que ficaria pronto no dia 29 de agosto,
quando o programa ia ser gravado. Mostrei-lhes um resumo do roteiro.
Embora achassem aquilo inusitado, concordaram.
       Telefonei para Theo, e decidimos tentar.
       O filme que Theo e eu fizemos, Submisso: primeira parte, falava
sobretudo na relao do indivduo com Al. No isl, ao contrrio do
cristianismo e do judasmo, a relao do indivduo com Deus  de
submisso total, de escravo com o senhor. Para os muulmanos, adorar
a Deus significa obedincia total s normas de Al e abstinncia total de
pensamentos e atos que ele declarasse proibidos no Alcoro. Para
modernizar o isl e adapt-lo aos ideais contemporneos, seria
necessrio dialogar com Deus e at divergir das regras divinas; mas no
isl, tal como foi concebido, discordar de Al  uma insolncia, pois
pressupe igualdade com Ele.
       O Alcoro conta a pitoresca histria da expulso de Satans do
reino dos anjos depois da criao de Ado por Al. Este ordenou que
todos os anjos se curvassem perante Ado, mas Satans se recusou a
obedecer, indagando por que ele, um anjo elevado, havia de se curvar
diante de uma criatura feita de barro. Al o expulsou do paraso, e,
desde ento, ele tenta desviar Ado e seus descendentes da Senda Reta.
O ser humano que pusesse em dvida as normas divinas caa
automaticamente nas garras de Satans.
       Por certo, essa histria era contada a todo muulmano, e,
quando menina, eu pensava muito nela. Agora, adulta, sentia que a
libertao das muulmanas devia ser precedida da libertao da mente
daquela obedincia rgida e dogmtica aos ditames de Al. Com muita
freqncia,   o   Alcoro   O   designava   como   "o   Clementssimo,   o
Misericordiosssimo"; tambm repetia vrias vezes que Ele nos havia
outorgado o livre-arbtrio. Neste caso, pensava eu, por que teria
restries a um pequeno debate?
       Quando comecei a escrever o roteiro do filme, decidi usar o
formato de orao para criar o dilogo com Al. Imaginei uma mulher
postada no centro de uma sala. Nos quatro cantos, quatro mulheres
apresentavam versculos restritivos do Alcoro. A do centro estava
velada, mas seu vu era transparente na frente, opaco atrs. A
transparncia era necessria porque desafiava Al a olhar para a Sua
criao: o corpo da mulher. No seu tronco estava escrito o primeiro
versculo do Alcoro, o Sura Fatiha, ou surata da "Abertura", que todo
maometano recita em primeiro lugar a cada orao:
       Em nome de Al, o Clementssimo, o Misericordiosssimo.
Louvado   seja    Al,   Senhor   do   Universo,   o    Clementssimo,   o
Misericordiosssimo, soberano do Dia do Juzo! S a Ti adoramos e s a
Ti imploramos ajuda! Guia-nos  senda reta,  senda dos que
agraciaste, no  dos abominados, nem  dos extraviados.
       A mulher observava as regras da orao: ficava de cabea baixa,
os olhos fitos no tapete em que ia pr a cabea ao se pros-trar para
exprimir obedincia total. Mas, depois de recitar o Sura Fatiha, fazia
algo inusual: erguia a cabea. A cmera mostrava uma panormica da
primeira mulher, que contava a Al que ela tinha obedecido a todas as
Suas injunes, mas agora jazia no canto, sangrando. Apaixonara-se e
por isso tinha sido aoitada. E conclua com muita simplicidade:
"Nunca mais me submeterei".
       Outra mulher tinha asco pelo cheiro do marido. Obrigada a se
casar, agora era forada a se submeter sexualmente a ele, pois o
Alcoro dizia: Quando tuas esposas se tiverem purificado, podes delas
te aproximar de qualquer modo, a qualquer hora, em qualquer lugar. A
terceira mulher era espancada pelo marido pelo menos uma vez por
semana: Quanto s mulheres das quais temes deslealdade e m
conduta, adverte-as, aoita-as e bane-as a camas separadas. A quarta
era uma menina que vivia enclausurada em casa.
       Estuprada pelo tio, estava grvida; seria punida por ter tido
relaes sexuais fora do casamento.
       Intitulei o filme Submisso: primeira parte porque a sujeio ao
isl causava muitos outros tipos de sofrimento. Encarava-o como o
primeiro de uma srie de filmes discutindo a relao se-nhor-escravo do
indivduo com a divindade. Minha mensagem: o Alcoro era um ato do
homem, no de Deus. Deveramos ter liberdade de interpret-lo;
deveramos ser autorizados a aplic-lo de diversos modos  poca
moderna em vez de executar um doloroso contorcionismo na tentativa
de recriar as circunstncias de um passado remoto e horrendo. Minha
inteno era libertar a mente muulmana de modo que as mulheres --
assim como os homens -- fossem mais livres. Os homens tambm eram
obrigados a obedecer a leis desumanas.
       Foi fcil fazer o filme. Theo no estava interessado em escrever
propostas para obter direitos e financiamento: disse que bastava fazer
um filme de dez minutos e ver o que acontecia. Terminei o roteiro no fim
de julho. Ele alugou um estdio e contratou uma atriz e uma
maquiadora, e providenciou alguns objetos de cena.
       Discutimos o perigo de fazer um filme com tal mensagem. J
tendo falado no isl, eu sabia o quanto era perigoso. Avisei Theo.
Aconselhei-o a no assinar o projeto. Mas ele disse ser um bobo da
corte e acrescentou: "Ningum mata o bobo da corte". Estava
convencido de que era a mim que iam atacar, ningum se importaria
com ele.
       O filme quase gorou. Foi rodado na segunda-feira, 26 de julho.
Theo queria condensar o roteiro e fazer s cinco minutos; fiz questo
dos dez. Ele se enfureceu e gritou: "No estou aqui s para ajud-la a
resolver os seus traumas da infncia!" Eu o encarei e ento me afastei.
Theo pediu desculpas.
       A verdade  que ele tinha razo: cinco minutos seriam mais
efetivos. Eu lhe telefonei dizendo isso, mas ele se ops: "No, o filme
saiu perfeito. Estou orgulhoso do que voc fez".
       Antes que Submisso fosse ao ar pela televiso, achei de bom-
tom mostr-lo s lideranas do Partido Liberal. Tambm queria
persuadi-las de que Theo precisava de mais segurana, j que fizera
questo de assinar o filme.
       As reaes foram as mais diversas. Frits Bolkestein, o velho e
sensato lder dos liberais, que j beirava os setenta anos, se ps a
caminhar no seu escritrio, preocupado. Disse: "Meu Deus, Ayaan, voc
est correndo perigo". Eu me senti mal. Pensei: "No devia ter mostrado
a ele, deixei o pobre velhinho preocupado". Agora vejo que Bolkestein
compreendeu perfeitamente o que estava acontecendo, assim como
Neelie. Tentei tranqilizar os dois: nada ia me acontecer porque eu
contava com a proteo do DKDB; s precisvamos nos preocupar em
obter proteo para Theo.
       Gerrit Zalm no se deixou afetar. Limitou-se a perguntar se era
mesmo verdade que o Alcoro dizia tudo aquilo; j que dizia, concluiu
que eu no tinha nenhum motivo para deixar de usar esse contedo, se
bem que achava lamentvel a nossa atriz se apresentar seminua. Johan
Remkes, o ministro do Interior, restringiu-se a dizer: "Vocs no podiam
ter arranjado uma garota mais bonita?". Remkes achou o filme muito
amador; no entendia por que eu estava fazendo tanto escarcu por
causa da segurana. Perguntei: "Vocs providenciam proteo a Theo
van Gogh?" e ele respondeu: "Ayaan, se for mesmo necessrio,  claro
que providenciamos".
       A seguir, mostrei Submisso ao ministro da Defesa, Henk Kamp.
Ele se emocionou. Disse: "Que mundo cruel  este em que vivemos". Foi
comovente v-lo to impressionado com o filme. Eu lhe perguntei: "E a
segurana?" e Kamp respondeu: "Os muulmanos tiveram que engolir
muita coisa no ano passado. Esto calejados -- no vo reagir a isso".
       E parecia ser verdade. Submisso foi ao ar no dia 29 de agosto, e
no houve grande reao. A impresso era de que reinava a mais
perfeita calma.


       17 - O assassinato de Theo


       No incio de setembro de 2004, um marroquino foi preso por ter
divulgado o meu endereo na internet. Exortava todos os adeptos da
Unicidade de Al a se alegrarem, pois, tendo seguido os meus passos,
ele enfim, com a ajuda de Deus, havia descoberto onde eu morava: em
um imvel atrs da embaixada israelense. Acompanhada de fotografias
minhas e de Theo, a mensagem dizia basicamente que ns dois
merecamos morrer.
       Fiquei sabendo disso pelos reprteres, que comearam a me
telefonar. Depois de alguns dias, dois policiais me procuraram pedindo
que eu desse parte, formalmente, do homem que eles tinham acabado
de prender. Fiz isso e avisei a polcia -- e a todas as pessoas que me
ocorreram -- que Theo precisava de proteo.
       Depois da filmagem de Submisso ele e eu no voltamos a nos
encontrar, mas nos telefonvamos de vez em quando. Theo no deu a
mnima para o meu alerta sobre a necessidade de proteo, at fez
piada disso. Disse: "Ayaan, voc no tem idia. H quinze anos que me
ameaam. Todo mundo j me ameaou: os judeus, os cristos, os
socialdemocratas, os muulmanos -- esses so os mais assduos --, e
nunca me aconteceu nada. Nem vai acontecer".
       A essa altura, fazia mais de dois anos que eu vivia cercada de
guarda-costas. Ele no queria uma equipe de segurana como a minha.
Eu temia que o atacassem em uma rua deserta, quando estivesse
voltando do trabalho  noite, e o espancassem, ou talvez que lhe
quebrassem as vidraas a pedradas, algo assim. No esperava que o
matassem  luz do dia -- que o baleassem, que lhe cortassem a
garganta e cravassem uma faca no seu peito.
       As semanas se passaram, e nada extraordinrio aconteceu a
Theo ou a mim. No esquecemos do Submisso. Falvamos sempre que
a mdia estrangeira nos procurava, querendo ver o filme, mas a vida
parecia pacfica naquele outono, quando me preparei para a minha
segunda sesso no Parlamento. Eu tinha casa, um emprego a que dava
grande importncia, alguns amigos. Pouco a pouco, comeava a ser
mais aceita na poltica. Experimentava uma sensao -- bastante nova
para mim desde o meu ingresso na poltica holandesa -- de satisfao.
       Aproveitando    essa    serenidade    recm-encontrada,     decidi
administrar melhor o meu tempo. Estava constantemente atrasada com
todos os prazos: isso precisava acabar. Aprendera a fixar metas e a
implementar unicamente os projetos que combinassem com elas.
Contratei um treinador chamado Rik, e na segunda-feira, 1- de
novembro, ris, minha assessora parlamentar, e eu desenvolvemos um
plano de trabalho que comeava por chegar na hora certa, estabelecer
as prioridades e esquecer o telefone celular durante as reunies
semanais que juramos solenemente, fazer.
       Conforme essa resoluo, na manh seguinte, tera-feira, 2 de
novembro, cheguei bem cedo ao meu gabinete e, abastecida de uma
xcara de caf, comecei a examinar a pilha de coisas a discutir, ris e eu
estvamos  espera de Ingrid, a assessora de imprensa do Partido
Liberal. Meu telefone comeou a piscar, e apareceu um nmero na tela:
era Hugo, meu ex-assessor parlamentar, um jovem que agora
trabalhava para os vereadores liberais de Amsterd. Resolvi ser
disciplinada: tinha decidido que no era obrigada a atender a todas as
chamadas. Essa nova e compenetrada Ayaan apertou o boto "STILL"
do telefone.
         Ele tornou a piscar: Hugo. O que estava acontecendo afinal? E
outra vez. Continuei sem atender. Queria verdadeiramente demonstrar
o quanto estava comprometida com a nossa nova agenda. Ento Ingrid
ligou, imaginei que para se desculpar pelo atraso. "Hugo est tentando
falar com voc", disse. "Parece que aconteceu uma coisa ruim a Theo
van Gogh. Houve um ataque."
         Levantando-me de um salto, fui correndo para o gabinete da
secretria da bancada liberal. Artha tinha uma sala muito maior, com
um televisor que ficava o tempo todo ligado no teletexto. Entrei
precipitadamente, dizendo: "Aconteceu alguma coisa a Theo van Gogh,
ele no est bem" -- eu no sabia o que estava dizendo --, e ela
sintonizou o noticirio. O texto informava apenas que tinha havido um
incidente com arma de fogo em Amsterd. Eu disse: "Acho que no foi
nada", mas estava tremendo. Artha disse: "Ligue para os seus
seguranas, eles devem saber se aconteceu alguma coisa". Na poca, os
guarda-costas me deixavam  entrada do Parlamento -- no havia
necessidade de ficarem  porta do meu gabinete --, mas, quando eu
estava discando o nmero de Bram, o chefe dos seguranas de planto,
dei com ele ao meu lado como se tivesse surgido do nada.
         Eu disse: "Ouvi dizer que aconteceu alguma coisa a Theo van
Gogh".
         "Isso eu posso confirmar", respondeu Bram.
         "Ele est bem?" perguntei. E Bram respondeu: "No. Theo van
Gogh morreu".
         Comecei a chorar. Voltei s pressas  sala de ris e tentei
respirar. Estava to desesperada, to chocada, to horrorizada. Ingrid
irrompeu com o pessoal da segurana, e eles disseram: "Temos que sair
j daqui".
         Retruquei: "Lamento, mas faam o favor de me deixar em paz.
Eu fico". Mas Ingrid insistiu: "Ayaan, voc precisa sair". Bram foi muito
breve -- "Temos de ir" --, e ris comeou a chorar. Pondo o brao nos
meus ombros, cochichou como quem consola um beb: "Vamos,
Ayaan". Ela conhecia Theo; desde que eu comeara a trabalhar no
Submisso, os dois se divertiam muito ao telefone -- ele a fazia rir.
Bram pegou meu casaco, ajudou-me a vesti-lo e ordenou: "Vamos".
       Ele e os outros guarda-costas me cercaram. Quando, na sada
do Parlamento, chegamos ao ptio de tijolo, outros seguran-as
rodearam Ingrid, ris e a mim. No estavam relaxados como de costume.
Iam carrancudos, de colete  prova de balas, e notei que mostravam
deliberadamente um pedacinho da arma. Era segurana ostensiva.
Dava medo.
       Percorremos a p os cinqenta metros at a minha casa, do
outro lado da imensa praa em frente ao Parlamento. Aonde quer que
eu olhasse havia proteo: policiais fardados,  paisana, carros, armas.
       Que sucedera a Theo? Sintonizei o noticirio; os telefonemas
comearam. Estava confusa, chocada -- principalmente chocada -- com
o assassinato de Theo: era inacreditvel. A prpria idia de que tal coisa
pudesse ocorrer -- minha mente se recusava a aceit-la. Eu s esperava
que no fosse verdade. Na televiso repetiam a notcia o tempo todo:
tiros, imagens de um vulto sob um lenol branco, Theo van Gogh morto.
Eu no conseguia acreditar que era ele que estava debaixo daquele
lenol: simplesmente no era possvel.
       No decorrer da manh, foram aparecendo os detalhes. Um
homem estava preso. Cinqenta testemunhas presenciaram o crime.
Uma mulher disse em ingls -- provavelmente na BBC -- "um homem
barbudo, com roupa de muulmano". Afundei na poltrona. Ento tinha
sido um muulmano, e o motivo s podia ser Submisso. Se no
tivssemos filmado, Theo ainda estaria vivo. Eu me senti responsvel
pela sua morte.
       No podia desfazer Submisso, mas deveria t-lo divulgado
unicamente em meu nome.
       Pensei na ameaa a ns dois na internet, em setembro. Theo
podia ter pedido proteo contra aquilo. Que idiotice; seria to fcil
evit-lo. Eu estava morta de raiva, horror e tristeza.
       Ento Ingrid soube, por um jornalista, que no tinham sido
apenas tiros. Havia facas tambm, Theo tinha sido degolado, disse ela; e
o assassino deixara um bilhete. Eu disse: "Ingrid, as coisas j esto
pssimas. Isso  histeria -- pura invencionice".
       Estava atordoada. O choque parecia ter obliterado a parte
pensante do meu crebro. A nica coisa que conseguia fazer era assistir
compulsivamente ao noticirio. Ingrid, ris e o pessoal da segurana
passaram o dia todo em casa comigo. Job Coben telefonou para saber
de mim. Depois, na qualidade de prefeito de Amsterd, convocou uma
manifestao pblica naquela noite na Dam, a enorme praa em frente
ao palcio real. Chamou-a de manifestao ruidosa porque Theo era
ruidoso; seria uma tolice fazer uma passeata silenciosa para ele, disse
Joe Cohen.
       Eu queria participar da manifestao, porm Bram foi informado
pelos superiores que eu deveria ficar dentro de casa porque, em uma
situao to difusa, a ameaa  minha vida era excessivamente grande.
Minha participao no faria seno aumentar o perigo para mim e para
outros. Eu j me sentia responsvel por uma morte: tinha feito muito
estrago. No fui.
       Estvamos assistindo, na televiso, s milhares de pessoas
reunidas em Amsterd para a passeata daquela noite quando Bram me
disse que precisvamos sair da casa. Recebera ordens de arranjar outro
lugar para eu pernoitar. Ingrid ofereceu sua residncia. Ficamos juntas
na sala de estar, assistindo aos programas noturnos sobre o
assassinato. Eu estava envolta em um casaco e com vrios cachecis,
paralisada de frio. Todos na televiso se mostravam indignados. O pas
inteiro estava chocado com o fato de algum ser assassinado daquele
jeito -- ainda mais na Holanda -- apenas por ter feito um filme.
       Mas Bram logo recebeu outro telefonema dos superiores no
DKDB, alertando para o perigo de ficar na casa de Ingrid. Era melhor
voltar para a minha, atrs da embaixada de Israel, de madrugada.
       Os seguranas passaram a noite l dentro, vigiando. Foi nessa
ocasio que comearam a ficar a noite toda postados  porta do meu
quarto. Por volta das quatro horas da manh, tocaram a campainha
com insistncia. Eu ainda estava acordada. Levantei-me e perguntei
quem era  policial feminina que estava l embaixo.
       A cmera de segurana mostrou um homem de feies rabes.
Tinha tocado a campainha de todos os prdios vizinhos. Alguns dias
depois, a polcia o prendeu, ele declarou que estava  procura de uma
prostituta que visitara uma vez; acabaram sol-tando-o. Mas aquilo me
lembrou a mensagem na internet com o meu endereo. Algum me
localizara.
       Depois disso, ficou claro que eu no podia passar a noite
seguinte em casa. Mas tampouco podia ficar em um hotel, decidiu o
DKDB. Meu rosto e meu nome apareciam a toda hora na televiso;
qualquer um podia me reconhecer. No estaria em segurana em
nenhum hotel da Holanda.
       E se ficasse na casa de um amigo?, perguntei. Um lugar no
campo, cercado de rvores. Os chefes do DKDB acharam perigoss-
simo. "No existe segredo na Holanda", explicaram. "As pessoas acabam
falando. Casas que parecem escondidas s servem para dar uma falsa
sensao de segurana." No fim, no se tomou deciso nenhuma, e
passei a noite daquela quarta-feira na minha cama.
       Sozinha no quarto, no podia deter o fluxo de idias. Cada vez
que fechava os olhos, via o assassino, chegava a ouvir Theo pedindo
para ser poupado. "Ser que a gente no pode conversar?" perguntou
ele ao assassino. Isso era to holands, to doce e inocente. Theo deve
ter pensado que era uma espcie de mal-entendido que poderia ser
resolvido. No conseguia entender que seu verdugo tinha uma viso de
mundo completamente diferente. Nada que ele lhe dissesse faria
diferena.
       Pensei no seu filho de doze anos, que eu tinha visto uma vez e
que agora era rfo de pai por minha causa. Quando estava acordada,
era s nisso que conseguia pensar e, quando adormecia, tinha
pesadelos. Um homem barbudo, com a tradicional tnica muulmana e
empunhando uma cimitarra, entrava na minha casa pela porta da
frente para me atacar; quando eu tentava pular pela janela, dava com
uma multido de homens l fora, aos berros. Despertava em pnico e
no conseguia mais dormir. At hoje tenho esses sonhos horrendos.
       Na manh seguinte, os seguranas disseram que haviam
recebido ordem de me tirar de l imediatamente. Meteram-me em um
comboio de carros e me levaram a um lugar desconhecido para mim,
uma espcie de base area. Dali por diante, o meu paradeiro seria um
segredo absoluto, avisaram. Deram-me um nmero de telefone
destinado a ris, caso ela quisesse falar comigo, mas me recomendaram
que no usasse o meu celular. Por motivos de segurana, nem eu
poderia saber onde estava.
       A caminho da base area, paramos no gabinete do ministro do
Interior, Johan Remkes. Rita Verdonk, a ministra da Integrao, estava
l, com lgrimas nos olhos. Mulher muito firme, ela sempre foi gentil
comigo e, quando me abraou, no agentei e tambm comecei a
chorar. Depois de algum tempo, Johan disse: "Quero lhe mostrar uma
coisa, mas ser que voc est em condies de ver?"
       Respondi: "Estou chocada, estou triste, estou com raiva -- de
vocs por no terem protegido Theo --, mas estou lcida". Johan me
entregou uma fotocpia da carta. No contou que o assassino de Theo a
fincara no seu peito, apenas me deu as pginas escritas em rabe e em
holands.
       Eu as li. A carta era estruturada com muita preciso, como um
fatwa, o veredicto religioso. Comeava com Em nome deAllah, o
ClementssimOy o Misericordiosssimo e prosseguia com uma citao do
profeta Maom, o espadachim. Depois vinha um resumo dos "atos
criminosos" que eu cometera contra o isl. Seguia-se um versculo do
Alcoro e um desafio do autor com base nesse versculo, perguntando
se eu, tal como ele, o autor da carta, estava disposta a morrer pelas
minhas convices. Conclua amaldioando os Estados Unidos, a
Europa, a Holanda e a mim, e assinava com a alcunha "A Espada da
F".
       Perguntei: "Quem assina isto?". Estava sem flego. Aquilo era
terrvel. Uma coisa sem rosto. Se a carta houvesse sido escrita por uma
pessoa poderosa, de fora da Holanda, eu tinha muito a temer. Remkes
me contou que fora encontrada no corpo de Theo, junto com um poema
de martrio.
       Passei aquela noite e a seguinte na base area, dormindo em um
quarto no andar desocupado do quartel. Estava empoeirado; tinha duas
camas estreitas de metal com cobertores de l,  qual sou alrgica. As
janelinhas davam para um corredor lotado de seguranas de sentinela.
Havia muitos soldados no lugar. Disseram-me para conservar a cortina
fechada: ningum podia saber da minha presena, nem mesmo o
pessoal da base area.
       Naquela noite, incendiaram uma mesquita em construo em
Utrecht. O pas estava enfurecido; no contexto da histria da Holanda,
aquele fato era ssmico. As emoes se exaltaram assustadoramente.
Mas eu estava atordoada. Desde a morte de Theo, sentia-me zonza. Era
como se tivesse havido um curto-circuito: uma parte pensante de mim
se queimara.
       Fazia    apenas     o    que   me   mandavam    fazer.    Coisas     que
normalmente nunca faria. Passei os dois meses e meio seguintes
sozinha com os guarda-costas. Quase no tinha contato com os amigos
nem com os colegas parlamentares. Aparentava calma. Concordava com
tudo. Era como se houvesse perdido a vontade.
       Eu podia ser assassinada; fazia parte da situao. Estava com
medo. No queria morrer. E tambm sentia muita gratido quela gente
que me protegia, pois no era pouco o que eles estavam fazendo. Por
mais zangada que estivesse porque ningum protegera Theo, eu me
dispunha a fazer tudo que aqueles homens mandassem, porque eles
pareciam ter o controle da situao, podiam salvar a minha vida.
       No      entanto,    se    minha     mente   estivesse     funcionando
adequadamente naquela poca, eu teria percebido que, com a morte de
Theo, os servios de segurana passaram a se exceder. Viram as
ameaas     contra   ele   se   acumularem    na   internet,    mas   no    se
empenharam em convenc-lo a aceitar uma equipe de segurana
porque achavam que, se o fizessem, acabariam precisando proteger
"todo mundo". A funo do DKDB era proteger exclusivamente a famlia
real, os diplomatas e os parlamentares. O ministro da Justia, Piet Hein
Donner, chegou a declarar  imprensa: "No  possvel que metade da
populao proteja a outra metade".
       Agora Theo estava morto; e o pas, mergulhado em uma crise
profunda. Os servios de segurana enxergavam ameaas em toda
parte. Ningum tinha idia da escala da conspirao para matar Theo.
Se eu fosse assassinada naqueles dias, a Holanda corria o risco de se
incendiar, com os cidados se armando uns contra os outros -- coisa
que   qualquer    governo   temia.   De   modo   que   deram   a   ordem:
"Mantenham-na s e salva, custe o que custar".
       O funeral de Theo estava marcado para uma semana depois da
sua morte. O pessoal da segurana disse que, se eu fizesse questo de
comparecer, eles dariam um jeito, mas avisaram que isso talvez pusesse
outras pessoas em perigo. Conclu que no convinha ir. Tinha que viver
com a culpa da morte de Theo por ter feito Submisso comigo; no me
atreveria a arriscar outras vidas.
       Mas queria pelo menos v-lo e me despedir dele. Os guarda-
costas consentiram em me levar ao necrotrio do hospital, em
Amsterd, com muitos carros e muitos homens armados. Quando
cheguei, Theodor Holman, o melhor amigo de Theo, e o seu produtor
Gijs van Westerlaken estavam na sala com o corpo. Nele no se via
nenhuma marca de violncia. Theo estava vestido como sempre, suter
de gola rul e cala larga. Procurei um sinal de violncia, mas havia
serenidade no seu rosto, sem nenhum hematoma, nem mesmo uma
espinha. Seus lbios cerrados davam a impresso de esboar um
sorriso sarcstico. Ele parecia em paz, a nica vez em que o vi calado.
Eu lhe afaguei o ombro, lhe beijei a testa. Disse: "Lamento muito tudo
que aconteceu".
       Theodor Holman interferiu: "No, Ayaan. Se estivesse vivo, Theo
ficaria ofendido ao ouvir isso. Ele nunca quis morrer na cama.
Submisso o fazia se sentir o prprio rei a cavalo. Morreu em uma
batalha pela liberdade de expresso, e foi por isso que viveu. Seria
muito pior se fosse devorado pelo cncer ou se se arrebentasse
estupidamente em um acidente de carro. Essa foi uma morte
significativa. Ele era meu amigo, e no quero que voc lamente que
tenha morrido como morreu".
          Foi muita bondade de Theodor tentar fazer com que me sentisse
melhor. Eu me despedi de Theo. Ele no acreditava no alm. Eu
tambm j no acreditava. Pois , pensei: isso  o fim.
          Depois fui tomar caf com Theodor e Gijs na sala de espera do
hospital. Os dois brincaram, procurando me alegrar; tinham uma
maneira prpria de lidar com a perda do amigo querido e excntrico.
Disseram que eles e outros amigos de Theo haviam tentado entrar em
contato comigo, mas provavelmente haviam dado a eles o nmero
errado,     pois   sempre   que   atendiam    diziam:   "Base   Area   de
Woensdrecht".
          "Ento  l que estou escondida", pensei. Na Base Area de
Woensdrecht, perto da fronteira com a Blgica. Quando estvamos nos
preparando para ir embora, eu disse ao chefe dos guarda-costas: "J sei
aonde vamos. A Woensdrecht". Ele se limitou a me encarar: "No mais".
Ficou zangado ao saber que Theodor tinha o meu nmero. "Quem a
autorizou a dar essa informao?" Dali por diante, ningum mais soube
do nmero do meu telefone.
          Naquela noite, depois de ter visto o corpo de Theo no necrotrio,
fui levada ao centro de treinamento da polcia de Hooger-heide, perto de
Woensdrecht. Dormi em um dos cubculos destinados aos trainees, com
pesadelos e novos cobertores de l, que me deixavam lacrimejante e
com dor de cabea. Na manh de segunda-feira, teria que mudar outra
vez; os recrutas da polcia chegariam para o treinamento e poderiam me
ver. Aturdida com tanta movimentao e tantas noites maldormidas,
pedi para ficar l mesmo, mas o chefe da segurana respondeu: "No.
No podemos confiar em tantos recrutas. Eles ainda no so policiais".
       Na segunda-feira bem cedo, os guarda-costas me levaram ao
Ministrio de Relaes Exteriores. Jozias van Aartsen, o lder da
bancada liberal, tinha sido ministro do Exterior e providenciou um
escritrio para eu ficar, um lugar seguro e livre da presso da mdia.
Minha assessora ris foi autorizada a me visitar;  parte isso, eu s
tinha um telefone e um televisor.
       Proibiram-me de enviar e-mails, pois podiam ser rastreados.
(Dias depois, confiscaram meu telefone celular -- que, segundo eles,
tambm podia ser rastreado.) Tive a curiosidade de indagar: "O senhor
acha mesmo que essa gente  capaz desse tipo de coisa?". Tudo
indicava que os radicais islmicos, na Holanda, eram jovens imigrantes
insatisfeitos -- sem acesso  tecnologia -- e, pensava eu, era preciso ser
muito organizado para adquirir equipamento capaz de rastrear um
celular. Mas os seguranas disseram: "No podemos eliminar essa
possibilidade". Tinha se tornado uma espcie de mantra: "No podemos
eliminar nenhuma possibilidade".
       Fiquei naquele escritrio, lendo todas as cartas e todos os
jornais, assistindo  televiso e tentando acessar o meu e-mail. Oito
norte-africanos tinham sido presos em Amsterd; falava-se em uma
clula terrorista. Naquele fim de semana, incendiaram-se quatro
mesquitas e duas igrejas. Na noite de domingo, o fogo destruiu uma
escola primria maometana de Uden, perto de Eindhoven.
       Theo seria cremado no dia seguinte. Eu no conseguia pensar
em outra coisa.
       Naquela noite, levaram-me ao gabinete do vice-ministro de
Assuntos Europeus, que ficava em outro andar do prdio do ministrio.
O gabinete contava com um quartinho, um banheiro e uma cama
estreita. O vice-ministro se foi -- era muito gentil -- e os guarda-costas
se postaram do lado de fora. Era l que eu ia dormir. Pedi muito que me
deixassem ir para casa -- ficava to perto --, masleles decretaram que
no era seguro.
       O comportamento dos seguranas mudara completamente.
Havia qualquer coisa urgente, serissima no ar. Eu tambm o sentia.
Eles achavam melhor no me informar da situao. O que estava em
jogo ia muito alm de mim.
       No dormi nada, espirrando por causa dos cobertores de l, a
boca, a lngua e a garganta cocando sem parar. Passavam-me pela
cabea todas as possibilidades sinistras: os guarda-costas l fora, o
medo, as mesquitas em chamas, a morte de Theo.
       No dia seguinte, tera-feira, assisti  cerimnia fnebre ao vivo
na televiso. Foi muito comovente. Bram Peper, ex-ministro do Interior
e ex-marido de Neelie Kroes, era um bom orador. Disse que a morte de
Theo provocara um choque pior do que um assassinato poltico por ter
sido a morte de uma pessoa sem ambies polticas, que nunca tinha
aspirado ao poder. O pai de Theo era humilde, mas muito digno na sua
dor. A me assumiu uma atitude combativa. Ao discursar, declarou que
eu no tinha por que me sentir culpada pela morte de seu filho: fazia
quinze anos que ele era ameaado. Ela me chamou pelo prenome e se
dirigiu diretamente a mim. Disse que eu devia prosseguir na minha
misso. Achei comovente ela pensar em mim em semelhante ocasio.
Tive pena dela e do pai de Theo, que prorrompeu em lgrimas, e acima
de tudo do filho dele, que, aos doze anos, perdera o pai to cruelmente
assassinado.
       Poucos dias depois, escrevi uma carta  famlia. Antes de
entreg-la, o pessoal da segurana a leu em busca de pistas que
pudessem revelar meu paradeiro.
       Na manh de quarta-feira, a abertura do noticirio mostrou a
polcia cercando um prdio de apartamentos em Haia, perto do lugar
onde eu agora dormia. Algum, de um dos apartamentos, tinha atirado
uma granada de mo na polcia, ferindo vrios homens. O bairro fora
evacuado. O espao areo da cidade ficou fechado para os vos civis, ao
passo que as foras especiais se aproximavam. Ningum sabia o que
estava acontecendo; era como se Haia estivesse sitiada.
       Neelie Kroes e Jozias van Aartsen passaram vrios dias
discutindo com o pessoal da segurana sobre o que fazer comigo.
Decidiram que, tal como em 2002, quando eu recebera as primeiras
ameaas de morte, convinha-me fazer uma curta viagem ao estrangeiro.
Isso me permitiria descansar, elaborar o luto e ficar a salvo at que a
poeira baixasse -- quando ento se presumia que as diversas agncias
teriam chegado a um acordo quanto ao nvel de perigo a que minha vida
estava exposta e quanto ao modo de lidar com isso.
       Agora, enquanto prosseguia o cerco ao prdio de apartamentos
de Haia, meus guarda-costas me disseram que eu estava de viagem
marcada para os Estados Unidos. Levaram-me para casa; deram-me
trs horas para fazer as malas.
       Eu no sabia o que levar; os seguranas se restringiram a dizer
que o meu destino era os Estados Unidos. L estava fazendo frio ou
calor? Meu crebro simplesmente tinha parado de funcionar. A esmo,
fui enfiando nas malas toda roupa que tinha, assim como dezenas de
livros e, quando acabaram as malas, peguei enormes sacos plsticos
com fecho zip bag. Aquilo tudo era irracional, mas no havia ningum
que me dissesse tal coisa. Muito calados, os guarda-costas se limitaram
a amontoar a bagagem nos carros blindados.
       Levaram-me  base area de Valkenburg, perto de Haia, e
estacionaram na pista.  nossa frente, um avio militar de transporte e
vigilncia, um rion. Subi o corredor de embarque dizendo comigo, feito
uma professorinha: "Preste ateno. Esta  uma experincia nica".
Sentia-me estranhamente desmaterializada, completamente calma.
Todas as janelas estavam com as prsia -nas fechadas, e me proibiram
de me aproximar delas e das portas. A aeronave ia repleta de soldados
fardados; dois guarda-costas do DKDB continuavam me escoltando. O
chefe era Pete, cuja presena eu solicitara por confiar nele.
       Os pilotos me convidaram a ver a decolagem na cabine.
Explicaram-me o trabalho deles e a tecnologia do avio; fiz algumas
perguntas educadas. Fazia muito frio. Eles disseram que eu podia me
deitar em uma das duas camas dobrveis, to altas que era impossvel
me virar sem bater os joelhos ou os ombros no teto. Assim fiquei,
deitada, pensando em Theo e na culpa enorme que sentiria pelo resto
da vida.
       Aterrissamos em uma base area de Portland, Maine. Dois
policiais que geralmente lidavam com criminosos, no Programa
Holands de Proteo a Testemunhas, foram nos buscar. No me
trataram como criminosa; afinal de contas, eu era uma parlamentar sob
proteo, no uma traficante de drogas. Mas lidaram com a situao de
maneira autoritria, como estavam acostumados -- eram especialistas.
Determinaram o que eu poderia e no poderia fazer.
       Eu continuava com medo -- olhava para os lados, sobres-
saltava-me com o menor rudo --, e eles tentaram me tranqilizar.
Primeiro, levaram-me a um modesto hotelzinho de beira de estrada,
onde tomei banho e tentei dormir enquanto dois guarda-costas levavam
o meu passaporte para tramitar a minha entrada oficial no pas.
       Depois fomos a Andover, Massachusetts. Uma vez mais,
alugaram quartos no mesmo tipo de hotel de segunda classe todo
cercado de auto-estradas, em uma zona industrial em que praticamente
no se viam seres humanos. Eu estava morrendo de frio. Os seguranas
decidiram me manter completamente annima naquele estabelecimento
tipicamente americano, onde nenhum holands me reconheceria.
Acabamos passando semanas l.
       Eu s queria acompanhar os noticirios da Holanda. Queria
saber como estava a famlia de Theo, o seu filho, o que tinha acontecido
no Parlamento; como havia terminado o cerco policial em Haia. Mas no
havia notcias da Holanda nos Estados Unidos, e os meus guarda-
costas tiraram o telefone do quarto. Podiam no me dar exatamente o
tratamento que costumavam reservar aos criminosos, mas me tratavam
como criana, como se eu no tivesse a menor conscincia do perigo por
que estava passando. Discuti com Koos, o homem do Programa de
Proteo a Testemunhas. Queria um telefone; queria conversar com os
meus amigos. Mas ele replicou que era responsvel pela minha
segurana e que s estava me protegendo. No me permitiam navegar
na internet; tambm poderia ser rastreada. Aleguei que ningum ia me
ras-trear se eu entrasse unicamente nos sites de notcias, mas, pelo
jeito, aquela era uma regra: nada de internet.
       Por sorte, o meu guarda-costas Pete era do DKDB, no do
Programa de Proteo a Testemunhas; policial havia mais de vinte anos,
sabia distinguir o que ameaava a vida do que no a ameaava. Insistiu
para que checassem a Biblioteca de Boston para ver se l eu podia
entrar na internet. Disse: "Somos responsveis pela segurana dela,
mas ningum tem nada a ganhar se ela despirocar".
       Enquanto Koos ia a Boston, Pete me emprestou seu telefone,
recomendando-me cuidado com o que dizia. Ficou do outro lado do
quarto enquanto eu ligava para Johanna, ris e minha amiga Geeske.
Conversamos discretamente sobre a minha ausncia temporria.
Deram-me notcias da Holanda; o cerco de Haia terminara com a priso
de sete pessoas em todo o pas, todas suspeitas de ligao com um
grupo terrorista.
       Ao retornar, Koos determinou: "No vale a pena. Boston est
coalhada de holandeses e de todo tipo de europeus. No podemos
excluir nenhuma possibilidade. No vamos".
       No dia seguinte, os seguranas resolveram me levar a um
shopping para comprar culos sem receita. Mas os americanos eram
curiosssimos; crivavam a gente de perguntas, mesmo em uma mera
transao comercial. Os guarda-costas recomendaram: "Diga que voc
se chama Jill Steele e que  sul-africana".
       Eu era uma negra de bon de beisebol, acompanhada de quatro
gigantes, querendo comprar um par de culos sem receita e contando
uma histria ridcula sobre a frica do Sul. Senti todo mundo na loja
me examinar dos ps  cabea.
       No dia seguinte, completei trinta e cinco anos. Tinha planos de
dar uma festa na Holanda, com dezenas de convidados. Agora apenas
alguns dos meus amigos mais ntimos iam se encontrar, sem mim, para
conversar sobre o que ainda estava por acontecer. E eu, por minha vez,
no tinha o que fazer. Tinha o laptop, mas no podia escrever. Tinha
livros, mas no conseguia assimilar nem uma linha.
       Pete sabia que as coisas no estavam nada bem comigo. Certa
vez disse: "Do jeito que eles querem que a gente garanta a sua
segurana, seria mais fcil tranc-la em um bunker da Segunda Guerra
Mundial, em uma praia qualquer, e lhe passar comida pela porta".
Respondi: "J seria um progresso. Eu estaria na praia, na Holanda, e
poderia convidar os amigos para o ch".
       A soluo de Pete era ginstica; a exausto fsica, o nico
remdio contra a insnia, o medo e a preocupao. Levava-me a uma
academia enorme e me obrigava a me exercitar nos aparelhos. Tinha
razo, ajudou.
       Na Holanda, estavam comeando a indagar sobre o meu
paradeiro. Desde o assassinato de Theo, eu praticamente desaparecera
da face da Terra. Aos meus amigos, diziam que eu queria ficar sozinha,
mas eles no acreditavam; sabiam que, num momento como aquele, eu
s poderia querer estar na companhia deles, ou pelo menos lhes
telefonar. Na ausncia de qualquer informao, surgiu todo tipo de
teoria da conspirao. Alguns diziam que eu tinha sido assassinada e
que as autoridades estavam escondendo a minha morte.
      Uns dez dias depois da nossa chegada aos Estados Unidos, o
pessoal da segurana autorizou Neelie Kroes a me telefonar. Ela e
Jozias van Aartsen estavam tentando dar um jeito de me visitar, mas os
seguranas insistiam em dizer que era impossvel. Percebi que ela e
Jozias no sabiam que eu estava to longe.
       Henk Kamp, o ministro da Defesa, tambm me telefonou.
Props: "Vou visit-la, e a gente d uma volta no bosque de Zutphen".
Perguntei: "Henk, ser que voc no sabe que estou muito longe do
bosque de Zutphen?" Era como se eu fosse um estado de emergncia de
uma s mulher; nem mesmo o ministro da Defesa sabia onde eu estava.
       Meses depois, quando tudo voltou ao normal e tornei a me
encontrar com Henk, perguntei como era possvel que at ele ignorasse
o meu paradeiro. Henk respondeu: "O nico que sabia onde voc estava
era o ministro da Justia. Piet Hein Donner pediu ao restante do
gabinete: 'Por favor, no perguntem onde ela se encontra', e ningum
perguntou".
        Piet Hein Donner no era um mau sujeito. Embora no fosse
uma liderana forte, era um homem muito decente -- um homem de
outra   poca,   e   no   exercia   o   controle   absoluto   sobre   o   seu
departamento. Imagino que tenha dado a ordem "Protejam-na" e
deixado os funcionrios cuidarem de tudo. Aqueles homens nunca
tinham enfrentado situao semelhante, mas o seu emprego estava em
jogo. De modo que me protegeram at demais. Tenho certeza de que
tinham boas intenes.
        Depois de duas longas semanas vazias, Neelie voltou a telefonar
no fim de novembro. Disse que eu estava autorizada a voltar  Holanda,
por alguns dias, a fim de conversar com algumas pessoas sobre a
minha situao e ver quando poderia retornar definitivamente. Foi um
grande alvio.
        No dia 27 de novembro, depois de vinte e cinco dias escondida,
fomos para o aeroporto de Portland debaixo de um aguaceiro.
        Aterrissamos na Base Area de Eindhoven e, a seguir, fizemos
um longo percurso, em caravana, que me pareceu ter durado horas.
Todos os carros pararam no acostamento de uma auto-pista, e passei
para outro veculo muito menor e mais simples. Koos, do Programa de
Proteo a Testemunhas, levou-me a uma casa de campo nas
imediaes de Zelhem.
        Na hora de ir jantar com Neelie e Van Aartsen, fui transportada
num Fusca; depois paramos em uma clareira e tornamos a mudar para
um comboio de BMWS. Estava escuro. Por fim cheguei a um prdio de
alvenaria no meio do bosque. Todas as luzes estavam apagadas. A
entrada fedia a urina. Um dos guardas esclareceu que o cheiro vinha da
antiga cadeia: aquela era uma delegacia de polcia desativada. No
havia eletricidade, a iluminao ficava por conta de umas lamparinas.
Uma mesa estava posta com toalha de papel, alguns sanduches e duas
garrafas de gua e suco.
        Estvamos na Holanda, a dcima quinta ou dcima sexta maior
economia do mundo, e l ia me encontrar com um comissrio da Unio
Europia e com o lder do partido do governo, esgueirando-me em meio
quela estranha fantasia de escoteiro. Agradeo ter sido protegida,
agradeo estar viva -- mas aquele esquema de segurana me pareceu
um exagero.
       Neelie e Van Aartsen chegaram e foram rapidamente levados
para dentro. Ao abraar Neelie, fiquei com vontade de chorar outra vez.
Jozias parecia agitado. Estava em meio aos preparativos de um
congresso do partido, e a sua vida tambm fora ameaada; agora
andava cercado de guarda-costas como eu. Sentamo-nos frente a frente
na sala que tinha sido preparada; Neelie enrugou a testa, dizendo
"Santo Deus".
       Seu tom de voz deixou claro que achava aquela operao ul-tra-
secreta absolutamente ridcula. "Quer dizer que aqui  seguro? Por que
no nos deixaram ter o nosso encontro na minha casa?" perguntou.
       Quando os seguranas fecharam a porta, Jozias quis saber onde
eu havia estado. Contei-lhe: em um hotel de beira de estrada numa
zona industrial dos Estados Unidos, entre rodovias; nenhum contato
com os amigos, conversas s com os guarda-costas. Neelie ficou lvida.
Eu disse: "Se tiver que passar mais tempo l, quero pelo menos um
meio de comunicao, um lugar em que me seja possvel receber
notcias e trocar mensagens eletrnicas com as pessoas. Preciso passar
mais tempo com os meus semelhantes".
       Dois funcionrios do Ministrio da Justia tinham ficado de se
encontrar   conosco   depois   do   jantar,   o   chefe   do   departamento
antiterrorista e o chefe da unidade de proteo e segurana. Neelie e
Jozias os interrogaram sobre o porqu de eu estar vivendo daquele jeito,
totalmente isolada, to longe. Afinal, que tipo de ataque esperavam?
       Enfim, aps semanas de aceitao passiva, alguma coisa em
mim recobrou vida. Eu disse queles homens: "Vou acatar a deciso de
vocs quanto a quando vou poder voltar definitivamente, porque essa 
a funo de vocs. Mas para aquele hotelzinho no volto. Ningum me
conhece nos Estados Unidos. Quero autorizao para ir a uma
universidade. Quero escrever, ler, fazer alguma coisa. No agento mais
ficar olhando para aquela estrada".
       Neelie os dispensou com um olhar significativo e fechou a porta.
Contou-me que meus amigos, na Holanda, estavam em polvorosa,
tentando descobrir o que sucedera comigo. Queriam saber do meu
paradeiro. A imprensa j andava questionando a necessidade de tanta
segurana. Em parte, tinham me levado de volta  Holanda para acabar
com a agitao e mostrar s pessoas que eu estava bem. Combinamos
que, antes de retornar aos Estados Unidos, ia me encontrar com um
grande amigo meu, Her-man, assim como com um reprter do dirio
NRC Handelsblad. Jozias props que tambm escrevesse uma nota para
deixar claro que eu estava a salvo, e que ele se encarregaria de ler esse
texto na reunio do partido no dia seguinte.
       Passei esse dia sozinha na casa de Zelhem, aguardando as
decises. Por fim, disseram que eu iria me encontrar com Neelie, jantar
com Herman e, depois, dar uma entrevista a Frank Ver-meulen do NRC.
Recusaram-se a me contar aonde amos, mas, ao chegar, foi fcil
reconhecer o Ministrio da Fazenda. Deixaram-me em um enorme
gabinete vazio, e Neelie chegou com uma garrafa de champanhe.
Pusemo-nos a redigir o texto que Jozias ia ler na reunio dos liberais.
Quando    Herman     chegou,   eu   lhe   pedi   que    descobrisse   uma
universidade, nos Estados Unidos,  qual pudesse ir e que fosse
aceitvel para o pessoal do Ministrio da Justia.
       Foi maravilhoso rev-los, conversar. Eu estava que no podia
comigo: dois amigos de uma vez depois de tanto tempo de solido, era
demais para mim.
       Quando o champanhe de Neelie terminou, Herman pediu mais
uma taa. Fui at  porta e solicitei ao guarda-costas: "Pode arranjar
uma garrafa de vinho?". Ele disse: "Mas a senhora vai ser entrevistada
por um jornalista depois do jantar! No pode beber!".
       Herman exclamou: "Meu Deus, o que  isso?". No se
conformava com o modo que eu estava vivendo e sendo tratada. Acho
que at j tinha me acostumado, mas, agora que estava de volta 
Holanda, aquilo comeou a parecer esquisito inclusive para mim.
        Tjeerd, um dos funcionrios encarregados da minha proteo,
achava imprescindvel acompanhar pessoalmente a entrevista ao NRC a
fim de avaliar se o que eu dizia podia criar algum problema de
segurana. Ao saber disso, Frank Vermeulen fez uma careta.
        Quando a entrevista terminou, pedi a Tjeerd que se retirasse
para que eu conversasse a ss com meu amigo Frank. Assim que a
porta se fechou, ele perguntou: "Quanto tempo isto vai durar? Eles no
podem escond-la fora do pas eternamente.  loucura. Voc 
parlamentar e no cometeu nenhum crime, mas tem at uma bab
censurando o que voc diz -- pior do que na ex-Unio Sovitica". Eu
disse: "No entendo nem a metade do que est acontecendo. s vezes d
a impresso de que eles no confiam em mim nem para cuidar da
minha prpria vida".
        No dia seguinte, informaram-me: "Voc vai ficar em um pas
vizinho e depois volta a Massachusetts". A guarda tinha mudado -- eles
se revezavam uma vez por semana -- e eu no conhecia nenhum dos
novos   seguranas;    no   me   dariam    mais   nenhuma   informao.
Atravessamos a fronteira e fomos para o interior da Alemanha, at um
hotel srdido, imundo, em uma cidadezinha chamada Meckenheim, se
bem que eu no soubesse disso na poca.
        L percebi que no agentava mais. Precisava me defender. Sa.
Simplesmente sa do hotel para tomar um caf e um pouco de ar.
        Robert, um jovem agente do DKDB, estava de planto no
corredor. Olhou para mim como se eu estivesse  merc de uma psicose
aguda, correu no meu encalo e perguntou: "O que a senhora pensa que
vai fazer?". Eu disse: "Vou tomar caf", e segui em frente. Robert era um
policial treinado, treinado para vigiar, de modo que foi atrs de mim. L
fora, a rua estava deserta; fazia muito frio. Ao ver uma placa, eu disse:
"Muito bem, estamos em Meckenheim, portanto, na Alemanha. Vamos
seguir as placas at o centro da cidade".
        Alguns metros atrs de mim, Robert j estava telefonando para
Hendrik; apesar de armado, mal conseguia dissimular o nervosismo. Eu
estava calma. Fazia bem caminhar, respirar o ar fresco e puro. Mas era
manh de domingo, e a maioria dos estabelecimentos da cidade estava
fechada. Avistei um bar, olhei para dentro e perguntei: "Caf?". Nem
Robert nem eu falvamos alemo. O balconista fez que sim.
       Era um turco; o bar era turco. Robert ficou paralisado de susto;
confesso que tambm senti um pouco de medo. Mas me sentei e fingi
estar tomando o caf mais gostoso da minha vida. No fiin-do, queria
fugir o mais depressa possvel, mas a minha dignidade era mais
importante. Eu precisava voltar a ser dona do meu nariz.
       De modo que tomei caf bem devagar e pedi outra xcara. Cada
vez que um trabalhador turco chegava, Robert botava a mo no
telefone; no queria entrar sozinho naquela batalha. Mas eu disse:
"Essa gente  inocente. So comerciantes. No vo matar os fregueses".
       Enfim me levantei, disse Danke e sa. Cinco metros mais
adiante, na rua, os dois camos na gargalhada. Eu disse: "Voc est
aliviado, no est?". Robert concordou, e confessei: "Eu tambm". Ele
me censurou: "Est vendo? H perigo em toda parte", e repliquei: "No,
eles no fizeram nada, apenas nos serviram caf. Vamos andar. No
quero ficar naquele hotel que mais parece um necrotrio".
       Quando voltamos, instalaram-me em um luxuoso spa de velhos
ricos, que tampouco era o que eu esperava. No estava exigindo luxo, s
no queria dormir em um quarto fedorento.
       Fui levada de volta a Massachusetts, ao hotel horrvel da
periferia de Andover. Resolvi mandar ao filho de Theo um presente de
Sinter-klaas, o Papai Noel holands que d presentes no dia 5 de
dezembro. Quinze dias depois, minha encomenda foi devolvida, intacta.
O garoto no queria nada de mim. Isso me deixou arrasada.
       Fiquei deprimida novamente. Os dias se arrastavam sem a
menor notcia de transferncia. Meus novos guarda-costas no me
deixavam sair do hotel nem mesmo para ir  academia de ginstica. Eu
pedia constantemente o telefone: a nica coisa que podia fazer era
conversar com os amigos, a nica maneira de permanecer s. Mas
havia uma nova regra: s podia usar o telefone se os seguranas
ficassem por perto, escutando. Era como estar presa. Recolhi-me ainda
mais em mim mesma e comecei a passar a maior parte do tempo
sozinha no quarto.
       Enfim chegou a notcia: eu ia ser transferida para San Die-go.
Ainda no podia freqentar o prdio da universidade; isso dependia de
autorizao. Mas l estava fazendo calor, e Pete voltara a integrar a
minha escolta. Levava-me  praia e me deixava passar horas
caminhando nas dunas, respirando a maresia. Emprestava-me o celular
e se afastava discretamente para no ouvir minhas conversas.
       Pela primeira vez desde a morte de Theo, comecei a reviver e a
dormir bem por pura exausto fsica. Na vspera de Natal, Neelie
telefonou. Combinamos que eu voltaria para a Holanda em 10 de
janeiro.
       Quando chegou o dia, fomos a Frankfurt, na Alemanha, muito
embora eu preferisse ir diretamente para a Holanda -- queria ficar em
casa, preparar-me para a entrevista coletiva que ia dar no dia 18, em
Haia. Mas no fui autorizada, sei l por qu. Ficamos em um hotel
alemo, depois em outro. Por qu? Ningum me dava explicaes; eram
medidas de segurana. O segundo hotel tinha computador e conexo
com a internet. Comecei a escrever as declaraes que faria quando
voltasse ao trabalho. Pensei em enviar um esboo das minhas idias aos
amigos, por e-mail, mas no meu quarto no havia conexo com a
internet. Por isso,  meia-noite, pedi aos guarda-costas que me
acompanhassem  recepo e perguntassem se eu podia enviar a
mensagem de l.
       O recepcionista turco olhou bem para mim e perguntou: "Ei,
voc no  a somali que era parlamentar na Holanda, aquela cujo amigo
foi assassinado?"
       Nos meses que se seguiram  morte de Theo, de vez em quando
uma ou outra pessoa me reconhecia -- eu sabia disso pela cara de
surpresa que faziam --, mas aquela foi a primeira vez que me
interrogaram abertamente. Balbuciei: "O qu?". O homem disse: "
voc, sim. Deixaram uma carta no corpo dele, ameaando-a, e ela
desapareceu.  voc, no ?" Ri, sem jeito, e respondi: "Oh, no. Muita
gente me confunde com ela, mas no, no sou eu".
       Aquilo representava um srio problema de segurana. O
recepcionista me era totalmente desconhecido e sabia at o nmero do
meu quarto. Perguntei aos guarda-costas: "Ser que convm continuar
aqui?" Mas Case, o chefe da equipe, disse: "Amanh telefono para o
escritrio. Com toda essa movimentao, a senhora no consegue
descansar".
       Teria sido risvel se a minha vida no estivesse em jogo. Fui para
o quarto e empilhei mveis e malas junto  porta e deixei a mquina de
caf e xcaras e pires equilibrados no alto, para o caso de eu pegar no
sono enquanto esperava o barulho do homem de revlver em punho e
faca entre os dentes. Na manh seguinte, Case recebeu ordem de me
transferir para um hotel de Aachen, alm de uma reprimenda por no
ter providenciado a mudana imediatamente.
       Estvamos cada vez mais perto de Haia. Proibiram-me sair do
quarto, j que os recepcionistas tinham me reconhecido. Eu queria
entrar em contato com os pais de Theo antes de retornar  Holanda, de
modo que pedi a Case que providenciasse o telefonema. Mas ele disse:
"Perguntamos ao contato da famlia na polcia, e eles no querem falar
com a senhora. Quando estiverem dispostos, vo procur-la".
       Posteriormente, descobri que era mentira; os pais de Theo me
receberam de bom grado e com muito carinho. Nunca disseram tal coisa
a ningum. Com certeza, algum funcionrio do Ministrio da Justia
preferiu no se dar ao trabalho de telefonar.
       Perguntei se podia me encontrar com meu amigo Paul Schef-fer,
o crtico, para que me ajudasse a redigir o texto, que tinha sado
demasiado extenso e emocional. Queria ser profissional e falar do meu
trabalho, mas tambm queria -- e precisava -- falar da minha tristeza
pela morte de Theo, do sentimento de culpa que ela me causava, e
queria transmitir a mensagem de que eu e a Holanda precisvamos
avanar, no podamos nos curvar perante o terror.
       Fui levada  Holanda no dia 15 de janeiro. Paul e eu nos
encontramos em uma delegacia de polcia, em Dreiberg, e enxugamos
muito o texto. Passei a noite em uma base militar de helicpteros de
Soesterberg. Agora j no importava; estava perto de casa. S de
respirar o ar da Holanda eu me sentia bem.
       No dia seguinte, segunda-feira, levaram-me  casa de Leon de
Winter. Mal pude conter o alvio, a alegria. L estavam ele e a sua
esposa Jssica, Afshin Ellian, o professor de direito iraniano que eu
conhecera em De Balie, assim como Jaffe Vink e Chris Rutenfrans, do
Trouw. Eu estava totalmente vencida pela necessidade de contato fsico,
de abra-los a todos.
       Na manh de tera-feira, voltei ao Parlamento. Ao sair do carro,
no ptio calado de pedras, dei com uma multido de cmeras
apontadas para mim. A cada passo que eu dava, elas recuavam em
formao. O presidente do Parlamento me recebeu formalmente no seu
gabinete; a seguir, fui conversar com Jozias van Aartsen, que me
acolheu com ternura. Fomos  reunio da bancada liberal, a reunio de
rotina das manhs de tera-feira. Quase todos os parlamentares liberais
vieram me beijar. Toda inveja e todo sentimento negativo pareciam ter
se dissipado.
       A   discusso     da   bancada   se   perdeu   em   um   bate-boca
interminvel sobre o lugar das reunies das comisses: se na sala de
reunies do Parlamento ou nos gabinetes do Partido Liberal. Era como
se eu no tivesse me ausentado. Pedi licena e passei a manh no meu
gabinete, ocupada com o texto do discurso que ia fazer e telefonando --
livre e desimpedida -- para quem quisesse me dar ouvidos.
       s duas da tarde, fui  cmara baixa do Parlamento. Encontrei-a
lotada de jornalistas e deputados. Todos me aplaudiram de p, at
aqueles de quem eu costumava discordar em tudo quanto diziam. O
presidente fez um breve discurso, e o ministro da Defesa, Henk Kamp,
aproximou-se para me cumprimentar e dar as boas-vindas com
verdadeira ternura no olhar.
       s quatro horas, fui dar a coletiva no centro de imprensa. No
curto trajeto, os fotgrafos e cameramen se acotovelavam para registrar
cada passo. A sala estava repleta de jornalistas. Respirei fundo e
comecei a ler meu discurso. Eu tinha passado setenta e cinco dias longe
do Parlamento, mas agora estava de volta.


                                  E p lo g o

       A letra da lei


       Dezesseis meses depois -- numa noite de segunda-feira, 15 de
maio de 2006 --, o ministro da Fazenda Gerrit Zalm foi ao meu
apartamento, em Haia, acompanhado de Willibrord van Beek, o novo
lder da bancada do Partido Liberal. Os dois chegaram de cara
amarrada. Tinham um recado para mim.
       O apartamento estava cheio de gente, o nico lugar em que
podamos conversar em particular era entre as pilhas de roupa secando
no quarto de hspedes. Pedi a Gerrit que desse a m notcia em
primeiro lugar.
       Fitando-me diretamente nos olhos, ele contou que Rita Ver-
donk, a ministra da Integrao, pretendia anular a minha cidadania
holandesa. Dentro de meia hora, eu receberia a carta oficial do
Ministrio da Justia. Rita prometera no divulgar a notcia at o dia
seguinte, quando eu anunciasse que renunciava ao meu mandato.
       Foi com muito esforo que dissimulei a emoo, mas Van Beek
parecia prestes a chorar quando me disse: "No vamos deixar isso
acontecer". Irritado, Gerrit afirmou que aquilo no passava de uma
farsa e que eu precisava arranjar um bom advogado; ao se despedir,
mostrou-se to triste que fui compelida a consol-lo. "No se preocupe",
disse. "Tudo vai dar certo."
       Refreei as lgrimas at que eles se fossem.
         Cinco minutos depois, Rita telefonou. Nossa conversa foi breve e
fria. Ela disse que sua deciso nada tinha de pessoal; que no podia
fazer nada, estava de mos atadas. Fora obrigada a invalidar a minha
cidadania holandesa. Como eu havia dado nome e data de nascimento
falsos ao solicitar a cidadania em 1997, esta nunca tinha sido
concedida a mim de fato.
         Dez minutos depois de Rita e eu nos despedirmos secamente,
tocaram a campainha. Era um dos seguranas do DKDB, um homem
simptico que vivia sorrindo. S que no estava sorrindo. Trazia um
envelope branco com o braso da Justia -- a espada e a balana.
         "Prezada senhora", anunciava a carta, "pela presente, venho
inform-la de que, no meu parecer, a senhora no obteve cidadania
holandesa devido ao uso de dados pessoais incorretos durante o
processo de naturalizao. O decreto que a naturalizou  nulo. A
senhora tem prazo de seis semanas para se manifestar."
         Eu mal acabara de ler a carta quando o telejornal comeou com
a notcia de que Rita Verdonk havia declarado que eu nunca tinha sido
cidad daquele pas.
         No era mais holandesa.
         Alis, esse imprevisto tinha se iniciado semanas antes, em 27 de
abril,   na    ltima    quinta-feira     antes    do     recesso   parlamentar     da
primavera. Minha agenda estava lotadssima naquela semana, e eu,
embora        um   tanto      nervosa   com       isso,    tinha    me     interessado
particularmente         por   um    dos     compromissos.           O    produtor   de
documentrios de um programa intitulado Zembla ficara de ir ao
Parlamento conversar comigo sobre os lugares em que eu havia morado
no Qunia e na Somlia, e me mostraria algumas imagens que ele havia
filmado l.
         Ns providenciamos um VCR. Tornei a ver os colgios que tinha
freqentado e a casa de Kariokor em que havia morado antes de abeh
nos abandonar. Apareceu o meu irmo Mahad, magro e nervoso por
trs dos culos escuros. Ainda que surpresa com o trabalho que o
jornalista provavelmente tivera, deixei-me levar pela saudade, mas
tambm fiquei assombrada com o nmero de turbantes que agora
circulavam nas ruas de Nairbi. Quando eu estava na Escola Primria
de Juja Road, a diretora se recusara a deixar que mame nos mandasse
para l de turbante; agora eles pareciam estar em todos os corredores.
       Quando o filme chegou ao fim, o reprter do Zembla me crivou
de perguntas sobre o meu passado; seu tom era indisfaravelmente
hostil. Surpresa, eu me esforcei para ser gentil quando ele contou que
Mahad lhe dissera que eu no tinha sofrido nenhuma clitorectomia:
nossa famlia era muito progressista para mutilar os rgos genitais das
crianas. Tentei explicar que Mahad s estava tentando salvar as
aparncias: no queria admitir, perante um estrangeiro, que sua famlia
praticava tradies consideradas brbaras no Ocidente. Ele podia dizer
o que bem entendesse, mas no era verdade.
       O jornalista prosseguiu indagando se era verdade que, ao chegar
 Holanda, eu tinha mentido para solicitar asilo. Tratava-se de um
terreno conhecido; nisso eu j falara muitas vezes. Logo ao ingressar na
poltica holandesa, tinha tomado a iniciativa de contar que havia
omitido certas informaes no meu pedido de asilo e, posteriormente,
sempre   que   me   perguntavam,    em   particular   ou   publicamente,
reconhecia que mentira e explicava por qu. De modo que no hesitei
em contar ao produtor do Zembla que, ao solicitar o status de asilada
em 1992, no dissera toda a verdade.
       O reprter fez mais perguntas, sempre em tom beligerante, mas
minha assessora ris bateu na porta. O chefe da Unidade de Segurana
e Proteo do Ministrio da Justia acabara de chegar ao meu gabinete
com o seu substituto: eu precisava ir. Ainda um pouco afetada pelo tom
da entrevista, notei que Arjan Jonge Vos, do ministrio, substitura sua
habitual impassibilidade por um ar inusitadamente enternecido. "Sente-
se", disse. "Por favor, tome um copo de gua."
       Jonge Vos me entregou um mao de papis. Meus vizinhos
estavam processando o governo, queriam que eu sasse do meu
apartamento. Alegavam que os guarda-costas invadiam a privacidade
deles e que a minha presena os expunha ao perigo. Fazia meses que
isso acontecia, mas nunca me passou pela cabea a idia de perder a
ao. Jonge Vos explicou que aquela papelada continha a deciso do
tribunal de apelao que julgara o caso. Eu tinha sido despejada.
Davam-me quatro meses para desocupar o imvel, at o dia 27 de
agosto, Jonge teve a cortesia de me informar. Fora incumbido de cuidar
daquilo.
       Eu fiquei pasma. Aonde ir? A um hotel? A uma base area? A
uma cabana  prova de balas no meio do mato? Onde ia morar -- onde,
na Holanda,  possvel encontrar um lugar sem vizinhos? O pas 
minsculo e muito povoado. Como seguir trabalhando se precisasse me
mudar constantemente de um lugar para outro? Foi um golpe duro.
Pode parecer banal, mas, ao receber a notcia de Jonge Vos, cheguei
perto do desespero. Ser que a minha errncia nunca teria fim?
       Alguns dias depois, no comeo de maio, eu estava de viagem
marcada aos Estados Unidos, viagem demoradamente planejada para
promover The caged virgin, uma coletnea dos meus ensaios. Mas
tambm ia me encontrar com Christopher DeMuth, o presidente do
American Enterprise Institute, um think tank de Washington que
manifestara interesse em me empregar. Depois de dois anos e meio de
atividade parlamentar, eu estava decepcionada e com vontade de
abandonar a poltica holandesa. Meses antes, informara Gerrit Zalm
que no pretendia voltar a me candidatar. Por certo, gostava de certos
aspectos do Parlamento, como a incisividade de alguns debates,
verdadeiros duelos. O Parlamento em ao chegava a ser fantstico.
Mas o processo legislativo era moroso e frustrante. Eu no queria
acatar estritamente a linha do partido nem compreender mais
profundamente a Poltica Agrcola Comum europia ou o sistema de
transporte de Roterd. No me dispunha a consumir uma quantidade
ridcula de energia construindo coligaes com gente que aceitava as
minhas idias, mas no votava comigo porque eu era do Partido Liberal.
O   frenesi   miditico   que   se   instaurava   inevitavelmente   a   cada
comentrio ou erro dificultava a minha atuao. Muito embora a
ateno da imprensa me oferecesse uma plataforma natural, tambm
intensificava a animosidade que muitos parlamentares, evidentemente,
tinham por mim e pelas minhas iniciativas polticas.
       Tambm me parecia que eu j havia realizado grande parte do
que me propusera a realizar. Queria que o isl fizesse parte do debate
poltico, e agora fazia. Todos os formadores de opinio diziam que era
irresponsvel e at moralmente errado esperar que apaziguar as'
lideranas muulmanas levasse  harmonia social num passe de
mgica. A sociedade holandesa estava mergulhada na discusso sobre
como integrar os maometanos, e estes pareciam bem conscientes de
que era preciso escolher entre os valores ocidentais e os procedimentos
antigos. Acima de tudo, agora as muulmanas ocupavam um lugar
importante na agenda do pas.
       Quando fui convidada a trabalhar em um think tank americano,
achei que talvez pudesse levar as minhas idias a uma plataforma
maior e dedicar mais tempo a desenvolv-las. E agora eu sabia que
queria faz-lo o mais cedo possvel.


                                       * * *


       Quando o programa Zembla foi ao ar na Holanda, numa quinta-
feira, 11 de maio, com o ttulo "Santa Ayaan", eu ainda estava nos
Estados Unidos, mas um jornalista holands fixado em Nova York
providenciou para que eu o visse no estdio. O tom era desagradvel e,
com toda certeza, pretendia ser um assassinato moral. Mas os amigos
que me telefonaram no achavam que tivesse sido to prejudicial assim.
Aparentemente, o jornalista localizara Osman Moussa, que continuava
morando no Canad e declarou que eu casara com ele de livre e
espontnea vontade. Mas, como me disse algum, "Que homem
admitiria ter casado com uma moa que no o queria?". Ficou muito
claro que o jornalista estivera no Qunia e na Somlia em busca de
material para me difamar; se aquilo era o mximo que ele tinha
conseguido obter, eu at que estava bem.
       Mas ento a campanha comeou. Anteriormente, a ministra das
Relaes Exteriores Rita Verdonk expulsara do pas vrios refugiados
que haviam mentido ao solicitar visto de residncia. No dia seguinte ao
da transmisso da "Santa Ayaan", Rita comeou a ser instigada a
deportar Ayaan Hirsi Ali tal como fizera com outros imigrantes
mentirosos.
       Ela era minha amiga. Conhecida pelos outros como Rita de
Ferro, devido  sua rigidez, e as pessoas sempre faziam piada do seu
passado de carcereira. No entanto, sempre a achei carinhosa, maternal
at. Embora geralmente discordssemos em poltica, muitas vezes ela se
aliou a mim no partido e no Parlamento; costumvamos trocar idias, e
Rita utilizava partes das minhas propostas. Eu tambm intercedia com
freqncia a favor dos refugiados ameaados de ser expulsos do pas.
Ela foi uma das pessoas que me consolou quando da morte de Theo.
Em uma bancada na qual eu tinha poucos amigos, enfrentou muitos
problemas para me ajudar.
       E Rita sabia perfeitamente que eu mentira ao solicitar asilo.
Mesmo que no tivesse lido as minhas entrevistas (por que haveria de
ler?), conversamos vrias vezes sobre isso, inclusive algumas semanas
antes, quando ela decidiu deportar Taida Pasic, uma moa de Kosovo,
de dezoito anos, que estava prestes a fazer os exames finais no colgio.
Eu lhe telefonei da casa de Leon Winter, onde estava jantando, e pedi
que reconsiderasse o caso da garota, mas Rita no cedeu.
       "Ela mentiu", argumentou. "Estou de mos atadas."
       "Mas, Rita, tambm menti!" exclamei. Leon me ouviu.
       A resposta: "Se eu fosse ministra naquela poca, voc tambm
teria sido deportada".
       No dia seguinte ao da divulgao do documentrio, uma sexta-
feira, Rita declarou publicamente que eu nada tinha a temer da sua
parte. Mas, achando-se em meio a uma dura disputa para ser eleita
lder do Partido Liberal -- a votao seria em 30 de maio --, no podia
demonstrar fraqueza. Seu mantra era "Regras so regras", e ela teimava
que no podia abrir exceo. De modo que, na manh de sbado -- um
dia depois de comear a receber telefonemas exigindo que reexaminasse
o meu caso de asilada mentirosa --, Rita notificou que ia investigar a
minha ficha de imigrao.
       Subitamente me senti a prpria nmade tola e ingnua das
histrias que vov me contava na infncia.
       No domingo, ouvi boatos segundo os quais Rita estava disposta a
me privar da cidadania. O pas inteiro soube disso: deu nos jornais. O
meu passaporte podia ser confiscado. Eu no era mais holandesa, no
podia votar; obviamente tambm j no era parlamentar. Acaso me
deixariam pelo menos ficar no pas? Como ia viajar sem passaporte? E,
sem mandato parlamentar, eu continuaria tendo guarda-costas? Era
incrvel. Mesmo quando Gerrit Zalm chegou ao meu apartamento,
naquela segunda-feira, para me contar o que estava acontecendo, e
mesmo tendo recebido a carta do ministrio, tudo aquilo continuava me
parecendo absolutamente irreal.
       Quando acordei, na tera-feira, a secretria eletrnica estava
repleta de ligaes. Centenas de mensagens eletrnicas se acumulavam
na minha caixa de entrada. Como tinha uma entrevista coletiva naquela
tarde, procurei pensar no que dizer. As pginas manuscritas das
minhas memrias estavam espalhadas na impressora: "Sou Ayaan, filha
de Hirsi, filho de Magan".
       Como era possvel que aquilo estivesse acontecendo, j que eu
contara to reiteradamente a verdade do meu passado? Sim, eu devia
ter dito tudo em 1992, ao chegar  Holanda, por mais que estivesse com
medo de ser enviada de volta para o meu pas. Com o tempo,  medida
que aprendi a no ter medo, tambm aprendi que era errado no dizer a
verdade.
       Agora, tendo dito a verdade, eu no sabia qual era a minha
nacionalidade nem se podia continuar vivendo na Holanda. A nica
coisa que estava clara para mim era que seria obrigada a renunciar ao
mandato parlamentar mais cedo do que planejara.
       Naquela tarde, entrei no centro de imprensa do Parlamento e
tornei a enfrentar as cmeras. Anunciei que ia abandonar a poltica e
deixar a Holanda. Agradeci s muitas pessoas que me apoiaram e tentei
fazer um apanhado do que havia realizado. Estava com as mos
trmulas e a garganta seca. Horas depois, Christopher DeMuth, do
American Enterprise Institute, telefonou confirmando que eu comearia
a trabalhar em setembro.
       A entrevista coletiva daquela tera-feira foi s duas horas da
tarde; s dezesseis e quarenta e cinco, Rita Verdonk estava no
Parlamento respondendo s perguntas dos meus irritados colegas. Eu
tinha passado mais de trs anos trabalhando com aqueles homens e
mulheres -- comia com eles, convivia com eles, fazia alianas,
negociava votos. Agora, aps uma investigao interna que durara
apenas quatro dias, j no era cidad holandesa e, em conseqncia,
perdera o meu posto ao lado deles. Muitos parlamentares ficaram
indignados e no fizeram segredo disso.
       Mais ou menos s onze horas da noite, submetida a um
interrogatrio intenso no Parlamento, Rita cometeu um erro. Disse que
eu nunca tinha sido holandesa. A seguir, afirmou que agora eu seria
holandesa durante um perodo de espera de seis semanas, muito
embora no o tivesse sido antes. Declarou que no sabia que eu
mentira ao solicitar asilo, que nunca me vira usar outro nome, ainda
que houvesse dezenas de provas que eu fizera isso. Tanto na imprensa
quanto em publicaes anteriores, e inclusive nas coisas do mero dia-a-
dia (como no meu endereo eletrnico no Parlamento, que era
magan@tweedekamer.nl -- o equivalente holands a "parlamento-ponto-
holanda"), eu no fazia segredo de que, na juventude, o meu sobrenome
era Hirsi Magan.
       Rita comeou a perder apoio na cmara baixa do Parlamento.
Entrara em ao o clculo do interesse prprio, sempre presente sob a
superfcie da poltica, e j no se tratava de mim. Rita Verdonk tinha
tudo para ser uma liderana forte no WD, de modo que os adversrios
do partido estavam empenhados em destru-la. Mesmo entre os liberais,
no faltava quem se dispusesse e at quisesse sacrific-la, com esse
pretexto ou com outro qualquer.
       A essa altura, milhes de holandeses assistiam ao debate
parlamentar ao vivo na televiso. Viram a ministra ser lentamente
dilacerada na arena. Os lderes da coalizo governante comearam a se
distanciar dela no pdio. Foram apresentadas duas moes para que
ela revisse o meu caso. Por volta das duas e meia da madrugada, parece
que o presidente do Parlamento lhe passou um bilhete dizendo a ela
que aceitasse a moo seguinte, do contrrio precisaria sair do governo.
Mais ou menos s trs horas, Rita concordou bruscamente em
reexaminar a minha naturalizao. Eu seria notificada da deciso dali a
seis semanas.
       A partir desse ponto, a situao se transformou em uma farsa.
Arranjei uma advogada que disse que, como eu havia dado o nome Ali,
que era o prenome do meu av conhecido como Ma-gan, no se podia
falar em falsidade ideolgica ao preencher os formulrios. Tambm
apresentou um documento analisando a legislao somali, mostrando
que eu tinha todo direito de usar como sobrenome qualquer nome da
minha longa lista de ancestrais homens. (Nem eu sabia disso.) Sendo
impossvel obter a certido de nascimento do meu av, do meu pai e da
minha me, como se exigia, consegui uma declarao juramentada do
meu irmo confirmando que o meu av Magan se chamava Ali. Ento
comecei a esperar.
       Com o passar das semanas, ouvia boatos como todo mundo: Jan
Peter Balkenende, o primeiro-ministro, exigia que Rita voltasse atrs e
me reabilitasse como honrada cidad holandesa, mas ela no queria
dar o brao a torcer. Por fim, dois dias antes do recesso de vero, os
dois se reuniram tarde da noite de segunda-feira, 26 de junho, e
Balkenende lhe disse para informar ao Parlamento que ela ia rever a
sua deciso e me devolver a cidadania holandesa.
       Ao saber dessa reunio, pouco antes que se realizasse, eu estava
em Washington, no escritrio do advogado que ia me ajudar com a
imigrao americana. O meu telefone tocou s trs horas da
madrugada. Era o meu advogado holands dizendo que eu precisava
enviar um fax, urgentemente, declarando que dali por diante sempre
usaria o nome Ali e nenhum outro, nem mesmo Magan. Se fizesse isso,
no perderia a cidadania holandesa. Precisava encontrar um escritrio
do FedEx, no centro da cidade, e remeter o fax imediatamente -- era
urgente demais para esperar.
       Algumas horas depois, um corretor estava me mostrando um
apartamento para alugar em Washington quando o telefone tornou a
tocar. Tratava-se de outra declarao que eu precisava assinar para que
a questo ficasse definitivamente resolvida. Fui obrigada a me declarar
culpada de todo o ocorrido, pois dissera aos jornalistas que havia
mentido ao me identificar como Ali, quando, na verdade, no havia --
estava legalmente autorizada a usar esse nome.
       A nica coisa que eu queria era que aquilo chegasse ao fim. J
no tinha o que fazer na Holanda. Sem a cidadania holandesa, seria
difcil obter o visto americano. A recusa a assinar tal documento poderia
me levar a anos de insegurana e batalhas jurdicas. Meus advogados,
constantemente em contato com Haia, disseram que eu no podia
alterar uma vrgula na declarao -- era pegar ou largar. No entanto,
consegui introduzir uma modificao. Em vez de "Sinto muito", coloquei
"Lamento". (Parece que, em troca, o primeiro-ministro Balkenende fez
Rita prometer nunca mais dizer "Regras so regras")
       No dia seguinte, tera-feira, eu estava no escritrio do American
Enterprise Institute quando comearam a chegar jornalistas holandeses
com suas cmeras. Ainda no recebera nenhuma notificao, mas eles
tinham ouvido dizer que Rita concordara em restaurar a minha
cidadania. Eu me limitei a dizer que estava contente. E era verdade;
queria encerrar o assunto de uma vez por todas. Mas os reprteres me
contaram que j haviam marcado um debate, no Parlamento, na noite
de quarta-feira, pouco antes do recesso de vero. Em Haia, diziam que
eu tinha sido chantageada para escrever a carta aceitando a culpa e
que o comportamento de Rita Verdonk era vergonhoso.
         No houvera chantagem nenhuma, e isso eu disse aos
jornalistas. Houve apenas a presso do tempo. Eu queria que aquilo
terminasse logo para poder esquecer.
         Os anais do Parlamento mostram que, quando o debate se
iniciou, s oito horas da noite de 28 de junho, Rita Verdonk e o
primeiro-ministro Balkenende foram atacados quase imediatamente.
Tendo notificado Balkenende, pela secretria eletrnica, da sua deciso
de anular a minha naturalizao, Rita no voltou a falar com ele at a
coisa ser anunciada. Que diabo de liderana era aquela? Tambm ficou
evidente que muitos parlamentares sentiam que o governo lhes estava
insultando a inteligncia ao afirmar que tudo tinha sido por culpa
minha.
         Nas primeiras horas da manh, perguntaram ao primeiro-
ministro se eu tinha sido obrigada a assinar o documento em que
aceitava a culpa do ocorrido -- se essa fora a condio imposta para
que eu recobrasse a cidadania. Ele disse que sim, era a condio: Rita
fazia questo de que eu assinasse a declarao, do contrrio no
haveria negociao. Instaurou-se um grande tumulto no Parlamento, os
deputados se puseram a disputar o microfone.
         s quatro e meia da madrugada, o Partido Verde props um voto
de desconfiana contra Rita Verdonk. Em todo pas, ainda havia muita
gente acordada, assistindo televiso. Quando da contagem dos votos,
sessenta e seis parlamentares apoiaram a proposta e setenta e nove se
opuseram a ela, o que significava que o D-66, o partido nanico que
integrava a coalizo governamental, tinha votado pela censura 
ministra do governo. Ou Rita renunciava, ou j no haveria coalizo e o
governo cairia.
         Isso   ocorreu   no   dia   29   de   junho,   vspera   do   recesso
parlamentar. s nove horas da manh, realizou-se uma reunio de
emergncia do gabinete. O primeiro-ministro apareceu depois do almoo
e disse  imprensa que Rita continuaria no ministrio: cabia ao D-66
decidir o que fazer. Os seis deputados saram da coalizo naquela noite.
       O governo Balkenende caiu. Seria necessrio convocar novas
eleies.
       E o drama se estendeu. Eu me mantive ao corrente de tudo
mediante torpedos. Os meus amigos da equipe parlamentar, assim
como os ex-colegas, enviaram-me centenas deles. Quando o governo
caiu, recebi mais de cinqenta mensagens quase simultaneamente.
       A essa altura, eu estava em Aspen, Colorado, onde tinha sido
convidada a participar de uma conferncia, no Aspen Institute, com
uma constelao de polticos e empresrios americanos. Fiquei
assombrada com o nmero de pessoas que foram me dizer que estavam
furiosas com o governo holands. Precisei explicar muitas vezes que a
Holanda no era um pas xenfobo e no tinha me expulsado de uma
hora para outra.
       Tambm declarei que lamentava muito a queda do gabinete de
Balkenende, pois o governo no devia se esfacelar por causa de um
problema to insignificante. Isso levava o eleitor ao cinismo: as pessoas
elegiam suas lideranas para tomarem decises firmes, importantes,
mas aquela era uma questo nfima. Acima de tudo, disse que a
Holanda era um pas pacfico, aberto, tolerante e livre. L eu me tornara
um indivduo livre, e era holandesa novamente, totalmente holandesa, o
que me alegrava muito.
       Queira-se ou no, os Estados Unidos so o lder do mundo livre.
Levando as minhas idias para l, eu no me sinto traidora. No
American Enterprise Institute, em Washington, vou ter mais tempo para
pensar do que quando era parlamentar em Haia e tentava implementar
programas no processo legislativo. Ainda que arrisque ser repetitiva,
no sa da Holanda devido  questo da minha cidadania: foi uma
deciso inteiramente pessoal, tomada muito antes do incio da saga da
naturalizao.
       H anos, recm-egressa de Leiden, eu achava que a poltica era
uma    atividade   verdadeiramente    nobre   e   que   as   instituies
democrticas eram os meios  disposio da humanidade para
melhorar o mundo. Ainda penso assim. Mas aprendi que, como
qualquer outra atividade humana, a poltica pode ser um jogo srdido:
cl contra cl, partido contra partido, candidato contra candidato,
governos depostos por questes triviais. Espero que observar o poder
seja mais agradvel do que exerc-lo.
       A liberdade de expresso que encontrei na Holanda -- a
liberdade de pensar --  desconhecida no meu pas de origem. Trata-se
de um direito e de uma prtica com os quais sempre sonhei quando
menina.   Sejam   quais   forem   os    seus   defeitos,   nenhuma nao
compreende mais o princpio da liberdade de expresso do que a
Holanda. Esse princpio est de tal modo enraizado na cultura
holandesa que o pas optou por me proteger das ameaas de morte,
muito embora os membros do governo declarassem constantemente que
discordavam das minhas idias. Devo dizer que estou muito agradecida:
tenho a sorte e o privilgio de ser holandesa.
       Muhammad Bouyeri, o assassino de Theo, e outros como ele no
se do conta da seriedade do compromisso do Ocidente com a idia de
uma sociedade aberta. Posto que seja vulnervel, a sociedade aberta
tambm  obstinada.  o lugar em que me refugiei em busca de
segurana e liberdade. Quero que ela continue assim: segura e livre.
       Muita gente me pergunta o que  conviver com a ameaa de
morte.  como ter uma doena crnica. Ela pode irromper e mat-lo,
mas pode no se manifestar. Pode surgir daqui a uma semana ou
passar dcadas escondida.
       Em geral, as pessoas que me fazem essa pergunta foram criadas
em pases ricos, na Europa ocidental ou nos Estados Unidos, depois da
Segunda Guerra Mundial. Tm a vida por coisa lquida e certa. Onde
nasci, a morte  uma visita constante. Um vrus, uma bactria, um
parasita; a seca e a fome; soldados e torturadores matam qualquer um
a qualquer hora. A morte chega nas gotas de chuva que se transforma
em inundao. Apodera-se da imaginao dos que esto no poder e
mandam os subordinados perseguirem, torturarem e matarem qualquer
um que lhes parea inimigo. A morte seduz muita gente a dar cabo 
prpria vida para fugir de uma realidade insuportvel. Devido  idia da
honra perdida, muitas mulheres vem a morte chegar pelas mos do
pai, do irmo ou do marido. Ela arrebata as jovens, no parto, e deixa o
recm-nascido rfo nas mos de estranhos.
       Para quem vive na anarquia e na guerra civil, como na minha
Somlia natal, a morte espreita em toda parte.
       Quando nasci, minha me chegou a pensar que a morte fosse
me levar. Mas no. Tive malria, pneumonia, e me recuperei. Mutilaram
a minha genitlia, e a ferida cicatrizou. O bandido que encostou a faca
na minha garganta preferiu no cort-la. O meu professor de Alcoro
me fraturou o crnio, mas o mdico que me atendeu soube manter a
morte  distncia.
       Mesmo cercada de guarda-costas e ameaada de morte, eu me
sentia privilegiada por estar viva e ser livre. Quando tomei o trem para
Amsterd, h treze anos, ia em busca de uma vida em liberdade, de
uma existncia livre da servido a um homem que eu no havia
escolhido, em que minha mente tambm pudesse ser livre.
       Na infncia, primeiro topei com a fora bruta do isl na Arbia
Saudita. Coisa muito diferente da religio diluda da minha av, to
mesclada com prticas mgicas e crendices pr-islmicas. A Arbia
Saudita  a fonte e a quintessncia do islamismo. O lugar em que se
pratica a religio muulmana na sua forma mais pura e a origem de
grande parte da viso fundamentalista que, desde o meu nascimento,
tem se propagado muito alm de suas fronteiras. Naquele pas, cada
alento, cada passo que dvamos estava impregnado de conceitos de
pureza ou pecado, e de medo. O pensamento volitivo acerca da
tolerncia pacfica do isl no pode afastar a realidade: decepam-se
mos, as mulheres continuam sendo apedrejadas e escravizadas, tal
como decidiu o profeta Maom h sculos.
       O tipo de pensamento que presenciei na Arbia Saudita e na
Fraternidade Muulmana, no Qunia e na Somlia,  incompatvel com
os direitos humanos e os valores liberais. Preserva uma mentalidade
feudal arrimada em conceitos tribais de honra e vergonha. Apia-se no
auto-engano, na hipocrisia e em padres dplices. Depende dos
avanos tecnolgicos ocidentais ao mesmo tempo que finge ignorar sua
origem no pensamento ocidental. Essa mentalidade torna a transio
para a modernidade muito dolorosa para todos os praticantes do
islamismo.
       A transio para o mundo moderno sempre  difcil. Foi difcil
para a minha av e para todos os meus parentes do miy. Tambm foi
assim para mim. Passei do mundo da f para o mundo da razo -- do
mundo da clitorectomia e do casamento forado para o da emancipao
sexual. Tendo feito a viagem, sei que um desses mundos simplesmente
 melhor do que o outro. No por causa dos seus dispositivos
espalhafatosos, e sim, fundamentalmente, por causa dos seus valores.
       A mensagem deste livro, se  que ele precisa ter uma mensagem,
 que ns, no Ocidente, fazemos mal em prolongar desnecessariamente
a dor dessa transio, alando culturas repletas de farisasmo e dio 
mulher  estatura de respeitveis estilos de vida alternativos.
       Acusam-me de haver interiorizado o sentimento de inferioridade
racial a ponto de atacar a minha prpria cultura, movida pelo dio a
mim mesma, pois quero ser branca.  um argumento enfadonho. Acaso
a liberdade existe unicamente para os brancos? Acaso  amor-prprio
aderir s tradies dos meus ancestrais e mutilar as minhas filhas?
Aceitar ser humilhada e impotente? Observar passivamente os meus
conterrneos espancarem as mulheres e se massacrarem em disputas
sem sentido? Ao chegar a uma nova cultura, na qual vi pela primeira
vez que as relaes humanas podiam ser diferentes, teria sido amor-
prprio encar-la como um culto estrangeiro que os muulmanos esto
proibidos de praticar?
       A vida na Europa  melhor do que no mundo islmico porque as
relaes humanas so melhores, e um dos motivos pelos quais as
relaes humanas so melhores  que o Ocidente valoriza a vida na
Terra, o aqui e o agora, e os indivduos gozam de direitos e liberdades
reconhecidos e protegidos pelo Estado. Aceitar a subordinao e a
violncia porque Al assim quer -- isso, para mim, seria trair a mim
mesma.
       A deciso de escrever este livro no foi fcil para mim. Para que
exporo mundo estas memrias to particulares? No quero que meus
argumentos sejam considerados sacrossantos pelo fato de eu ter tido
experincias horrveis; no as tive. Na verdade, a minha vida sempre foi
marcada por uma sorte enorme. Quantas moas nascidas no Hospital
Digfeer, em Mogadscio, em novembro de 1969, ainda esto vivas? E
quantas tm voz, realmente?
       Tampouco desejo que meu raciocnio seja desdenhado como o
discurso bombstico e bizarro de uma mulher que, prejudicada por
suas experincias, resolveu pr a boca no mundo. As pessoas muitas
vezes deduzem que sou revoltada por ter sido submetida  clitorectomia
ou porque o meu pai me casou com um desconhecido. Elas nunca
deixam de acrescentar que essas coisas so raras no mundo
muulmano moderno. O fato  que centenas de milhes de mulheres,
em todo planeta, vivem em casamentos forados e que seis mil meninas
sofrem clitorectomia diariamente. A mutilao no me afetou a
capacidade intelectual; e quero ser julgada pela legitimidade dos meus
argumentos, no como uma vtima.
       A minha preocupao central e motivadora  o fato de as
mulheres    serem    oprimidas   no    isl.   Essa   opresso   impe     aos
muulmanos -- homens e mulheres -- um grande atraso em
comparao com o Ocidente. Cria uma cultura que provoca mais atraso
a cada gerao. Seria melhor para todos -- sobretudo para os
maometanos -- que essa situao mudasse.
       Quando se diz que os valores islmicos so a compaixo, a
tolerncia e a liberdade, olho para a realidade, para as culturas e os
governos reais, e simplesmente vejo que no  assim. No Ocidente, as
pessoas    engolem   tais   mentiras   porque    aprenderam      a   no   ser
excessivamente crticas ao examinar as religies ou culturas das
minorias, por medo de ser acusadas de racismo. E ficam fascinadas
porque no tenho medo de faz-lo.
       Em maro de 2005, a revista Time me informou que eu seria
escolhida uma das cem "pessoas mais influentes do mundo atual".
Evidentemente, apressei-me a comprar um exemplar, mas eu estava
semanas adiantada; aquele nmero s seria publicado na metade de
abril. De modo que a revista que comprei no falava de mim, falava da
pobreza na frica. A mulher na capa era jovem e magra, me de trs
filhos pequenos. Estava envolta no mesmo tipo de roupa que a minha
av usava, e no seu olhar no se via seno desespero.
       A foto me levou de volta  Somlia, ao Qunia,  pobreza, 
doena e ao medo. Pensei naquela mulher e nos milhes de mulheres
obrigadas a viver como ela. A Time acabava de me colocar na categoria
"Lderes e revolucionrios". O que fazer com tamanha responsabilidade?
       Talvez eu deva comear por dizer s pessoas que os valores so
importantes. Os valores do mundo dos meus pais engendram e
preservam a pobreza e a tirania, por exemplo, na opresso da mulher.
Seria muito benfico olhar claramente para isso. Em termos simples,
ns que fomos criados no isl, se enxergarmos a realidade terrvel em
que estamos, poderemos mudar o nosso destino.
       Por que no estou no Qunia, acocorada diante de um fogareiro
a carvo, fazendo angellos7. Por que, em vez disso, fui deputada no
Parlamento holands, legislando? Tive sorte, e no so muitas as
mulheres de sorte nos lugares de que venho. De certo modo, eu lhes
devo algo. Tal como a mulher gala  qual servi de intrprete em
Schalkhaar, preciso procurar as outras cativas no complexo da
irracionalidade e da superstio e persuadi-las a tomar a vida nas
prprias mos.
       A irm Aziza sempre nos alertava para a decadncia do
Ocidente: para os pases corruptos, licenciosos, pervertidos, idolatras,
cobiosos e desalmados da Europa. Mas, para mim, h muito mais
corrupo moral nas naes islmicas. Nessas sociedades, a crueldade
 implacvel; e a desigualdade, a lei da terra. Os dissidentes sofrem
tortura. As mulheres so policiadas tanto pelo Estado quanto pela
famlia,  qual o Estado outorga o poder de lhes governar a vida.
       Nos   ltimos   cinqenta   anos,   o   mundo    muulmano    foi
catapultado  modernidade. Entre mim e a minha av, h uma jornada
de apenas duas geraes, mas a realidade dessa viagem  milenar.
Ainda hoje, quem atravessar a fronteira da Somlia, de caminho, h de
achar que recuou milhares de anos.
       As pessoas se adaptam. Aquelas que nunca se sentaram em
uma cadeira aprendem a dirigir um carro e a operar uma mquina
complexa; adquirem essa capacidade rapidamente. Do mesmo modo, os
maometanos no precisam tardar seiscentos anos para modificar o seu
modo de pensar a igualdade e os direitos individuais.
       Quando procurei Theo para que me ajudasse a fazer Submisso,
eu queria transmitir trs mensagens: primeiro, os homens e at as
mulheres podem erguer os olhos e falar com Al; os crentes tm a
possibilidade de dialogar com Deus e de olhar para Ele de perto.
Segundo, no isl de hoje, a interpretao rgida do Alcoro condena as
mulheres a uma misria intolervel. Mediante a globalizao, cada vez
mais homens com tais idias se instalam na Europa com mulheres que
eles possuem e brutalizam, e os europeus e demais ocidentais j no
podem continuar fingindo que as graves violaes dos direitos humanos
s ocorrem em lugares remotos, muito remotos. A terceira mensagem 
a frase final do filme: "Nunca mais me submeterei".  possvel libertar-
se -- adaptar a f, examin-la criticamente e verificar at que ponto ela
est na raiz da opresso.
       J me disseram que Submission  um filme por demais
agressivo. Aparentemente, a sua crtica ao isl  muito dolorosa para
que um muulmano a suporte. Diga, no  muito mais doloroso ser
uma mulher presa naquela gaiola?


                                     Fim
                         1a EDIO [2007] 2 reimpresses




             ESTA OBRA FOI COMPOSTA EM MINION PELO ACQUA
  ESTDIO E IMPRESSA PELA RR DONNELLEY EM OFSETE SOBRE
     PAPEL PLEN SOFT DA SUZANO PAPEL E CELULOSE PARA A
             EDITORA SCHWARCZ EM NOVEMBRO DE 2007




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